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A prima Malfoy

O Despertar da Pedra e o Peso do Legado

As semanas que se seguiram ao funeral de Abraxas foram envoltas em uma névoa de rotina e melancolia na casa dos Malfoy em Londres. Charlotte retornara a Hogwarts com uma determinação renovada, mergulhando nos estudos com uma intensidade que impressionava até mesmo Hermione Granger. No entanto, o clima no castelo estava mudando. Rumores sobre algo escondido no corredor do terceiro andar, boatos sobre um objeto de valor inestimável e a crescente tensão entre Harry Potter e o Professor Snape permeavam os corredores de pedra.

Em uma tarde de sexta-feira, Charlotte estava sentada na biblioteca, rodeada por pergaminhos sobre a história da alquimia, quando Draco se aproximou. Ele parecia mais pálido do que o normal, e seus olhos cinzentos vasculhavam o ambiente para garantir que ninguém os observava.

— Charlotte — ele sussurrou, sentando-se à frente dela. — Você ouviu? Potter e os amigos dele... eles estão planejando algo. Algo sobre a Pedra Filosofal.

Charlotte ergueu os olhos do livro, franzindo a testa.

— A Pedra Filosofal, Draco? Isso é lenda. Nicolau Flamel é o único que...

— Não é lenda — interrompeu Draco, a voz carregada de uma urgência que ela raramente via nele. — Meu pai me escreveu. Ele está furioso porque Dumbledore está escondendo algo assim na escola. Ele diz que é perigoso, um convite para o desastre. E ele quer que eu... que eu fique de olho.

— Ficar de olho ou interferir? — perguntou Charlotte, fechando o livro com um estalo seco. — Draco, se Harry e os outros estão envolvidos, é porque algo sério está acontecendo. Você sabe o que o tio Lucius realmente quer, não sabe? Ele não se importa com a segurança da escola. Ele quer o poder que a pedra representa.

Draco desviou o olhar, as mãos mexendo nervosamente na borda das vestes da Sonserina.

— Eu não sou como ele, Charlotte. Pelo menos, eu acho que não. Mas ele é meu pai. O que eu deveria fazer?

Charlotte suspirou, lembrando-se das palavras de seu próprio pai sobre integridade.

— Você deveria fazer o que é certo, não o que é esperado. Se houver perigo, avise um professor. Não tente ser um herói para agradar ao tio Lucius.

***

Enquanto isso, em Londres, Charles Malfoy recebia uma visita inesperada em seu escritório de advocacia. Lucius Malfoy estava parado diante da janela de vidro do vigésimo andar, observando o tráfego de Londres com um desdém mal disfarçado.

— Este lugar é claustrofóbico, Charles — disse Lucius, sem se virar. — Como você consegue respirar cercado por tanto metal e fumaça?

— Eu me acostumei com a eficiência, Lucius — respondeu Charles, sentado atrás de sua mesa de carvalho, cruzando os braços. — O que o traz aqui? Não acredito que tenha vindo para discutir o testamento de nosso pai novamente.

Lucius virou-se, a expressão gélida.

— Hogwarts está em perigo. Dumbledore perdeu o juízo. Ele guardou a Pedra Filosofal dentro do castelo, atraindo todo tipo de atenção indesejada. Há rumores de que... alguém está tentando retornar.

Charles sentiu um calafrio. Ele conhecia bem demais os eufemismos do irmão. "Alguém" significava apenas uma pessoa: o Lorde das Trevas.

— E você está preocupado com a segurança de Draco ou com a oportunidade que isso apresenta? — perguntou Charles, a voz baixa e perigosa.

— Eu estou preocupado com o legado Malfoy — retrucou Lucius, aproximando-se da mesa. — Se a pedra for roubada sob o nariz de Dumbledore, o conselho de governadores terá motivos para removê-lo. E eu pretendo garantir que isso aconteça. Mas preciso saber o que sua filha anda relatando. Draco diz que ela é próxima daqueles... amigos de Potter.

— Charlotte é uma lufana, Lucius. Ela é leal aos amigos e à escola. Ela não é sua espiã.

— Ela é um desperdício de potencial — sibilou Lucius. — Mas ela tem acesso a informações que Draco não tem. Diga a ela para observar. Se Potter estiver agindo, eu quero saber.

Charles levantou-se, sua estatura igualando-se à do irmão.

— Saia do meu escritório, Lucius. Charlotte não será usada em seus jogos políticos. Se você tocar em um fio de cabelo dela ou tentar manipulá-la, eu juro que usarei cada recurso legal e financeiro que possuo no mundo trouxa para tornar sua vida um inferno burocrático. E você sabe que o Ministério da Magia odeia complicações com o governo de Sua Majestade.

Lucius estreitou os olhos, surpreso com a audácia do irmão. Por um momento, a magia pareceu crepitar no ar, mas Charles não recuou. Ele não tinha varinha, mas possuía uma autoridade que Lucius não conseguia compreender.

— Você escolheu o seu lado, Charles — disse Lucius, caminhando em direção à porta. — Só espero que sua filha não pague o preço pela sua arrogância.

***

Naquela mesma noite, em Hogwarts, o clima de mistério atingiu o ápice. Charlotte estava no salão comunal da Lufa-Lufa quando sentiu uma inquietação inexplicável. Ela sabia que Harry, Rony e Hermione não estavam em suas camas. A intuição que herdara do pai, refinada pela observação constante dos detalhes, dizia-lhe que a Pedra Filosofal estava em risco imediato.

Ela saiu silenciosamente, evitando os monitores, e dirigiu-se ao corredor do terceiro andar. No caminho, encontrou vultos nas sombras.

— Charlotte? — A voz de Draco era um sussurro rouco. Ele estava escondido atrás de uma armadura.

— O que você está fazendo aqui, Draco? — sussurrou ela de volta.

— Eu os vi passar. Potter, Weasley e a Granger. Eles entraram na sala proibida. Eu ia avisar o Snape, mas... eu vi o Quirrell também. Ele parecia... diferente. Charlotte, eu estou com medo.

Charlotte segurou a mão do primo. As mãos dele estavam geladas.

— Nós não podemos entrar lá sozinhos, Draco. Mas não podemos deixá-los sem ajuda.

— O que você sugere? — perguntou Draco, os dentes batendo levemente. — Se formos pegos, seremos expulsos. Meu pai me mataria.

— Seu pai não está aqui — disse Charlotte com firmeza. — Eu vou entrar. Você vai correr até o escritório da Professora Sprout. Ela é a diretora da minha casa, ela vai ouvir. Diga a ela que há alunos em perigo real. Não fale da pedra, fale de vidas. Vá!

Draco hesitou por um segundo, olhando para a porta proibida e depois para a prima. Pela primeira vez na vida, ele não seguiu o instinto de autopreservação egoísta que Lucius lhe ensinara.

— Tome cuidado, Charlotte — disse ele, antes de sair correndo em direção às escadas.

Charlotte respirou fundo e empurrou a porta. O cheiro de mofo e magia antiga a atingiu. Ela viu o enorme cão de três cabeças adormecido ao som de uma harpa encantada e a fenda no chão por onde os outros haviam descido. Sem pensar duas vezes, ela pulou.

A queda foi amortecida pelo Visgo do Diabo. Charlotte sentiu as gavinhas apertando seu corpo, mas lembrou-se das aulas de Herbologia da Professora Sprout.

— Luz — sussurrou ela, apontando a varinha. — *Lumos Solem!*

A planta recuou diante do brilho intenso, e ela caiu no chão de pedra úmida. À frente, ela ouviu o som de chaves voadoras e o estrépito de um jogo de xadrez monumental. Quando finalmente alcançou a última câmara, a cena que encontrou a deixou paralisada.

Harry Potter estava diante do Espelho de Ojesed, confrontando o Professor Quirrell. Mas não era apenas Quirrell. Uma voz sibilante e horrível parecia emanar da nuca do professor.

— Mate-o! — ordenava a voz. — Pegue a pedra dele!

Charlotte não era uma guerreira, mas era uma Malfoy. Ela sabia que o poder das palavras e da distração era tão forte quanto qualquer feitiço de ataque.

— Professor Quirrell! — gritou ela, sua voz ecoando nas paredes de pedra.

O homem virou-se bruscamente, o rosto retorcido de ódio e agonia. Harry aproveitou o momento de distração para recuar.

— Outra intrusa? — sibilou a voz de trás da cabeça de Quirrell. — Uma Malfoy? Mate-a também!

— Você não vai tocar neles! — Charlotte levantou a varinha, embora sua mão tremesse. — O socorro está chegando. Meu primo já avisou os professores. Você está cercado!

Quirrell soltou uma gargalhada maníaca.

— Professores? Eles não chegarão a tempo de salvar o menino de ouro ou a pequena traidora do sangue.

Ele levantou a mão para lançar uma maldição, mas Harry avançou, tocando o rosto de Quirrell com as mãos nuas. O grito que se seguiu foi desumano. A pele do professor começou a queimar e se transformar em cinzas ao toque de Harry. Charlotte correu para o lado de Harry enquanto Quirrell se desintegrava em uma nuvem de fumaça negra e atormentada.

A fumaça passou por eles como um vento gélido, derrubando-os. Charlotte sentiu a consciência escapar enquanto via a silhueta de Alvo Dumbledore aparecer na entrada da câmara.

***

Dias depois, a ala hospitalar de Hogwarts estava calma. Charlotte acordou com o cheiro de flores frescas e chocolate. Ao lado de sua cama, seu pai, Charles, estava sentado, lendo um jornal trouxa com uma expressão de profunda preocupação que se transformou em alívio ao vê-la abrir os olhos. Sarah estava ao lado dele, segurando a mão da filha.

— Papai? Mamãe? — murmurou Charlotte, a voz rouca.

— Estamos aqui, querida — disse Sarah, beijando-lhe a testa. — Você nos deu um susto terrível.

— Harry? E o Rony e a Hermione?

— Estão todos bem — respondeu Charles, fechando o jornal. — O Sr. Potter está na cama ao lado, ainda dormindo. Dumbledore me contou o que você fez. Ele disse que sua intervenção deu o tempo necessário para que ele chegasse.

Charlotte olhou para o lado e viu uma montanha de doces na mesa de cabeceira de Harry. Na sua própria mesa, havia algo diferente: um pequeno pacote embrulhado em papel pardo elegante.

— Quem mandou isso? — perguntou ela.

Charles sorriu de forma enigmática.

— Abra e veja.

Charlotte desfez o embrulho. Dentro, havia um livro antigo sobre leis internacionais de magia e uma pequena nota escrita com a caligrafia de Draco: *"Obrigado por não me deixar ser um covarde. Meu pai está furioso, mas o vovô teria ficado orgulhoso. Recupere-se logo. Temos que estudar para os exames finais."*

— O Draco... ele realmente chamou a ajuda? — perguntou Charlotte, emocionada.

— Ele chamou — disse Charles. — Ele teve que enfrentar o medo do pai para fazer isso. Acho que, no final das contas, há mais de nós Malfoy do que Lucius gostaria de admitir.

A porta da ala hospitalar se abriu e Lucius Malfoy entrou, caminhando com sua arrogância habitual, mas seus olhos revelavam uma derrota amarga. Ele parou aos pés da cama de Charlotte, ignorando Charles.

— Você se envolveu em assuntos que não lhe diziam respeito — disse Lucius, a voz baixa. — Você poderia ter morrido por causa de um menino que não significa nada para nossa família.

Charlotte sentou-se na cama, sentindo uma força que não sabia que possuía.

— Harry Potter significa algo para o mundo, tio Lucius. E eu fiz o que um Malfoy deveria fazer: protegi o que é correto. Se o senhor não consegue entender isso, então talvez seja o senhor quem não entende o peso do nosso nome.

Lucius pareceu prestes a retrucar, mas Charles levantou-se e colocou-se entre o irmão e a filha.

— Já chega, Lucius. Você perdeu esta rodada. Dumbledore permanece, a pedra foi destruída e seu filho escolheu a lealdade à família acima da obediência cega a você. Vá para casa.

Lucius lançou um olhar final para Charlotte — um olhar que continha uma estranha mistura de fúria e, por um breve segundo, um lampejo de respeito relutante — antes de girar sobre os calcanhares e sair.

No banquete de encerramento do ano, a decoração do Salão Principal mudou de verde e prata para vermelho e dourado, e depois, com os pontos extras concedidos por Dumbledore, a Lufa-Lufa subiu significativamente na classificação, embora a Grifinória tenha levado a Taça das Casas.

Quando Charlotte se sentou à mesa amarela e preta, ela viu Draco na mesa da Sonserina. Ele não estava comemorando com os outros; ele apenas levantou a taça de suco de abóbora em um brinde silencioso para ela.

— Você conseguiu, Charlie — disse Susan Bones, abraçando a amiga. — Você é a lufana mais corajosa que eu conheço.

— Eu só fiz o meu trabalho — respondeu Charlotte, sorrindo.

Ao embarcar no Expresso de Hogwarts para as férias de verão, Charlotte sentiu que o mundo era muito maior do que as paredes da Mansão Malfoy ou as páginas de seus livros. Ela olhou para o castelo que desaparecia na distância, sabendo que os anos seguintes seriam difíceis, que as sombras estavam retornando, mas que ela não estava sozinha.

Ela tinha o intelecto de seu pai, a bondade de sua mãe, a lealdade de sua casa e, agora, a certeza de que o sangue Malfoy poderia, sim, ser uma força para o bem. O primeiro ano terminara, mas a história da "pequena texugo" que desafiou as trevas estava apenas começando. E em Londres, em uma casa que cheirava a café e livros, Charles Malfoy esperava pela filha, pronto para ensiná-la que a maior magia de todas não estava na Pedra Filosofal, mas na coragem de ser verdadeiramente livre.