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A prima Malfoy

Sombras de Ontem e o Uivo da Liberdade

O verão de 1993 em Londres parecia carregar um peso diferente, uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Charlotte se arrepiarem mesmo nos dias mais quentes. A casa em Chelsea, antes um refúgio de lógica e paz trouxa, agora fervilhava com as notícias que escapavam do rádio bruxo que Charles Malfoy mantinha escondido em seu escritório.

Sirius Black havia fugido.

A notícia da fuga de Azkaban abalara o Ministério da Magia, mas para a família Malfoy, o nome de Black evocava fantasmas mais pessoais. Enquanto tomavam café na varanda ensolarada, Charles lia o *Profeta Diário* com uma expressão que Charlotte raramente vira: uma mistura de cautela jurídica e um temor antigo.

— Sirius Black é primo de Narcisa — comentou Charles, pousando o jornal sobre a mesa de ferro forjado. — A árvore genealógica dos Black é um emaranhado de loucura e fanatismo, mas Sirius foi o único que escolheu a Grifinória. E o único que acabou em Azkaban por trair os Potter.

— Você acha que ele virá atrás de nós, papai? — perguntou Charlotte, mexendo em sua torrada. — Ou do tio Lucius?

— Lucius está reforçando as proteções da Mansão como se estivesse esperando um cerco — Charles respondeu, soltando um suspiro pesado. — Mas o alvo de Black, se os rumores forem verdadeiros, é Harry Potter. O que significa que Hogwarts será o lugar mais perigoso da Grã-Bretanha este ano.

— Mais perigoso do que uma Câmara com um Basilisco? — Sarah Malfoy interveio, trazendo uma jarra de suco. — Charles, talvez devêssemos considerar...

— Não, Sarah — Charlotte interrompeu, a voz firme. — Eu preciso voltar. Meus amigos estão lá. E se Potter está em perigo, a Lufa-Lufa não vai virar as costas.

A viagem no Expresso de Hogwarts foi, pela primeira vez, sombria. A chuva batia nas janelas como dedos gelados tentando entrar. Charlotte estava em uma cabine com Susan Bones e Neville Longbottom quando o trem parou bruscamente no meio do nada. O gelo começou a se formar nas vidraças, e uma sensação de desespero absoluto, como se toda a alegria do mundo tivesse sido sugada por um vácuo, tomou conta do compartimento.

Uma figura alta, encapuzada e flutuante deslizou pelo corredor. A mão que emergiu das vestes era acinzentada, viscosa e apodrecida.

— Um Dementador... — sussurrou Neville, tremendo visivelmente.

Charlotte sentiu sua mente ser invadida por memórias que ela nem sabia que possuía: o olhar de desprezo de Lucius, a sensação de não pertencer a lugar nenhum, o medo de decepcionar o pai. Ela cerrou os punhos, tentando se lembrar do calor da lareira da Lufa-Lufa, até que a criatura se afastou, repelida por um brilho prateado vindo de outra cabine.

Quando chegaram ao castelo, o clima não melhorou. Dumbledore anunciou a presença dos Dementadores nos portões, e a tensão entre as casas era palpável. No entanto, para Charlotte, o maior mistério não era o prisioneiro fugitivo, mas a mudança drástica na dinâmica familiar.

Draco parecia estar se deliciando com o perigo. No Salão Principal, ele encenava desmaios falsos para provocar Harry sobre o incidente no trem.

— Ele é patético, não é? — murmurou Charlotte para Susan enquanto observavam a performance de Draco na mesa da Sonserina.

— Ele é um Malfoy, Charlotte — respondeu Susan, embora tenha corado ao perceber o que dissera. — Desculpe, eu quis dizer... ele é o tipo de Malfoy que seu tio criou.

Charlotte decidiu confrontar o primo após a primeira aula de Defesa Contra as Artes das Trevas com o novo professor, Remo Lupin. Draco estava reclamando das vestes remendadas de Lupin enquanto caminhavam pelos corredores.

— Draco, pare com isso — disse Charlotte, emparelhando o passo com ele. — Você deveria estar preocupado. Sirius Black é um assassino e ele é parente da sua mãe. Se ele entrar no castelo, ele não vai perguntar quem é puro-sangue antes de atacar.

— Meu pai disse que Black é um assunto do Ministério — Draco respondeu, embora seus olhos estivessem inquietos. — E ele disse que, se eu for esperto, este ano será a queda definitiva de Potter. O herói não consegue nem ficar acordado perto de um Dementador.

— O herói enfrentou o que você não teve coragem de ver no ano passado — retrucou Charlotte. — E se você continuar agindo como um porta-voz do tio Lucius, vai acabar sendo o primeiro a correr quando as sombras realmente chegarem.

Draco parou, o rosto pálido se contraindo.

— Você acha que é melhor do que eu porque seu pai vive como um trouxa? Você ainda tem o nosso sangue, Charlotte. E quando Black chegar, ele vai ver uma Malfoy na casa dos fracos e vai rir antes de acabar com você.

— Eu prefiro morrer como uma lufana "fraca" do que viver como um covarde que se esconde atrás do sobrenome — Charlotte disse, virando as costas e deixando o primo falando sozinho.

As semanas passaram e o inverno chegou cedo às Terras Altas. Durante a primeira visita a Hogsmeade, Charlotte não pôde deixar de notar a vigilância opressora dos Dementadores. Ela estava no Três Vassouras, tomando uma cerveja amanteigada com Hermione — que parecia estar à beira de um colapso nervoso devido ao excesso de matérias — quando ouviu uma conversa abafada em uma mesa reservada.

Lucius Malfoy estava lá, conversando com o Ministro da Magia, Cornélio Fudge.

— ...uma negligência inaceitável, Cornélio — dizia a voz arrastada de Lucius. — Black quase entrou na Torre da Grifinória. Meus contatos dizem que as proteções de Dumbledore são como peneiras.

— Estamos fazendo o que podemos, Lucius — respondeu Fudge, soando acuado. — Os Dementadores estão em alerta máximo.

— Talvez o alerta devesse ser sobre quem está dentro da escola, e não apenas quem está fora — Lucius sugeriu, e Charlotte sentiu um calafrio. — Há ramificações da minha própria família que parecem estar se aliando a elementos... instáveis.

Charlotte apertou a caneca. Ela sabia que Lucius estava se referindo a ela e a Charles. O tio estava usando a crise de Black para minar a credibilidade de qualquer um que não seguisse sua linha ideológica.

— Ele não desiste, não é? — sussurrou Hermione, que também estava ouvindo.

— Ele quer o controle, Hermione — respondeu Charlotte. — Ele vê a fuga de Black não como uma tragédia, mas como uma ferramenta política. Ele quer provar que Dumbledore não pode proteger as crianças.

A situação atingiu o ápice na noite em que Sirius Black foi finalmente capturado nos terrenos do castelo, apenas para escapar novamente sob circunstâncias misteriosas. Na manhã seguinte, o castelo era um caldeirão de boatos. Dizia-se que Harry Potter o enfrentara, que o Professor Snape fora nocauteado e que um lobisomem estivera solto na Floresta Proibida.

Charlotte encontrou Draco no corujal. Ele estava enviando uma carta, provavelmente para Lucius, com uma expressão de fúria contida.

— Ele escapou, Draco? — perguntou ela, aproximando-se silenciosamente.

— Potter o ajudou — sibilou Draco, virando-se para ela. — Eu sei que sim. Snape estava furioso. Meu pai vai exigir a demissão de Dumbledore desta vez. É o fim.

— Por que você odeia tanto o fato de alguém ter sobrevivido, Draco? — Charlotte perguntou, genuinamente curiosa. — Black era inocente ou culpado, eu não sei. Mas Harry sobreviveu a algo que teria matado qualquer um de nós. Isso não deveria ser motivo de respeito?

— Respeito? Ele quebra todas as regras e recebe prêmios! — Draco gritou, a voz ecoando entre as corujas. — Enquanto isso, nós temos que ser perfeitos. Meu pai exige perfeição! Se eu falho, eu sou uma vergonha. Se você falha, você é apenas "a filha do Charles". Você não entende a pressão, Charlotte! Você vive em um mundo onde pode ser medíocre!

Charlotte deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Draco. Pela primeira vez, ela viu a rachadura na armadura de platina do primo. Ele não era apenas maldoso; ele estava aterrorizado.

— Eu não sou medíocre, Draco. Eu sou livre. Essa é a diferença. O tio Lucius não quer perfeição, ele quer um espelho. Ele quer olhar para você e ver a si mesmo, sem falhas e sem vontade própria. Mas você não é ele.

— Eu tenho que ser — sussurrou Draco, os olhos subitamente úmidos. — Eu não tenho outra escolha.

— Você sempre tem uma escolha — disse ela, suavizando o tom. — Eu escolhi a Lufa-Lufa. Meu pai escolheu Londres. Você pode escolher não ser o carrasco do Harry Potter.

Draco desviou o olhar, fechando a gaiola de sua coruja com força.

— É tarde demais para isso. Black fugiu, Lupin se demitiu porque todos sabem agora que ele é um lobisomem... e meu pai está vindo para cá.

A notícia da vinda de Lucius Malfoy ao castelo espalhou-se rapidamente. Ele não vinha como pai, mas como membro do conselho de governadores (cargo que recuperara através de influências obscuras após o incidente da Câmara). Ele queria uma investigação completa sobre a fuga de Black.

Charles Malfoy, no entanto, não ficou atrás. Sabendo da manobra do irmão, ele utilizou seus contatos no Gabinete do Primeiro-Ministro trouxa para enviar uma nota oficial ao Ministério da Magia, questionando a eficácia dos Dementadores em áreas civis e escolares.

Na tarde de encerramento do ano, os dois irmãos Malfoy se encontraram no Pátio de Entrada. Lucius estava impecável, com sua capa de viagem e sua bengala de prata. Charles estava de terno cinza, segurando uma maleta de couro, parecendo um advogado pronto para um julgamento.

— Charles — disse Lucius, a voz como gelo quebradiço. — Vejo que continua tentando interferir em assuntos que exigem uma varinha, e não uma caneta.

— A caneta é muito mais perigosa que a varinha quando se sabe onde assinar, Lucius — Charles respondeu com um sorriso calmo. — O Ministério está sob fogo cruzado. Os pais estão furiosos com os Dementadores. Sua tentativa de culpar Dumbledore está sendo vista como uma distração para o fracasso do próprio Fudge.

— Você defende um homem que permite que lobisomens ensinem nossos filhos — desdenhou Lucius.

— Eu defendo um homem que ensinou à minha filha que o medo não deve governar nossas vidas — Charles rebateu. — Charlotte me contou sobre o Dementador no trem. Ela me contou como o Professor Lupin a ajudou a se recuperar. Isso é educação, Lucius. O que você oferece é apenas controle.

Charlotte aproximou-se do pai, sentindo o olhar de Lucius sobre ela.

— Olá, tio Lucius — disse ela, com uma polidez que beirava o sarcasmo. — Espero que a viagem de volta para a Mansão seja tranquila. Ouvi dizer que os Dementadores estão muito agitados ultimamente.

Lucius estreitou os olhos.

— Você tem a língua afiada do seu pai, menina. Mas lembre-se: as sombras que Sirius Black deixou para trás não vão desaparecer. O mundo está mudando, e os ideais de "justiça" de Charles não vão protegê-los quando o verdadeiro mestre retornar.

— Nós não precisamos de proteção baseada no medo, Lucius — disse Charles, colocando a mão no ombro de Charlotte. — Nós temos algo que você nunca entenderá: lealdade genuína.

Lucius girou sobre os calcanhares e saiu, chamando Draco com um comando ríspido. O menino seguiu o pai, mas antes de atravessar o portão, ele olhou para trás. Por um breve segundo, seus olhos encontraram os de Charlotte, e não havia ódio ali, apenas uma profunda e silenciosa solidão.

— Você está bem, Charlie? — perguntou Charles enquanto caminhavam em direção à carruagem que os levaria à estação.

— Estou, papai. Foi um ano estranho. Sirius Black não era o monstro que todos diziam, era?

Charles olhou para as montanhas ao longe.

— No mundo bruxo, Charlotte, a verdade é muitas vezes uma questão de perspectiva. Sirius Black foi um homem quebrado por um sistema que Lucius adora. O fato de ele estar livre, de alguma forma, é uma vitória contra o tipo de mundo que seu tio quer construir.

Ao entrarem no Expresso de Hogwarts, Charlotte sentou-se ao lado de Hermione e Rony. Harry estava na janela, observando a paisagem escocesa. Ele parecia mais maduro, mais cansado, mas havia uma centelha de esperança em seus olhos que não estava lá antes.

— O que você vai fazer neste verão, Charlotte? — perguntou Rony.

— Vou ajudar meu pai com um caso pro bono de um nascido-trouxa que teve suas propriedades confiscadas injustamente — ela respondeu com um sorriso. — E acho que vou praticar o feitiço do Patrono. Se os Dementadores vão continuar por perto, eu quero estar pronta para produzir um texugo de prata bem grande.

Todos riram. O trem começou a se mover, deixando para trás o castelo e os Dementadores. Charlotte abriu seu livro de estudos, mas sua mente estava longe. Ela pensava em Draco, preso em sua mansão de gelo, e em Sirius Black, voando em algum lugar sob as estrelas, livre.

Ela percebeu que sua família, os Malfoy de Londres, eram como o Patrono que ela desejava criar: uma luz sólida e brilhante em meio à escuridão, nascida não do ódio ou do sangue puro, mas das memórias felizes de uma vida construída com integridade. O prisioneiro de Azkaban havia fugido, mas Charlotte Malfoy sentia que, pela primeira vez, ela era quem realmente entendia o significado da liberdade.

— Sabe, papai — disse ela para Charles, que se sentara à sua frente no trem trouxa horas depois —, o tio Lucius disse que o mundo está mudando.

— Ele tem razão, querida — Charles respondeu, fechando sua maleta. — O mundo está sempre mudando. Mas enquanto houver pessoas dispostas a questionar as sombras, a luz sempre encontrará um caminho de volta.

E enquanto o subúrbio de Londres surgia na janela, Charlotte Malfoy, a lufana de sangue platinado, soube que estava exatamente onde deveria estar. O futuro era incerto, Sirius Black era um mistério e o Lorde das Trevas era um sussurro, mas ela tinha sua voz, seu pai e a coragem de ser o que nenhum Malfoy antes dela ousara ser: humana.