A fada que se apaixonou por uma humana
O Sussurro da Febre e o Resgate das Sombras
A luz da manhã infiltrou-se pelas frestas da janela de madeira, mas, para Reader, o sol parecia excessivamente brilhante, quase agressivo. Ao tentar se levantar, o mundo deu uma guinada lenta e enjoativa. Sua cabeça pesava como se tivesse sido preenchida com o chumbo das minas abandonadas de Dartmoor, e sua garganta, outrora fonte de canções que encantavam fadas, agora parecia ter sido arranhada por espinhos de azevinho seco.
— Só um resfriado — sussurrou ela para o quarto vazio, mas sua própria voz soou como o roçar de pedras sob a água.
Ela sentou-se na borda da cama, esperando que a tontura passasse. Reader não era de reclamar. Sua natureza maternal e cuidadosa a impedia de ser o centro das atenções, especialmente quando se tratava de fraqueza. Seus pais estavam envelhecendo; o pai ainda sentia as dores do inverno nas juntas e a mãe cansava-se facilmente. Ela não podia, de forma alguma, ser um fardo.
Com um esforço hercúleo, ela lavou o rosto com água fria, que pareceu queimar sua pele febril, e vestiu seu avental habitual. Ao descer para a cozinha, forçou um sorriso que não chegava aos olhos, mas que foi o suficiente para enganar os pais na penumbra matinal.
— Bom dia, querida — disse a mãe, mexendo o mingau. — Você parece um pouco pálida. Dormiu bem?
— Perfeitamente, mamãe — mentiu Reader, a voz saindo em um fio fino e cuidadoso. — É apenas a luz da manhã, está muito forte hoje. Vou buscar as ervas no jardim antes que as crianças cheguem para a aula.
Ela saiu antes que a mãe pudesse notar o tremor em suas mãos. O ar fresco de Dartmoor geralmente a revigorava, mas hoje o vento parecia cortar seu xale, e cada passo era uma batalha contra a gravidade. No jardim, ela se apoiou no cercado de madeira, respirando fundo.
— Violeta murcha... violeta doente — sibilou uma voz vinda das copas das árvores.
Skitter materializou-se no topo de um poste, observando-a com seus olhos de âmbar fixos e curiosos. Ele inclinou a cabeça triangular, as antenas vibrando em uma frequência de alerta. A amizade entre eles havia crescido nos últimos meses; o Pixie agora não era apenas um vizinho caprichoso, mas um companheiro frequente, embora sua lógica continuasse sendo puramente feérica.
— Não estou doente, Skitter — murmurou ela, tentando colher um maço de hortelã. — Só estou... cansada.
— Humanos mentem para si mesmos como os rios mentem para as pedras — o Pixie saltou para o ombro dela, e Reader quase cambaleou com o peso mínimo da criatura. — Sua pele queima como o ferro quente, e seu cheiro não é de flores, é de fumaça e suor frio. Por que continua a andar se o corpo pede para cair?
— Porque as pessoas precisam de mim — respondeu ela, afastando o Pixie gentilmente. — Jan precisa aprender a somar, e a Sra. Gable precisa de ajuda com a costura. Eu não posso parar.
— Tolice mortal — Skitter deu uma pirueta no ar, o sino de latão que ela lhe dera tilintando em seu pescoço. — Se a raiz apodrece, a árvore cai. Você é a raiz da sua vila, mas não deixa que ninguém regue você.
Reader ignorou o aviso. O dia seguiu em um borrão de esforço e dor mascarada. Durante a aula com as crianças, ela sentiu o suor escorrer por suas costas, e as letras que desenhava na terra pareciam dançar e se transformar em Pixies zombeteiros diante de seus olhos.
— Professora Reader, por que sua mão está tão quente? — perguntou o pequeno Jan, ao entregar-lhe uma pedra que encontrara.
— É apenas o sol, Jan — ela respondeu, forçando a voz a não falhar. — Vá brincar com os outros agora. A aula terminou.
À tarde, a situação piorou. Ela foi até a casa da Sra. Gable para ajudar com as mantas de inverno, mas a agulha parecia pesar quilos em seus dedos. A tontura vinha em ondas, e a garganta estava tão inflamada que engolir a própria saliva era um suplício.
— Reader, você está bem? — perguntou a Sra. Gable, notando como a jovem vacilava ao se levantar. — Sente-se um pouco, eu faço um chá.
— Não, não, eu tenho que ir — disse Reader, a urgência do pânico tomando conta de sua mente febril. — Meus pais... o jantar... eu estou bem, sério.
Ela saiu da casa quase tropeçando. O caminho de volta para sua pequena cabana, que geralmente levava dez minutos, parecia agora uma jornada através de um deserto interminável. As cores de Dartmoor — o verde-oliva das colinas, o cinza das pedras — estavam se fundindo em um cinza-névoa opressor.
Ela entrou na orla da floresta, pensando que o atalho seria mais rápido, mas foi seu maior erro. A névoa, sempre oportunista, começou a se fechar ao seu redor.
— Violeta caiu... violeta se perdeu — a voz de Skitter não era mais zombeteira; soava preocupada, um tom raro para um ser de sua espécie.
Reader tentou dar mais um passo, mas seus joelhos simplesmente cederam. Ela caiu sobre o musgo úmido, o balde de ervas espalhando-se ao seu redor. A terra estava fria, e por um momento, o frio foi um alívio para a febre que consumia seu corpo.
— Só um minuto... — sussurrou ela para o chão. — Só vou descansar um minuto e depois eu levanto.
— Se você fechar os olhos aqui, a Corte Unseelie vai te levar — sibilou Skitter, pousando no chão à frente de seu rosto. Ele puxou uma mecha de seu cabelo com força. — Acorde, humana teimosa! O orvalho vai entrar nos seus pulmões e você vai virar comida de verme!
Reader não respondeu. Sua consciência estava afundando em um mar de sombras. Ela via o rosto de sua mãe, a preocupação nos olhos do pai, e sentia uma culpa esmagadora por não estar lá para eles. Mas o corpo não obedecia mais.
Skitter olhou ao redor, suas antenas captando o movimento de criaturas menores e menos amigáveis que começavam a se aproximar, atraídas pela fraqueza da mortal. Ele não era forte o suficiente para carregá-la, e sabia que nenhum humano da vila ousaria entrar naquela parte da floresta ao anoitecer.
O Pixie tomou uma decisão. Ele voou até o peito de Reader e enfiou a mão longa e fina sob o corpete dela, puxando a pequena bolsa de couro que continha a moeda de prata da Corte Seelie.
— Skitter vai ser punido por isso — murmurou ele para si mesmo —, mas a violeta não pode murchar.
Ele segurou a moeda contra a testa de Reader e começou a emitir um som vibrante, uma canção de Pixie que não era feita para ouvidos humanos. O sino de latão em seu pescoço tilintou em harmonia com a pulsação da moeda.
De repente, a névoa ao redor deles começou a brilhar com uma luz esverdeada. As raízes das árvores próximas moveram-se, criando um berço natural sob o corpo de Reader, elevando-a do chão úmido.
— O que você está fazendo, pequeno servo? — Uma voz profunda e antiga ecoou. Das sombras de um carvalho centenário, emergiu a fada alta que Reader ajudara meses atrás, aquela que guardava a Raiz-Mãe.
— Ela está morrendo por dentro! — gritou Skitter, agitando as asas freneticamente. — Ela cuida de todos, mas não deixa ninguém cuidar dela. O ferro da teimosia está matando a violeta!
A fada alta aproximou-se, observando o rosto pálido e suado de Reader.
— Ela é preciosa para o equilíbrio — disse a criatura, tocando a testa de Reader com um dedo longo que cheirava a terra fresca e chuva. — Mas o veneno que a consome é humano. É o cansaço da alma que se esqueceu de que também é parte da natureza.
— Cure ela! — exigiu Skitter. — Você deu a moeda, você deu a voz. Cure o corpo agora!
— A magia das fadas não cura a carne humana sem um preço, Skitter. Você sabe disso.
— Eu pago! — o Pixie gritou, surpreendendo a si mesmo. — Eu dou meu sino! Eu dou meu lugar na Dança da Seiva! Só não deixe ela sumir!
A fada alta soltou um som que poderia ser uma risada ou um suspiro.
— Não será necessário o seu sino, pequeno. Mas ela precisará de um banho que nenhum mortal pode suportar sozinho.
A fada fez um gesto, e as raízes transportaram Reader para a beira de um riacho cristalino que corria escondido sob as rochas. Skitter observava, trêmulo, enquanto a fada mergulhava Reader na água gelada, sussurrando palavras em uma língua que era anterior às pedras.
Reader sentiu o choque térmico em seu transe. Parecia que mil agulhas de gelo estavam perfurando sua pele, mas logo após a dor, veio uma clareza avassaladora. O fogo em seus pulmões começou a se apagar. A pressão em sua cabeça diminuiu.
— Beba — ordenou a fada alta, aproximando uma concha feita de uma folha de lótus dos lábios de Reader.
O líquido tinha gosto de neve derretida e musgo. Ao engolir, Reader sentiu sua garganta se abrir, a inflamação desaparecendo como se nunca tivesse existido. Seus olhos se abriram bruscamente, encontrando o céu estrelado de Dartmoor através da copa das árvores.
— Onde... onde eu estou? — ela tentou se levantar, mas a fada alta a manteve no lugar com um gesto suave.
— Você está no limiar, Reader — disse a fada. — Onde a teimosia humana encontra a cura da terra.
Reader olhou para o lado e viu Skitter sentado em uma pedra, parecendo exausto, com o sino de latão nas mãos, como se estivesse pronto para entregá-lo.
— Skitter? O que aconteceu?
— Você caiu como um saco de farinha, humana tonta! — sibilou o Pixie, embora houvesse um alívio óbvio em sua voz. — Tentou ser mais forte que a febre, e quase virou adubo para os cogumelos.
Reader sentou-se lentamente, sentindo uma energia estranha percorrendo suas veias. Ela não se sentia apenas curada; sentia-se renovada, como se o riacho tivesse levado embora não apenas a doença, mas também o peso da exaustão que ela carregava há anos.
— Eu sinto muito — sussurrou ela, as lágrimas finalmente vindo, mas não de dor, e sim de alívio. — Eu não queria incomodar ninguém. Eu achei que podia dar conta...
— Esse é o seu maior pecado, Reader — disse a fada alta, sua figura começando a se dissolver na luz do luar. — Você cuida da floresta, das crianças e dos pais, mas esquece que você também é uma criatura que precisa de sol, água e descanso. Se você se quebrar, quem cuidará do que resta?
Reader baixou a cabeça, compreendendo a lição. Sua empatia incondicional precisava incluir a si mesma.
— Vá para casa agora — continuou a fada. — Skitter a guiará. E não esconda sua fragilidade dos seus. Há força em pedir ajuda, violeta.
A fada desapareceu, deixando apenas o som do riacho e o zumbido das asas de Skitter. O Pixie voou até ela e pousou em sua cabeça, puxando levemente uma mecha de cabelo.
— Vamos, teimosa. Seus pais estão na porta com lanternas, parecendo corujas assustadas.
Reader levantou-se. Suas roupas estavam secas, graças a alguma magia que ela não compreendia, e seu corpo sentia-se leve. Ela caminhou para fora da floresta, guiada pela luz da moeda de prata que Skitter agora devolvia para sua bolsa.
Ao emergir na estrada, viu as luzes das lanternas.
— Reader! — o grito do pai ecoou, carregado de angústia.
Ela correu em direção a eles, e desta vez, não fingiu que estava tudo bem. Ao chegar perto, ela se lançou nos braços do pai, soluçando.
— Papai... mamãe... eu me perdi. Eu não estava me sentindo bem e... eu sinto muito.
— Oh, minha querida — a mãe a abraçou, tocando seu rosto com as mãos trêmulas. — Você está gelada! Por que não nos disse nada? Estávamos tão preocupados!
— Eu não queria preocupar vocês — admitiu Reader, a voz agora clara e forte. — Mas eu estava errada. Eu preciso de vocês tanto quanto vocês precisam de mim.
Eles a levaram para dentro, cobrindo-a com mantas e aquecendo o resto do bolo de mel. Reader sentou-se na poltrona perto da lareira, sentindo o calor reconfortante do lar. Ela olhou para a janela e viu, por um breve segundo, o brilho de um par de olhos âmbar e o tilintar de um sino de latão.
Naquela noite, Reader aprendeu que sua "fúria protetora" também devia ser usada para proteger seu próprio bem-estar. Ela não era uma mártir; era uma mulher, uma parte viva daquele ecossistema mágico.
Nos dias que se seguiram, ela continuou a cuidar das crianças e dos animais, mas agora, quando sentia o cansaço chegar, ela parava. Ela pedia ao pai para buscar a água, ou à Sra. Gable para terminar a costura. E, para sua surpresa, a vila não desmoronou. Pelo contrário, as pessoas sentiram-se honradas em poder retribuir um pouco do cuidado que ela sempre oferecera.
Skitter continuou a visitá-la, muitas vezes trazendo frutas silvestres ou apenas para zombar de sua "lentidão humana". Mas Reader sabia que, sob as travessuras e o sarcasmo, havia um Pixie que quase abrira mão de seu tesouro mais precioso por ela.
A amizade entre a mortal e a criatura de Dartmoor tornara-se algo mais profundo: um pacto de cuidado mútuo que transcendia as leis das fadas e a lógica dos homens. Reader era a violeta da charneca, e agora ela sabia que, mesmo as flores mais fortes, precisam da chuva e da sombra para continuar a brilhar.