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a humana desejavel

Sinfonia de Segredos sob a Névoa

A manhã em Bindburg surgiu envolta em uma neblina densa e leitosa, o tipo de clima que Silvania chamaria de "perfeito para um passeio" e Dakaria de "ideal para um show de punk gótico". O sol era apenas um disco pálido e inofensivo escondido atrás das nuvens carregadas, o que significava que o mundo pertencia, por mais algumas horas, àqueles que temiam a luz.

No quarto de [S/N], o tempo parecia ter congelado em uma bolha de calor e silêncio. Murdo não tinha ido embora com o primeiro raio de luz. Pela primeira vez, ele decidira ficar. Estava deitado sobre os lençóis bagunçados, a pele de mármore contrastando com o edredom escuro. Ele havia descartado a jaqueta de couro e a camisa em algum momento da madrugada, deixando à mostra o peito definido e as tatuagens que pareciam ganhar vida sob a luz difusa da manhã.

[S/N] estava sentada sobre ele, vestindo apenas uma camiseta larga de banda e um short curto, rindo enquanto tentava recuperar um pequeno amuleto que ele havia "roubado" de sua mesa de cabeceira.

— Devolve, Murdo! Isso é trapaça, você é mais rápido que eu! — [S/N] exclamou, tentando alcançar a mão dele, que ele mantinha esticada bem acima da cabeça, longe do alcance dela.

— A velocidade é uma das poucas vantagens de ser um morto-vivo, querida — Murdo provocou, um sorriso travesso brincando em seus lábios. Seus olhos, que costumavam ser poços de intensidade sombria, agora brilhavam com uma diversão genuína e relaxada. — Se você quiser de volta, vai ter que se esforçar mais.

— Ah, é? — [S/N] avançou, usando o peso do próprio corpo para tentar imobilizá-lo.

Eles começaram uma luta lúdica sobre o colchão. Murdo, apesar de ser infinitamente mais forte, deixava que ela ganhasse terreno, deliciando-se com o som da risada dela e com a sensação da pele quente da humana contra a sua. Para ele, aqueles momentos de "brincadeira" eram quase mais íntimos do que o sexo; era ali que ele via a menina por trás da obsessão, a prima humana das Tepes que o fizera questionar sua própria natureza solitária.

— Peguei! — gritou ela, conseguindo agarrar o pulso dele.

— Será? — Em um movimento fluido, Murdo inverteu as posições.

Com uma agilidade que desafiava a gravidade, ele a girou e a prendeu sob seu corpo, mantendo os braços dela acima da cabeça com uma mão, enquanto a outra se apoiava ao lado do travesseiro. O amuleto caiu esquecido em algum lugar entre os lençóis. O clima de brincadeira mudou instantaneamente para algo mais denso, carregado da eletricidade que sempre os consumia.

— Ganhei — sussurrou ele, o rosto a centímetros do dela. — E agora, o vencedor exige o prêmio.

— E qual seria o prêmio, Sr. Rockstar? — perguntou [S/N], a respiração curta, sentindo o peso reconfortante e frio dele sobre si.

— Isso.

Murdo a beijou. Não foi um beijo de predador, mas um beijo profundo, lento e possessivo, que dizia claramente que, embora estivessem brincando, ela ainda era sua propriedade absoluta. [S/N] entrelaçou os dedos nos cabelos bagunçados dele, puxando-o para mais perto, esquecendo-se completamente de que o mundo lá fora continuava girando.

Enquanto isso, no corredor, o som de botas pesadas e passos leves se aproximava.

— Eu estou te dizendo, Silvania, ela deve ter alguma essência de sangue escondida ou algo assim — a voz de Dakaria ecoou, vibrando com sua energia habitual. — O cheiro no quarto dela está ficando cada vez mais... estranho. Mais "vampiresco".

— Talvez ela só não tenha lavado as roupas do show ainda, Daka — Silvania respondeu com sua voz doce e otimista. — Mas eu realmente preciso perguntar se ela viu meu gloss de cereja. Tenho certeza que deixei com ela ontem.

As duas irmãs pararam diante da porta de [S/N]. A porta, que geralmente ficava trancada a sete chaves quando Murdo estava lá, estava entreaberta — um descuido causado pela confiança excessiva que a neblina matinal trouxera ao casal.

Sem bater, como era o costume das irmãs Tepes, Dakaria empurrou a porta de uma vez.

— Ei, [S/N], você por acaso...

As palavras morreram na garganta de Dakaria. Silvania, que vinha logo atrás, quase atropelou a irmã, parando bruscamente e arregalando os olhos azuis.

A cena no quarto era, no mínimo, comprometedora. Murdo, o ídolo gótico de metade da população vampírica da Alemanha, estava sem camisa, montado sobre a prima humana delas, em uma cama que parecia ter passado por um furacão. O beijo foi interrompido pelo susto, e ambos olharam para a porta com expressões que variavam entre o choque puro e o desejo de serem engolidos pela terra.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral, quebrado apenas pelo som da chuva fina batendo no telhado.

— Pelas presas de Drácula... — Dakaria foi a primeira a recuperar a fala, cruzando os braços e deixando escapar um assobio longo. — Então é esse o motivo de tanto mistério? Eu sabia que o cheiro de "rockstar suado" não vinha do rádio!

— Murdo? — Silvania piscou, as bochechas ficando levemente rosadas, mas o sorriso crescendo. — Uau, [S/N]... eu sabia que você gostava de música, mas não sabia que tinha o passe VIP para os bastidores!

Murdo, em um reflexo de proteção, moveu-se rapidamente para frente de [S/N], tentando cobri-la, embora ele mesmo estivesse metade nu. Sua expressão recuperou a frieza habitual de palco, mas havia um brilho de embaraço em seus olhos que ele não conseguia esconder.

— Dakaria. Silvania — ele disse, sua voz soando mais profunda e tensa do que o normal. — O que vocês estão fazendo aqui?

— Nós moramos aqui, caso você tenha esquecido, Sr. Morcego — Dakaria deu um passo para dentro do quarto, examinando o local com um olhar crítico e divertido. — E você? Achei que estivesse em turnê, ou dormindo em um caixão de luxo, não jogando luta greco-romana com a minha prima humana.

[S/N] sentou-se na cama, puxando a camiseta para baixo e tentando ajeitar o cabelo, o rosto queimando de vergonha.

— Meninas, eu... eu posso explicar — começou ela, embora não tivesse a menor ideia de por onde começar.

— Explicar o quê? — Silvania entrou no quarto, sentando-se na beirada da cama com a naturalidade de quem está prestes a ouvir uma fofoca de escola. — Que o vocalista da Krypton Krax está obcecado pela nossa prima? Ah, isso a gente já desconfiava. Mas ver ele aqui, à luz do dia... bom, quase dia... é outra história.

Murdo soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto. Ele sabia que o segredo estava arruinado, mas a possessividade em seu peito o fez envolver o ombro de [S/N] com o braço, puxando-a para junto de si de forma protetora diante das primas.

— Eu não estou apenas "obcecado", Silvania — Murdo corrigiu, o tom de voz sério. — O que sinto por [S/N] é real. E se vocês contarem para o Mihai ou para qualquer outra pessoa antes da hora...

— Ui, que medo! — Dakaria riu, sentando-se na cadeira da escrivaninha e girando. — Relaxa, Murdo. A gente não vai contar. Mas vai custar caro. Quero ingressos para a área VIP no próximo show e, quem sabe, você pode me ensinar aquele acorde de guitarra de "Blood Sky".

— E eu quero saber de todos os detalhes românticos! — Silvania bateu palmas, animada. — Ele trouxe flores? Ele te levou para voar? Ele tentou te morder?

— Silvania! — [S/N] e Murdo exclamaram ao mesmo tempo.

— O quê? É uma pergunta válida! — a vampira loira deu de ombros.

Murdo relaxou um pouco os ombros, percebendo que as primas não eram uma ameaça, mas sim uma fonte de irritação cômica. Ele olhou para [S/N], um pequeno sorriso de cumplicidade surgindo em seus lábios.

— Elas são sempre assim? — perguntou ele.

— Pior — respondeu [S/N], escondendo o rosto no ombro dele. — Agora elas nunca mais vão me deixar em paz.

— Bom, agora que o morcego saiu da caverna — Dakaria levantou-se, caminhando em direção à porta —, a gente vai deixar vocês voltarem para a... "brincadeira". Mas Murdo, tente não quebrar a cama. O Mihai comprou esse móvel semana passada.

— Dakaria! — [S/N] jogou um travesseiro na prima, que desviou rindo enquanto saía do quarto.

Silvania levantou-se logo atrás, dando uma piscadinha para [S/N].

— Ele é muito mais bonito de perto, prima. Bom gosto! — E com isso, ela fechou a porta, mas não antes de gritar do corredor: — E usem proteção! Não quero sobrinhos híbridos ainda!

O silêncio retornou ao quarto, mas agora era um silêncio carregado de uma nova realidade. Murdo olhou para a porta fechada e depois para [S/N].

— Isso foi... interessante — comentou ele, puxando-a de volta para seus braços.

— Eu sinto muito, Murdo. Elas são impossíveis — [S/N] suspirou, sentindo o calor voltando ao seu rosto.

— Não sinta — disse ele, voltando a deitá-la no colchão, seus olhos brilhando com aquela intensidade possessiva que ela tanto amava. — Agora que elas sabem, não preciso mais me esconder tanto nas sombras. Posso ser o seu "problema" oficial.

Ele inclinou-se sobre ela novamente, mas desta vez não havia pressa. A neblina lá fora continuava a esconder o mundo, e dentro daquele quarto, o tempo era deles.

— Onde estávamos? — perguntou ele, a voz vibrando contra a pele do pescoço dela.

— Você estava prestes a perder a nossa luta — ela provocou, recuperando a coragem.

— Ah, é mesmo? — Murdo sorriu, revelando levemente as pontas das presas. — Pois eu acho que a rodada final está apenas começando.

E sob o céu cinzento de Bindburg, entre as risadas abafadas das primas no corredor e o som da chuva, o vampiro e sua humana continuaram sua própria sinfonia, um segredo que, embora agora compartilhado, pertencia apenas à intensidade sombria de seus corações.