a humana desejavel
Sinfonia de Sangue e Segredos
O sol de verão em Bindburg era um carrasco para Murdo, mas para [S/N], era apenas o pano de fundo de uma rotina que agora parecia um filme em câmera lenta. Na escola de verão, ela se sentava perto da janela, sentindo o calor do meio-dia na pele, mas seus pensamentos estavam a quilômetros dali, ou melhor, escondidos sob a copa da velha carvalho que guardava o jardim das primas Tepes. Ela sabia que, em algum lugar entre as sombras densas da floresta que circundava a cidade, Murdo estava descansando, esperando o momento em que o azul do céu se transformaria no veludo violeta que ele tanto amava.
A possessividade dele não era mais um medo, mas uma constante. Naquela manhã, ao caminhar para a aula, [S/N] sentira o bater de asas silencioso acima dela. Um morcego de pelagem escura e olhos atentos a seguira por três quarteirões antes de desaparecer em um sótão abandonado. Era o jeito dele de dizer "estou aqui".
— [S/N]! Terra chamando [S/N]! — Dakaria estalou os dedos na frente do rosto da prima, tirando-a do transe. — Você está mais aérea do que a Silvania quando vê uma revista de moda humana. O que está acontecendo?
As três estavam sentadas no refeitório. Silvania mastigava uma maçã com um entusiasmo suspeito, enquanto Dakaria observava a prima com olhos semicerrados, cheios de uma curiosidade astuta.
— Nada, Daka. Só não dormi bem — mentiu [S/N], sentindo o rosto esquentar.
— Não dormiu bem ou passou a noite ouvindo as músicas do Murdo? — Dakaria deu um sorriso de canto, sem saber o quão perto estava da verdade. — Ele me parou ontem depois do ensaio. Perguntou se você tinha gostado do novo arranjo de "Krypton Night". Ele nunca pergunta a opinião de ninguém, nem a minha!
— Ele só deve estar sendo educado — respondeu [S/N], baixando o olhar para o livro de biologia.
— Murdo não é "educado" desse jeito, ele é intenso — Silvania interveio, limpando o canto da boca. — Ele tem aquela aura de poeta incompreendido. Mas tome cuidado, [S/N]. Vampiros como ele, quando se fixam em algo... ou alguém... tornam-se quase uma sombra da pessoa.
[S/N] engoliu em seco. Se elas soubessem que a "sombra" já tinha nome, sobrenome e um beijo que sabia a perigo, Bindburg entraria em colapso.
A noite caiu trazendo consigo uma tempestade de verão, daquelas que lavam as ruas e escondem os segredos sob o barulho do trovão. No quarto, [S/N] esperava. Ela não precisou abrir a janela; o clique suave da tranca indicou que ele já estava lá. Murdo surgiu das sombras do canto, a jaqueta de couro levemente úmida, o cabelo grudado na testa de um jeito que o tornava irresistivelmente humano e, ao mesmo tempo, letalmente divino.
— Você demorou — sussurrou ela, correndo para os braços dele.
— O pai de vocês, Mihai, estava rondando o jardim — Murdo disse, a voz rouca, envolvendo-a em um abraço apertado. — Ele tem um faro para problemas, e eu sou o maior problema que já entrou nesta casa.
Ele a afastou um pouco, segurando seu rosto com as duas mãos. Seus olhos brilharam em um vermelho pulsante, refletindo a excitação e a fome que ele sentia apenas por estar perto dela.
— Senti falta do seu cheiro o dia todo. A escola... aquele lugar é claro demais, barulhento demais. Eu queria te tirar de lá e te levar para o fundo de uma caverna onde só eu pudesse te ver.
— Você é louco, Murdo — ela riu, mas seu coração batia contra as costelas como um pássaro enjaulado.
— Sou — admitiu ele, aproximando os lábios do ouvido dela. — Louco por você. Hoje, não vamos ficar aqui. Quero te levar a um lugar onde os humanos não ousam pisar. Um lugar que combine com a música que estou compondo para você.
Antes que ela pudesse protestar, ele a envolveu em sua capa e, com um movimento fluido, saltaram pela janela. O voo sob a chuva foi uma experiência sensorial avassaladora. As gotas de água pareciam cristais cortando o ar, e o frio da noite era combatido pelo calor que emanava do corpo de [S/N], protegida contra o peito de Murdo.
Eles pousaram em uma antiga ópera abandonada, nos limites da floresta negra. O teto de vidro estava parcialmente quebrado, permitindo que a chuva caísse sobre o palco de madeira carcomida. No centro, havia um piano de cauda negro, coberto de poeira e teias de aranha.
— O que é este lugar? — perguntou [S/N], maravilhada com a grandiosidade decadente.
— Meu santuário — disse Murdo, caminhando até o piano. — Quando a fama e os outros vampiros se tornam demais, eu venho para cá. Ninguém me segue aqui. Exceto você.
Ele se sentou ao banco e começou a tocar. Não era o rock pesado da Krypton Krax. Era algo melancólico, profundo, uma melodia que parecia chorar e implorar ao mesmo tempo. [S/N] aproximou-se, encostando-se no piano, observando os dedos longos dele dançarem sobre as teclas marfim.
— Esta música... — começou ela.
— É você — interrompeu ele, sem parar de tocar. — É a sensação de querer tocar o sol sem ser queimado. É a frustração de ser eterno e estar apaixonado por alguém que é um sopro de vida momentâneo.
Ele parou de tocar abruptamente e se levantou. A tensão entre eles era quase palpável, mais forte que o som do trovão lá fora. Murdo a puxou para o centro do palco, sob o círculo de luz da lua que se infiltrava pelas nuvens.
— Eu não posso te dar uma vida normal, [S/N]. Eu vou te seguir, vou te observar enquanto você dorme, vou rosnar para qualquer um que ouse olhar para você na escola. Eu sou um monstro possessivo, e eu sei disso.
— Eu não quero uma vida normal — respondeu ela, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Eu quero o escuro. Eu quero a música. Eu quero você.
Murdo soltou um rosnado baixo, um som de pura necessidade, e a beijou. Foi um beijo que exigia tudo — sua alma, seu fôlego, seu futuro. Ele a pressionou contra o piano, o som das teclas ecoando de forma desordenada sob o peso de seus corpos. As mãos de Murdo exploravam cada curva dela com uma urgência renovada, rasgando o silêncio da ópera com sussurros de adoração.
— Diga que você é minha — ele exigiu, os olhos fixos nos dela, a vermelhidão agora tão intensa que parecia queimar. — Diga que nenhum humano jamais terá o que eu tenho.
— Eu sou sua, Murdo. Só sua — ela ofegou, sentindo a pele dele contra a sua, um contraste de gelo e fogo que a levava ao limite.
Ali, sobre o palco daquela ópera fantasmagórica, eles se entregaram um ao outro novamente. Murdo era um mestre em dar prazer, usando sua velocidade e força sobre-humana para levá-la a picos que ela nunca imaginou existir. Cada toque era carregado de uma obsessão que beirava o sagrado. Ele a possuía não apenas como um amante, mas como um guardião que reivindicava sua posse mais preciosa.
A chuva continuava a cair, lavando as paredes da ópera, enquanto dentro dela, o tempo parecia não existir. Quando o êxtase finalmente os alcançou, Murdo a segurou como se ela fosse quebrar, escondendo o rosto na curvatura do seu pescoço, sentindo a pulsação frenética da veia carótida.
— Às vezes — sussurrou ele, a voz carregada de uma vulnerabilidade rara — eu sinto tanta fome de você que não sei se quero te beijar ou te transformar.
[S/N] sentiu um calafrio. Ela sabia o que aquilo significava. A eternidade.
— Você faria isso? — perguntou ela, suavemente.
— Não — ele suspirou, afastando-se para olhá-la com uma doçura infinita. — Eu amo demais a sua humanidade. Amo o jeito que seu coração bate, o jeito que você sente calor, o jeito que você brilha no escuro. Se eu te transformasse, eu mataria a coisa que mais amo no mundo. Mas saiba de uma coisa...
Ele se inclinou, selando a promessa com um beijo casto na testa.
— Enquanto houver sangue nas suas veias e sombra na noite, eu serei seu. Eu vou te caçar nos seus sonhos e te proteger na realidade. Você nunca estará sozinha, [S/N]. Nunca.
Eles ficaram ali, abraçados entre as ruínas da música, dois seres de mundos opostos unidos por uma obsessão que nem a morte, nem o tempo, poderiam apagar. Quando as primeiras luzes cinzentas do amanhecer começaram a ameaçar o horizonte, Murdo a pegou nos braços.
— Hora de voltar para o seu mundo, minha pequena luz.
— E você? — perguntou ela, fechando os olhos enquanto ele se preparava para o salto.
— Eu estarei onde sempre estive — disse ele, abrindo as asas negras. — Nas sombras, esperando pela próxima nota da nossa sinfonia.
O voo de volta foi silencioso, preenchido apenas pelo som do vento. Murdo a deixou na sacada, esperando até que ela entrasse e se cobrisse. Ele ficou parado no galho da árvore, uma silhueta escura contra o céu que clareava, vigiando até que os olhos dela se fechassem em um sono profundo. Só então, ele desapareceu, deixando para trás apenas o eco de uma melodia de piano e o cheiro de couro e chuva no travesseiro dela.