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A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

O Despertar da Carne e o Peso da Toalha

A luz pálida da manhã infiltrou-se pelas frestas das cortinas pesadas do quarto azul, trazendo consigo o canto insistente de um pássaro qualquer e o cheiro de café fresco que subia da cozinha. Gabriele despertou lentamente, sentindo um calor incomum e um peso reconfortante sobre o peito. Por um breve e nebuloso segundo, ela imaginou estar de volta ao convento, sob o peso das cobertas austeras, mas o perfume que inundava seus sentidos não era de incenso ou cera de vela. Era tabaco, couro e algo profundamente humano.

Ao abrir os olhos, o coração de Gabriele deu um salto violento. Ela não estava sozinha. Hylda estava dormindo profundamente ao seu lado, mas não "do outro lado da cama" como haviam combinado. Durante a noite, o frio ou o instinto as aproximara. Hylda tinha um braço tatuado jogado possessivamente sobre a cintura de Gabriele, e sua cabeça grisalha estava aninhada na curva do pescoço da moça. Pior ainda: a perna de Gabriele estava entrelaçada à de Hylda, e sua mão, de forma totalmente traidora, repousava sobre o ombro firme da ex-professora.

Gabriele prendeu a respiração, o rosto tornando-se um tom de escarlate que faria inveja às rosas de Deborah. Ela tentou se afastar milímetro por milímetro, mas o movimento fez com que Hylda soltasse um resmungo baixo e apertasse ainda mais o abraço, puxando Gabriele contra seu corpo de forma quase protetora.

— Só mais cinco minutos, Madre... — murmurou Hylda, a voz rouca de sono e carregada de uma ironia que persistia até no inconsciente.

Gabriele congelou.

— Hylda! — sussurrou ela, em pânico. — Hylda, acorde! Solte-me agora!

Hylda abriu um dos olhos, piscando preguiçosamente. Levou alguns segundos para processar a situação, mas, quando percebeu a pose comprometedora em que se encontravam, um sorriso lento e perigoso surgiu em seus lábios. Ela não se afastou. Em vez disso, apoiou-se no cotovelo, mantendo o braço sobre a cintura de Gabriele, observando o desespero da moça.

— Bom dia, ovelhinha. Vejo que você decidiu que o meu lado da cama era mais interessante.

— Eu não decidi nada! — Gabriele finalmente conseguiu se desvencilhar, sentando-se abruptamente e ajeitando a camisola de seda que havia subido perigosamente. — Foi o frio. Ou você que se arrastou para o meu lado. Você é... você é uma invasora de espaço!

— E você é muito macia para alguém tão rígida — Hylda espreguiçou-se como um gato velho e satisfeito, as tatuagens nos braços esticando-se com o movimento. — Seus votos de castidade devem estar sofrendo horrores com esse seu subconsciente carente.

— Não seja ridícula! — Gabriele levantou-se, mancando levemente por causa do tornozelo, e refugiou-se no banheiro antes que Hylda pudesse dizer mais alguma atrocidade.

Lá embaixo, o dia já seguia o ritmo frenético e levemente disfuncional da família Flowers. Gabriel estava à mesa, conversando animadamente com um grupo de amigos que haviam chegado para o café da manhã. Havia Chung, uma mulher de olhar afiado e estilo impecável, e o casal Miguel e Ana Paula, que pareciam irradiar uma normalidade que destoava completamente daquele ambiente.

— Gabi! Aí está você! — Gabriel levantou-se e puxou uma cadeira para ela, seu olhar brilhando com uma afeição que sempre deixava Gabriele desconfortável. — Como está o pé? Hylda cuidou bem de você?

— Estou melhor, Gabriel. Obrigada — respondeu ela, tentando manter a elegância enquanto aceitava uma xícara de chá.

— Você precisa relaxar mais, Gabriele — disse Ana Paula, sorrindo gentilmente. — O Gabriel não para de falar sobre como você é talentosa e séria. O mundo lá fora não é tão assustador quanto parece.

— Ela só precisa de um pouco de "orientação espiritual" — interrompeu Hylda, surgindo na cozinha com seu cachimbo apagado e um olhar de puro deboche. — Inclusive, senhoras, lembrem-se que hoje à tarde teremos nosso círculo de conversas no jardim. Vamos falar sobre a desconstrução do patriarcado através do prazer e da autonomia corporal.

Gabriele quase engasgou com o chá. Ela olhou para Hylda, que piscava para as outras mulheres da mesa.

— Você vai dar... aconselhamento? — perguntou Gabriele, a voz carregada de ceticismo. — Sobre prazer?

— Sou uma "Padre", não sou? — Hylda deu de ombros, pegando um pedaço de pão. — Alguém precisa salvar essas almas da ignorância. E você, ovelhinha, deveria participar. Talvez aprenda que a vida não é feita apenas de joelhos ralados no confessionário.

— Eu prefiro a morte — murmurou Gabriele.

O restante da manhã foi uma tortura de socialização. Gabriel tentava a todo custo mantê-la engajada em conversas sobre arte e futuro, mas a mente de Gabriele voltava constantemente para a sensação do braço de Hylda em sua cintura. Ela se sentia perdida, um peixe fora d'água entre a devoção que deixara para trás e a liberdade crua e vulgar que Hylda representava.

À tarde, conforme prometido, Hylda reuniu um pequeno grupo de mulheres sob a grande macieira. De longe, Gabriele observava a cena da varanda. Hylda falava com paixão, gesticulando com as mãos tatuadas, enquanto as outras ouviam atentamente, rindo ocasionalmente. Para Gabriele, aquilo parecia uma heresia de mau gosto. Como aquela mulher, uma ex-viciada que se vestia como uma caminhoneira, podia ter a audácia de aconselhar alguém sobre qualquer coisa?

Irritada e sentindo-se estranhamente inquieta, Gabriele decidiu que precisava de um momento a sós. Ela pegou uma garrafa de vinho que Maurice deixara aberta na sala, serviu-se de uma taça generosa — algo que raramente fazia — e subiu para o quarto azul. O vinho desceu queimando, aquecendo seu peito e relaxando seus ombros tensos.

— Uma safada... — resmungou ela para as paredes, referindo-se a Hylda. — Uma velha caminhoneira safada que usa a palavra de Deus para falar de... de poucas vergonhas.

Ela tomou mais um gole, sentindo a cabeça leve. O tornozelo ainda doía, então decidiu que um banho quente seria a solução. No banheiro anexo ao quarto, ela deixou a água cair, despindo-se lentamente e observando seu reflexo no espelho embaçado. Ela era bonita, sabia disso, mas sua beleza sempre fora algo para ser guardado, uma oferta a um Deus que agora parecia muito distante.

Ao sair do banho, envolta apenas em uma toalha branca que mal chegava ao meio de suas coxas, Gabriele secava os cabelos castanhos distraída. Quando abriu a porta do banheiro e entrou no quarto, o grito ficou preso em sua garganta.

Hylda estava lá. Ela estava deitada na cama, as mãos atrás da cabeça, observando a porta do banheiro com uma expectativa nada santa.

— Santo Deus! — exclamou Gabriele, segurando a toalha com força contra o peito. — O que você está fazendo aqui? A sua... sua conferência de libertinagem não acabou?

— As moças já foram devidamente iluminadas — disse Hylda, sua voz adquirindo aquele tom grave e vibrante que fazia os pelos do braço de Gabriele se arrepiarem. — E eu achei que a minha aluna mais difícil estava precisando de uma atenção especial.

Hylda sentou-se na cama, seus olhos percorrendo o corpo de Gabriele com uma lentidão deliberada. Não era um olhar predatório, mas sim um olhar de apreciação profunda, como se estivesse diante de uma obra de arte que finalmente fora retirada do depósito.

— Você está bebendo, ovelhinha? — Hylda notou a taça de vinho na mesa de cabeceira. — Que escândalo. A Madre Superiora ficaria decepcionada.

— Saia daqui, Hylda. Eu estou... eu estou nua sob esta toalha.

— Eu sei. Eu tenho olhos, Gabriele. — Hylda levantou-se e caminhou lentamente em sua direção. — E o que eu vejo é uma mulher que está morrendo de medo de sentir qualquer coisa que não possa ser explicada por um catecismo.

— Eu não tenho medo — mentiu Gabriele, embora suas pernas estivessem tremendo.

— Tem sim. Você está tremendo. — Hylda parou a poucos centímetros dela. O cheiro de tabaco e vinho se misturou ao aroma de sabonete de lavanda de Gabriele. — Lembra do que conversamos ontem? Sobre a teoria?

Gabriele engoliu em seco, incapaz de desviar o olhar.

— O que tem a teoria?

— Eu estava pensando... — Hylda deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Gabriele de forma irremediável — que talvez você seja uma pessoa que aprende melhor com a prática. O que acha de uma aula prática hoje?

Gabriele sentiu o coração disparar. A ideia era absurda, pecaminosa, impossível.

— Você... você está sugerindo que... — as palavras sumiram.

— Estou sugerindo que você relaxe — disse Hylda, sua voz suavizando-se. Ela estendeu a mão e, desta vez, não hesitou. Seus dedos tocaram o ombro úmido de Gabriele, deslizando suavemente pela pele quente. — Você está tensa como uma corda de violino prestes a arrebentar. Se eu te tocar agora, você quebra.

— Eu não vou quebrar — sussurrou Gabriele, fechando os olhos sob o toque.

— Deite-se na cama. De bruços — ordenou Hylda, mas não era um comando agressivo. Era um convite.

— Hylda, eu não posso...

— É apenas uma massagem, Gabriele. Para o seu tornozelo e para as suas costas. Você mal consegue andar de tanta tensão. Deixe a "Padre" cuidar de você.

Como se estivesse em transe, ou talvez encorajada pelo vinho, Gabriele obedeceu. Ela se deitou na cama de carvalho, a toalha ainda enrolada em seu corpo, o rosto enterrado no travesseiro. Ela ouviu Hylda se movimentar, o som de um frasco de óleo sendo aberto.

Logo, sentiu as mãos de Hylda em suas costas. Eram mãos grandes, firmes e experientes. Hylda começou a trabalhar os músculos dos ombros de Gabriele, pressionando os pontos de tensão com uma precisão que fez a moça soltar um gemido baixo e involuntário.

— Viu só? — murmurou Hylda, inclinando-se sobre ela. — O corpo não mente, Gabriele. Ele quer ser tocado. Ele quer ser reconhecido.

Hylda desceu as mãos pela coluna de Gabriele, seus polegares fazendo círculos lentos na base das costas, perigosamente perto da borda da toalha. Cada toque era uma provocação, uma lição prática sobre o que significava estar viva e presente no próprio corpo.

— Você é tão bonita... — Hylda sussurrou perto do ouvido de Gabriele, sua respiração quente enviando ondas de choque pela espinha da moça. — É um crime manter toda essa pele escondida do mundo.

Gabriele sentiu uma vontade avassaladora de se virar, de puxar Hylda para mais perto, de descobrir se os lábios daquela mulher eram tão ásperos quanto suas palavras ou tão macios quanto suas mãos.

— Hylda... — chamou ela, a voz carregada de uma súplica que ela mesma não entendia.

— Shh... — Hylda deslizou as mãos para o tornozelo ferido de Gabriele, tratando a articulação com uma delicadeza extrema. — Apenas sinta. Sem julgamentos. Sem orações. Apenas você e o agora.

Naquele quarto azul, enquanto a chuva começava a cair novamente lá fora, a distância entre o sagrado e o profano desapareceu por completo. Gabriele percebeu que, talvez, Hylda não fosse o diabo tentando tentá-la, mas sim o guia que ela precisava para atravessar o deserto que separava a freira que ela fora da mulher que ela estava prestes a se tornar. E, sob as mãos daquela "velha caminhoneira safada", Gabriele começou a entender que a verdadeira confissão não era feita de palavras, mas de arrepios, suspiros e da coragem de se deixar tocar.