a familia perfeita
O Eco de um Pai de Vidro
O ar de Los Angeles não havia mudado em dez anos; ainda tinha aquele gosto de asfalto quente, maresia distante e promessas queimadas. Para Nikki Sixx, no entanto, cada inspiração parecia diferente. Seus pulmões não ardiam mais com a química corrosiva da heroína, e seu sangue, outrora um coquetel de autodestruição, agora corria limpo, embora pesado com o fardo da memória.
Ele estacionou o carro a uma quadra de distância da casa de Sharise. Não era a mansão da Franklin Avenue — aquela havia sido vendida no divórcio, junto com os cacos da porcelana e os restos de um casamento que nunca teve chance de sobreviver à turnê de *Girls, Girls, Girls*. Esta era uma casa menor, suburbana, cercada por cercas brancas que pareciam zombar do homem de preto que agora caminhava pela calçada.
Nikki parou diante do portão. Suas mãos, as mesmas que haviam empunhado cintos e destruído brinquedos em surtos de paranoia, tremiam. Mas não era a tremedeira da abstinência. Era o medo. O terror puro de um homem que enfrentou a morte em uma overdose clínica, mas que não sabia se conseguiria enfrentar o olhar de um garoto de dezesseis anos.
Ele tocou a campainha. O som ecoou, trazendo de volta o tilintar daquele dragão de porcelana quebrando dez anos atrás.
A porta se abriu. Sharise estava lá. O tempo tinha sido gentil com ela, ou talvez a ausência de Nikki tivesse removido o peso que a envelhecia precocemente. Seus olhos se arregalaram, e por um momento, o silêncio entre eles foi preenchido por todos os gritos que nunca foram pedidos em desculpas.
— Nikki. — O nome dele saiu como um suspiro, não de saudade, mas de incredulidade.
— Oi, Sharise. — Ele ajeitou os óculos escuros, querendo se esconder, mas sabendo que não podia mais. — Eu... eu liguei. Eu disse que viria.
— Eu não achei que você teria coragem — disse ela, cruzando os braços. — Foram anos, Nikki. Anos de reabilitação, anos de silêncio. O Kelly... ele não é mais aquela criança que você deixou para trás.
— Eu sei. Eu não espero que ele me perdoe. Só preciso que ele saiba que eu estou sóbrio. Que eu não sou mais aquele animal.
Sharise hesitou, olhando para dentro da casa. Ela ainda tinha aquela centelha de proteção no olhar, a mesma que usava para esconder Kelly no quarto enquanto Nikki quebrava a mobília.
— Ele está na garagem. Está mexendo em um carro velho que comprou. — Ela deu um passo para o lado, permitindo que ele entrasse. — Não o pressione, Nikki. Se ele pedir para você ir embora, você vai. Sem escândalos. Sem o show do Mötley Crüe.
Nikki assentiu, a garganta seca. Ele caminhou pelo corredor, notando as fotos nas paredes. Kelly na escola, Kelly jogando beisebol, Kelly rindo. Em nenhuma delas havia a sombra de Nikki Sixx. Ele era um fantasma apagado da história oficial daquela família.
O som de metal batendo contra metal vinha da garagem. Nikki abriu a porta lateral e parou na soleira.
Lá estava ele. Kelly tinha dezesseis anos agora. Era alto, magro, com o cabelo escuro caindo sobre os olhos de uma forma que lembrava dolorosamente o próprio Nikki na juventude. Ele estava debruçado sobre o motor de um Mustang antigo, as mãos sujas de graxa, vestindo uma camiseta gasta de uma banda de punk rock que Nikki respeitava.
Nikki sentiu um soco no estômago. Aquele não era o menino que se encolhia no sofá. Era um homem em formação.
— Kelly? — A voz de Nikki falhou, saindo mais baixa do que pretendia.
O rapaz parou o que estava fazendo. Ele não se virou imediatamente. Seus ombros ficaram tensos, uma reação instintiva que Nikki reconheceu com uma pontada de culpa: a memória muscular do medo.
Kelly largou a chave inglesa e virou-se lentamente. Seus olhos eram os de Sharise, mas a mandíbula era a de Nikki. Ele limpou as mãos em um pano sujo, observando o homem à sua frente como se estivesse analisando um espécime estranho.
— Você veio mesmo — disse Kelly. Sua voz era profunda, sem o tremor que Nikki lembrava.
— Eu disse que viria. — Nikki deu um passo à frente, mas parou quando viu Kelly recuar imperceptivelmente. — Eu... eu gosto do carro. É um '67?
Kelly deu um sorriso de lado, mas não havia alegria nele. Era um sorriso cínico, amargo.
— É. Eu mesmo estou consertando. É mais fácil consertar metal do que pessoas, não é? Pelo menos o metal não grita quando você bate nele.
As palavras foram como chicotadas. Nikki baixou a cabeça, sentindo o peso de cada dia que passou em clínicas de desintoxicação tentando apagar o homem que Kelly descrevia.
— Eu sinto muito, Kelly. Por tudo. Pelo cinto, pelos gritos, pela garrafa de uísque... por ter deixado você com medo debaixo das cobertas.
Kelly soltou uma risada curta e seca, jogando o pano sobre a bancada.
— Você sente muito? Legal, pai. Isso resolve os pesadelos que eu tive até os doze anos? Isso limpa a memória da minha mãe chorando no banheiro porque você a usava como saco de pancadas emocional depois de me bater?
— Eu estava doente — tentou justificar Nikki, embora soubesse que soava como uma desculpa barata. — A droga... ela transformou minha cabeça em um lugar escuro. Eu não via você. Eu via meus próprios demônios.
— E você achou que era justo me fazer carregar eles para você? — Kelly se aproximou, a altura agora quase igual à de Nikki. — Eu era uma criança. Eu só queria que você brincasse comigo. Eu quebrei aquele dragão de porcelana porque queria sua atenção, e você me deu... do jeito mais doloroso possível.
Nikki tirou os óculos, revelando os olhos cansados e marejados. Ele não era o Rockstar de couro e tachas agora. Era apenas um pai falho buscando uma redenção que talvez não merecesse.
— Eu passei os últimos anos tentando me tornar alguém que pudesse olhar para você sem querer morrer de vergonha — disse Nikki, a voz embargada. — Eu não espero que você me chame de pai. Eu não espero que você me ame. Eu só queria que você visse que eu mudei. Que o monstro morreu.
Kelly cruzou os braços, observando o homem à sua frente. Ele viu as cicatrizes nos braços de Nikki, os vestígios de uma vida de guerra.
— O monstro nunca morre, Nikki. A gente só aprende a trancar ele em uma jaula — disse Kelly com uma maturidade que partiu o coração de Nikki. — Eu passei anos odiando você. Odiando seu nome nas revistas, odiando suas músicas no rádio. Eu quebrei todos os discos do Mötley Crüe que a minha mãe guardou.
— Você tinha todo o direito — admitiu Nikki.
— Eu sei que tinha. — Kelly suspirou, o fogo da raiva parecendo diminuir para uma brasa de cansaço. — Mas a minha mãe diz que você está limpo agora. Que você está ajudando outras pessoas.
— Estou tentando. É um dia de cada vez, Kelly. Literalmente.
Houve um silêncio longo, preenchido apenas pelo som dos carros passando na rua lá fora. Kelly olhou para o motor do Mustang e depois de volta para Nikki.
— Você sabe mexer em carburadores? — perguntou o rapaz, a voz um pouco menos áspera.
Nikki piscou, surpreso com a mudança súbita.
— Eu... eu costumava saber. Faz tempo, mas acho que ainda lembro de algumas coisas.
— O ponto está horrível. Eu tento ajustar, mas parece que ele quer engasgar toda vez que eu acelero. — Kelly apontou para o motor aberto.
Nikki aproximou-se cautelosamente. Ele sentiu o cheiro de óleo e gasolina, um cheiro honesto, muito diferente do incenso e dos químicos da Franklin Avenue. Ele se inclinou sobre o motor, suas mãos tatuadas movendo-se com hesitação perto das de Kelly.
— Pode ser a entrada de ar — sugeriu Nikki, tocando em uma peça. — Se estiver entrando demais, ele engasga.
— Eu já tentei apertar o parafuso de mistura, mas não adiantou — disse Kelly, entregando uma chave de fenda para o pai.
Nikki pegou a ferramenta. Por um momento, seus dedos se tocaram. Kelly não recuou. Foi um contato breve, frio, mas foi o primeiro contato não violento que eles tiveram em uma década.
— Tenta agora — instruiu Nikki, ajustando o parafuso milimetricamente.
Kelly entrou no carro e girou a chave. O motor tossiu, rugiu e finalmente estabilizou em um ronco rítmico e potente. O rapaz acelerou levemente, e o som preencheu a garagem.
— Ficou melhor — admitiu Kelly, desligando o carro e saindo. Ele olhou para o pai, e pela primeira vez, havia algo além de ódio em seus olhos. Havia uma curiosidade cautelosa. — Você quer ficar para o jantar? A minha mãe fez lasanha.
Nikki sentiu um nó na garganta. Ele sabia que aquele convite não era um perdão total. Era apenas um cessar-fogo. Uma chance de começar a construir algo sobre as ruínas do que ele mesmo havia destruído.
— Eu adoraria, Kelly. Se você tiver certeza de que não se importa.
— Eu me importo — disse o jovem, guardando as ferramentas. — Mas eu estou cansado de carregar essa raiva. Ela pesa demais. E... eu queria saber quem você é quando não está chapado.
Nikki assentiu, limpando uma lágrima solitária que escapou.
— Eu também estou tentando descobrir isso, garoto.
Eles caminharam juntos para dentro de casa. Sharise os observava da cozinha, uma expressão de alívio e temor em seu rosto. A mesa estava posta. Não havia dragões de porcelana por perto, nem garrafas de uísque. Havia apenas o som dos talheres e o início hesitante de uma conversa sobre música e carros.
Nikki Sixx sabia que o caminho para a redenção era longo e que as cicatrizes nas costas e na alma de Kelly talvez nunca desaparecessem completamente. Mas, naquela noite, enquanto ele passava o sal para o filho que ele quase destruiu, ele sentiu que, pela primeira vez em sua vida, estava realmente ganhando uma batalha.
— Pai? — chamou Kelly, enquanto servia a comida.
Nikki parou, o coração disparando ao ouvir a palavra.
— Sim?
— Não estraga tudo dessa vez. Por favor.
Nikki olhou para o filho, para o homem que ele estava se tornando apesar de tudo o que ele, Nikki, havia feito.
— Eu vou dar a minha vida para que isso não aconteça, Kelly. Eu prometo.
E, pela primeira vez em dez anos, a promessa de Nikki Sixx não cheirava a plástico ou a mentiras. Cheirava a óleo de motor e a uma esperança frágil, mas real, de que o ciclo de dor finalmente havia encontrado o seu fim.