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A fada que se apaixonou por uma humana

O Segredo do Orvalho e a Lição de Prata

Os meses que se seguiram ao resgate do pequeno Thomas trouxeram uma mudança sutil, mas profunda, na rotina da vila e na vida de Reader. Onde antes havia apenas uma mulher tímida que preferia a companhia de esquilos, agora havia uma figura central na comunidade. Reader descobrira que sua voz, recuperada por um capricho da Corte, possuía uma ressonância nova, capaz de acalmar o choro mais estridente de um recém-nascido e prender a atenção das crianças mais inquietas.

Ela transformara a pequena varanda de sua casa em uma sala de aula improvisada. Sob a luz suave do sol da tarde, Reader sentava-se com um grupo de crianças, ensinando-lhes o mistério das letras que seu pai lhe passara. O velho mensageiro, orgulhoso, observava da janela enquanto a filha traçava vogais na terra com um graveto, transformando o conhecimento que outrora servira a reis em um presente para os filhos de lavradores e pastores.

— Veja, pequeno Jan — disse Reader, com a voz doce como mel —. Esta letra parece um arco pronto para disparar uma flecha. É o "A" de amizade. Se você aprender a desenhá-la, poderá escrever seu nome e o nome de todos que ama.

As crianças a olhavam com adoração. Para elas, Reader não era apenas a professora; era a mulher que voltara da floresta com um bebê nos braços e um brilho nos olhos que ninguém conseguia explicar. Quando a aula terminava e as crianças corriam de volta para suas casas, Reader preparava sua pequena cesta. Mas desta vez, não era para buscar mantimentos na vila.

Seus passos a levavam para o limiar da floresta, onde o ar mudava de textura. Ela não sentia mais o medo opressor de antes. Dartmoor ainda era perigosa e caprichosa, mas Reader agora possuía uma espécie de salvo-conduto invisível.

— Skitter? — chamou ela, aproximando-se de um carvalho cujo tronco era coberto por um musgo tão verde que parecia brilhar. — Eu trouxe algo que acho que você vai gostar.

Um zumbido familiar vibrou entre as folhas, e o Pixie materializou-se no ar, dando uma pirueta antes de pousar em um galho baixo. Suas antenas tremeram, captando o cheiro do que estava na cesta.

— A violeta traz presentes! — sibilou Skitter, seus olhos de âmbar brilhando. — Presentes para o senhor da charneca! É algo brilhante? Algo que faz barulho?

Reader riu, um som que fez os pássaros próximos pararem para ouvir. Ela retirou da cesta um pequeno sino de latão que encontrara nas velhas coisas de seu pai, e uma tigela de cerâmica com creme de leite fresco, polvilhado com um pouco de mel.

— O sino é para você anunciar sua chegada, embora eu sempre saiba quando você está por perto — explicou ela, colocando os objetos sobre uma pedra plana. — E o creme... bem, você sabe que é o melhor da vila.

Skitter saltou sobre a pedra, pegando o sino com suas mãos longas e finas. Ele o balançou, deliciando-se com o tilintar agudo.

— Barulhento! Muito barulhento! — Ele deu uma risada estridente, que lembrava o estalar de galhos secos. — Vou tocar isso nas orelhas das garotas da cozinha para vê-las derrubar as panelas!

— Skitter, não seja travesso — repreendeu Reader, embora com um sorriso nos lábios. — Eu te dou presentes porque sou grata pela sua ajuda. Você salvou minha voz e ajudou a salvar o Thomas. Quero que sejamos amigos, de verdade.

O Pixie parou de balançar o sino e inclinou a cabeça triangular, observando-a com uma curiosidade quase alienígena.

— Amigos? — Ele repetiu a palavra como se fosse um conceito estranho e levemente amargo. — Humanos não são amigos de Pixies. Humanos nos temem ou tentam nos prender. Por que a violeta quer ser diferente?

— Porque eu vi que vocês não são apenas sombras e sustos — respondeu ela, sentando-se na grama e abraçando os joelhos. — Vocês fazem parte da vida deste lugar, tanto quanto as árvores e o rio. E eu gosto de ver as pessoas felizes, Skitter. Ver o Thomas seguro e as crianças aprendendo a ler... isso enche meu coração.

Skitter mergulhou o dedo longo no creme de leite e o levou à boca, fechando os olhos de satisfação.

— Você é muito estranha, humana. Tem um coração que transborda, como um balde furado. Dá, dá e dá... não tem medo de ficar vazia?

— O amor não funciona assim — explicou Reader, com paciência. — Quanto mais você dá, mais parece ter. É como a seiva das árvores na primavera.

O Pixie soltou um zumbido pensativo. Ele desapareceu por um segundo, mergulhando na folhagem densa, e retornou trazendo uma pequena pinha que parecia feita de metal polido, embora fosse orgânica ao toque.

— Um presente por um presente — disse ele, jogando a pinha no colo de Reader. — Se você a enterrar no seu jardim, as flores nunca murcharão, nem mesmo no inverno. É um segredo da Corte Seelie. Eles ficariam furiosos se soubessem que dei a você, mas Skitter faz o que quer.

— Obrigada, Skitter. Eu vou cuidar dela com muito carinho.

Eles ficaram em silêncio por um tempo, uma amizade improvável entre uma mulher de trinta e quatro anos e uma criatura folclórica de Dartmoor. Reader começou a cantarolar baixo, uma melodia sem palavras que parecia harmonizar com o vento.

— As crianças da vila estão aprendendo rápido — comentou ela, após um tempo. — Ontem, o pequeno Jan escreveu a palavra "mãe" pela primeira vez. A Sra. Gable chorou de emoção.

— Chorar por letras? — Skitter fez uma careta. — Humanos são criaturas choronas. Nós celebramos com danças e travessuras. Se eu visse uma letra, eu a morderia para ver se tem gosto de milho.

— Talvez um dia eu possa te ensinar a ler também — sugeriu Reader, com um brilho travesso nos olhos.

O Pixie soltou uma gargalhada tão forte que quase caiu do galho.

— Skitter ler? O senhor da charneca preso em riscos na terra? Nunca! Eu leio as estrelas, violeta. Leio o rastro das lesmas e o sussurro das raízes. Suas letras são gaiolas para as palavras.

Reader sorriu, aceitando a recusa. Ela sabia que não podia impor a lógica humana a um ser daquela natureza.

— Você tem razão. Cada um tem sua própria maneira de entender o mundo.

De repente, as orelhas de Skitter se moveram. Ele ficou ereto, suas antenas vibrando com intensidade.

— Alguém vem vindo — sibilou ele, seus olhos de âmbar focando na trilha. — Alguém com cheiro de metal e pressa.

Reader levantou-se, ajeitando o vestido. Poucos segundos depois, o pai de Reader apareceu entre as árvores, parecendo ofegante. Skitter desapareceu instantaneamente, tornando-se indistinguível das folhas de carvalho.

— Filha! — chamou o pai. — Eu imaginei que estivesse por aqui.

— Aconteceu alguma coisa, papai? — perguntou ela, aproximando-se preocupada.

— Uma carta chegou da capital — disse ele, segurando um envelope lacrado com cera vermelha. — O rei está enviando um novo mensageiro para a região, e ele quer que eu o instrua sobre as trilhas de Dartmoor. Eles ouviram falar que o caminho está... "diferente" ultimamente. Mais próspero, mas também mais misterioso.

Reader sentiu um frio na espinha. A atenção da realeza nunca era um bom sinal para o equilíbrio delicado entre a vila e a floresta.

— O que o senhor vai dizer a ele?

— Vou dizer a verdade, minha querida — respondeu o pai, colocando a mão no ombro dela. — Vou dizer que Dartmoor tem seus próprios donos e que o segredo para atravessá-la não está nos mapas, mas no respeito que se carrega no peito. E vou dizer que minha filha é a pessoa que melhor entende o coração desta terra.

Reader olhou para o carvalho onde Skitter estava escondido. Ela podia jurar que viu o brilho de um sino de latão entre as folhas.

— Eu vou ajudar, papai. Mas temos que garantir que eles não tentem mudar nada aqui. A floresta está em paz, e eu pretendo mantê-la assim.

— Eu sei que vai — disse o pai, com orgulho. — Agora vamos. Sua mãe preparou um chá e está ansiosa para saber se as sementes que você plantou já começaram a brotar.

Enquanto caminhavam de volta para a casa, Reader sentia a pinha metálica pesando em seu bolso. Ela sabia que novos desafios viriam. A curiosidade dos homens era como o ferro; muitas vezes trazia progresso, mas também podia ferir a natureza sutil do Outro Mundo.

No entanto, ela não era mais a "violeta murchinha" de antes. Ela era a professora, a curadora e a amiga dos Pixies. Ela aprendera que a verdadeira força não estava em espadas ou decretos reais, mas na capacidade de estender a mão, de dar presentes sem esperar nada em troca e de cantar para as sombras até que elas se tornassem luz.

Ao longe, o tilintar de um pequeno sino de latão ecoou pela charneca, um som que só os ouvidos de Reader conseguiram captar. Era um sinal de Skitter, um lembrete de que, não importa quem viesse da capital, Dartmoor tinha uma guardiã que não permitiria que a magia fosse esquecida.

Reader sorriu para o crepúsculo. Ela tinha aulas para preparar, bebês para ninar e uma floresta inteira para proteger. E enquanto o mel fosse doce e o creme de leite estivesse na lareira, ela sabia que a primavera em seu coração nunca terminaria.