a humana desejavel
O Silêncio das Sombras e a Promessa do Sangue
A revelação para Dakaria e Silvania mudou a dinâmica do verão em Bindburg. O que antes era um jogo de esconde-esconde perigoso sob o luar transformou-se em uma aliança caótica e, por vezes, irritante. As primas Tepes, fiéis ao seu estilo, não perdiam a oportunidade de provocar [S/N] sobre seu "namorado das trevas", mas, no fundo, tornaram-se as guardiãs do segredo. Dakaria usava sua audição aguçada para monitorar os passos de Mihai e Elvira, enquanto Silvania criava distrações elaboradas para que [S/N] pudesse escapar pela janela nas noites em que a saudade de Murdo se tornava insuportável.
No entanto, para Murdo, a descoberta das primas apenas intensificou sua natureza protetora. Agora que não precisava mais se esconder delas, ele se sentia no direito de reivindicar o espaço de [S/N] com ainda mais fervor. Ele não era apenas um visitante noturno; ele era uma força onipresente.
Certa noite, o calor estava sufocante, e uma névoa baixa rastejava pelas ruas de paralelepípedos. Murdo decidiu que as ruínas do castelo ou a ópera abandonada não eram suficientes. Ele queria levar [S/N] para um lugar que poucos humanos — e até poucos vampiros — conheciam.
— Para onde estamos indo? — perguntou [S/N], agarrando-se à cintura de Murdo enquanto eles sobrevoavam a densa Floresta Negra. O vento chicoteava seus cabelos, e o frio da altitude era o único alívio para o calor daquela noite.
— Para um lugar onde o tempo não ousa tocar — respondeu Murdo, sua voz soando como música contra o vento. — Um lugar que pertence apenas aos que amam a escuridão.
Eles pousaram em uma clareira escondida, onde as árvores eram tão altas e antigas que suas copas pareciam sustentar o próprio céu estrelado. No centro, havia um lago de águas tão negras e imóveis que pareciam um espelho de obsidiana. Não havia som de grilos ou pássaros; apenas o silêncio absoluto e sagrado da natureza selvagem.
Murdo a colocou no chão com suavidade, mas não a soltou imediatamente. Ele a manteve presa em seus braços, o queixo apoiado no topo da cabeça dela, respirando o perfume de sua pele.
— Às vezes — ele sussurrou — eu sinto que este mundo é pequeno demais para nós dois. Eu sinto que preciso te esconder de tudo o que possa te ferir, ou até mesmo de tudo o que possa te distrair de mim.
[S/N] se virou nos braços dele, olhando para aqueles olhos que brilhavam com uma intensidade carmesim quase hipnótica.
— Você já faz isso, Murdo. Lukas ainda não consegue olhar na minha direção sem começar a tremer. Você assustou metade da cidade.
— Eu apenas marquei o que é meu — disse ele, sem um pingo de arrependimento. — Vampiros não são como os humanos, [S/N]. Nós não "namoramos". Nós reivindicamos. Nós protegemos o que amamos até que as estrelas se apaguem.
Ele a conduziu até a beira do lago. A água refletia a lua cheia de uma forma que parecia que havia duas luas no mundo. Murdo começou a tirar a camisa, seus movimentos lentos e deliberados, os olhos nunca deixando os dela.
— A água aqui é alimentada por nascentes subterrâneas — explicou ele. — Ela é tão fria que pararia o coração de um humano comum em minutos. Mas eu estarei lá para te manter aquecida.
[S/N] hesitou por um segundo, sentindo o arrepio da antecipação. Ela começou a se despir, deixando suas roupas em uma pilha sobre as pedras musgosas. Quando ficou apenas com a pele exposta à luz do luar, Murdo soltou um suspiro pesado, uma expressão de pura adoração cruzando seu rosto pálido.
— Você é a criatura mais linda que já caminhou sobre esta terra — ele disse, estendendo a mão para ela.
Eles entraram na água juntos. O choque térmico foi imediato, fazendo [S/N] perder o fôlego, mas Murdo a puxou para o seu peito no instante seguinte. O contraste era insano: a água gelada ao redor de suas pernas e o calor ardente do desejo que emanava do toque dele.
— Sinta isso — ele murmurou, guiando a mão dela até o seu peito, onde não havia batimento cardíaco, apenas uma vibração de energia pura. — Eu não tenho vida em mim, mas quando estou com você, sinto como se pudesse incendiar o mundo.
Ele a beijou sob o luar, um beijo que começou doce e sensível, mas que rapidamente se transformou em algo mais faminto. Murdo a pressionou contra uma rocha submersa, suas mãos explorando cada curva molhada de seu corpo com uma urgência que parecia crescer a cada noite. A água espirrava ao redor deles conforme os movimentos se tornavam mais frenéticos.
— Diga meu nome — ele exigiu contra o seu pescoço, seus dentes roçando a pele sensível em uma promessa silenciosa de eternidade.
— Murdo... — ela arquejou, as unhas cravando-se nos ombros de mármore dele. — Só você. Sempre você.
A possessividade dele era palpável no modo como ele a segurava, como se ela fosse escapar se ele relaxasse um milímetro. Ele a possuía com uma intensidade que transcendia o físico; era uma reivindicação de alma. Naquele lago esquecido, cercado pelo silêncio da floresta, [S/N] sentiu que não era mais apenas uma humana passando o verão com as primas. Ela era a consorte de um príncipe das sombras, a musa de um monstro que trocara a solidão eterna pelo brilho de sua vida mortal.
O prazer veio como uma onda avassaladora, fazendo-a gritar o nome dele para as árvores antigas. Murdo a segurou com força, seus olhos brilhando em um vermelho tão vivo que parecia sangrar na escuridão. Ele a manteve ali, flutuando na água gelada, até que suas respirações se acalmassem e apenas o som da água batendo na margem fosse ouvido.
— Eu nunca vou te deixar ir — ele prometeu, a voz rouca e absoluta. — Se um dia você tentar fugir, eu te caçarei até os confins do inferno.
— Eu não vou fugir — ela respondeu, encostando a testa na dele. — Eu pertenço a você tanto quanto você pertence a mim.
Eles saíram da água e Murdo usou sua própria capa para secá-la e envolvê-la, protegendo-a do sereno da madrugada. Enquanto caminhavam de volta para o ponto de partida, ele parou por um momento, olhando para o horizonte onde a primeira luz do dia começava a ameaçar o céu.
— O verão vai acabar logo — ele disse, com uma nota de tristeza na voz. — Seus pais vão querer que você volte. Suas primas voltarão à rotina delas.
[S/N] sentiu um aperto no coração. Ela não havia pensado no fim das férias.
— O que vamos fazer? — ela perguntou, a voz trêmula.
Murdo pegou a mão dela e a beijou, seus olhos fixos nos dela com uma determinação feroz.
— Eu sou um vampiro, [S/N]. Eu tenho todo o tempo do mundo, e agora que te encontrei, não pretendo desperdiçar nem um segundo. Para onde você for, eu irei. Eu serei a sombra na sua parede, o vento na sua janela e o estranho que você vê nos seus sonhos. Nós daremos um jeito. Nem que eu tenha que transformar cada cidade onde você morar no meu palco pessoal.
Ele a pegou nos braços e subiu aos céus mais uma vez. Enquanto voavam de volta para Bindburg, [S/N] olhou para baixo e viu as luzes da cidade começando a piscar. Ela sabia que seu mundo havia mudado para sempre. Ela não era mais a mesma garota que chegara ali semanas atrás. Ela era a escolhida de Murdo, e aquela obsessão, por mais perigosa e sombria que fosse, era o lugar onde ela finalmente se sentia completa.
Ao chegarem na sacada da casa dos Tepes, Murdo a ajudou a entrar. Ele ficou parado no parapeito, a luz cinzenta da manhã começando a tocar as pontas de suas asas.
— Durma bem, minha pequena humana — ele disse, com um sorriso que era metade anjo e metade demônio. — Eu estarei vigiando.
— Murdo? — ela o chamou antes que ele partisse.
— Sim?
— Obrigada por me encontrar.
Ele não disse nada, apenas inclinou a cabeça em uma reverência elegante antes de mergulhar nas sombras do jardim. [S/N] deitou-se em sua cama, o cheiro de Murdo e da água do lago ainda em sua pele. Ela sabia que Dakaria e Silvania logo bateriam à sua porta para saber das novidades, mas por enquanto, ela só queria fechar os olhos e sentir a presença dele, que ela sabia, estaria ali, em algum lugar entre as sombras do quarto, garantindo que nada no mundo ousasse tocar o que pertencia apenas a ele.