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A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

O Altar da Carne e a Redenção do Desejo

O quarto azul não era mais um refúgio de silêncio monástico, mas um santuário de respirações curtas e eletricidade palpável. A luz da vela solitária projetava sombras gigantescas nas paredes floridas, fazendo com que os movimentos de Hylda e Gabriele parecessem uma dança ancestral, gravada na penumbra.

Hylda pairava sobre Gabriele, os braços musculosos e tatuados sustentando seu peso. Ela olhava para a moça abaixo de si com uma intensidade que beirava a adoração, algo que a assustava profundamente. Hylda sempre fora uma mulher de apetites vorazes e desapegos rápidos, mas Gabriele... Gabriele a fazia querer ser cuidadosa.

— Você tem certeza de que quer que eu seja a primeira, ovelhinha? — sussurrou Hylda, a voz falhando por um segundo. — Eu não sou exatamente delicada. Minhas mãos já carregaram muito peso e minha alma já viu muita sujeira.

Gabriele respondeu puxando o rosto de Hylda para o seu, selando seus lábios em um beijo que não pedia permissão, mas exigia entrega.

— Eu não quero delicadeza, Hylda — murmurou Gabriele contra a boca da outra. — Eu quero a verdade. Quero sentir que estou viva, mesmo que isso doa.

Hylda soltou um suspiro rendido e começou a desabotoar a camisola de seda de Gabriele. Suas mãos, que costumavam ser firmes e rudes, tremiam levemente. Cada botão que cedia revelava uma porção da pele alva e quente da moça, uma visão que fazia a "Padre" sentir que estava diante do único milagre em que realmente acreditava.

Quando a seda finalmente deslizou pelos ombros de Gabriele, revelando-a por completo, Hylda paralisou por um instante. A beleza de Gabriele era uma afronta à sua existência cínica.

— Você é... — Hylda engoliu em seco — uma blasfêmia de tão bonita.

— Menos conversa, Hylda — disse Gabriele, a timidez dando lugar a uma urgência febril. — Me mostre o que você sabe.

Hylda sorriu, aquele sorriso de canto que Gabriele tanto odiara e que agora a fazia derreter. Ela começou a descer o corpo, beijando cada centímetro de pele que encontrava. Seus lábios ásperos contrastavam com a suavidade de Gabriele. Ela beijou a base do pescoço, onde a pulsação da moça martelava como um tambor de guerra, e desceu para os seios pequenos e firmes, sentindo Gabriele arquear as costas sob seu toque.

— Hylda... — o nome escapou dos lábios de Gabriele como uma prece desesperada.

— Shhh... apenas sinta — murmurou Hylda, as mãos agora explorando as curvas dos quadris de Gabriele. — Esqueça o convento. Esqueça o pecado. Aqui, entre estas quatro paredes, eu sou seu único Deus.

As mãos de Hylda desceram mais, deslizando por entre as coxas de Gabriele. A moça soltou um arquejo agudo quando sentiu o primeiro toque íntimo. Era uma sensação de invasão e libertação ao mesmo tempo. Hylda era experiente, seus dedos moviam-se com uma sabedoria que não vinha de livros, mas de décadas de busca pelo prazer alheio. Ela sabia exatamente onde pressionar, como provocar o som que mais queria ouvir: o som de Gabriele perdendo o controle.

Gabriele sentia que o mundo estava se desfazendo. O peso de Hylda sobre ela, o cheiro de tabaco e pele, o ritmo hipnótico dos dedos da mulher mais velha... tudo colaborava para um incêndio que subia por sua espinha. Ela agarrou-se aos ombros de Hylda, suas unhas cravando-se levemente na pele tatuada.

— Por favor... — suplicou Gabriele, as pernas tremendo.

Hylda subiu novamente, seus olhos fixos nos de Gabriele. Ela queria ver o momento exato em que a santinha cairia do pedestal.

— Olhe para mim, Gabriele — ordenou Hylda, a voz carregada de uma autoridade sensual. — Não feche os olhos. Eu quero que você veja quem está te levando para o céu.

E então, com um movimento decidido e profundo, Hylda a levou ao limite. O grito de Gabriele foi abafado pelo beijo de Hylda, um som de pura libertação que ecoou no quarto azul. O corpo de Gabriele estremeceu em espasmos longos, sua mente finalmente silenciando todas as culpas e dogmas. Ela desabou nos braços de Hylda, o rosto escondido no pescoço da mulher, a respiração ofegante e úmida.

Hylda a abraçou com uma força protetora, beijando o topo de sua cabeça enquanto o suor esfriava em seus corpos. O silêncio que se seguiu não era mais tenso; era uma paz exausta.

— Você está bem? — perguntou Hylda, a voz agora suave, quase terna.

Gabriele apenas assentiu, incapaz de falar. Ela sentia-se leve, como se tivesse deixado uma carapaça pesada para trás.

— Eu nunca imaginei... — começou Gabriele, algum tempo depois, a voz ainda trêmula — que o corpo pudesse falar tão alto.

— Ele fala, ovelhinha. A gente é que passa a vida tentando calar ele com orações — Hylda sorriu, mas havia algo de triste em seu olhar.

Ela se afastou um pouco, observando Gabriele. O desejo físico fora saciado, mas o vazio que Hylda sentia em seu peito — aquele medo de não ser o suficiente para alguém como Gabriele — ainda estava lá, latejando. Ela queria dizer que a amava, mas as palavras pareciam grandes demais para sua boca acostumada a palavrões.

Hylda levantou-se da cama, sua silhueta grisalha e forte recortada pela luz da vela. Ela caminhou até sua mochila, que estava jogada num canto, e começou a revirar as coisas com uma urgência desajeitada.

— O que você está fazendo? — perguntou Gabriele, puxando o lençol para se cobrir, sentindo um súbito frio com a ausência do corpo de Hylda.

— Eu sou péssima com discursos, Gabriele — disse Hylda, voltando para a cama. — Eu sou uma ex-viciada que se diz padre porque não aguenta a ideia de que a vida não tem sentido. Eu sou velha, eu sou rústica e eu provavelmente vou te irritar pelo resto da vida.

Ela estendeu a mão fechada para Gabriele. Quando a abriu, revelou um pequeno objeto: um terço de madeira, mas com uma modificação. No lugar da cruz, havia uma pequena peça de metal esculpida, uma flor de metal que Hylda mesma fizera há anos em um curso de ferraria.

— Isso era da minha mãe — disse Hylda, a voz embargada. — Eu guardei isso durante os meus piores anos. Vendi tudo o que tinha para comprar droga, mas nunca vendi isso.

Gabriele olhou para o objeto, depois para os olhos de Hylda, que agora brilhavam com lágrimas não derramadas.

— Eu não sei rezar o terço, Gabriele — continuou Hylda, sentando-se na beira da cama e pegando a mão da moça. — Mas eu sei que, toda vez que eu olho para você, eu sinto que estou sendo perdoada por tudo o que fiz de errado. Eu não quero ser só a sua "aula de anatomia". Eu quero ser o lugar onde você descansa.

Gabriele sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. Aquele gesto, vindo de uma mulher tão orgulhosa e cínica como Hylda, valia mais do que qualquer sermão que já ouvira.

— Você está tentando dizer que me ama, Hylda? — perguntou Gabriele, com um meio sorriso travesso, apesar das lágrimas.

Hylda bufou, tentando recuperar sua pose de durona, mas falhando miseravelmente.

— Eu estou tentando dizer que, se você fugir de novo para um convento, eu vou derrubar os muros daquela droga de lugar com as minhas próprias mãos para te buscar.

Gabriele puxou Hylda para um abraço, o terço de madeira entre as palmas de suas mãos unidas.

— Eu não vou a lugar nenhum — sussurrou Gabriele. — Eu finalmente encontrei minha vocação.

— E qual seria ela? — perguntou Hylda, a voz abafada nos cabelos de Gabriele.

— Aturar uma velha caminhoneira safada que, no fundo, é apenas uma romântica incurável.

Hylda riu, uma gargalhada genuína que pareceu espantar as últimas sombras do quarto. Ela deitou-se ao lado de Gabriele, puxando as cobertas sobre as duas.

— Sabe, Gabriele... — disse Hylda, as mãos acariciando o braço da moça — o Gabriel vai ficar arrasado. Ele realmente achava que vocês iam casar e ter cinco filhos loiros e educados.

— O Gabriel vai sobreviver — respondeu Gabriele, fechando os olhos, sentindo-se segura pela primeira vez. — Ele é um bom rapaz, mas ele nunca saberia o que fazer com o incêndio.

— É — concordou Hylda, beijando a testa de Gabriele. — Para o incêndio, você precisa de alguém que já tenha passado pelo inferno e saiba o caminho de volta.

A tempestade lá fora finalmente começou a amainar, o estrondo dos trovões dando lugar a um gotejar rítmico e calmante. Dentro do quarto azul, a vela finalmente se apagou, mas a escuridão não era mais opressora. Era apenas o pano de fundo para a descoberta de duas almas que, contra todas as probabilidades e dogmas, haviam encontrado uma na outra a única forma de transcendência que realmente importava.

— Hylda? — chamou Gabriele no escuro, já quase pegando no sono.

— Hum?

— Você ronca?

— Eu sou um padre, Gabriele. Padres não roncam, eles emitem frequências divinas.

Gabriele riu baixinho, aninhando-se no peito de Hylda.

— Você é uma mentirosa, "Padre".

— E você é uma ovelhinha muito atrevida. Durma logo, antes que eu resolva te dar outra "penitência".

E assim, no silêncio que se seguiu, o convento tornou-se apenas uma memória distante, e o futuro, embora incerto e caótico como os Flowers, parecia, pela primeira vez, algo pelo qual valia a pena acordar no dia seguinte.