Voltar ao resumo

A escola dos amores

O Algoritmo do Desejo e a Resistência dos Materiais

A biblioteca da Faculdade de Engenharia era, teoricamente, um lugar de silêncio e contemplação intelectual. Mas, para aquele grupo de Gestão Civil, o silêncio era uma construção frágil, prestes a desabar sob o peso de hormonas e tensões mal resolvidas. Mateus estava sentado numa mesa isolada, rodeado por livros de mecânica dos solos, tentando ignorar o facto de que Luís estava sentado à sua frente, a olhar para ele com uma intensidade que faria um laser de topografia parecer baço.

— Mateus, já te disseram que quando estás concentrado, as tuas sobrancelhas fazem um ângulo de 45 graus absolutamente adorável? — sussurrou Luís, inclinando-se sobre a mesa de carvalho. — É uma geometria que me dá vontade de estudar... de perto. Muito de perto.

Mateus sentiu a ponta dos dedos a formigar. Ele ajustou os óculos e tentou focar-se na granulometria das areias.

— Luís, a tua presença está a aumentar o meu nível de cortisol. Eu preciso de terminar este relatório de viabilidade. E, por favor, para de mexer no teu telemóvel, o brilho do ecrã está a distrair-me.

— Estou só a ver se o meu Magikarp já evoluiu para um Gyarados — respondeu Luís com um sorriso travesso. — Sabes, ele é como tu. Parece inofensivo e calado, mas quando explode... vira um monstro de poder e destruição. E eu adoro monstros, Mateus. Principalmente os que têm essa barba onde eu adorava esconder as minhas mãos.

Antes que Mateus pudesse responder com uma análise lógica sobre a anatomia dos folículos pilosos, um estrondo ecoou pela biblioteca. Ricardo tinha acabado de entrar, ou melhor, de colidir com uma estante, as suas muletas escorregando no chão encerado.

— Foda-se! — gritou Ricardo, esquecendo-se completamente de onde estava. — Quem foi o engenheiro idiota que decidiu que este chão precisava de tanto brilho? Eu quase perdi a outra perna!

— Shhh! — resmungou a bibliotecária ao fundo.

Simões apareceu logo atrás, como uma sombra persistente e apaixonada. Ele tentou segurar Ricardo pelo braço, mas o rapaz de rosto de bebé empurrou-o com uma destreza impressionante para quem tinha um gesso pesado.

— Deixa-me, Simões! Eu já te disse que não quero a tua ajuda, nem as tuas rimas, nem essa tua cara de quem comeu um dicionário de sinónimos de "amor".

— Mas Ricardo, o meu equilíbrio é o teu equilíbrio — declarou Simões, a voz grave ecoando pelas estantes de betão armado. — Eu escrevi um fado para ti ontem à noite. Chama-se "O Gesso que me Prende". Queres que cantarole o refrão?

— Eu quero que te atires da Ponte da Arrábida, Simões — retorquiu Ricardo, sentando-se com dificuldade ao lado de Mateus. — Mateus, ajuda-me. Este gajo é pior que o TDAH. Ele não sai da minha cabeça, mas pelas razões erradas.

Mateus olhou para o gesso de Ricardo, que agora tinha um desenho de uma pokébola feito por Luís e várias referências a Danganronpa feitas por João.

— A probabilidade de o Simões desistir de ti é de aproximadamente 0,02% — disse Mateus de forma clínica. — Ele exibe um comportamento de persistência obsessiva que, em engenharia, chamaríamos de carga constante. Tu tens de aprender a reforçar os teus pilares emocionais, Ricardo.

— Ou então — interrompeu Gabriel, que apareceu do nada, impecavelmente vestido com uma camisa de seda entreaberta —, podias simplesmente ceder, Ricardo. O Simões é alto, tem bons ombros e, honestamente, essa devoção toda é quase excitante. Se ele me dedicasse metade dessas músicas, eu já o tinha levado para o balneário do pavilhão gimnodesportivo.

Gabriel sentou-se na ponta da mesa, cruzando as pernas e olhando para o grupo com um ar de superioridade estética.

— Mas claro, nem todos têm o meu bom gosto — continuou Gabriel, ajeitando os óculos. — Olhem para o trio lá fora. O Francisco e o Rafael estão a discutir "logística" perto do carro do Daniel. E por "logística", quero dizer que o Francisco está a olhar para o rabo do Rafael como se fosse o projeto de final de curso dele.

Pela janela da biblioteca, era possível ver o parque de estacionamento. Francisco, com os seus bíceps a saltarem da t-shirt de alças, estava encostado ao carro de Daniel. Rafael, o gigante de 1,90m, gesticulava com as suas mãos imensas, explicando algo sobre uma peça que tinha fundido na oficina. Daniel estava entre os dois, rindo, com um cigarro apagado na mão, parecendo o maestro de uma orquestra de testosterona.

— O Daniel é um génio do mal — comentou João, que se aproximou com Nuno. Ambos tinham os olhos colados aos telemóveis. — Ele sabe que o Francisco e o Rafael estão loucos um pelo outro, e ele está ali só a servir de catalisador. É tipo um evento de tempo limitado num jogo Gacha. Se não aproveitares agora, perdes a oportunidade.

— Eu só quero saber quando é que o Rafael vai fazer uma live de Vtuber a mostrar a oficina — disse Nuno, animado. — O avatar dele é um cavaleiro de armadura negra, mas o pessoal quer ver a barba real. Aquela barba tem uma fanbase própria, sabiam?

— Eu sou o presidente dessa fanbase — atirou Luís, piscando o olho a Mateus. — Mas a minha prioridade atual é desvendar o que está por baixo desta camisola de lã que o Mateus nunca tira. Mateus, não tens calor? A temperatura ambiente está a subir... ou sou só eu?

Mateus sentiu o pescoço a transpirar. A hipersensibilidade dele estava a detetar cada partícula de poeira no ar e cada vibração na voz de Luís.

— A temperatura está estável nos 21 graus Celsius — respondeu Mateus, a voz a tremer ligeiramente. — E a minha camisola é de fibra natural, permite a troca térmica.

— Troca térmica, é? — Luís aproximou-se mais, o seu hálito a cheirar a pastilha de menta. — Eu gostava de fazer uma troca contigo, Mateus. Eu dou-te o meu Mewtwo brilhante e tu dás-me cinco minutos de silêncio num sítio onde eu possa testar a suavidade dessa tua barba.

Ricardo soltou uma gargalhada ruidosa, atraindo mais um olhar reprovador da bibliotecária.

— Luís, tu és um animal! Deixa o pobre do Mateus. Ele ainda entra em curto-circuito.

— Antes em curto-circuito do que em inércia — retorquiu Gabriel. — Olhem, o trio está a mover-se. Vão para o laboratório de materiais. Sabem o que é que isso significa?

— Que vão testar a ductilidade de certos corpos? — sugeriu João com um sorriso malicioso.

— Vamos segui-los — propôs Nuno, já com o telemóvel pronto para gravar (ou pelo menos fingir que gravava). — Isto é melhor que qualquer stream de Danganronpa. É a vida real, com gráficos de alta definição e músculos de verdade.

O grupo, num misto de curiosidade e tédio académico, levantou-se. Ricardo foi à frente, as muletas batendo no chão num ritmo sincopado, seguido por um Simões solícito que tentava segurar-lhe a mochila. Mateus foi o último, tentando manter a distância de segurança de Luís, que continuava a fazer comentários sobre "ataques rápidos" e "pontos de experiência".

Ao chegarem perto do laboratório de materiais, o som de vozes graves vinha de dentro. A porta estava entreaberta. O laboratório era um espaço amplo, cheio de prensas hidráulicas, provetes de betão e máquinas de tração.

Lá dentro, Francisco estava a segurar uma barra de aço, mas a sua atenção estava totalmente em Rafael. O gigante barbudo estava inclinado sobre uma mesa de trabalho, as costas largas criando uma silhueta imponente sob as luzes industriais.

— Esta liga é resistente — dizia Rafael, a voz vibrando no espaço vazio. — Mas se lhe aplicares a força no ponto certo, ela cede. Tudo cede, Francisco.

Daniel estava sentado numa das máquinas de ensaio, balançando as pernas.

— E tu, Rafael? Onde é que é o teu ponto de rutura? — perguntou Daniel com um brilho cigano nos olhos. — O Francisco tem tentado encontrar, mas tu és como um pilar de ponte. Difícil de abalar.

Francisco aproximou-se de Rafael, colocando a mão na nuca do gigante, os dedos perdendo-se no cabelo curto e na barba que subia pelas bochechas.

— Eu não quero que ele quebre, Daniel — sussurrou Francisco, a sua voz carregada de um desejo que os rapazes à porta conseguiam sentir. — Eu quero que ele se molde a mim. Como o metal quente.

Rafael virou-se, ficando a poucos centímetros de Francisco. A diferença de altura era notável, mas a presença física de ambos equilibrava o espaço. Rafael segurou os pulsos de Francisco com as suas mãos calejadas da oficina.

— O metal quente queima, Francisco. Tens a certeza de que aguentas o calor?

— Eu trabalho num ginásio, Rafael — retorquiu Francisco com um sorriso predatório. — O calor é o meu estado natural. E com o Daniel a ver... o fogo só aumenta.

À porta, o grupo de amigos estava em êxtase silencioso. Gabriel abanava-se com a mão, Luís estava quase a morder o lábio e Ricardo tinha parado de reclamar da perna por um momento.

— Isto é muito mais intenso do que o julgamento do Monokuma — sussurrou João.

— É uma live de 100k views, garantido — murmurou Nuno.

Mateus, no entanto, sentia algo diferente. Ao observar a ligação crua e física entre aqueles três, ele começou a compreender que a gestão de estruturas não se aplicava apenas a edifícios. Havia uma engenharia nos afetos, uma resistência nos corpos e uma tensão que, se não fosse libertada, causaria uma falha catastrófica.

Luís, notando a expressão pensativa de Mateus, encostou-se a ele. Desta vez, não houve piadas sobre Pokémon.

— É bonito, não é? — sussurrou Luís, a sua voz invulgarmente suave. — A forma como eles não têm medo de ser o que são. Sem cálculos, Mateus. Só instinto.

Mateus olhou para Luís. Pela primeira vez, não viu apenas um colega irritante e obcecado por jogos, mas alguém que também procurava uma ligação que fizesse sentido.

— O instinto é uma variável difícil de quantificar — respondeu Mateus, mas não se afastou quando o braço de Luís roçou no seu. — Mas... admito que os resultados experimentais parecem promissores.

Lá dentro, o clima atingiu o ponto de ebulição. Francisco puxou Rafael para um beijo que parecia uma colisão de titãs, enquanto Daniel se aproximava, envolvendo os dois com os seus braços, uma ponte humana entre a força bruta e a técnica refinada. O som da prensa hidráulica ao fundo parecia marcar o ritmo dos corações acelerados.

— Bom — disse Gabriel, quebrando o transe do grupo à porta —, eu acho que já vimos o suficiente para saber que o projeto de Gestão Civil deles vai ser um sucesso... na vertical e na horizontal. Agora, se não se importam, eu vou para o bar. Preciso de um shot de tequila e de encontrar alguém que me olhe como o Francisco olha para o Rafael.

— Eu vou contigo — ofereceu-se João. — Preciso de descarregar esta adrenalina a jogar alguma coisa violenta.

Ricardo olhou para Simões, que ainda estava ali, fiel como um cão de guarda.

— Simões... — começou Ricardo, suspirando.

— Sim, meu amor de betão armado?

— Se me levares ao bar e não disseres uma única rima durante o caminho... eu deixo-te escrever o teu nome no meu gesso. Mas pequeno! E nada de corações!

Simões quase saltou de alegria.

— É um contrato que assino com sangue, Ricardo!

O grupo começou a dispersar-se pelos corredores da Faculdade de Engenharia. Luís e Mateus ficaram um pouco para trás.

— Então, Mateus — disse Luís, voltando ao seu tom habitual —, agora que a aula prática acabou, que tal irmos ali ao laboratório de informática? Eu ouvi dizer que as cadeiras são ergonómicas e muito confortáveis para... conversas profundas.

Mateus olhou para o relatório na sua mão e depois para o sorriso de Luís. Pela primeira vez em três anos de curso, ele decidiu que a viabilidade de um projeto podia esperar.

— As cadeiras de informática têm rodas, Luís. Isso cria uma instabilidade na base — disse Mateus, começando a caminhar. — Mas se me ajudares a capturar aquele Pokémon raro que mencionaste... eu posso ignorar as leis da estática por uma hora.

Luís soltou um grito de vitória que ecoou pelo corredor, passando o braço pelos ombros de Mateus. O rapaz barbudo e magro não se desviou. Ele sentiu o calor do corpo de Luís e, mentalmente, começou a desenhar um novo diagrama. Um diagrama onde a resistência não era o objetivo, mas sim a entrega.

No final do dia, a Faculdade do Porto continuava de pé, mas para aquele grupo de Gestão Civil, as fundações tinham mudado. Entre barbas, gessos, Vtubers e desejos cruzados, eles estavam a descobrir que a melhor parte de construir o futuro era, sem dúvida, a demolição controlada das suas próprias inibições. E no laboratório de materiais, o metal continuava quente, moldado por três homens que sabiam que, na engenharia da vida, o amor era a carga mais pesada, mas também a única que valia a pena carregar.