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A Era do Dragão Branco

O Veredicto do Sangue e o Silêncio das Espadas

A Fortaleza de Pedra do Dragão nunca pareceu tão pequena quanto na manhã em que os termos do novo acordo foram selados. O ar salgado, que antes trazia a promessa de liberdade para Lucerys, agora carregava o peso sufocante da diplomacia. No grande Salão da Mesa Pintada, os rostos dos aliados de sua mãe eram uma mistura de alívio e desprezo velado. Para os lordes do conselho, a volta de Lucerys era um milagre; a presença de Aemond ao seu lado, uma heresia necessária.

Lucerys sentia o olhar de Aemond sobre si, mesmo quando o alfa não estava olhando diretamente em sua direção. O vínculo entre eles, forjado no isolamento de Valíria, era agora uma corda esticada sob a tensão de Porto Real. Aemond permanecia de pé, um passo atrás de Luke, a mão nunca se afastando muito do punho da Irmã Negra. Ele era um predador em uma sala cheia de lobos, e cada movimento seu era uma declaração de que, embora estivesse ali por paz, sua lealdade pertencia apenas a um homem.

— As exigências de Porto Real são absurdas — declarou Lorde Corlys Velaryon, sua voz ressoando como o bater das ondas nas rochas. — Otto Hightower exige que o Príncipe Aemond seja entregue para julgamento por traição antes de qualquer cessar-fogo. Ele alega que você, Lucerys, foi vítima de um feitiço valiriano.

Lucerys soltou uma risada curta, desprovida de humor, que fez os lordes se mexerem desconfortáveis em seus assentos.

— Um feitiço? — Luke levantou-se, apoiando as mãos na borda da mesa entalhada. — O único feitiço que me prende a Aemond é a verdade que todos vocês tentam ignorar. Eu não fui levado. Eu fui porque a guerra que vocês criaram não tinha lugar para o amor. E se Otto Hightower quer um julgamento, que ele venha buscá-lo nas chamas de Vhagar.

— Lucerys, contenha-se — pediu Rhaenyra, embora seus olhos brilhassem com uma ponta de orgulho. Ela olhou para Aemond. — Meu meio-irmão tem sido... cooperativo. Mas Porto Real não aceitará a paz enquanto Aegon se sentir ameaçado por Vhagar.

Aemond deu um passo à frente, a luz das tochas refletindo na safira em seu olho. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— Aegon não teme Vhagar — disse Aemond, a voz cortante como gelo. — Ele teme a própria sombra porque sabe que é um rei de palha. Eu não entregarei minha espada nem minha montaria. Se a Rainha Rhaenyra deseja o trono, ela o terá com o meu apoio, mas sob uma condição: Porto Real será purgada dos Hightower. Eu não negociarei com o meu avô. Eu o enterrarei.

— Você fala de regicídio e parricídio no mesmo fôlego — observou Daemon, recostado nas sombras, um sorriso divertido brincando em seus lábios. — Gosto do seu estilo, sobrinho. Mas a política exige mais do que apenas sangue. Exige um símbolo.

Daemon caminhou até o centro da sala, apontando para o ventre de Lucerys.

— O símbolo está aqui. O herdeiro que une as linhagens. Mas para que o reino aceite, vocês precisam de mais do que promessas. Vocês precisam de um casamento que ninguém possa contestar. Um ritual valiriano, de sangue e fogo, realizado diante de todos os lordes.

— Já somos casados perante os deuses de Valíria — rebateu Luke, sentindo a mão de Aemond apertar seu ombro de forma possessiva.

— Mas não perante os olhos dos homens de Westeros — disse Rhaenyra suavemente. — Lucerys, se queremos evitar que mais milhares morram, precisamos que este vínculo seja oficializado de uma forma que torne qualquer outra pretensão obsoleta.

Aemond inclinou-se para o ouvido de Luke, sua voz baixando para um tom que só o ômega poderia ouvir, carregado daquela proteção rude que Luke tanto amava.

— Se você quiser, podemos partir agora. Arrax e Vhagar ainda podem nos levar de volta para as ruínas. Não precisamos deste trono, Luke.

Lucerys olhou para a mãe, depois para o avô Corlys, e finalmente para o homem que mudara sua vida. Ele viu o cansaço nos olhos de Rhaenyra e a destruição que a guerra já havia causado nas Terras da Coroa.

— Não — disse Lucerys firmemente. — Não vamos fugir de novo. Se o preço da paz é exibir nosso amor como um estandarte, que assim seja. Mas não será um ritual para o Septão Supremo. Será do nosso jeito.

A cerimônia foi marcada para o pôr do sol, no ponto mais alto de Pedra do Dragão, onde o vento soprava com a força de um furacão. Não havia flores, nem cânticos sagrados, nem sedas finas. Havia o cheiro de ozônio, o calor dos dragões e o brilho do aço valiriano.

Lucerys vestia o negro e o vermelho de sua casa, mas com detalhes em verde esmeralda que Aemond insistira que ele usasse, uma provocação silenciosa aos Hightower. Aemond estava todo em couro e placas de metal, a imagem de um guerreiro que acabara de descer do campo de batalha.

Diante de Rhaenyra e Daemon, eles cortaram as palmas das mãos. O sangue vermelho e quente misturou-se, caindo sobre as brasas de um braseiro antigo.

— Com este sangue, eu te reivindico — declarou Aemond, sua voz firme apesar do vento. — Não como um prêmio de guerra, mas como a metade da minha alma. Eu sou o escudo que te protege e a chama que te aquece. Onde você voar, eu seguirei. Onde você cair, eu lutarei.

Lucerys segurou a mão ferida de Aemond, sentindo a pulsação do alfa contra a sua.

— Com este fogo, eu te aceito — respondeu Luke, os olhos fixos na safira de Aemond. — Eu não sou apenas seu, Aemond. Eu sou o seu destino. Que o mundo queime ou floresça, nós seremos um só até que o último dragão deixe de respirar.

Eles beijaram-se enquanto, ao fundo, Vhagar e Arrax soltavam rugidos sincronizados que estremeceram as fundações da ilha. Não era apenas um casamento; era a fundação de uma nova dinastia, uma que não se importava com a legitimidade ditada por lordes, mas com a força do vínculo de sangue.

No entanto, a noite de celebração foi curta. Apenas algumas horas após o ritual, um mensageiro exausto chegou às portas do castelo. Ele trazia o selo de Porto Real, mas a mensagem não era de Otto Hightower. Era de Helaena Targaryen.

Lucerys e Aemond foram convocados aos aposentos de Rhaenyra, onde a carta estava aberta sobre a mesa.

— Helaena diz que Aegon enlouqueceu — explicou Rhaenyra, o rosto pálido. — Ao saber do seu retorno e do ritual, ele ordenou que Dreamfyre fosse preparada para atacar Pedra do Dragão. Mas não é só isso. Ele... ele matou os mensageiros de paz que enviamos. Ele não quer negociação. Ele quer o fim de todos nós.

Aemond soltou um rosnado baixo, a fúria de alfa emanando dele em ondas.

— Ele sempre foi um covarde escondido atrás de uma coroa que não lhe cabe. Ele sabe que perdeu o apoio dos lordes agora que Vhagar não está mais do lado dele.

— Ele vai atacar a cidade primeiro — disse Luke, sentindo um calafrio. — Se ele sentir que vai perder, ele vai queimar Porto Real antes de deixá-la para você, mãe.

— Precisamos ir — disse Aemond, olhando para Luke. — Agora.

— Aemond, você não pode — interveio Rhaenyra. — Lucerys está em um estado delicado. O estresse de uma batalha...

— Eu não vou ficar para trás — declarou Lucerys, sua voz carregada de uma autoridade que fez até Daemon erguer as sobrancelhas. — Aegon é meu tio também. E é o meu futuro que ele está tentando queimar. Arrax é rápido. Eu posso flanquear a cidade enquanto Aemond atrai a atenção de Dreamfyre.

— É perigoso demais — sussurrou Aemond, segurando o rosto de Luke com as duas mãos. — Luke, se algo acontecer a você ou ao bebê...

— Nada vai acontecer — prometeu Luke, cobrindo as mãos de Aemond com as suas. — Nós somos o fogo, lembra? E o fogo não queima a si mesmo.

O voo noturno em direção a Porto Real foi o mais silencioso de suas vidas. O Mar Estreito brilhava sob a lua, mas a capital à frente era uma massa de sombras e luzes de tochas frenéticas. Quando chegaram, o caos já havia começado. Aegon, em um surto de paranoia e fúria, havia ordenado que os arqueiros disparassem contra qualquer dragão que se aproximasse, fosse ele aliado ou inimigo.

Dreamfyre circulava sobre o Fosso dos Dragões, sua silhueta azulada parecendo fantasmagórica.

— Aemond, vá! — gritou Luke através do vínculo. — Eu vou para a Fortaleza Vermelha. Preciso encontrar Helaena e as crianças. Elas não podem pagar pelo erro dele!

Aemond hesitou por um segundo, o instinto de proteger seu ômega lutando contra o dever de enfrentar o usurpador.

— Vá! — insistiu Luke. — Eu estarei seguro. Arrax é pequeno demais para os arqueiros o acertarem na escuridão!

Com um rugido de frustração, Aemond guiou Vhagar em direção a Dreamfyre. O encontro das duas feras foi como o colapso de uma montanha. O rugido de Vhagar abafou os gritos da cidade abaixo, enquanto ela avançava com uma ferocidade que Aemond nunca havia liberado totalmente.

Lucerys, enquanto isso, mergulhou com Arrax em direção aos jardins da Fortaleza Vermelha. O pequeno dragão pousou com agilidade, derrubando uma estátua de mármore no processo. Luke saltou da sela, a mão no ventre, sentindo a adrenalina correr por suas veias.

Os corredores da fortaleza eram um labirinto de pânico. Guardas corriam sem direção, e o cheiro de fumaça indicava que incêndios já haviam começado nos níveis inferiores. Luke sabia exatamente para onde ir: os aposentos da Rainha Helaena.

Ao chegar, encontrou a porta trancada por fora. Com um esforço que exigiu toda a sua força, ele usou um candelabro pesado para quebrar a fechadura. Helaena estava lá dentro, encolhida em um canto com seus filhos, seus olhos perdidos em uma visão que só ela conseguia ver.

— Luke? — sussurrou ela, a voz frágil. — O fio de seda se partiu. O dragão azul chora lágrimas de safira.

— Helaena, você precisa sair daqui — disse Luke, aproximando-se com cuidado. — Aegon perdeu o juízo. Aemond está lá fora. Vamos levar vocês para Pedra do Dragão.

— Ele vai queimar tudo — disse Helaena, apontando para a janela. — Ele disse que se não puder ser o Rei do Sol, será o Rei das Cinzas.

Lucerys a ajudou a se levantar, guiando-a e às crianças pelos corredores laterais. Ele sentia a presença de Aemond no céu, uma âncora de poder que o mantinha focado. Mas, ao chegarem ao pátio onde Arrax esperava, uma figura bloqueou o caminho.

Era Aegon. Ele estava desgrenhado, a armadura mal colocada, os olhos injetados de vinho e loucura. Ele segurava uma tocha em uma mão e um punhal na outra.

— O pequeno bastardo voltou — sibilou Aegon, sua voz falhando. — E ele veio roubar minha irmã também. Onde está o traidor? Onde está Aemond?

— Ele está acabando com o que restou da sua dignidade, Aegon — respondeu Lucerys, colocando-se à frente de Helaena. — Acabou. Rhaenyra está chegando. Renda-se e talvez ela tenha piedade.

Aegon riu, um som estridente que gelou o sangue de Luke.

— Piedade? Eu sou o Rei! E se eu cair, levarei o tesouro de Aemond comigo.

Aegon avançou com uma velocidade surpreendente, o punhal erguido. Lucerys tentou recuar, mas seu estado limitava seus movimentos. No entanto, antes que o golpe pudesse atingir, um vulto escuro saltou das sombras.

Não era um guarda, nem um dragão. Era Aemond.

Ele havia saltado de Vhagar enquanto a dragoa ainda estava no ar, usando as saliências da muralha para descer até o pátio. Ele interceptou o braço de Aegon com uma força que fez o osso estalar. O punhal caiu no chão de pedra.

— Toque nele — rosnou Aemond, prendendo Aegon pelo pescoço contra a parede — e eu farei você desejar que o fogo de Valíria tivesse te consumido no berço.

Aegon tentou lutar, mas a força de um alfa dominante em fúria era inalcançável para ele. Aemond olhou para Lucerys, seus olhos buscando qualquer sinal de ferimento.

— Você está bem? — perguntou Aemond, a voz tremendo de emoção contida.

— Sim — ofegou Luke, segurando o braço de Aemond. — Mas Aegon... ele ia...

— Eu sei — disse Aemond, voltando sua atenção para o irmão. — Você não é um rei, Aegon. Você é um erro que eu deveria ter corrigido há muito tempo.

Aemond não o matou. Em vez disso, ele o nocauteou com o cabo da espada e o jogou aos pés dos guardas que começavam a se aproximar, agora confusos sobre a quem deveriam lealdade.

— Levem-no para as masmorras — ordenou Aemond. — E digam a quem perguntar: o Reinado das Sombras terminou. A Rainha Rhaenyra está a caminho.

O sol começou a nascer sobre uma Porto Real em silêncio. O fogo fora contido, e a presença de Vhagar e Syrax no céu garantia que nenhuma resistência remanescente ousaria se levantar.

Lucerys e Aemond estavam no topo da Torre da Mão, observando o amanhecer. Helaena e as crianças haviam sido levadas para um lugar seguro. A cidade abaixo começava a despertar para uma nova realidade.

— Acabou — sussurrou Luke, encostando a cabeça no ombro de Aemond. — A guerra... ela realmente acabou?

— A guerra pelo trono, talvez — disse Aemond, envolvendo Luke em seus braços. — Mas a nossa luta para manter este reino unido está apenas começando.

— Nós conseguiremos — afirmou Luke, olhando para o horizonte onde o sol dourava as águas do mar. — Porque não estamos mais fugindo. Estamos construindo.

Aemond beijou o topo da cabeça de Luke, sentindo a paz que nunca pensou ser possível para alguém como ele. Ele era o alfa rude, o protetor feroz, e agora, o arquiteto de um futuro que ninguém ousara imaginar.

— Eu te amo, Lucerys Velaryon — disse Aemond, as palavras saindo com uma facilidade que o surpreendeu.

Luke sorriu, o brilho do sol refletido em seus olhos castanhos.

— E eu te amo, Aemond Targaryen. O meu alfa. O meu fogo.

Eles ficaram ali, observando o novo mundo nascer das cinzas do antigo. Eles sabiam que haveria desafios, que o preconceito e a política ainda tentariam separá-los. Mas enquanto o rugido de seus dragões ecoasse pelos céus e suas mãos permanecessem unidas, eles sabiam que eram invencíveis. Pois no final, não foram as coroas ou as espadas que venceram a Dança, mas a coragem de dois corações que escolheram o amor em vez do ódio, e a vida em vez do poder.