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A Ovelha Perdida e a Loba de Batina

O Batismo da Ovelha e o Altar do Ciúme

A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas das cortinas de veludo, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e o frescor de um mundo que finalmente parara de desabar em água. No quarto azul, o ar ainda parecia denso, carregado com o resíduo elétrico de uma noite que mudara permanentemente o eixo de rotação de Gabriele.

Gabriele abriu os olhos lentamente, sentindo o peso reconfortante do braço de Hylda sobre seu abdômen. Cada músculo de seu corpo parecia ter uma consciência própria, enviando pequenos sinais de alerta. Ela tentou se espreguiçar, mas soltou um arquejo involuntário.

— Ai... — murmurou ela, a voz rouca de sono e de uso.

Hylda, que já estava desperta há alguns minutos apenas observando o teto com um sorriso de satisfação que não condizia com sua imagem de "durona", virou o rosto para o lado. Os cabelos grisalhos estavam mais bagunçados que o normal, e seus olhos brilhavam com uma diversão maliciosa.

— Bom dia, ovelhinha. Sobreviveu ao batismo de fogo? — perguntou Hylda, a voz soando como o atrito de duas pedras sobre o veludo.

Gabriele virou-se devagar, sentindo uma fisgada na lombar e uma sensibilidade nova entre as coxas. Ela olhou para Hylda e, em vez de se esconder sob os lençóis como a noviça tímida de dias atrás, sustentou o olhar.

— Eu acho... — começou Gabriele, soltando um gemido dramático enquanto se acomodava nos travesseiros — que eu senti minha alma sair do corpo por alguns minutos. Eu vi estrelas, Hylda. De verdade. Mas, para ser honesta, estou um pouco... dolorida.

Hylda soltou uma risada rouca, o som vibrando no peito que Gabriele agora conhecia tão bem.

— Se você começar a gemer desse jeito na minha frente, eu vou ser obrigada a fazer tudo de novo — avisou Hylda, aproximando-se e deixando um beijo rápido no ombro de Gabriele. — E olhe que eu avisei. Eu disse que era bruta. Eu até tentei ser delicada com você, juro pela minha batina imaginária, mas você não facilitou.

Gabriele deu um risinho, sentindo o rosto esquentar, mas não de vergonha, e sim de uma estranha euforia.

— Foi intenso — admitiu ela, passando a mão pelo rosto de Hylda, sentindo a textura da pele madura. — Tão intenso que eu acho que engravidei. Vamos ter que nos casar, Padre. É a única saída honrosa para uma ex-noviça arruinada.

Hylda gargalhou, uma som alto que pareceu espantar os últimos fantasmas do convento que ainda rondavam o quarto.

— Engravidou, é? — Hylda arqueou uma sobrancelha, divertida. — Se isso aconteceu, vai ser o primeiro milagre biológico da história desse condado. Mas sobre o casamento... eu não sei se você aguenta o tranco de viver com uma velha safada em tempo integral. Eu não sou muito dada a cerimônias, a menos que o altar seja essa cama.

— Você é impossível — disse Gabriele, puxando o lençol para cima, mas mantendo o sorriso.

A manhã seguiu com uma lentidão preguiçosa, mas a realidade da casa dos Flowers sempre acabava batendo à porta. Maurice e Deborah haviam organizado uma pequena confraternização no jardim para celebrar o fim da tempestade e, tecnicamente, para reunir os "artistas e mentes brilhantes" da região.

Horas depois, Gabriele desceu as escadas vestindo um vestido floral discreto, mas elegante, que marcava sua cintura de forma suave. Ela ainda mancava quase imperceptivelmente, o que lhe dava um ar de vulnerabilidade que atraía olhares. Hylda já estava lá embaixo, encostada em uma mesa de madeira rústica, segurando um copo de gim e conversando com um grupo de pessoas.

Foi então que ela apareceu. Uma garota chamada Stephanie, que devia ter uns vinte e poucos anos, com cabelos tingidos de um azul elétrico e roupas que pareciam ter sido feitas de retalhos de paraquedas. Ela se aproximou de Hylda com uma energia vibrante, quase canina.

— Você é a Hylda? A "Padre"? — perguntou Stephanie, os olhos brilhando de uma forma que Gabriele achou imediatamente ofensiva. — Eu ouvi tanto sobre você! O Maurice disse que você é a pessoa mais autêntica desse lugar.

Hylda, sempre pronta para um público novo, abriu um sorriso largo.

— Sou eu mesma, garota. Mas o "Padre" é só um título honorário para as minhas transgressões — disse Hylda, soltando uma fumaça de cachimbo que pareceu hipnotizar a jovem.

Gabriele observava de longe, segurando um copo de suco com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Ela viu quando Stephanie tocou o braço tatuado de Hylda, rindo de alguma piada obscena que a mais velha fizera. A garota parecia totalmente rendida, inclinando-se para frente como se quisesse absorver cada palavra de Hylda.

Gabriel se aproximou de Gabriele, percebendo a tensão.

— Ela é animada, não é? A Stephanie é uma escultora promissora — comentou ele, tentando ser gentil.

— Ela é uma oferecida, isso sim — murmurou Gabriele, sem desviar os olhos da cena.

— Gabi? Você está brava? — Gabriel franziu o cenho.

— Não estou brava, Gabriel. Estou apenas... observando a falta de compostura das pessoas hoje em dia.

Durante o resto da tarde, Gabriele manteve-se distante. Ela evitava o olhar de Hylda, respondendo apenas com monossílabos quando a mais velha tentava incluí-la na conversa. O ciúme era uma sensação nova e amarga, um veneno que ela não sabia como expelir. Ver Stephanie rir das histórias de Hylda, ver a forma como a garota olhava para as mãos da "Padre", fazia Gabriele sentir-se novamente como a "ovelhinha fútil" que Hylda mencionara no início.

Quando a noite finalmente caiu e os convidados se dispersaram, o silêncio na casa dos Flowers tornou-se pesado. Gabriele subiu para o quarto sem dizer boa noite. Ela sentou-se na penteadeira, escovando os cabelos com movimentos bruscos, as lágrimas de frustração ameaçando cair.

A porta abriu-se e Hylda entrou, fechando-a com o pé. Ela exalava o cheiro de gim e daquela autoconfiança que agora irritava Gabriele profundamente.

— O que foi aquilo lá embaixo? — perguntou Hylda, cruzando os braços. — Você passou a tarde inteira com a cara de quem engoliu um limão azedo. Até o Gabriel ficou preocupado.

— Eu estou ótima — respondeu Gabriele, sem olhar para trás. — Só achei que você estava muito ocupada com a sua nova... fiel. A Stephanie, não é? Ela parecia muito interessada nas suas "orações".

Hylda soltou um suspiro pesado, mas havia um traço de diversão em sua voz.

— Ah, entendi. Ovelhinha está com ciúmes? Daquela garota? Ela é só uma menina deslumbrada, Gabriele.

— Ela estava te tocando, Hylda! E você estava adorando! — Gabriele virou-se, os olhos faiscando. — Você diz que eu sou o seu milagre, mas basta aparecer qualquer garota de cabelo azul para você abrir aquele seu sorriso de predadora.

Hylda caminhou até ela, parando logo atrás da cadeira. Ela colocou as mãos nos ombros de Gabriele, mas a moça tentou se esquivar.

— Escute aqui — disse Hylda, a voz tornando-se baixa e séria. — Eu já vi mil Stephanies na minha vida. Elas gostam da ideia de mim, do mito da velha rebelde. Mas nenhuma delas me fez sentir o que eu senti ontem à noite. Nenhuma delas me faz querer ser uma pessoa melhor, ou pelo menos uma pessoa menos pior.

Gabriele relaxou os ombros, mas ainda mantinha o bico.

— Você jura?

— Eu juro por tudo o que é profano — Hylda inclinou-se e beijou o topo da cabeça de Gabriele. — Agora, pare de agir como uma criança e venha aqui. Eu quero te mostrar que não existe espaço para mais ninguém nesta cama.

Gabriele olhou para Hylda através do espelho. O ciúme ainda queimava, mas o desejo começava a vencê-lo. Ela queria provar a Hylda — e a si mesma — que ela não era apenas uma iniciante passiva. Ela queria ter o controle, queria sentir o poder que Hylda exercia sobre ela voltando-se contra a própria mestre.

— Hylda... — começou Gabriele, levantando-se e ficando de frente para ela. — Hoje eu não quero que você faça nada.

Hylda arqueou uma sobrancelha, surpresa.

— É mesmo? E o que a senhorita pretende fazer?

— Eu quero cuidar de você — disse Gabriele, a voz ganhando uma firmeza nova. — Você me ensinou sobre o corpo ser um instrumento. Eu quero aprender a tocar o seu.

Hylda sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela sentou-se na beirada da cama, observando Gabriele aproximar-se. A moça ajoelhou-se entre as pernas de Hylda, as mãos subindo pelas coxas da mais velha de forma deliberada.

— Você tem certeza? — perguntou Hylda, a respiração começando a acelerar. — Isso é um território novo para você.

— Então me guie — sussurrou Gabriele.

Gabriele começou a desabotoar a calça de Hylda com mãos que, embora trêmulas, eram determinadas. Quando Hylda ficou exposta diante dela, Gabriele sentiu um momento de hesitação, a sombra do convento sussurrando sobre o que era "certo" e "errado". Mas então ela olhou para cima e viu o rosto de Hylda — a vulnerabilidade oculta naquelas feições marcadas, a expectativa crua em seus olhos.

— Use sua boca, Gabriele — instruiu Hylda, a voz rouca, as mãos agarrando o lençol da cama. — Com calma. Sinta o calor.

Gabriele obedeceu. O primeiro contato foi uma descoberta sensorial avassaladora. O gosto de Hylda era forte, real, nada parecido com as fantasias estéreis que ela tivera no passado. Ela seguiu as instruções sussurradas da mais velha, aprendendo o ritmo, a pressão, a forma como a língua podia criar ondas de choque em outra pessoa.

Hylda jogou a cabeça para trás, soltando um rosnado baixo que era música para os ouvidos de Gabriele.

— Isso... assim mesmo... — murmurava Hylda, as mãos agora descendo para os cabelos castanhos de Gabriele, guiando-a gentilmente, mas com uma urgência crescente. — Você aprende rápido demais, ovelhinha. Você vai acabar me matando.

Gabriele sentia uma satisfação imensa. Não era apenas sobre prazer físico; era sobre domínio. Era sobre ver aquela mulher poderosa e cínica perder-se completamente em suas mãos e em sua boca. Ela não era mais a noviça assustada; ela era a mulher que fazia a "Padre" clamar por misericórdia.

Quando Hylda finalmente atingiu o seu limite, o som que ela soltou foi algo entre um grito e um soluço. Ela puxou Gabriele para cima, abraçando-a com uma força quase dolorosa, escondendo o rosto em seu peito enquanto recuperava o fôlego.

— Pelos deuses, Gabriele — ofegou Hylda, o corpo ainda tremendo. — Eu acho que você acabou de me converter.

Gabriele sorriu, sentindo-se completa. Ela beijou a testa suada de Hylda, sentindo o carinho profundo que agora as unia.

— E então? — perguntou Gabriele. — A Stephanie ainda parece interessante?

Hylda soltou uma risada fraca, puxando Gabriele para debaixo das cobertas com ela.

— Stephanie? Quem é Stephanie? — Hylda a abraçou com força. — Eu só conheço uma mulher neste mundo, e ela é uma ex-noviça muito perigosa que está tentando roubar minha alma.

— Eu não quero sua alma, Hylda — disse Gabriele, fechando os olhos e aninhando-se no calor da outra. — Eu só quero o seu coração. E talvez que você pare de falar com garotas de cabelo azul.

— Negócio fechado — murmurou Hylda, já pegando no sono. — Mas você vai ter que continuar praticando essas suas lições.

— Com prazer, Padre — respondeu Gabriele. — Com todo o prazer do mundo.

Lá fora, a noite estava silenciosa, mas dentro do quarto azul, uma nova religião havia sido fundada. Uma religião sem templos, sem dogmas de culpa, onde o sagrado era encontrado no toque e a redenção vinha na forma de um amor improvável entre uma ovelha que aprendera a morder e uma loba que encontrara seu lar.