Voltar ao resumo

A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

O Altar do Corpo e o Silêncio das Palavras

O quarto azul estava mergulhado em uma penumbra densa, quebrada apenas pelo brilho trêmulo de uma única vela que Hylda acendera sobre a cômoda. O som da chuva, agora um rugido constante contra as vidraças, criava uma redoma de isolamento que parecia separar as duas mulheres do resto da humanidade. Gabriele ainda sentia o rastro do toque de Hylda em seus ombros, uma sensação que queimava através da seda da camisola que ela vestira às pressas após a massagem, sentindo-se subitamente vulnerável demais para permanecer apenas de toalha.

Hylda estava sentada na cadeira de balanço, as mãos tatuadas repousando sobre os joelhos, observando Gabriele com uma expressão que a moça não conseguia decifrar. Pela primeira vez, o sarcasmo habitual de Hylda parecia ter sido lavado pela tempestade. Havia um peso em seus olhos grisalhos, uma melancolia que contrastava com a força de sua postura.

— Você está muito pensativa, ovelhinha — disse Hylda, a voz rouca cortando o silêncio. — O vinho subiu à cabeça ou foi a "aula" de anatomia?

Gabriele, sentada na beirada da cama, brincava com a bainha do lençol. O coração ainda não havia recuperado o ritmo normal. Ela olhou para Hylda, e o desejo que vinha reprimindo desde o convento — aquele mesmo desejo que a fizera fugir da Madre Mestra por medo de queimar no inferno — agora parecia uma chama que ela mesma queria alimentar.

— Eu estava pensando no que você disse — começou Gabriele, a voz baixa, quase um sussurro. — Sobre o corpo ser uma oração. Sobre não precisar de ninguém para ensinar a tocar a própria música.

— É uma boa filosofia, não acha? — Hylda tentou recuperar o tom jocoso, mas sua voz falhou levemente.

— Sim. Mas instrumentos novos às vezes precisam de um mestre — rebateu Gabriele, levantando o olhar e fixando-o no de Hylda. Havia uma audácia nova em seus olhos castanhos, um brilho de desafio que fez Hylda se empertigar na cadeira. — Você falou tanto sobre o mundo, sobre experiências... sobre como o sexo é o encontro com o divino.

Hylda sentiu um nó se formar em sua garganta. Ela, que já havia encarado o abismo das drogas, que já havia dado aulas para centenas de alunos e dormido com mais mulheres do que conseguia contar, sentiu-se subitamente como uma amadora. Ver Gabriele ali, tão jovem, tão impecavelmente bela e, ao mesmo tempo, tão disposta a se quebrar, despertava nela algo que ela tentava ignorar: um sentimento que ia muito além da atração física.

— Onde você quer chegar, Gabriele? — perguntou Hylda, a voz agora séria, quase defensiva.

— Eu quero saber — Gabriele levantou-se e deu um passo em direção a ela, mancando levemente, o que a tornava ainda mais delicada e, de certa forma, irresistível — se você faria... "aquilo" comigo. Se você me mostraria esse caminho que tanto descreve.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que o som da chuva pareceu desaparecer. Hylda ficou imóvel, o cachimbo esquecido na mesa ao lado. Ela olhou para Gabriele, para a curva suave de seu pescoço, para a timidez que ainda lutava contra a luxúria em seu rosto, e sentiu um medo profundo. Não medo de Gabriele, mas medo de si mesma. Ela tinha quase sessenta anos; era uma velha ex-viciada com cicatrizes demais na alma. Gabriele era uma promessa de vida, uma ovelha que acabara de descobrir que tinha garras.

— Você quer transar comigo? — Hylda disparou a pergunta de forma bruta, quase como uma tentativa de espantar o clima de romance que se formava. — Por que, Gabriele? Por que eu? Eu sou uma velha caminhoneira safada, lembra? Sou rústica, sou o oposto de tudo o que você aprendeu a valorizar.

Gabriele deu mais um passo, parando bem na frente da cadeira de Hylda. Ela se inclinou, as mãos repousando nos braços da cadeira, cercando a mulher mais velha.

— Porque você me vê — respondeu Gabriele, a voz ganhando uma doçura manhosa que Hylda nunca ouvira. — Todo mundo me olha como se eu fosse um objeto de porcelana ou uma santa em um altar. Mas você... você me olha e vê o incêndio. E eu quero que você me ajude a queimar.

Hylda sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela queria rir, queria fazer uma piada obscena para aliviar a tensão, mas a verdade é que ela estava apaixonada. E estar apaixonada por alguém trinta anos mais jovem, alguém que acabara de sair de um convento, era o tipo de desastre que ela não tinha certeza se conseguiria sobreviver.

— Gabriele, você não sabe o que está pedindo — sussurrou Hylda, desviando o olhar. — Você está confusa. É o vinho, é a tempestade, é a repressão de anos...

— Não acredite que você vai dizer que tem que ser só com amor — interrompeu Gabriele, com um meio sorriso que era pura provocação. — A "Padre" agora vai pregar sobre sentimentos e compromisso? Onde está aquela mulher que disse que o desejo é combustível?

Hylda olhou para ela, surpresa com a ironia.

— Não é sobre amor, sua ovelhinha atrevida — mentiu Hylda, embora seus olhos a traíssem. — É sobre... integridade. Você é virgem. Você carrega um peso que eu não quero ser a responsável por descarregar de qualquer jeito.

— Então não faça de qualquer jeito — disse Gabriele, e antes que Hylda pudesse reagir, ela se sentou no colo da mulher mais velha.

O contato foi imediato e avassalador. O peso de Gabriele, a maciez de sua pele através da seda, o cheiro de lavanda e banho quente... tudo isso atingiu Hylda como um soco. Ela instintivamente segurou a cintura de Gabriele, sentindo a delicadeza dos ossos da moça sob suas mãos calejadas.

— Você é muito manhosa quando quer, não é? — murmurou Hylda, a respiração curta.

— Eu sou o que você me ensinou a ser — respondeu Gabriele, passando os braços pelo pescoço de Hylda, os dedos brincando com os cabelos grisalhos curtos na nuca da mulher. — Você disse que o desejo não é sujeira. Então me prove. Me mostre que eu não preciso ter medo de mim mesma.

Hylda fechou os olhos por um momento, travando uma batalha interna. Ela queria Gabriele com uma intensidade que a assustava. Queria protegê-la, sim, mas também queria possuí-la, queria ouvir sua voz clamando por algo que não fosse Deus. No entanto, o sentimento que crescia em seu peito — aquele carinho profundo, aquela vontade de cuidar — tornava tudo mais complicado.

— Eu tenho quase sessenta anos, Gabriele — disse Hylda, a voz falhando. — Eu tenho tatuagens desbotadas, cicatrizes de agulhas e uma boca que fala mais palavrão do que deveria. Você é... você é perfeita.

— Você é perfeita para mim — rebateu Gabriele, encostando a testa na de Hylda. — Eu não quero um rapaz bonitinho como o Gabriel, que vai me tratar como uma boneca. Eu quero você. Quero sua experiência, quero seu peso, quero sua verdade.

Hylda soltou um suspiro que foi metade rendição, metade agonia. Ela deslizou as mãos pelas costas de Gabriele, sentindo o calor que emanava da moça.

— Você vai se arrepender disso amanhã — avisou Hylda, mas seus lábios já estavam a milímetros dos de Gabriele.

— Se eu me arrepender, você pode me confessar e me dar uma penitência — sussurrou Gabriele, fechando a distância entre elas.

O beijo não foi nada parecido com o que Gabriele imaginara. Não foi místico ou etéreo. Foi terreno, denso, com gosto de vinho e tabaco. Hylda beijava com uma fome que era contida apenas pela sua própria surpresa. Suas mãos subiram para o rosto de Gabriele, segurando-o com uma firmeza que era, ao mesmo tempo, um ato de adoração.

Gabriele soltou um gemido baixo, um som que pareceu vibrar em cada fibra do ser de Hylda. A moça se aninhou mais profundamente no colo da "Padre", sua delicadeza contrastando com a força bruta que Hylda emanava.

— Devagar... — murmurou Hylda contra os lábios de Gabriele, tentando manter o controle que sentia escorregar por entre os dedos. — Você é muito apressada para uma ex-noviça.

— Eu esperei vinte e sete anos, Hylda — disse Gabriele, a voz agora carregada de uma urgência genuína. — Eu não quero mais devagar.

Hylda a pegou nos braços, levantando-se da cadeira com uma agilidade que desafiava sua idade, e a depositou suavemente na cama de carvalho. O quarto azul parecia ter encolhido, o mundo reduzido ao espaço entre os corpos das duas.

Hylda pairou sobre ela, observando Gabriele sob a luz da vela. A moça estava com os cabelos espalhados pelo travesseiro, os olhos grandes e expectantes, a camisola de seda subindo pelas coxas alvas. Ela parecia uma visão, um altar vivo de carne e desejo.

— Você tem certeza, Gabriele? — perguntou Hylda, uma última tentativa de ser a voz da razão que ela nunca fora. — Uma vez que a gente começar... não tem volta para o convento.

— Eu nunca quis voltar — respondeu Gabriele, estendendo a mão para puxar Hylda para baixo. — Eu só quero chegar onde você está.

Hylda finalmente cedeu. Ela se deitou sobre Gabriele, o peso de seu corpo sendo recebido com um suspiro de alívio pela moça. As provocações, as brigas, o estranhamento inicial... tudo aquilo parecia ter sido apenas o prelúdio para aquele momento.

Enquanto as mãos de Hylda começavam a explorar o corpo de Gabriele com uma perícia que misturava desejo e uma ternura inesperada, Gabriele descobriu que Hylda estava certa: o silêncio era, de fato, a maior bênção. Mas não era o silêncio vazio da cela; era o silêncio de duas almas que, em meio à tempestade, haviam finalmente encontrado uma linguagem comum.

Hylda, no entanto, lutava contra as lágrimas que ameaçavam cair. Ela sabia que, para Gabriele, aquilo era uma descoberta, um ato de libertação. Para ela, Hylda, era algo muito mais perigoso. Era a entrega de um coração que ela jurara nunca mais colocar em jogo.

— Ovelhinha... — sussurrou Hylda, beijando a curva do ombro de Gabriele.

— Hum?

— Eu acho que estou em apuros — confessou a "Padre", a voz embargada.

Gabriele sorriu no escuro, puxando Hylda para mais perto, sentindo que, pela primeira vez em sua vida, ela não era a única que precisava de salvação.

— Estamos as duas, Hylda. Estamos as duas.

Lá fora, a chuva continuava a cair, lavando as estradas e inundando os jardins, mas dentro do quarto azul, entre o calor da pele e o som das respirações entrecortadas, o mundo era perfeitamente seco, perfeitamente novo e perfeitamente real. A ovelha e a caminhoneira haviam deixado de ser rótulos para se tornarem apenas duas mulheres perdidas e encontradas no mesmo abraço.