A Era do Dragão Branco
O Último Voo de uma Era de Cinzas
A luz do entardecer em Porto Real tinha uma tonalidade doentia, um laranja queimado que se misturava à fumaça que ainda subia de alguns distritos da cidade. O silêncio que se seguiu à queda de Aegon II não era de paz, mas de exaustão profunda. Lucerys caminhava pelos jardins da Fortaleza Vermelha, sentindo o peso de seu corpo e a agitação do herdeiro que carregava. Cada passo era uma pequena vitória contra a gravidade e contra o destino que quase o consumira.
Ele parou diante de uma mureta de pedra que dava para a Baía da Água Negra. Lá embaixo, as carcaças de navios queimados boiavam como esqueletos de gigantes. Lucerys sentiu um calafrio, mas logo um calor familiar envolveu seus ombros. Aemond aproximou-se em silêncio, sua presença como uma muralha de ferro e fogo.
— Você deveria estar descansando, Lucerys — disse Aemond, sua voz rouca, carregada de uma preocupação que ele não tentava mais esconder. — O meistre disse que seu pulso ainda está acelerado.
— O meistre não entende o que é ser um cavaleiro de dragão, Aemond — respondeu Luke, virando-se para o alfa. — Meu sangue sempre estará acelerado enquanto o cheiro de enxofre estiver no ar. Além disso, o bebê parece gostar do vento salgado.
Aemond pousou a mão sobre o ventre de Luke, um gesto que se tornara instintivo. Ele fechou o olho por um momento, sentindo a vida que pulsava ali dentro, uma vida que era o testemunho vivo de sua traição e de sua redenção.
— O reino está em pedaços — murmurou Aemond, olhando para a cidade abaixo. — Minha mãe se trancou no septo e recusa-se a ver qualquer pessoa. Daemon está organizando as execuções dos que não dobraram o joelho. E Rhaenyra... ela olha para mim como se eu fosse uma arma que ela não sabe se deve guardar no armário ou quebrar.
— Ela tem medo, Aemond — disse Luke, segurando a mão do marido. — Todos eles têm. Eles viram o que fizemos. Eles viram que o amor entre um alfa e um ômega de casas rivais pode derrubar reis. Eles temem que não possam nos controlar.
— E eles não podem — sibilou Aemond, um brilho perigoso em seu olho safira. — Eu não dobrei o joelho por uma coroa, Luke. Eu o dobrei por você. Se Rhaenyra tentar nos separar novamente, ou se ela tentar usar nosso filho como um peão político, eu juro pelos deuses de Valíria que Porto Real conhecerá um fogo que fará o de Aegon parecer uma vela.
— Ela não fará isso — garantiu Luke, embora uma parte dele também sentisse a fragilidade daquela paz. — Ela viu a verdade em seus olhos quando você me protegeu de Aegon. Ela sabe que você é a única razão pela qual ela ainda tem um trono para sentar.
O silêncio voltou a reinar entre eles, mas foi interrompido pelo som de passos pesados sobre o cascalho. Daemon Targaryen surgiu das sombras das árvores, sua armadura negra ainda manchada com o sangue dos últimos focos de resistência. Ele observou o casal com uma expressão que misturava escárnio e uma estranha forma de respeito.
— Uma cena tocante — disse Daemon, parando a uma distância segura. — O príncipe caolho e o pequeno herdeiro de Driftmark, brincando de casinha sobre as ruínas de uma dinastia.
— O que você quer, Daemon? — perguntou Aemond, sua postura endurecendo instantaneamente. — Se veio aqui para falar de política ou de execuções, pode poupar seu fôlego.
— Vim falar de sobrevivência — respondeu Daemon, aproximando-se da mureta. — Rhaenyra quer que vocês fiquem. Ela quer o poder de Vhagar ao seu lado para reconstruir o reino. Mas os lordes... ah, os lordes de Westeros são criaturas pequenas e invejosas. Eles sussurram sobre "abominação". Dizem que o filho de vocês será amaldiçoado.
Lucerys sentiu o aperto da mão de Aemond intensificar-se. Ele deu um passo à frente, encarando o padrasto.
— Deixe que sussurrem. Eles são covardes que se escondem atrás de pergaminhos. Nenhum deles teve a coragem de enfrentar o que enfrentamos.
— Coragem não impede um punhal no escuro, Lucerys — disse Daemon, sua voz tornando-se subitamente séria. — Eu conheço este castelo melhor do que qualquer um. As paredes têm ouvidos, e o ódio contra os Targaryen nunca esteve tão alto. Se vocês ficarem aqui, passarão o resto de suas vidas lutando contra conspirações.
— Você está nos sugerindo que partamos de novo? — perguntou Aemond, arqueando a sobrancelha. — Depois de tudo o que fizemos para voltar?
— Estou sugerindo que vocês escolham onde lutar — disse Daemon. — Driftmark precisa de um senhor. Lorde Corlys está velho e cansado. Se vocês forem para lá, terão o mar como proteção e a frota Velaryon como escudo. Rhaenyra terá a paz que deseja, e vocês terão a liberdade que Valíria lhes deu.
Lucerys olhou para Aemond. A ideia de voltar para o mar, para a casa de sua linhagem, parecia um sonho distante que finalmente estava ao alcance.
— Driftmark... — sussurrou Luke. — Seria um lugar seguro para ele nascer, Aemond. Longe do veneno desta corte.
Aemond olhou para Daemon, tentando ler as intenções do homem.
— E por que você está nos ajudando? — perguntou Aemond. — O que você ganha com o nosso exílio em Driftmark?
— Ganho uma rainha que não precisa se preocupar se o próprio irmão e o filho vão começar uma nova guerra civil por causa de um insulto em um jantar — respondeu Daemon com um sorriso cínico. — E, talvez, eu apenas queira ver o que acontece quando dois dragões decidem ser felizes em vez de poderosos. É um experimento que eu nunca tive a chance de realizar.
Daemon virou-se e partiu, deixando o casal sozinho com seus pensamentos. Lucerys sentiu um peso sair de seus ombros. Ele olhou para o céu, onde Arrax e Vhagar voavam em círculos amplos, as escamas peroladas e as de bronze brilhando sob as primeiras estrelas.
— Ele tem razão, não tem? — perguntou Luke. — Porto Real nunca será nossa casa.
— Nossa casa é onde quer que estejamos juntos — disse Aemond, puxando Luke para um abraço apertado. — Mas o mar... o mar parece uma boa ideia. Eu sempre quis ver como Vhagar se comporta em uma ilha cercada por navios.
— Ela vai assustar todos os marinheiros — riu Luke, sentindo-se genuinamente leve pela primeira vez em meses.
— Deixe que se assustem — murmurou Aemond, beijando o pescoço de Luke. — Eles precisam saber que o senhor de Driftmark tem uma dragoa que pode engolir frotas inteiras.
Na manhã seguinte, a partida foi rápida. Rhaenyra despediu-se de Lucerys com lágrimas nos olhos, um adeus que carregava o perdão e a tristeza de uma mãe que sabia que estava perdendo o filho para uma vida que ela nunca poderia compreender totalmente. Ela não falou com Aemond, mas houve um aceno de cabeça minguado, um reconhecimento de que o sangue deles, embora amargo, ainda era o mesmo.
Ao montarem em seus dragões, Porto Real parecia uma lembrança de um pesadelo que estava se dissipando. Lucerys sentiu a força de Arrax sob ele, o dragão respondendo à sua alegria com um rugido agudo. Ao seu lado, a colossal Vhagar batia as asas, criando ventos que faziam as bandeiras da Fortaleza Vermelha tremularem violentamente.
— Para casa, Aemond! — gritou Luke através do vento.
— Para casa! — respondeu o alfa.
O voo para Driftmark foi uma celebração. Eles mergulhavam entre as nuvens, faziam manobras arriscadas e deixavam que o ar puro limpasse o cheiro de morte de seus pulmões. Quando as torres de Maré Alta surgiram no horizonte, Lucerys sentiu uma conexão profunda com a terra de seus antepassados.
Eles pousaram na areia branca, perto de onde as ondas quebravam suavemente. Lorde Corlys estava lá para recebê-los, acompanhado por Rhaenys. A recepção foi calorosa, desprovida da tensão política de Porto Real. Para os Velaryon, Lucerys era o herdeiro que retornara dos mortos; Aemond era o preço que aceitaram pagar pela sobrevivência da família.
Meses se passaram em uma paz relativa. Aemond assumiu o papel de protetor da ilha com uma ferocidade que mantinha qualquer pirata ou inimigo à distância. Ele raramente saía do lado de Lucerys, agindo como uma sombra protetora enquanto o ômega se preparava para o nascimento.
Em uma noite de tempestade, quando o som do trovão ecoava como o rugido de um dragão, o herdeiro de Lucerys e Aemond finalmente chegou ao mundo.
O parto foi longo e doloroso, mas Aemond recusou-se a sair da sala. Ele segurou a mão de Luke durante cada contração, oferecendo sua força de alfa como uma âncora. Quando o primeiro choro do bebê ecoou pelos aposentos, o silêncio que se seguiu foi de pura reverência.
O meistre entregou a pequena trouxa a Lucerys. O bebê era robusto, com uma pele morena que lembrava a de Luke, mas com tufos de cabelo de um loiro platinado quase branco. E quando ele abriu os olhos pela primeira vez, um era de um castanho profundo, enquanto o outro brilhava com um tom de violeta safira.
— Ele é perfeito — sussurrou Luke, as lágrimas escorrendo livremente.
Aemond aproximou-se, observando o filho com uma expressão de espanto. Ele estendeu o dedo indicador, e o bebê agarrou-o com uma força surpreendente.
— Ele tem o seu espírito — disse Aemond, a voz embargada. — E os meus olhos.
— Qual será o nome dele? — perguntou Luke.
Aemond olhou para o bebê, depois para o marido.
— Viserys — disse Aemond. — Em homenagem ao homem que, apesar de todos os seus erros, amava a família acima de tudo. E para que este menino lembre-se de que ele é o início de uma nova era.
— Viserys Velaryon-Targaryen — concordou Luke. — O Príncipe da Maré e do Fogo.
Nos anos que se seguiram, Driftmark floresceu. Sob o governo de Lucerys e a proteção de Aemond, a ilha tornou-se um refúgio para aqueles que buscavam escapar das intrigas de Porto Real. O pequeno Viserys cresceu ouvindo histórias de Valíria e do mar, montando seu próprio dragão, um animal de escamas prateadas e olhos de fogo, que nascera de um ovo colocado por Syrax e fertilizado pelo calor das Quatorze Chamas.
Westeros continuava a ser um lugar de conflitos, mas a Dança dos Dragões tornara-se uma lenda de advertência. Rhaenyra governava com mão firme, mas sempre consultava o filho e o meio-irmão em assuntos de grande importância. Aemond e Lucerys raramente voltavam à capital, preferindo a liberdade do oceano e a paz de sua própria companhia.
Certa tarde, quando o sol se punha sobre o horizonte, Lucerys e Aemond estavam sentados na areia, observando o filho voar baixo sobre as ondas.
— Você se arrepende? — perguntou Luke, encostando a cabeça no ombro de Aemond. — De ter deixado tudo para trás? A chance de ser um rei, a glória das batalhas?
Aemond olhou para o marido, os anos haviam suavizado sua rudeza, mas não sua intensidade. Ele puxou Luke para um beijo lento, um beijo que carregava o peso de todas as escolhas que haviam feito.
— Eu nunca fui feito para ser um rei, Luke — disse Aemond. — Eu fui feito para ser o seu protetor. E a glória que encontrei em seus braços e no sorriso do nosso filho vale mais do que mil Tronos de Ferro.
— Nós vencemos, não vencemos? — perguntou Luke com um sorriso audaz.
— Nós fizemos mais do que vencer — respondeu Aemond, olhando para o horizonte infinito. — Nós sobrevivemos à nossa própria lenda. E no final, passarinho, isso é a única coisa que importa.
O rugido de Vhagar ecoou ao longe, um som de contentamento de uma dragoa que finalmente encontrara seu descanso. E ali, entre o mar e o céu, os dois dragões que desafiaram o mundo permaneceram unidos, provando que o amor, mesmo o mais proibido e perigoso, era a única força capaz de transformar cinzas em um novo amanhecer.
A história deles não seria escrita em livros de leis, mas em canções de marinheiros e em sussurros de amantes que buscavam a coragem para seguir seus próprios corações. Pois Lucerys Velaryon e Aemond Targaryen não eram apenas príncipes de uma dinastia caída; eles eram os senhores de seu próprio destino, o fogo que nunca se apagaria e a maré que sempre retornaria para casa.