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A prima Malfoy

O Echo dos Herdeiros e o Sussurro na Parede

O verão em Chelsea foi marcado por um calor atípico que fazia o asfalto de Londres brilhar sob o sol, mas dentro da casa dos Malfoy, o clima era de uma antecipação vibrante. Charlotte passara os meses de férias devorando livros de Direito Trouxa com o pai e praticando feitiços de utilidade doméstica com a mãe, embora o uso da varinha ainda fosse restrito. No entanto, a tranquilidade da residência foi quebrada por uma série de eventos estranhos que começaram a chegar através de cartas alarmantes de Hogwarts.

Charles Malfoy estava sentado em sua poltrona de couro, examinando um contrato, quando a coruja de Charlotte, uma ave de plumagem cinzenta chamada Ártemis, mergulhou pela janela aberta. Ela trazia uma carta de Hermione Granger, mas o conteúdo não era sobre as notas excelentes que ambas haviam tirado.

— Papai, veja isso — disse Charlotte, entregando o pergaminho ao pai. — Hermione diz que Harry Potter sumiu por semanas. Ninguém conseguia falar com ele, e agora ela recebeu uma notícia de que os irmãos Weasley o resgataram da casa dos tios em um carro voador.

Charles tirou os óculos de leitura, uma expressão de preocupação cruzando seu rosto aristocrático.

— Um carro voador? Arthur deve estar se superando. Mas o desaparecimento de Potter é preocupante. Lucius tem andado... inquieto. Ele tem frequentado a Borgin & Burkes no Beco Diagonal com mais frequência do que o normal.

— Você acha que o tio Lucius tem algo a ver com isso? — perguntou Charlotte, sentando-se no tapete aos pés do pai.

— Eu acho que seu tio está preparando o terreno para algo, Charlotte — respondeu Charles, acariciando o cabelo da filha. — Com a remoção de Dumbledore do conselho de governadores tendo falhado no ano passado, ele está buscando uma nova forma de exercer pressão sobre a escola. Ele mencionou, em um jantar de negócios que fui obrigado a comparecer, que Hogwarts precisava de uma "limpeza profunda".

O presságio de Charles se concretizou poucas semanas depois, no Beco Diagonal. A família Malfoy de Londres estava na livraria Floreios e Borrões para comprar o material do segundo ano quando o destino os colocou frente a frente com o resto do clã e os Weasley.

A livraria estava lotada devido à sessão de autógrafos de Gilderoy Lockhart, um homem que Charlotte achava irritantemente vaidoso. No meio da confusão, Lucius Malfoy surgiu das sombras das prateleiras, flanqueado por um Draco que parecia visivelmente desconfortável.

— Ora, se não é o retrato da harmonia doméstica — disse Lucius, sua voz arrastada cortando o barulho da multidão. — Charles, Sarah... e a pequena lufana.

— Lucius — Charles cumprimentou com um aceno seco, colocando-se à frente de sua família. — Vejo que você também sucumbiu ao charme duvidoso do Sr. Lockhart.

— Eu estou aqui para negócios, não para autógrafos — retrucou Lucius. Ele então se virou para Arthur Weasley, que estava por perto com sua prole ruiva e Harry Potter. — E você, Arthur? Ainda associando o nome de sua família a... isso?

Ele apontou com o castão da bengala para os pais de Hermione, que observavam tudo com curiosidade e receio. O confronto que se seguiu foi rápido e violento. Arthur e Lucius trocaram insultos que quase terminaram em duelo físico, não fosse a intervenção de Hagrid. No meio do tumulto, Lucius pegou um livro de dentro do caldeirão de Ginny Weasley, fingindo examiná-lo.

— Andando com gente de baixo nível, Arthur? — Lucius desdenhou, devolvendo o livro com um movimento brusco. — Espero que este ano as coisas melhorem para você.

Charlotte observou a cena com olhos atentos. Ela notou o momento exato em que a mão de Lucius hesitou sobre o caldeirão de Ginny, mas o empurrão da multidão a impediu de ver o que realmente acontecera.

— Vamos embora — disse Charles, percebendo a tensão. — Já temos o que viemos buscar.

***

O retorno a Hogwarts foi marcado por um sentimento de mau agouro. Harry e Rony não apareceram no trem, chegando à escola de forma desastrosa no carro voador de Arthur. Mas o que realmente perturbou Charlotte foi o comportamento de Draco. O primo fora selecionado para o time de Quadribol da Sonserina após Lucius "doar" sete vassouras Nimbus 2001 para a casa.

— Ele comprou o lugar dele no time, Charlotte — disse Rony Weasley com amargura, enquanto limpavam o pátio após um treino fracassado. — É assim que os Malfoy funcionam, não é?

— Nem todos os Malfoy, Rony — Charlotte rebateu, sentindo uma pontada de mágoa. — Meu pai nunca comprou nada para mim em Hogwarts. Eu conquistei meu lugar na Lufa-Lufa.

— Desculpe — murmurou Rony, parecendo envergonhado. — Eu sei que você é diferente. Mas o seu primo... ele chamou a Hermione de... você sabe.

Charlotte sentiu o sangue ferver. Ela sabia exatamente qual era o insulto. Naquela noite, ela procurou Draco na biblioteca.

— Como você pôde, Draco? — perguntou ela, a voz baixa e vibrante de raiva. — Usar aquela palavra com a Hermione? Você sabe o que o vovô disse sobre o valor do conhecimento, não importa de onde venha.

Draco não olhou para ela. Ele estava ocupado polindo sua nova vassoura.

— Meu pai disse que é hora de as pessoas saberem o lugar delas, Charlotte. Ele diz que este ano o castelo será purificado. Ele parece saber de algo que ninguém mais sabe.

— O que ele sabe? — insistiu ela.

— Ele não me contou tudo — Draco finalmente a encarou, e Charlotte viu um brilho de medo em seus olhos. — Ele apenas disse para eu ficar longe dos problemas e deixar o Herdeiro fazer o seu trabalho.

A resposta veio na noite do Dia das Bruxas. Charlotte estava saindo do banquete quando a multidão parou diante de uma parede no segundo andar. Escrito em letras escarlates que brilhavam sinistramente sob a luz das tochas, estava o aviso:

*A CÂMARA SECRETA FOI ABERTA. INIMIGOS DO HERDEIRO, CUIDADO.*

Abaixo da mensagem, a gata do zelador Filch, Madame Nor-r-ra, estava pendurada pelo rabo, petrificada. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela voz triunfante de Draco.

— Inimigos do Herdeiro, cuidado! Vocês serão os próximos, sangues-ruins!

Charlotte sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para o primo e viu a máscara de arrogância que ele usava, mas por trás dela, sentiu que algo muito mais sombrio estava em movimento.

***

Nos dias que se seguiram, Hogwarts transformou-se em um lugar de desconfiança e medo. Os alunos nascidos-trouxas andavam em grupos, e os sussurros sobre o Herdeiro de Sonserina preenchiam cada canto. Charlotte, sendo uma Malfoy na Lufa-Lufa, encontrava-se em uma posição única e perigosa.

— Eles acham que é você, Charlotte — sussurrou Susan Bones em uma aula de Herbologia. — Digo, não você pessoalmente, mas sua família. Todos sabem que os Malfoy são descendentes de Sonserina.

— Meu pai é um aborto, Susan — Charlotte respondeu, cortando uma vagem de papoula com precisão. — E eu sou uma lufana. Se o Herdeiro está por aí, garanto que ele não me convidou para o chá.

No entanto, a dúvida persistia. Charlotte decidiu que precisava investigar por conta própria. Ela começou a passar horas na Seção Reservada da biblioteca, usando uma autorização que conseguira com o Professor Lockhart após elogiar (falsamente) seu último livro. Ela buscava menções à Câmara Secreta e ao monstro que nela habitava.

— O que você está procurando, querida? — perguntou uma voz suave.

Charlotte deu um pulo. Era a Murta Que Geme, o fantasma que habitava o banheiro feminino do segundo andar.

— Murta! Você me assustou. Estou procurando informações sobre a Câmara.

— Oh, a Câmara... — Murta soltou um suspiro melancólico e flutuou em círculos. — Eu me lembro da última vez que ela foi aberta. Foi horrível. Uma menina morreu, sabia? Bem aqui neste banheiro.

Charlotte sentiu o coração disparar.

— Você viu o que a matou, Murta?

— Eu só vi um par de olhos — disse o fantasma, sua voz tornando-se um sussurro etéreo. — Grandes olhos amarelos. E então... eu estava morta.

Charlotte anotou a informação. Olhos amarelos. O que poderia matar ou petrificar apenas com o olhar? Ela pensou em medusas, mas isso não fazia sentido no contexto de Sonserina. Tinha que ser algo relacionado a cobras.

Naquela noite, ela escreveu para o pai.

*"Papai, as coisas em Hogwarts estão ficando sombrias. A Câmara foi aberta. Draco está agindo como se soubesse de algo, mas acho que ele está apenas sendo usado como fachada pelo tio Lucius. Murta Que Geme me contou sobre olhos amarelos. Por favor, pesquise nos arquivos da família se há menção a um monstro que Sonserina deixou para trás. Sinto que o perigo está mais perto do que imaginamos."*

A resposta de Charles veio por uma coruja expressa dois dias depois.

*"Charlotte, tenha muito cuidado. Se as lendas forem verdadeiras, o monstro é um Basilisco. Ele pode matar com o olhar direto e petrificar através de reflexos. Lucius tem agido com uma confiança triunfante que me gela o sangue. Sarah e eu estamos preocupados. Se sentir que corre perigo, vá direto ao gabinete da Professora Sprout. Não tente ser uma heroína sozinha. O sangue Malfoy que corre em você pode protegê-la de alguns, mas o Basilisco não distingue linhagens quando é solto por um herdeiro louco."*

Armada com essa informação, Charlotte percebeu que precisava agir, mas de forma estratégica. Ela sabia que Harry, Rony e Hermione também estavam investigando. Ela os encontrou no corredor, parecendo exaustos.

— Harry, Hermione, Rony — chamou ela, puxando-os para uma sala de aula vazia. — Eu sei o que é o monstro. É um Basilisco.

Hermione arregalou os olhos, a compreensão clareando seu rosto.

— Claro! É por isso que o Harry ouve vozes nas paredes! Ele é um Ofidioglota! E os reflexos... a Madame Nor-r-ra viu através da água no chão, o Colin através da lente da câmera...

— Mas quem é o Herdeiro? — perguntou Rony. — Tem que ser o Malfoy. O Draco se gaba disso o tempo todo.

— Não é o Draco — afirmou Charlotte com convicção. — Eu o conheço. Ele é um idiota arrogante, mas ele não tem coragem para isso. E ele não é um Ofidioglota. O Herdeiro está usando alguém, ou algo.

A investigação tomou um rumo drástico quando Hermione foi petrificada. Charlotte encontrou a amiga na ala hospitalar, segurando um pedaço de papel arrancado de um livro. Era a confirmação de sua teoria sobre o Basilisco.

O pânico atingiu o auge quando Ginny Weasley foi levada para a Câmara. Charlotte viu o desespero de Rony e a determinação de Harry. Ela sabia que, como uma Malfoy, ela tinha uma responsabilidade que ia além da coragem da Lufa-Lufa.

— Eu vou com vocês — disse ela, encontrando-os no banheiro da Murta Que Geme.

— É perigoso demais, Charlotte — disse Harry. — Se o seu tio descobrir...

— Meu pai já sabe — respondeu ela, levantando a varinha. — E ele me disse para fazer o que é certo. Sonserina era meu ancestral também. Se há algo de errado na minha linhagem, eu vou ajudar a consertar.

Eles desceram pelo cano, caindo em uma caverna cheia de ossos de pequenos animais. Lockhart, que tentara apagar as memórias deles, acabou sendo atingido pelo próprio feitiço de memória defeituoso, causando um desabamento que separou Harry de Rony e Charlotte.

— Harry! Vá em frente! — gritou Charlotte através das pedras. — Nós vamos tentar abrir caminho!

Enquanto Harry enfrentava o Tom Riddle do passado e o Basilisco na câmara principal, Charlotte e Rony trabalhavam febrilmente para remover os escombros.

— Por que você está fazendo isso, Charlotte? — perguntou Rony, ofegante enquanto movia uma rocha pesada. — Você poderia estar segura no seu salão comunal.

— Porque lealdade não é apenas sobre quem você gosta, Rony — respondeu ela, limpando o suor da testa. — É sobre o que você defende. E eu defendo uma Hogwarts onde todos possam estudar em paz.

Quando Harry finalmente emergiu, carregando uma Ginny pálida e a espada de Godric Gryffindor banhada em sangue de Basilisco, Charlotte sentiu um alívio imenso. Mas a batalha ainda não terminara.

No gabinete de Dumbledore, a verdade finalmente veio à tona. Lucius Malfoy entrou, furioso pela derrota de seu plano, flanqueado por um Dobby maltratado.

— Então — sibilou Lucius, olhando para Harry e depois para Charlotte, que estava ao lado do diretor. — O herói e a traidora.

— Lucius — disse Dumbledore calmamente —, acho que você deixou cair algo no caldeirão da jovem Ginny no Beco Diagonal. Um diário que pertenceu a Tom Riddle.

Lucius empalideceu, mas manteve a postura.

— Você não tem provas, Dumbledore.

— Mas eu tenho — disse Charlotte, dando um passo à frente. — Eu vi o senhor hesitar sobre o caldeirão dela. Eu escrevi para o meu pai no dia seguinte relatando seu comportamento estranho. E meu pai, como advogado, sabe exatamente como transformar um relato de testemunha em um inquérito oficial do Ministério.

Lucius olhou para a sobrinha com um ódio palpável.

— Seu pai é um erro da natureza, Charlotte. E você é o fruto amargo desse erro.

— Meu pai é o homem que me ensinou que o caráter vale mais que o sangue — retrucou Charlotte, sem recuar. — E hoje, o senhor perdeu tudo o que tentou construir.

Harry, com um movimento rápido, entregou o diário destruído a Lucius, escondendo sua própria meia dentro dele. Quando Lucius jogou o diário para Dobby, o elfo abriu o livro e encontrou a peça de roupa.

— Meu mestre deu uma meia para Dobby! — exclamou o elfo, os olhos brilhando. — Dobby está livre!

Lucius, em um acesso de fúria, levantou a bengala para atacar Harry, mas Dobby o arremessou longe com um estalo de seus dedos mágicos.

— Você não vai tocar em Harry Potter! — gritou o elfo.

Lucius Malfoy levantou-se do chão, ajeitando as vestes com as mãos trêmulas. Ele olhou para Dumbledore, para Harry e, finalmente, para Charlotte.

— Isso não acabou — murmurou ele, antes de sair a passos largos.

***

O banquete de final de ano foi o mais glorioso que Charlotte já vira. Hermione e os outros petrificados retornaram, e Hogwarts celebrou a derrota do Herdeiro. Charlotte sentou-se na mesa da Lufa-Lufa, recebendo tapinhas nas costas e sorrisos de seus colegas.

No entanto, antes de partir para as férias, ela encontrou Draco perto do lago. Ele parecia menor, menos imponente sem a sombra do pai por perto.

— Meu pai vai ser removido do conselho — disse Draco, olhando para a água escura. — Ele está furioso com você, Charlotte. Ele diz que você e o tio Charles são a ruína da família.

— A ruína da família é o ódio dele, Draco — disse ela suavemente. — Você viu o que aconteceu com a Ginny. Poderia ter sido você. O diário não se importava com quem usava.

Draco permaneceu em silêncio por um longo tempo.

— Talvez — ele admitiu finalmente. — Mas não espere que eu mude de lado tão cedo. Eu ainda sou um Sonserino.

— E eu ainda sou uma Lufana — Charlotte sorriu. — Mas lembre-se, Draco: o sangue Malfoy nos deu o nome, mas fomos nós que sobrevivemos à Câmara hoje. Não o papai, nem o tio Lucius. Nós.

Ao desembarcar na plataforma 9 ¾, Charles e Sarah estavam lá para recebê-la. Charles abraçou a filha com uma força que dizia tudo o que as palavras não podiam expressar.

— Você foi brilhante, Charlotte — sussurrou ele. — Eu soube do inquérito no Ministério. Lucius está sob investigação. Você fez mais pela nossa família hoje do que gerações de bruxos puro-sangue.

— Eu só queria que a escola fosse segura, papai.

Enquanto caminhavam em direção ao carro trouxa, Charlotte sentiu o peso do segundo ano desaparecer. Ela sabia que tempos ainda mais sombrios viriam, que a sombra de Tom Riddle não fora totalmente dissipada, mas ela não tinha mais medo.

Ela era Charlotte Malfoy, a filha do aborto, a lufana que enfrentou o Basilisco e a sobrinha que desafiou o patriarca. E enquanto o Jaguar de seu pai se misturava ao tráfego de Londres, ela percebeu que a verdadeira magia não estava em herdar segredos de uma câmara antiga, mas em ter a coragem de trancar essas câmaras para sempre e construir algo novo, tijolo por tijolo, com a força de sua própria vontade.