A fada que se apaixonou por uma humana
O Sacrifício na Penumbra e a Canção do Sangue
A primavera em Dartmoor havia se assentado com uma suavidade incomum, como se a própria natureza estivesse em trégua. O ar cheirava a trevo fresco e lã limpa. Reader, sentada em um tronco caído na orla da pastagem, observava o cenário com um sorriso que parecia iluminar seu rosto cansado, mas satisfeito. Ao seu redor, as crianças da vila corriam entre as ovelhas, cujos balidos se misturavam às risadas infantis em uma sinfonia de paz.
— E então — disse Reader, ajeitando a cesta de vime em seu colo —, o pequeno pônei percebeu que, mesmo sendo o menor da charneca, seu coração era grande o suficiente para carregar todos os sonhos da montanha.
As crianças pararam por um instante, hipnotizadas pela voz dela. Desde que recuperara a fala, a voz de Reader ganhara uma qualidade aveludada, quase mágica, que parecia acalmar até o vento. Ela adorava aqueles momentos; ser a "mãe" de todos, cuidar de cada pequeno detalhe, desde o joelho ralado de Jan até a fome súbita da pequena Elora. Seus pais estavam distantes, nas colheitas que prosperavam sob o sol, e Reader sentia que aquele era o seu propósito: ser o porto seguro para quem precisasse.
De repente, o pequeno Jan, que se afastara um pouco mais em direção à mata densa, voltou correndo. Seu rosto estava pálido e seus olhos arregalados.
— Reader! Reader! — gritou ele, tropeçando na grama alta. — Tem um lobo! Lá dentro, perto das Pedras Cinzentas. Ele está... ele está chorando. Tem sangue na pata dele!
O coração de Reader deu um salto doloroso contra as costelas. A empatia que a definia, aquela força avassaladora que a fazia esquecer de si mesma em prol do sofrimento alheio, assumiu o controle instantaneamente.
— Um lobo machucado? — Ela se levantou, a expressão de doçura sendo substituída por uma determinação firme.
— Ele parece bravo, Reader! Não vá! — pediu Elora, agarrando a saia de seu vestido.
— Escutem-me bem — disse Reader, agachando-se para ficar na altura das crianças. Sua voz era de uma autoridade calma, a "mãe-urso" despertando. — Quero que todos vocês voltem agora para a vila. Vão para a casa de seus pais. O sol já vai começar a baixar e eu não quero ninguém aqui fora.
— Mas e você? — perguntou Jan, preocupado.
— Eu fiz uma promessa, não fiz? Estarei lá para contar a história de ninar e colocá-los na cama. Agora, vão! Rápido!
Ela esperou até que a última criança desaparecesse no horizonte antes de se virar para a floresta. Reader pegou sua bolsa de suprimentos — uma bolsa que ela sempre mantinha preparada com ataduras de linho, bálsamo de confrei e ervas curativas. Ela não hesitou. Onde outros veriam um predador perigoso, Reader via apenas uma alma em agonia.
A floresta parecia mais silenciosa do que o normal à medida que ela se aproximava das Pedras Cinzentas. O cheiro de ferro e carne exposta começou a flutuar no ar úmido. Entre as raízes retorcidas de um carvalho antigo, ela o viu.
Era um lobo imenso, de pelagem cinza-escura, quase negra. Sua pata traseira estava presa em uma armadilha de ferro cruel, daquelas que os caçadores da cidade às vezes deixavam ilegalmente na charneca. O animal estava exausto, cercado por um círculo de terra batida e sangue, resultado de suas tentativas desesperadas de se libertar.
— Oh, pobre criatura... — sussurrou Reader, aproximando-se lentamente.
Ao ouvir a voz humana, o lobo reagiu por instinto puro. Ele rosnou, um som profundo que vibrou no peito de Reader, e tentou se levantar, mas a dor o derrubou novamente. Seus olhos amarelos estavam nublados pelo sofrimento e pelo terror.
— Calma... eu não vou te machucar — disse ela, mantendo a voz em um tom baixo e melódico. — Eu só quero ajudar. Por favor, deixe-me ver isso.
Ela deu mais um passo. O lobo, sentindo-se encurralado e sem entender a bondade, atacou. Com um movimento rápido, ele avançou o máximo que a corrente permitia, suas mandíbulas se fechando no antebraço de Reader.
A dor foi lancinante. Reader soltou um grito abafado, mas não recuou. Ela sentiu os dentes afiados perfurarem a carne, o sangue quente começando a manchar sua manga.
— Tudo bem... tudo bem... — ofegou ela, as lágrimas de dor escorrendo, mas seus olhos permaneciam fixos no animal com compaixão. — Eu sei que você está com medo. Eu também estaria.
Ela não puxou o braço, o que teria rasgado ainda mais a pele. Em vez disso, ela usou a outra mão para acariciar suavemente o topo da cabeça do lobo, entre as orelhas tensas. O animal, surpreso pela ausência de retaliação ou violência, afrouxou a mordida, soltando-a com um ganido confuso.
Reader olhou para o próprio braço; a ferida era profunda, o sangue jorrando ritmicamente. Ela sentiu a tontura começar a ameaçar seus sentidos, mas a ignorou. O lobo, ainda arisco, avançou novamente quando ela tentou tocar a armadilha de ferro, arranhando seu ombro e peito com as garras dianteiras. O tecido de seu vestido rasgou-se, e novas trilhas de vermelho surgiram em sua pele.
— Você pode me morder o quanto quiser — disse Reader, a voz agora embargada, mas inabalável —, eu não vou te deixar aqui para morrer.
Ela se ajoelhou na lama ensanguentada. O lobo rosnava a centímetros de seu rosto, as presas expostas, mas Reader focou toda a sua vontade na armadilha. Suas mãos, agora trêmulas e escorregadias de sangue, agarraram as mandíbulas de ferro frio. O metal queimava sua pele, uma sensação que ela conhecia das histórias sobre as fadas, mas para ela era apenas peso e resistência física.
Com um esforço que fez seus músculos gritarem e suas feridas reabrirem, ela forçou as molas da armadilha. O lobo, sentindo a pressão diminuir, parou de rosnar por um segundo.
— Só mais um pouco... — grunhiu ela, o suor frio misturando-se às lágrimas.
Com um estalo metálico, a armadilha se abriu. O lobo puxou a pata ferida, agora livre, mas estava fraco demais para fugir. Ele tombou de lado, respirando pesadamente.
Reader, quase desfalecendo, não parou. Ela abriu sua bolsa, pegando o bálsamo e as ataduras.
— Agora vamos cuidar de você — murmurou ela, as mãos manchadas de seu próprio sangue e do sangue do lobo.
Ela limpou a ferida do animal com uma paciência infinita, ignorando os espasmos de dor que percorriam seu próprio corpo. Ela enrolou o linho com firmeza na pata do lobo, sussurrando palavras de conforto que pareciam uma oração.
Quando terminou, Reader tentou se levantar, mas o mundo girou violentamente. Ela caiu sentada contra o tronco do carvalho, o braço ferido pressionado contra o peito. O silêncio da floresta voltou, pesado e expectante. O lobo, agora mais calmo, observava-a. Ele lambeu a própria pata enfaixada e depois, em um gesto que Reader nunca esqueceria, arrastou-se até ela e apoiou a cabeça pesada em seu colo ensanguentado.
— Você é um bom menino... — sussurrou ela, fechando os olhos enquanto a consciência começava a escapar.
— Violeta tonta! Violeta sangrenta! — O grito agudo de Skitter ecoou de cima.
O Pixie desceu como um raio, pousando no ombro ileso de Reader. Seus olhos de âmbar estavam arregalados de horror ao ver o estado dela.
— O que você fez?! — sibilou ele, as antenas tremendo de pânico. — Você deu seu sangue para uma fera? Você está se esvaindo na terra!
— Ele... ele precisava de ajuda, Skitter — murmurou ela, a voz quase inaudível. — Cuide dele... se eu não acordar...
— Você vai acordar! — gritou o Pixie, tocando o sino de latão com uma força desesperada. — Eu não deixei você voltar do Parlour para virar comida de árvore agora!
Skitter olhou para o lobo, que rosnou baixo para o Pixie, protegendo a mulher que o salvara.
— E você, cachorro grande! — sibilou Skitter. — Se ela morrer, eu vou transformar seus pelos em agulhas! Fique aqui! Não deixe as sombras se aproximarem!
O Pixie desapareceu em um borrão verde, voando em direção à clareira da Raiz-Mãe. Ele sabia que a magia que curara a febre de Reader não seria suficiente para fechar feridas de carne tão profundas; ele precisava de algo mais, algo que as fadas raramente davam aos mortais: a essência da própria vida da floresta.
Enquanto isso, Reader mergulhava em um sonho rubro. Ela via as crianças da vila esperando por ela, via sua mãe preparando a mesa e seu pai olhando para a trilha. A culpa de não poder cumprir sua promessa doía mais do que os cortes em sua pele.
Nas sombras, vultos da Corte Unseelie começaram a se aproximar, atraídos pelo cheiro doce e potente do sacrifício de Reader. Elas eram pontudas, com asas de pergaminho e olhos de fome.
— Carne de protetora... — sibilou uma delas, deslizando pelo chão. — Sangue que cura... vamos beber até que a luz se apague.
O lobo, apesar da pata ferida, ergueu-se sobre Reader. Ele soltou um uivo que não era apenas um som animal, mas um desafio que ecoou por toda Dartmoor. Seus dentes brilharam sob a luz da lua que começava a surgir, e ele se colocou entre as sombras e a mulher desfalecida.
— Atrás, sombras! — a voz da Fada Alta ressoou, poderosa e antiga.
Ela surgiu da névoa, acompanhada por um Skitter frenético. A Fada Alta olhou para Reader, para o lobo e para a armadilha de ferro descartada.
— Ela deu a si mesma sem reservas — disse a Fada Alta, a voz cheia de um respeito solene. — Ela não usou magia, nem barganhas. Usou apenas o que os humanos têm de mais perigoso e belo: o sacrifício.
A fada aproximou-se e colocou a mão sobre as feridas de Reader. Uma luz pálida, da cor do musgo sob o luar, começou a emanar de seus dedos. O sangue parou de fluir, e as feridas profundas começaram a se fechar, deixando apenas cicatrizes finas e prateadas.
— Ela viverá — declarou a fada. — Mas a marca deste dia ficará nela. Ela agora cheira a matilha e a ferro.
Skitter pousou no nariz de Reader, cutucando-a.
— Acorda, violeta! O lobo já parou de te morder e a floresta está cheia de gente te procurando!
Reader abriu os olhos lentamente. A dor aguda havia sumido, substituída por uma fraqueza profunda, mas estável. Ela viu a Fada Alta, viu Skitter e, finalmente, viu o lobo, que ainda estava ao seu lado, vigilante.
— Você está bem? — perguntou ela ao animal, a primeira preocupação ainda sendo o outro.
O lobo soltou um suspiro nasal e lambeu o rosto dela, um gesto de lealdade eterna.
— Ele ficará bem, Reader — disse a Fada Alta. — E ele não é um lobo comum. Você salvou um dos guardiões das trilhas antigas. Ele não esquecerá.
— Eu preciso... as crianças... — Reader tentou se levantar, a lembrança de sua promessa voltando com força.
— Skitter já levou mensagens — mentiu o Pixie, embora na verdade ele tivesse apenas pregado peças nos aldeões para atrasá-los. — Vá, humana teimosa. O lobo vai te ajudar a caminhar.
Com a ajuda do lobo, que serviu de apoio para que ela se apoiasse, Reader caminhou lentamente para fora da floresta. O animal a acompanhou até o limite onde as luzes das lanternas da vila podiam ser vistas. Ele parou ali, nas sombras, soltando um último uivo baixo antes de desaparecer na escuridão.
Quando Reader entrou na vila, coberta de sujeira e com o vestido em farrapos, as crianças correram ao seu encontro.
— Reader! Você voltou! — gritou Jan, abraçando suas pernas.
— Eu prometi, não prometi? — disse ela, a voz fraca, mas carregada de um amor infinito.
Naquela noite, apesar da exaustão, Reader cumpriu sua palavra. Ela sentou-se ao lado de cada cama, contou as histórias e beijou cada testa. Quando finalmente voltou para sua própria casa, seus pais a receberam com lágrimas e caldos quentes, sem fazer perguntas sobre as cicatrizes prateadas que agora marcavam seus braços. Eles sabiam que a filha pertencia a algo maior do que apenas aquela casa.
Reader deitou-se em sua cama, sentindo o peso da bolsa de moedas e a lembrança do toque do lobo. Ela olhou para a janela e viu Skitter sentado no parapeito, polindo seu sino de latão.
— Você quase morreu de novo — disse o Pixie, sem olhar para ela.
— Mas eu não morri — respondeu Reader, fechando os olhos. — E ele está livre.
— Humanos... — resmungou Skitter, mas ele começou a tocar uma melodia suave na flauta de osso, uma canção que falava de lobos, de violetas e de um tipo de coragem que nem mesmo as fadas conseguiam entender completamente.
Reader adormeceu com um sorriso. Ela era a "mãe-urso", a protetora da primavera, e agora, a irmã dos lobos. E em Dartmoor, o silêncio da noite era um testemunho de que, enquanto houvesse alguém disposto a sangrar pelos indefesos, a magia do mundo nunca morreria.