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A Era do Dragão Branco

O Despertar da Tempestade e o Peso da Coroa de Cinzas

A paz em Valíria era um espelhamento do caos que ambos carregavam na alma. O céu, eternamente tingido por um crepúsculo avermelhado e carregado de fuligem mágica, servia de teto para a nova vida que Lucerys e Aemond construíram. No entanto, o corpo de um ômega não mentia, e o instinto de um alfa dominante como Aemond era uma bússola que sempre apontava para o perigo.

Lucerys estava sentado em uma sacada de pedra negra, observando Arrax e a jovem dragoa dourada, Sunfury, brincarem nas correntes de ar quente que subiam das Quatorze Chamas. O ventre de Luke já exibia uma curvatura pronunciada, um segredo vivo que pulsava sob sua túnica de seda crua. Ele sentiu uma mão forte e calejada pousar em seu ombro, e o aroma de sândalo e couro — agora misturado ao cheiro metálico da lava — o envolveu.

— Você está pensativo, pequeno dragão — murmurou Aemond, inclinando-se para beijar a têmpora de Lucerys. — O que os seus olhos buscam naquele horizonte de fumaça?

— O passado, eu acho — respondeu Lucerys, cobrindo a mão de Aemond com a sua. — Às vezes eu me pergunto se o fogo que deixamos para trás em Westeros finalmente se apagou, ou se ele está apenas esperando para nos alcançar.

Aemond contornou a cadeira e ajoelhou-se diante de Luke, uma posição de vulnerabilidade que ele só permitia a si mesmo naquele exílio sagrado. Ele pousou a palma da mão sobre o ventre de Lucerys, sentindo um chute vigoroso que o fez sorrir de lado, aquela expressão rara que suavizava sua cicatriz.

— Se o fogo vier, ele encontrará apenas cinzas e a fúria de Vhagar — declarou Aemond. — Mas você sente, não sente? O vínculo.

Lucerys assentiu, o rosto obscurecido por uma sombra de preocupação. Nos últimos dias, o vínculo que ambos mantinham com seus dragões estava agitado. Vhagar rugia durante o sono, e Arrax parecia inquieto, como se ouvisse um chamado vindo do outro lado do mar.

— Daemon não nos mandaria aquele aviso se não soubesse que a rede estava se fechando — disse Luke em voz baixa. — Ele nos deu uma chance, mas ele é um jogador, Aemond. Ele sempre tem um preço.

— O preço dele é o trono de Rhaenyra — rebateu Aemond, levantando-se e caminhando até a borda da sacada. — Ele nos quer fora do tabuleiro porque somos as peças mais imprevisíveis. Mas ele esquece que dragões não seguem as regras dos homens.

O silêncio que se seguiu foi interrompido por um som que nenhum deles esperava ouvir nas ruínas desertas de Valíria: o toque de um berrante. Não era o som profundo e gutural dos berrantes de caça de Westeros, mas uma nota cristalina e vibrante que parecia ressoar nos ossos.

Vhagar, que repousava na base da torre, levantou a cabeça colossal e soltou um rugido que fez as pedras milenares tremerem.

— Visitantes — sibilou Aemond, sua mão voando instantaneamente para o punho da irmã negra, a espada que ele reivindicara das ruínas. — Fique atrás de mim, Lucerys.

— Não sou uma criança para ser escondida, Aemond — contestou Luke, levantando-se com dificuldade, mas com o olhar firme. — Se alguém chegou até aqui, não foi por acaso.

Eles desceram as escadas em espiral até o pátio central da cidadela arruinada. Parado diante do grande portão de obsidiana, envolto em mantos que o protegiam das cinzas, estava um homem cuja presença exalava um poder antigo e perigoso. Ele não usava as cores de nenhuma casa, mas ao seu lado, um dragão de escamas cinzentas como a névoa permanecia imóvel.

— Quem ousa profanar o túmulo de nossos ancestrais? — a voz de Aemond ecoou, carregada de uma autoridade que exigia submissão.

O estranho retirou o capuz, revelando um rosto marcado pelo tempo, com olhos de um violeta tão pálido que pareciam quase brancos. Ele não se curvou.

— Eu não sou um profanador, Príncipe Aemond — disse o homem com uma voz que parecia o sussurro do vento nas ruínas. — Sou um guardião do que restou. E trago notícias que o fogo não pode mais esconder.

— Notícias de onde? — perguntou Lucerys, dando um passo à frente, apesar do rosnado de aviso de Aemond.

— De Porto Real — respondeu o estranho. — O Rei Viserys partiu. A Dança começou, e o sangue de seus irmãos está manchando a Fortaleza Vermelha. Mas não é por isso que estou aqui.

Aemond estreitou o olho safira, a tensão em seus ombros pronta para explodir em violência.

— Então fale logo, antes que eu dê seu corpo às chamas.

— A Rainha Rhaenyra não acredita mais na morte de seu filho — continuou o homem, olhando diretamente para Lucerys. — Ela encontrou o falcão de Daemon. Ela sabe que você vive. E ela está vindo. Não com navios, mas com fogo. Ela acredita que Aemond o sequestrou, que você é um prisioneiro nestas ruínas.

Lucerys sentiu o chão sumir sob seus pés. O plano de Daemon, a mentira que os protegera, havia ruído.

— Ela vai destruir tudo — sussurrou Luke, as mãos tremendo. — Ela vai lutar contra Vhagar para me "salvar".

— E meu irmão, Aegon, enviou batedores para o Leste — acrescentou o estranho. — Eles buscam Vhagar. Eles buscam o traidor que roubou a maior arma dos Verdes. Vocês não são mais fantasmas. Vocês são alvos.

Aemond rosnou, um som puramente animal, e puxou Lucerys para perto de si, em um gesto de posse absoluta.

— Deixe que venham — desafiou Aemond. — Deixe que tentem tirar o que é meu. Eu queimei minha linhagem e meu nome por este ômega. Se eu tiver que transformar o que restou deste mundo em um cemitério para minha própria família, eu o farei.

— Aemond, pare! — pediu Lucerys, segurando o rosto do alfa. — Se eles lutarem aqui, nosso filho não terá um mundo para onde nascer. Valíria se tornará nossa tumba, não nosso refúgio.

O estranho observou a troca entre os dois com uma curiosidade melancólica.

— Há uma terceira via — disse ele. — Mas ela exige que vocês parem de fugir. O mundo nunca aceitará o que vocês são enquanto houver um trono para ser disputado. Vocês precisam acabar com a guerra, não fugir dela.

— Você quer que voltemos? — perguntou Aemond, rindo com escárnio. — Para sermos julgados? Para sermos separados?

— Eu quero que vocês reivindiquem o que o sangue de vocês exige — respondeu o guardião. — O dragão tem três cabeças, mas o reino está sendo rasgado por duas. Se vocês aparecerem juntos, montados em Vhagar e Arrax, com um herdeiro que une os dois lados... vocês não serão traidores. Vocês serão a única esperança de sobrevivência para a Casa Targaryen.

Lucerys olhou para Aemond. Ele viu a luta interna no rosto do alfa — o desejo de proteger seu ninho contra o instinto de guerra que corria em suas veias.

— Ele tem razão, Aemond — disse Luke suavemente. — Enquanto eles lutarem por nós, ou contra nós, nunca seremos livres. Precisamos enfrentá-los. Não como inimigos, mas como o novo equilíbrio.

— Você está grávido, Lucerys — lembrou Aemond, a voz carregada de uma dor súbita. — O voo de volta é longo. O perigo é absoluto.

— Eu sou o sangue do dragão — afirmou Lucerys, erguendo o queixo com a mesma coragem que tivera na praia de Pedra do Dragão. — E este bebê é o fogo feito carne. Ele não terá medo. E eu também não.

Aemond fechou o olho por um momento, encostando a testa na de Lucerys. O silêncio no pátio era pesado, como se a própria história estivesse prendendo a respiração.

— Se fizermos isso — murmurou Aemond —, não haverá mais volta para as sombras. Seremos reis ou seremos cinzas.

— Prefiro ser cinzas ao seu lado do que um segredo escondido nas ruínas — respondeu Luke.

Aemond virou-se para o estranho, sua decisão tomada.

— Diga ao seu dragão para preparar o caminho. Partiremos ao anoitecer. Mas saiba disso: se um único cabelo da cabeça de Lucerys for tocado, eu não apenas matarei os usurpadores. Eu extinguirei a linhagem Targaryen da face da terra.

O guardião inclinou a cabeça em um gesto de respeito.

— O destino de Westeros está nas mãos de um amor que o reino considera uma abominação. Que os deuses tenham piedade de quem tentar se colocar entre o sol e a lua.

Naquela noite, o céu de Valíria testemunhou algo que não via há séculos: dragões partindo em formação de guerra, não para conquistar novas terras, mas para reclamar o direito de existir.

A viagem de volta foi marcada por uma tensão que parecia eletrificar o próprio ar. Lucerys montava Arrax, mas mantinha-se sempre ao lado da asa de Vhagar. Aemond não tirava o olho de Luke, sua mente traçando mil estratégias para cada possível recepção que encontrariam.

Quando as torres de Pedra do Dragão finalmente surgiram no horizonte, envoltas em uma névoa sombria, o coração de Lucerys martelou. Ele viu as fogueiras de sinalização. Ele viu as silhuetas de outros dragões circulando a fortaleza — Syrax, Caraxes e outros que ele não conseguia identificar de longe.

— Eles estão prontos para a guerra — disse Luke através do vínculo mental que compartilhava com Aemond.

— Então daremos a eles algo que não podem combater — respondeu Aemond.

Em vez de um ataque, Aemond guiou Vhagar para um mergulho lento e majestoso, soltando um rugido que não era um desafio, mas um anúncio. Arrax seguiu o exemplo, suas escamas peroladas brilhando sob a luz da lua.

Eles pousaram no pátio externo, onde dezenas de arqueiros e cavaleiros estavam posicionados. Rhaenyra estava à frente, montada em Syrax, seu rosto uma máscara de fúria e luto transformado em choque. Daemon estava ao seu lado, o olhar enigmático como sempre, mas com a mão pronta na espada.

— Lucerys? — o grito de Rhaenyra cortou o ar, uma mistura de agonia e esperança.

Aemond saltou de Vhagar antes mesmo que a dragoa parasse de se mover. Ele caminhou até Arrax e ajudou Lucerys a descer, mantendo o braço firmemente em volta da cintura do ômega, em um gesto de proteção ostensiva diante de toda a corte.

— Ele vive, Rainha — a voz de Aemond trovejou, silenciando os sussurros dos soldados. — Mas ele não é mais o peão de seus jogos de sucessão.

Rhaenyra desceu de Syrax, correndo em direção ao filho. Ela parou a poucos metros, seus olhos caindo sobre o ventre proeminente de Lucerys e depois para a mão de Aemond que o segurava.

— O que você fez com ele? — perguntou ela, a voz tremendo de ódio direcionado a Aemond.

— Ele me salvou, mãe — disse Lucerys, dando um passo à frente, saindo parcialmente do abraço de Aemond para encarar a Rainha. — Ele me salvou de um destino de mentiras e de uma guerra que não é nossa.

— Você desapareceu! — gritou Rhaenyra. — Nós pensamos que ele tinha te matado! O reino está em chamas por sua causa!

— O reino está em chamas por causa da ambição de homens que não sabem o que significa o sacrifício — rebateu Lucerys. — Eu não fui sequestrado. Eu fui embora porque amo o homem que você chama de monstro. E eu voltei porque não permitirei que meu filho nasça em um mundo destruído por sua própria família.

Daemon aproximou-se, um sorriso lento e perigoso surgindo em seus lábios.

— O sobrinho e o tio. O ômega e o alfa. Vocês certamente sabem como criar um espetáculo.

— Não estamos aqui para um espetáculo, Daemon — disse Aemond, seu olho safira fixo no Príncipe Consorte. — Estamos aqui para acabar com isso. Aegon está enviando homens. Otto Hightower está movendo peças. Mas nenhum deles tem Vhagar. E nenhum deles tem a lealdade de Lucerys Velaryon.

Rhaenyra olhou para o filho, vendo a maturidade e a força que Valíria lhe dera. Ela viu o amor nos olhos de Lucerys quando ele olhava para Aemond — um amor que ela mesma conhecia bem, um amor que desafiava as convenções.

— Você carrega o sangue dele — sussurrou Rhaenyra, aproximando-se e tocando o rosto de Luke.

— Eu carrego o futuro da nossa casa — corrigiu Luke. — Um futuro onde Pretos e Verdes não existem. Apenas dragões.

A tensão no pátio começou a se dissipar, substituída por uma percepção esmagadora. A presença de Aemond e Lucerys juntos era uma força política e militar que ninguém poderia ignorar. Se eles se aliassem a Rhaenyra, a pretensão de Aegon cairia por terra em dias. Se eles se opusessem a todos, seriam um terceiro poder imbatível.

— E o que você propõe, Lucerys? — perguntou Rhaenyra, sua voz de rainha retornando, mas agora com um tom de aceitação.

— Paz através da união — disse Luke. — Aemond renunciará a qualquer pretensão ao trono de Aegon em favor da sua. Em troca, você legitimará nossa união e garantirá que nosso filho seja o herdeiro de Driftmark, unindo as linhagens para sempre. E Aemond será o Protetor do Reino.

Aemond olhou para Luke, surpreso pela audácia do plano que o ômega formulara durante o voo. Mas ele não disse nada. Ele apenas apertou a mão de Lucerys, confirmando sua lealdade.

— E se eu recusar? — perguntou Rhaenyra.

— Então voltaremos para as nuvens — disse Aemond. — E você terá que lutar esta guerra sozinha, sabendo que seu filho nunca mais olhará em seus olhos.

Rhaenyra olhou para Daemon, que deu de ombros, claramente achando a situação fascinante. Depois, ela olhou para Lucerys, o filho que ela pensara ter perdido para as ondas de Ponta Tempestade.

— Bem-vindo de volta, Lucerys — disse ela, as lágrimas finalmente caindo. — E você... — ela olhou para Aemond com uma frieza que ainda carregava um pouco de respeito —... tente não queimar meu castelo enquanto decidimos os termos deste novo mundo.

A noite em Pedra do Dragão foi longa. Diplomatas foram enviados, corvos partiram com mensagens de termos inegociáveis para Porto Real, e a notícia do retorno do "Príncipe Morto" se espalhou como fogo em palha seca.

Horas depois, Lucerys e Aemond estavam sozinhos em uma das varandas da fortaleza, observando o mar que um dia quase os separou.

— Você foi incrível lá embaixo — murmurou Aemond, puxando Luke para seus braços. — Eu teria apenas desembainhado a espada e esperado o primeiro ataque.

— Eu sei — riu Luke, encostando a cabeça no peito do alfa. — É por isso que você tem a mim. Para garantir que ainda restará algo para governarmos quando a poeira baixar.

Aemond suspirou, um som de alívio profundo.

— Eu nunca pensei que voltaria para este lugar. Eu nunca pensei que seria aceito.

— Você não foi aceito por eles, Aemond. Você foi aceito por mim. E isso é tudo o que importa. Eles só estão seguindo a nossa liderança porque têm medo do fogo que representamos juntos.

Aemond inclinou-se e beijou Lucerys com uma ternura que desafiava sua natureza rude.

— O mundo vai mudar, Luke. Eles vão nos odiar, vão escrever canções sobre a nossa "abominação".

— Deixe que escrevam — disse Lucerys, olhando para as estrelas. — Enquanto estivermos juntos, e enquanto nosso filho puder voar livre, as canções deles não passam de barulho.

Eles ficaram ali, dois dragões que haviam retornado do exílio para salvar sua espécie de si mesma. A guerra ainda não havia terminado, e muitos desafios viriam, mas pela primeira vez em gerações, a Casa Targaryen não estava apenas lutando por um trono. Ela estava lutando por algo muito mais poderoso: o direito de amar contra todas as probabilidades.

E no ventre de Lucerys, o futuro se mexia, aguardando o momento de nascer em um mundo que, graças à coragem de um alfa rude e um ômega de espírito livre, finalmente começava a aprender que o fogo não serve apenas para destruir, mas também para iluminar o caminho de volta para casa.