a humana desejavel
Sinfonia de Possessão e o Delírio da Chuva
O verão em Bindburg havia se transformado em uma névoa de desejo e vigilância constante. Para [S/N], a realidade comum de uma adolescente humana havia sido substituída por uma existência clandestina e sombria. Murdo não era mais apenas uma sombra ou um vulto que ela via pelo canto do olho; ele era o ar que ela respirava, o frio que a arrepiava e a força que a reivindicava todas as noites.
A rotina deles havia se tornado um ritual sagrado. Todas as noites, sem falta, Murdo entrava pela janela de sua sacada. Ele não apenas a visitava; ele se instalava. O vampiro passava horas deitado ao lado dela, observando-a dormir com uma intensidade que beirava o maníaco. Ele não precisava de sono, então usava as horas de escuridão para decorar cada sarda, cada linha de sua palma e o ritmo exato de sua respiração. Muitas vezes, [S/N] acordava no meio da noite e o encontrava com o rosto a centímetros do dela, os olhos vermelhos brilhando como brasas no escuro.
— Você nunca fecha os olhos? — ela perguntou em uma dessas madrugadas, a voz ainda rouca de sono.
— Para quê? — Murdo respondeu, sua mão pálida acariciando o pescoço dela, onde o pulso batia forte. — O mundo lá fora é feio e vazio. Aqui, vendo você, eu tenho tudo o que preciso. Eu poderia passar a eternidade apenas contando as batidas do seu coração.
Mas a adoração de Murdo tinha um lado brutal. Sua possessividade havia atingido um nível alarmante. Na escola de verão, [S/N] sentia-se constantemente vigiada, e não era apenas uma sensação. Murdo não suportava que nenhum outro ser masculino chegasse a menos de dois metros dela.
Na terça-feira anterior, um colega de classe chamado Lukas tentou ajudá-la a carregar alguns livros após a aula. Ele mal tocou na mão de [S/N] quando um vento súbito e gélido soprou pelo corredor, derrubando os livros no chão. No dia seguinte, Lukas não apareceu na escola. Boatos diziam que ele fora encontrado em um beco, em estado de choque, jurando que uma criatura das sombras o havia suspendido pelo pescoço e prometido drenar cada gota de seu sangue se ele voltasse a olhar para a "garota errada".
[S/N] sabia que era Murdo. Ela sentia a fúria dele vibrando no ar sempre que saía de casa. Ele era como um predador alfa protegendo seu bem mais precioso, e, embora a violência dele devesse assustá-la, algo dentro dela — algo despertado pelo toque frio dele — se deliciava com aquela proteção absoluta. Ela se sentia a rainha de um reino sombrio, intocável e divinizada.
A oportunidade perfeita para retribuir essa dedicação surgiu em uma tarde de sexta-feira. O céu de Bindburg estava carregado, uma massa de nuvens cor de chumbo que prometia uma tempestade épica. Dakaria e Silvania haviam saído com Mihai e Elvira para uma reunião de clãs em uma cidade vizinha e só voltariam no dia seguinte. [S/N] estava sozinha na casa dos Tepes.
A chuva começou a cair pesada, batendo contra as janelas com uma violência rítmica. [S/N] sorriu. Ela sabia que Murdo viria. Ele sempre vinha quando o sol se escondia, mas a chuva parecia atraí-lo ainda mais, como se a água lavasse a barreira entre o mundo dele e o dela.
Ela decidiu que aquela noite seria diferente. Ela não seria apenas a protegida; ela seria a tentação.
[S/N] preparou o quarto. Apagou todas as luzes, deixando apenas algumas velas de cera negra acesas, cujas chamas dançavam com o vento que escapava pelas frestas. Ela espalhou pétalas de flores silvestres — aquelas que cresciam perto das ruínas onde eles se encontraram pela primeira vez — sobre a cama de lençóis de cetim escuro. O cheiro de incenso de sândalo e o aroma da terra molhada que entrava pela janela aberta criavam uma atmosfera inebriante.
Ela se vestiu com uma camisola de seda vermelha, tão fina que parecia uma segunda pele, e esperou. Não demorou muito.
O som característico do bater de asas foi abafado pelo trovão, mas ela sentiu a mudança na pressão do ar. Murdo pousou na sacada, transformando-se de névoa em homem em um piscar de olhos. Ele entrou no quarto, a água da chuva escorrendo por sua jaqueta de couro e por seu rosto pálido, fazendo-o parecer uma estátua de gelo que acabara de ganhar vida.
Ele parou no meio do quarto, os olhos percorrendo o ambiente, as velas, e finalmente parando nela. A vermelhidão em suas íris explodiu, tornando-se um carmesim profundo e faminto.
— O que é isso, [S/N]? — a voz dele saiu como um rosnado baixo, carregada de uma tensão que fez o ventre dela se contrair.
— Eu queria te receber do jeito que você merece — ela disse, caminhando lentamente em direção a ele. — Você cuida tanto de mim, Murdo. Você me protege de tudo. Hoje, eu quero que você se esqueça do mundo lá fora. Quero que você foque apenas em mim.
Murdo deu um passo à frente, sua velocidade sobre-humana fazendo-o encurtar a distância em um milissegundo. Suas mãos, frias como a morte, agarraram a cintura dela com uma força que teria machucado se ela não estivesse tão entregue ao momento. Ele a puxou para perto, colando seus corpos.
— Você não tem ideia do que está pedindo — ele sussurrou contra os lábios dela, sua respiração gelada contrastando com o calor que emanava da pele dela. — Minha fome por você não tem fim. Se eu me soltar, posso não conseguir parar.
— Então não pare — ela desafiou, passando os braços pelo pescoço dele, puxando-o para um beijo que sabia a chuva e a desejo reprimido.
Murdo soltou um som gutural, um misto de agonia e êxtase. Ele a levantou do chão, carregando-a para a cama com uma urgência brutal. Ele a jogou sobre os lençóis e se posicionou sobre ela, prendendo seus pulsos acima da cabeça com apenas uma das mãos. A força dele era intimidadora, uma demonstração clara de que ele era o mestre ali.
— Você é minha — ele declarou, as presas se alongando levemente, roçando o lábio inferior dela. — Cada gota de sangue, cada suspiro, cada pensamento. Eu mataria o mundo inteiro para manter você exatamente onde está agora.
— Eu sei — ela arquejou, lutando contra a restrição de seus pulsos, o que só servia para excitar ainda mais o vampiro. — E é por isso que eu te amo. Porque você é o único que me vê como algo que vale a pena possuir desse jeito.
Murdo soltou os pulsos dela, mas apenas para começar a despir sua jaqueta úmida com movimentos impacientes. Ele se livrou da camisa, revelando o peito pálido e definido, marcado pela imortalidade. Quando ele voltou a se deitar sobre ela, o contato da pele fria dele com a pele ardente dela causou um choque elétrico que percorreu ambos.
Ele começou a beijar seu pescoço, descendo para a clavícula com uma possessividade feroz. Suas mãos percorriam o corpo de [S/N] como se estivessem mapeando um território conquistado. Ele não era gentil naquela noite; ele era o predador que finalmente tinha permissão para devorar sua presa.
— Eu vi o jeito que aquele garoto na escola olhou para você hoje — Murdo murmurou contra a pele dela, seus dentes raspando levemente sua carne. — Eu quase arranquei o coração dele ali mesmo, na frente de todos. Só de pensar em outras mãos tocando o que é meu... o sangue ferve em minhas veias mortas.
— Mas ninguém me toca, Murdo — ela respondeu, as mãos cravando-se nas costas dele, sentindo os músculos se tensionarem sob seu toque. — Só você. Sempre foi só você.
Murdo levantou a cabeça, olhando-a com uma adoração sombria.
— Eu vou te marcar de um jeito que ninguém nunca poderá ignorar a quem você pertence.
Ele desceu a camisola de seda vermelha, expondo-a completamente à luz trêmula das velas. O olhar dele era uma carícia física, pesada e carregada de uma lascívia milenar. Ele a possuiu com uma brutalidade apaixonada, um ritmo que ecoava a tempestade que rugia do lado de fora. Cada movimento dele era uma afirmação de domínio, cada gemido dela era uma aceitação de sua soberania.
O prazer era avassalador, uma mistura de dor doce e euforia pura. Murdo a levava a alturas que a faziam perder o sentido da realidade, onde só existia o frio de sua pele, o brilho de seus olhos e a força de seus braços. Ele a beijava com uma fome desesperada, como se tentasse absorver sua própria vida através de seus lábios.
No auge do ato, Murdo a segurou com tanta força que ela pensou que suas costelas poderiam ceder, mas ela não se importou. Ela queria ser esmagada por ele, queria ser fundida àquela escuridão eterna. Ele enterrou o rosto em seu ombro, soltando um grito abafado de triunfo e entrega.
Depois, enquanto a chuva diminuía para um sussurro constante, eles ficaram deitados, os corpos ainda entrelaçados. Murdo a cobriu com seu próprio corpo, protegendo-a como se ela fosse um tesouro frágil.
— Você está bem? — ele perguntou, sua voz agora suave, voltando ao tom sensível que ele só mostrava a ela.
— Estou perfeita — ela respondeu, acariciando o cabelo úmido dele. — Nunca estive tão viva.
Murdo beijou a ponta do nariz dela, um pequeno sorriso brincando em seus lábios pálidos.
— Você é uma surpresa perigosa, [S/N]. Eu vim aqui para te vigiar, e acabei sendo o capturado.
— Você nunca vai embora, vai? — ela perguntou, embora já soubesse a resposta.
— Nunca — ele afirmou, a possessividade voltando a endurecer sua voz. — Eu vou estar na sua sombra amanhã, e na noite seguinte, e em todas as noites que virão. Se alguém se atrever a cruzar o seu caminho, eles terão que passar por mim. E eu não tenho misericórdia quando se trata do que é meu.
Ele a puxou para mais perto, o frio de seu corpo agora sendo aquecido pelo calor dela.
— Durma agora, minha pequena humana — ele sussurrou, começando a cantar baixinho uma melodia que ele ainda não havia tocado no piano, uma canção de ninar sombria e possessiva. — Eu estarei aqui quando você acordar. Eu sempre estarei aqui.
[S/N] fechou os olhos, sentindo-se a pessoa mais segura do mundo sob a guarda de um monstro. Ela adormeceu ao som da voz de Murdo, sabendo que, no dia seguinte, ele a seguiria até a escola, observaria cada passo seu e eliminaria qualquer ameaça à sua felicidade. E ela, em seu quarto agora perfumado com o cheiro dele, sonhou com noites eternas de chuva, cetim e o brilho vermelho de um amor que não conhecia limites.