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a familia perfeita

O Labirinto de Espelhos da Franklin Avenue

A fumaça do cigarro de Nikki Sixx subia em espirais preguiçosas, misturando-se à penumbra da sala de estar que, anos depois, ainda guardava o eco de fantasmas que ele tentava silenciar. Ele estava sóbrio — ou o mais próximo disso que sua mente agitada permitia naqueles dias de 1993. A casa estava silenciosa, um silêncio que ele aprendera a apreciar, mas que naquela tarde parecia carregado de uma estática elétrica.

Kelly, agora com dezesseis anos, entrou pela porta da frente com um peso nos ombros que não vinha da mochila de escola. O garoto, que crescera sob a sombra de um gigante problemático, tinha os olhos de Nikki, mas carregava neles uma melancolia que o pai reconhecia bem demais. Ao lado dele, uma garota loira, de aparência frágil e olhos avermelhados de quem havia chorado por horas, segurava sua mão como se fosse uma tábua de salvação.

Nikki apagou o cigarro no cinzeiro de cristal e endireitou o corpo no sofá de couro. Ele sentiu um aperto familiar no peito, uma premonição de que o caos, seu velho amigo, batera à porta novamente.

— Pai... — Kelly começou, a voz falhando, o tom mais agudo do que o normal. — Precisamos conversar. Esta é a Chloe.

Nikki observou a garota. Ela usava um casaco largo demais para o seu tamanho, mas, quando se mexeu desconfortavelmente, o tecido se moldou a uma saliência sutil, porém inegável, em seu ventre. O mundo de Nikki girou. Por um segundo, ele não viu a sala luxuosa; ele viu o próprio reflexo distorcido em uma colher de prata, viu os erros do passado desfilando diante de seus olhos como um filme de terror em câmera lenta.

— Entrem — disse Nikki, sua voz saindo mais rouca do que pretendia. — Sentem-se.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Sharise apareceu no topo da escada, observando a cena com uma expressão de pavor. Ela desceu os degraus lentamente, sentindo o cheiro de tempestade no ar.

— O que está acontecendo, Kelly? — perguntou ela, aproximando-se da garota e notando, com o instinto de mãe, o que Nikki acabara de processar.

Kelly olhou para Chloe e depois para os pais. Ele parecia subitamente muito menor do que seus quase um metro e oitenta de altura.

— A Chloe está grávida — disparou o rapaz, as palavras saindo como um vômito necessário. — Eu vou ser pai.

O impacto daquelas palavras atingiu Nikki como um soco no estômago. Ele sentiu a raiva começar a borbulhar, aquela velha chama negra que costumava resultar em móveis quebrados e gritos que faziam as paredes tremerem. Ele olhou para Kelly e viu a si mesmo: o mesmo ciclo, a mesma precocidade destrutiva, a mesma falta de controle.

— Você tem dezesseis anos, Kelly! — Nikki explodiu, levantando-se de um salto. — Dezesseis anos! Você mal sabe limpar a própria bunda e agora vai colocar uma criança no mundo?

— Nikki, acalme-se! — Sharise interveio, colocando-se entre o marido e o filho, temendo que a violência física de anos atrás retornasse como um fantasma vingativo.

— Me acalmar? — Nikki riu, um som seco e sem humor, enquanto caminhava de um lado para o outro, as botas pesadas batendo no chão. — Olhe para ele, Sharise! Ele está repetindo cada merda de erro que eu cometi! Eu queria que ele fosse melhor que eu, e ele decide ser um pai adolescente?

— Eu não decidi nada! — gritou Kelly, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. — Aconteceu! E eu não vou fugir como o seu pai fez com você! Eu vou ficar!

O nome de Frank Feranna Senior flutuou no ar como uma maldição. Nikki parou de caminhar. A menção ao abandono de seu próprio pai era o gatilho definitivo. Ele se aproximou de Kelly, o rosto a centímetros do dele, os olhos injetados.

— Você acha que é fácil? — sibilou Nikki. — Você acha que ser pai é apenas "ficar"? Você é uma criança, Kelly! Você vive sob o meu teto, gasta o meu dinheiro e agora quer brincar de casinha com essa garota?

— Eu não estou brincando! — Kelly rebateu, embora estivesse tremendo. — Eu amo a Chloe. E eu vou cuidar desse bebê, mesmo que você não ajude.

Nikki sentiu a mão coçar. A vontade de desferir um tapa, de calar aquela insolência que o lembrava tanto de sua própria rebeldia, era quase insuportável. Ele viu o medo nos olhos de Chloe e o desafio nos olhos de Kelly. Ele viu o ciclo se fechando.

— Saia — disse Nikki, a voz subitamente baixa e perigosa.

— O quê? — perguntou Kelly, atônito.

— Leve ela para casa e saia da minha frente antes que eu faça algo de que me arrependa — ordenou Nikki, apontando para a porta. — Eu não quero ver você agora. Eu não quero ouvir sobre bebês, sobre amor ou sobre o seu futuro jogado no lixo.

— Nikki, não faça isso — implorou Sharise, segurando o braço dele. — Ele precisa de nós.

— Ele precisa aprender que ações têm consequências! — gritou Nikki, soltando-se dela com um movimento brusco. — Vá embora, Kelly! Agora!

Kelly pegou a mão de Chloe, que soluçava baixinho, e caminhou em direção à porta com os ombros rígidos. Antes de sair, ele parou e olhou para trás, um olhar carregado de um desprezo que Nikki sentiu queimar até os ossos.

— Você fala de erros, pai — disse Kelly com uma calma gélida —, mas o maior erro desta casa sempre foi você. Eu prefiro ser um pai pobre aos dezesseis do que ser um monstro rico como você.

A porta bateu com um estrondo que pareceu sacudir as fundações da mansão.

Nikki ficou parado no centro da sala. O silêncio voltou, mas agora era um silêncio hostil. Sharise o olhava com uma expressão que misturava decepção e cansaço absoluto.

— Você o expulsou — disse ela, a voz sem vida. — No momento em que ele mais precisava de um pai, você agiu como o Nikki Sixx das revistas. Parabéns.

— Eu não o expulsei, eu mandei ele sair da minha frente! — Nikki rebateu, sentindo a culpa subir pela garganta como bile. — Você viu o que ele fez, Sharise? Ele destruiu a vida dele!

— Ele está assustado, Nikki. E você o apavorou ainda mais. Você não mudou nada, não é? A sobriedade é apenas uma capa para o mesmo homem violento de sempre.

Sharise subiu as escadas, deixando Nikki sozinho com seus demônios.

Ele caminhou até o bar, a mão hesitando sobre uma garrafa de Jack Daniel's que ele mantinha ali para as visitas. O desejo de beber, de apagar a imagem de Kelly e as palavras cortantes do filho, era uma garra em sua nuca. Ele pegou a garrafa, sentindo o peso do vidro.

— Merda — sussurrou ele, jogando a garrafa contra a lareira.

O som do vidro quebrando trouxe de volta a memória de Kelly aos seis anos, o uísque derramado, o cinto de couro. Nikki desabou na poltrona, cobrindo o rosto com as mãos. Ele era um milionário, um ídolo, o arquiteto do Mötley Crüe, mas ali, naquela sala sombria, ele se sentia o maior fracasso da história da humanidade.

As horas passaram. A noite caiu sobre a Franklin Avenue, trazendo consigo o frio do deserto. Nikki não se mexeu. Ele pensava em Chloe, na criança que crescia nela, e em Kelly, que agora vagava por aí com o peso do mundo nas costas.

Ele se levantou, pegou as chaves do carro e saiu. Ele dirigiu sem rumo por Sunset Strip, vendo as luzes de neon, os jovens que viviam a vida que ele ajudara a glamourizar. Ele parou em frente a um prédio de apartamentos simples em West Hollywood, onde sabia que a mãe de Chloe morava.

O Corvette preto parecia um tubarão fora d'água naquela vizinhança. Nikki desceu, a jaqueta de couro brilhando sob os postes de luz. Ele subiu as escadas e bateu na porta do apartamento 3B.

Kelly abriu a porta. Seus olhos estavam inchados, e ele parecia exausto. Ao ver o pai, ele tentou fechar a porta, mas Nikki colocou a bota no vão.

— Vá embora, Nikki — disse Kelly, sem usar o termo "pai". — Eu não tenho nada para te dizer.

— Mas eu tenho — disse Nikki, a voz cansada. — Por favor. Cinco minutos.

Kelly hesitou, mas acabou cedendo, abrindo espaço para Nikki entrar no pequeno apartamento que cheirava a comida barata e desinfetante. Chloe estava sentada no sofá, enrolada em um cobertor.

Nikki parou no meio da sala, sentindo-se um gigante em uma caixa de fósforos.

— Eu agi como um idiota — começou Nikki, sem rodeios. — A notícia... ela me atingiu em um lugar onde eu ainda dói. Eu vi você cometendo os mesmos erros que eu, e a minha primeira reação foi a raiva. Porque eu não quero que você sofra como eu sofri.

— Eu não sou você — disse Kelly, a voz firme. — Eu não uso drogas, eu não trato as pessoas como lixo. Eu só cometi um erro com a garota que eu amo.

— Eu sei que você não é eu — admitiu Nikki, aproximando-se do filho. — E é por isso que eu estou aqui. Eu passei a vida toda fugindo de responsabilidades, Kelly. Fugindo da dor, fugindo de ser pai. Eu não quero que você faça o mesmo.

Ele olhou para Chloe e depois voltou para Kelly.

— Ser pai aos dezesseis é um inferno. Você vai perder sua juventude, seus sonhos vão mudar de forma, e você vai sentir medo todos os dias. Mas se você decidir ficar, se você decidir ser o homem que eu não soube ser por muito tempo... eu vou estar atrás de você.

Kelly franziu a testa, a desconfiança ainda clara em seu rosto.

— O que isso significa?

— Significa que eu não vou deixar vocês passarem fome. Significa que eu vou pagar os médicos, o berço, a escola. Mas também significa que eu vou cobrar de você. Você vai terminar a escola. Você vai ser um homem de verdade para essa criança.

Nikki tirou um maço de notas do bolso e colocou sobre a mesa de centro.

— É para o começo. Amanhã vamos conversar sobre um lugar melhor para vocês ficarem.

Kelly olhou para o dinheiro e depois para o pai. A tensão em seus ombros pareceu diminuir um pouco.

— Por que está fazendo isso? — perguntou o rapaz. — Você me expulsou de casa hoje à tarde.

— Porque eu sou um homem quebrado, Kelly — disse Nikki, com uma honestidade que o fez sentir-se nu. — E homens quebrados às vezes tentam consertar as coisas do jeito errado. Eu bati em você quando você era pequeno porque eu não sabia lidar com o meu próprio caos. E eu gritei com você hoje porque eu tive medo do seu caos. Mas eu não vou deixar meu neto — a palavra pareceu estranha em sua boca — crescer sentindo o que você sentiu naquela casa.

Chloe levantou-se e aproximou-se timidamente.

— Obrigada, Sr. Sixx.

— Me chame de Nikki, garota — disse ele, dando um esboço de sorriso. — "Sr. Sixx" parece alguém que tem a vida sob controle, e nós sabemos que não é o meu caso.

Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, olhou para Kelly.

— Você disse que eu era o maior erro daquela casa. Você tinha razão. Mas talvez, só talvez, eu possa ser o erro que ajuda você a não errar tanto.

Kelly não respondeu, mas assentiu levemente. Era o máximo que Nikki poderia esperar naquela noite.

Nikki desceu para o carro. Ele sentou-se ao volante e olhou para as próprias mãos. Elas ainda tremiam, mas desta vez era de uma forma diferente. Ele ligou o motor e acelerou de volta para a Franklin Avenue.

Ao chegar em casa, ele encontrou Sharise na cozinha, bebendo um chá em silêncio. Ele sentou-se à mesa diante dela.

— Eu fui até lá — disse ele.

Sharise levantou os olhos, surpresa.

— E?

— Eu vou ajudá-los. Ele vai ser pai, Sharise. Um pai de verdade. E eu vou tentar ser... bem, eu vou tentar ser o avô que eu nunca tive.

Sharise esticou a mão sobre a mesa e tocou a dele. Foi um gesto simples, mas carregado de um perdão que Nikki sentiu que não merecia, mas que aceitaria com gratidão.

— Vai ser difícil, Nikki. Ele ainda está com muita raiva de você.

— Eu sei. Eu dei a ele todos os motivos do mundo para isso. Mas eu tenho tempo. Pela primeira vez na vida, eu não estou com pressa de morrer.

Naquela noite, Nikki Sixx não sonhou com palcos ou com overdoses. Ele sonhou com um par de sapatos de bebê colocados ao lado de suas botas de couro. Ele sonhou com o som de um choro que não era de dor, mas de vida. E, no silêncio da mansão que vira tanta destruição, ele sentiu que, talvez, os cacos do dragão de porcelana estivessem finalmente sendo varridos para longe.

O ciclo de dor na Franklin Avenue não havia terminado, mas pela primeira vez, havia alguém disposto a segurar o cinto, não para bater, mas para manter as calças no lugar e enfrentar a tempestade que vinha pela frente. Nikki Sixx, o arquiteto do caos, estava aprendendo a ser o arquiteto de uma família, um tijolo quebrado de cada vez.