a familia perfeita
O Eco das Promessas de Plástico e o Gosto do Sangue
A luz da manhã seguinte na Franklin Avenue era de um branco cirúrgico, daquelas que expõem cada imperfeição, cada mancha de café e cada grama de arrependimento. Nikki Sixx entrou em casa por volta das nove horas. O Corvette rangia na garagem, o motor estalando enquanto esfriava. Ele cheirava a fumaça de cigarro de boate, perfume barato de alguma groupie que ele mal lembrava o nome e aquele odor metálico característico de quem passou a noite em claro abusando de tudo o que o corpo podia aguentar.
Em seus braços, ele carregava uma caixa enorme, embrulhada em um papel brilhante e chamativo. Era o maior conjunto de trens elétricos que a loja de brinquedos da Sunset Boulevard tinha em estoque. Para Nikki, aquele pedaço de papelão e plástico era um talismã, um escudo que ele usava para não ter que olhar nos olhos do próprio filho e admitir que era um monstro.
Ele atravessou a sala, onde o cheiro de uísque seco ainda pairava como um fantasma. Sharise estava na cozinha, de costas, preparando um café forte. O som da colher batendo na porcelana era o único ruído na casa.
— Eu trouxe para ele — disse Nikki, a voz rouca, jogando a caixa sobre a mesa de jantar com um baque surdo.
Sharise não se virou de imediato. Ela apertou a alça da caneca com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Quando finalmente se voltou para ele, seus olhos estavam fundos, cercados por olheiras que nem a melhor maquiagem de Los Angeles poderia esconder.
— Um trem, Nikki? — perguntou ela, a voz desprovida de qualquer emoção. — Você acha que um motor de plástico vai apagar as marcas nas pernas dele?
— Não comece, Sharise — rosnou ele, passando a mão pelo cabelo embaraçado. — Eu tive uma noite de merda. Estou tentando consertar as coisas. Cadê o garoto?
— Ele está lá em cima. Ele não quis descer para o café. Disse que estava com dor.
Nikki sentiu uma pontada de culpa, mas a enterrou rapidamente sob uma camada de irritação. Ele odiava se sentir o vilão da sua própria história. Em sua mente, ele era o herói trágico, o poeta incompreendido que lutava contra o mundo.
— Kelly! — gritou Nikki, sua voz ecoando pela escadaria. — Desce aqui agora! O papai trouxe um presente!
Houve um longo silêncio. Sharise observava o marido com uma mistura de pena e asco. Ela sabia que Kelly estava escondido debaixo das cobertas, prendendo a respiração.
— Nikki, não grite. Você vai assustá-lo ainda mais — pediu ela, mas ele já estava subindo os degraus dois a dois, impulsionado por uma energia nervosa e química.
Ele escancarou a porta do quarto do filho. Kelly deu um pulo na cama, os olhos arregalados, as mãos agarrando o lençol até o queixo. O medo no rosto da criança era tão palpável que até Nikki, em seu estado entorpecido, hesitou por um segundo.
— Ei, campeão — disse Nikki, tentando suavizar a voz, o que resultou em um tom estranhamente sinistro. — Por que essa cara? Olha o que eu trouxe para você. É o trem que você queria. Aquele com as luzes que acendem de verdade.
Kelly não se mexeu. Ele olhava para a mão de Nikki, a mesma mão que segurara o cinto na tarde anterior.
— Vem cá, garoto. Vamos montar lá embaixo — insistiu Nikki, aproximando-se da cama.
— Eu não quero, papai — sussurrou Kelly, a voz trêmula. — Minhas costas doem.
O rosto de Nikki escureceu. A rejeição era algo que ele não lidava bem, fosse de uma gravadora ou de um filho de seis anos.
— Deixa de ser sensível, Kelly. Eu gastei uma fortuna nessa porra. Levanta dessa cama agora.
Sharise apareceu na porta, o rosto pálido.
— Nikki, deixe-o em paz. Ele não está bem.
— Ele está ótimo! — gritou Nikki, voltando-se para ela. — Ele só está tentando me fazer sentir mal. Ele é igual a você, Sharise, usa a culpa como arma!
Ele voltou sua atenção para Kelly e, em um movimento brusco, puxou o lençol da cama. O menino soltou um grito curto e tentou se encolher, mas Nikki o pegou pelo braço.
— Vamos. Agora.
Ele praticamente arrastou o filho escada abaixo. Kelly chorava silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto tentava acompanhar os passos largos do pai. Na sala, Nikki rasgou o papel de embrulho com uma fúria contida, espalhando pedaços coloridos pelo chão.
— Olha só — disse Nikki, tirando as peças da caixa. — Monta isso. Eu quero ver funcionando.
Kelly ajoelhou-se no tapete, as mãos pequenas tremendo enquanto tentava encaixar os trilhos de plástico. Ele estava tão nervoso que as peças não se conectavam. O plástico rangia, e o menino sentia o olhar de Nikki queimando no topo de sua cabeça.
— Não é assim, seu estúpido — disse Nikki, perdendo a paciência. — Você tem que alinhar os pinos. Assim!
Ele se abaixou e empurrou a mão de Kelly para o lado, conectando os trilhos com um estalo violento. Kelly recuou, tropeçando nos próprios pés e caindo para trás.
— Desculpa, papai... desculpa — soluçou o menino, protegendo o rosto com os braços, esperando o golpe que ele tinha certeza que viria.
Nikki parou. Ele viu o filho encolhido no chão, em posição fetal, tratando-o como se ele fosse um carrasco. A imagem de si mesmo, refletida no terror de Kelly, era insuportável.
— Por que você faz isso? — perguntou Nikki, a voz subindo de tom até se tornar um grito. — Por que você me olha assim? Eu te dei a porra do trem! Eu te dei tudo! Por que você age como se eu fosse te matar?
— Porque você bate em mim! — gritou Kelly de volta, uma coragem desesperada surgindo do fundo de sua dor. — Você dói, papai! Você sempre dói!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sharise, parada no pé da escada, levou as mãos à boca. Nikki ficou imóvel, a peça do trem ainda na mão. Por um momento, as defesas de astro do rock caíram. Ele não era Nikki Sixx ali; ele era apenas Frank Feranna, o garoto abandonado que agora estava repetindo o ciclo com uma precisão cirúrgica.
Mas a epifania durou pouco. A droga em seu sistema transformou a vergonha em uma raiva defensiva e cega.
— Se eu bato em você, é porque você merece! — gritou Nikki, chutando a locomotiva de plástico. O brinquedo voou pela sala, estraçalhando-se contra a lareira de mármore. — Você é um fardo, Kelly! Você e sua mãe são um peso morto que eu tenho que carregar!
— Nikki, chega! — Sharise correu para o filho, abraçando-o contra o peito. — Vá embora! Saia desta casa antes que você faça algo de que não possa voltar!
— Esta é a MINHA casa! — berrou Nikki, as veias de seu pescoço saltando. — Eu comprei cada tijolo desta merda com o meu sangue! Se vocês não gostam do jeito que eu governo este lugar, saiam vocês!
Ele caminhou até a mesa de centro, pegou o espelho que já estava preparado com três linhas grossas de cocaína e as aspirou em sucessão rápida. O impacto químico foi imediato, um choque de eletricidade que fritou qualquer resquício de humanidade que ainda restava em seus olhos.
— Eu vou para o estúdio — disse ele, a voz agora fria e metálica, os olhos vidrados. — E quando eu voltar, eu quero esta sala limpa. E não quero ouvir um pio de nenhum de vocês.
Ele pegou sua jaqueta e saiu, batendo a porta da frente com tanta força que um dos quadros na parede se inclinou.
Sharise continuou no chão, embalando Kelly. O menino soluçava contra o ombro dela, o corpo tremendo tanto que ela temia que ele pudesse ter uma convulsão.
— Vai ficar tudo bem, meu amor — sussurrou ela, embora soubesse que era a maior mentira de sua vida. — A mamãe está aqui.
— Eu odeio ele, mamãe — disse Kelly, a voz abafada pelo tecido da blusa de Sharise. — Eu odeio o papai.
Aquelas palavras perfuraram o coração de Sharise de uma forma que os tapas de Nikki nunca conseguiram. Ela olhou para os destroços do trem elétrico espalhados pelo chão. O presente de cem dólares agora era apenas lixo, assim como as promessas de Nikki, assim como o casamento deles.
Ela sabia o que precisava fazer. Precisava pegar Kelly, pegar algumas roupas e fugir para a casa de uma amiga ou para um hotel. Mas, enquanto olhava para a opulência da mansão, para as fotos de Nikki nas capas de revistas espalhadas pela mesa, a paralisia do medo e da dependência a atingiu. Para onde ela iria? Quem acreditaria nela contra o grande Nikki Sixx? E, pior de tudo, uma parte doentia de sua alma ainda esperava que o Nikki que escrevia baladas românticas voltasse para salvá-la do Nikki que usava o cinto.
Horas depois, Nikki estava no estúdio com os outros membros do Mötley Crüe. O som era ensurdecedor, as paredes vibrando com o peso do baixo. Tommy Lee ria de alguma piada obscena, enquanto Mick Mars permanecia em seu canto sombrio, afinando a guitarra.
— Você parece um lixo, Sixx — comentou Tommy, batendo as baquetas uma na outra. — Outra noite de festa pesada?
— Problemas em casa — resmungou Nikki, ajustando a correia do baixo. — O garoto está me dando nos nervos. Sharise não sabe controlar ele.
— Ele é só uma criança, cara — disse Mick, sem levantar os olhos. — Eles fazem barulho. É o que eles fazem.
— Não no meu tempo — retrucou Nikki, os dedos voando pelas cordas. — No meu tempo, a gente aprendia a calar a boca ou levava um soco na cara.
Ele tocou uma nota tão grave e distorcida que o som pareceu um lamento fúnebre. Naquele momento, cercado por amplificadores e adulação, ele se sentia o rei do mundo. Mas, no fundo de sua mente, a imagem de Kelly se encolhendo no chão da sala recusava-se a desaparecer.
Ele tentou afogar a imagem com mais droga, mais volume, mais atitude. Mas a música, que sempre fora sua salvação, hoje parecia vazia. Cada batida do bumbo de Tommy lembrava o som do cinto batendo na pele. Cada grito de Vince Neil lembrava os soluços de Kelly.
Quando o ensaio terminou, Nikki estava exausto e em frangalhos. Ele não queria voltar para casa, mas não tinha para onde ir. Ele era o dono de Los Angeles, mas não tinha um único lugar onde pudesse se esconder de si mesmo.
Ele parou em um bar de beira de estrada e bebeu até que o mundo ficasse turvo. Quando finalmente estacionou o Corvette na Franklin Avenue, já passava da meia-noite. A casa estava na mais completa escuridão.
Ele entrou tropeçando, os pés chutando as peças do trem elétrico que Sharise ainda não tivera coragem de limpar. Ele subiu as escadas, apoiando-se no corrimão.
Ao passar pelo quarto de Kelly, ele viu a porta entreaberta. Uma luz fraca vinha de dentro.
Nikki parou e espiou. Sharise estava deitada na cama pequena com o filho. Ambos dormiam, mas Kelly estava abraçado a um urso de pelúcia, e sua mão pequena segurava a mão da mãe como se fosse uma âncora em um mar revolto.
Nikki sentiu uma onda de solidão tão profunda que quase o fez cair. Ele era o estranho naquela casa. Ele era o intruso. O homem que provia tudo, mas que não possuía nada do que realmente importava.
Ele caminhou até o seu próprio quarto e caiu na cama, sem tirar as roupas. O teto parecia girar acima dele.
— Eu vou mudar — sussurrou ele para o escuro. — Amanhã vai ser diferente.
Mas ele sabia, e as paredes daquela mansão sabiam, que o amanhã traria apenas mais do mesmo. Mais pó, mais gritos, mais desculpas de plástico. Porque Nikki Sixx estava em guerra consigo mesmo, e em uma guerra onde o campo de batalha é o próprio coração, não há sobreviventes, apenas baixas. E Kelly, com seus seis anos de idade e seus olhos cheios de terror, era a maior baixa de todas.
O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo som de um trem de brinquedo que, por algum defeito no impacto, começou a apitar sozinho no andar de baixo. Um som mecânico, repetitivo e solitário, que ninguém se deu ao trabalho de ir desligar.