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A fada que se apaixonou por uma humana

O Tecido da Amizade e o Brilho do Toque

O sol daquela manhã não era apenas uma luz no céu; parecia um abraço quente que atravessava as cortinas de linho da pequena casa na orla de Dartmoor. Reader despertou antes mesmo dos pássaros, sentindo uma eletricidade suave percorrer suas veias. Não era a febre que quase a levara meses atrás, mas sim uma vitalidade transbordante, um desejo de manifestar a gratidão que florescia em seu peito como as prímulas na primavera.

Desde que fora resgatada do limiar da morte pela intervenção de Skitter e da Fada Alta, a relação de Reader com o Outro Mundo mudara. Ela não era mais apenas uma observadora ou uma protegida; ela se tornara uma ponte. Nas tardes silenciosas, ela se sentava sob o carvalho ancestral para conversar com a Fada Alta — cujo nome, descobriu ser um som que lembrava o vento nas cavernas de cristal — sobre o equilíbrio da terra e os ciclos da vida. Mas, apesar da sabedoria etérea das outras criaturas, seu coração pertencia ao pequeno Pixie de olhos de âmbar.

Skitter era constante. Ele era o zumbido irritante quando ela tentava ler, o ladrão de botões que a fazia rir e o guardião silencioso que vigiava sua janela nas noites de tempestade. Reader nunca dissera isso em voz alta — fadas têm uma forma estranha de reagir a confissões sentimentais diretas —, mas ela deixava claro em cada tigela de creme com mel e em cada olhar de carinho. Skitter era seu melhor amigo.

Naquela manhã, porém, o plano era maior. Reader queria presentear a todos.

Ela passou horas na cozinha e em seu pequeno ateliê de costura. Para os humanos da vila, ela preparou pães de ervas e pequenos bordados. Para as fadas, o desafio era maior. Ela sabia que roupas eram um tabu, um insulto à natureza livre delas. Então, ela focou no que elas amavam: beleza, utilidade orgânica e brilho.

Ao meio-dia, com a cesta carregada, ela entrou na floresta. Seu caminhar era leve, e ela não mais evitava as sombras.

— Skitter! — chamou ela, a voz vibrando com alegria. — Saia daí, eu sei que você está tentando dar um nó no meu cadarço!

O Pixie materializou-se instantaneamente, pendurado de cabeça para baixo em um galho de bétula. O sino de latão em seu pescoço tilintou alegremente.

— A violeta está saltitante hoje! — sibilou ele, observando a cesta com suspeita. — O que tem aí? Mais daquelas coisas que os humanos chamam de "presentes" e nós chamamos de "lixo brilhante"?

Reader riu e sentou-se em um tronco caído.

— Algo assim. Mas primeiro... — Ela estendeu os braços. — Posso te dar um abraço de bom dia, Skitter?

O Pixie hesitou. O contato físico entre fadas e humanos era raro e carregado de eletricidade estática. Mas Reader sempre perguntava, respeitando a natureza elusiva dele. Skitter deu uma pirueta e pousou no colo dela, permitindo que ela o envolvesse brevemente com seus braços quentes. Para Reader, o toque era essencial; ela sentia a vida pulsar através da pele áspera como casca de árvore do Pixie.

— Você é muito quente, humana — resmungou Skitter, embora não tenha se afastado imediatamente. — Parece um pão recém-saído do forno.

— E você parece um galho de carvalho no inverno — retribuiu ela, soltando-o com um beijo estalado no topo da cabeça pontuda. — Agora, veja.

Ela tirou da cesta uma série de pequenos objetos. Para as fadas menores, ela havia polido pedras de rio até que brilhassem como opalas e as prendido em fios de seda de aranha que ela mesma colhera. Para a Fada Alta, ela trouxera uma essência destilada de flores de jasmim e orvalho matinal, guardada em um frasco de vidro soprado que refletia as cores da floresta.

Skitter observava tudo com as antenas vibrando.

— Por que faz isso? — perguntou ele, a voz subitamente baixa. — Nós somos caprichosos, Reader. Podemos te morder amanhã por puro tédio.

— Porque eu amo vocês — respondeu ela, simples e direta. — E porque o mundo fica mais bonito quando compartilhamos o que temos.

Ela passou a tarde distribuindo seus mimos. Encontrou a Fada Alta perto do riacho cristalino. A criatura majestosa aceitou o frasco de essência com uma inclinação de cabeça solene.

— Você entende a gratidão de uma forma que poucos mortais compreendem, Reader — disse a Fada Alta. — Sua energia cura a floresta tanto quanto a seiva.

— Posso segurar sua mão por um momento? — pediu Reader, com os olhos brilhando de sinceridade.

A Fada Alta estendeu seus dedos longos e frios. Reader os segurou entre as suas mãos quentes, fechando os olhos. Ela sentiu a correnteza do rio, o crescimento das raízes e a sabedoria dos séculos fluindo através daquele toque. Era uma conexão sagrada.

— Obrigada por me salvar — sussurrou Reader.

— Foi o pequeno servo quem deu o primeiro passo — respondeu a fada, olhando para Skitter, que fingia estar ocupado tentando caçar uma libélula. — O amor dele por você é uma anomalia interessante em nossa espécie.

Reader sorriu e continuou sua jornada. Ela encontrou os Trolls que viviam sob a ponte de pedra e lhes deu grandes torrões de sal mineral e mel, algo que eles adoravam. Ela até mesmo deixou pequenos agrados para as fadas Unseelie — sementes de beladona e pedaços de obsidiana — mantendo uma distância segura, mas mostrando que não as temia mais.

Ao final do dia, a cesta estava quase vazia, sobrando apenas um pequeno embrulho de couro. O sol estava se pondo, criando sombras longas e douradas entre as árvores. Reader e Skitter estavam de volta ao "seu" carvalho.

— Você deu presentes para todos — observou Skitter, sentando-se em seu ombro. — Até para aqueles trolls fedorentos que tentaram comer suas botas no mês passado.

— Todo mundo merece um pouco de carinho, Skitter — Reader disse, sentindo uma paz profunda. — Mas o presente mais especial eu guardei para o final.

Ela abriu o embrulho de couro. Dentro, havia uma pequena flauta feita de um osso de pássaro antigo, esculpida com runas que Reader passara semanas estudando. Não era uma flauta comum; ela fora banhada em água de nascente e polida com óleo de sândalo.

— Para mim? — Skitter aproximou-se, as pupilas verticais dilatando-se até quase cobrirem o âmbar dos olhos.

— Para você. Para que sua música seja tão brilhante quanto suas travessuras.

Skitter pegou a flauta com mãos trêmulas. Ele tentou tocar uma nota, e o som que saiu foi tão puro que os grilos da floresta silenciaram para ouvir. O Pixie olhou para Reader, e por um momento, a máscara de malícia e sarcasmo caiu, revelando uma vulnerabilidade profunda.

— Eu... eu não tenho nada para te dar em troca — sibilou ele, parecendo subitamente pequeno. — Eu sou apenas um Pixie. Eu roubo cavalos e azedo o leite.

Reader estendeu a mão e o trouxe para perto de seu rosto, permitindo que ele se apoiasse em sua bochecha.

— Você já me deu tudo, Skitter. Você me deu sua amizade, sua proteção e sua lealdade. Você é meu melhor amigo. Não preciso de nada além disso.

O Pixie esfregou o rosto contra a pele dela, um gesto de carinho tão humano que fez o coração de Reader transbordar.

— Posso te dar um abraço de verdade agora? — sussurrou ela. — Um daqueles bem apertados?

Skitter não respondeu com palavras, mas abriu seus braços finos. Reader o envolveu com cuidado, sentindo a batida rápida do coração da criatura contra o seu. Naquele momento, não havia fada ou humana, não havia Dartmoor ou vila; havia apenas duas almas que encontraram um lar uma na outra.

— Você é muito teimosa, violeta — murmurou Skitter contra o pescoço dela. — E muito melosa.

— Eu sei — riu ela, soltando-o. — Mas você me adora assim.

— Talvez — admitiu ele, já recuperando sua postura insolente e começando a tocar uma melodia saltitante na flauta nova.

Reader levantou-se, pronta para voltar para casa. Ela sabia que seus pais a esperavam com o chá pronto, e que amanhã haveria mais lições para ensinar e mais animais para cuidar. Mas, enquanto caminhava em direção às luzes da vila, ela sentia que não caminhava sozinha.

A floresta atrás dela parecia respirar em uníssono com seus passos. As fadas que ela presenteara observavam das sombras, não com fome ou malícia, mas com uma curiosidade benevolente. Ela quebrara as regras antigas não com magia ou ferro, mas com a simplicidade do toque e a força do afeto.

Ao chegar em sua porta, ela olhou para trás uma última vez. Skitter estava sentado no topo do portão, a flauta brilhando sob o luar.

— Boa noite, Skitter! — chamou ela.

— Vá dormir, humana barulhenta! — respondeu ele, mas logo em seguida tocou uma nota longa e doce que soava exatamente como um "boa noite".

Reader entrou em casa, sentindo o calor da lareira e o cheiro do pão fresco. Ela abraçou a mãe e beijou o rosto do pai, sentindo a solidez daquele amor humano. Ela era uma pessoa de contato, de abraços e de mãos dadas, e descobrira que, mesmo no mundo das sombras e dos mistérios de Brian Froud, o toque de um coração sincero era a magia mais poderosa de todas.

E naquela noite, em Dartmoor, não houve cavalos roubados nem leite azedado. As fadas estavam ocupadas demais admirando seus presentes e ouvindo a música de um certo Pixie que, pela primeira vez em séculos, não estava tentando ser travesso, mas apenas celebrando a sorte de ter uma violeta como melhor amiga.