A prima Malfoy
O Cálice de Fogo e o Sangue das Tradições
O verão de 1994 não foi apenas quente; ele foi carregado de uma eletricidade que parecia vibrar nos ossos de qualquer um que tivesse sensibilidade mágica. Para Charlotte Malfoy, essa tensão se manifestou primeiro na forma de um convite dourado, entregue por uma coruja ministerial de porte majestoso na casa de Chelsea.
— A Copa Mundial de Quadribol — anunciou Charles Malfoy, examinando o pergaminho enquanto tomava seu café matinal. — Arthur Weasley conseguiu ingressos para nós. Ele insiste que Charlotte deve se juntar aos filhos dele e ao jovem Potter.
— E Lucius? — perguntou Sarah, preocupada, enquanto organizava alguns documentos de seu trabalho voluntário em uma biblioteca trouxa. — Ele certamente estará lá. No camarote de honra, imagino.
— Deixe que ele fique com sua honra de ouro e mármore — Charles respondeu, com um brilho divertido nos olhos. — Nós ficaremos com a diversão e a lama. Charlotte, o que você acha?
— Eu acho que Draco vai passar o tempo todo tentando me convencer de que o assento dele é mais alto que o meu — Charlotte riu, embora sentisse uma pontada de ansiedade. — Mas eu adoraria ir. Harry e Hermione estarão lá.
O evento foi uma explosão de cores e magia que Charlotte nunca esqueceria, mas a alegria foi manchada pelo que aconteceu após a vitória da Irlanda. O ataque dos Comensais da Morte, a Marca Negra rasgando o céu noturno como uma cicatriz de esmeralda e o pânico cego que se seguiu foram lembretes brutais de que as sombras que seu pai tanto mencionava estavam se tornando sólidas.
Ela viu Lucius de longe, sob a luz das chamas, não entre os mascarados, mas parado com uma calma gélida que era quase mais aterrorizante. Ele parecia um diretor observando uma peça que ele mesmo ajudara a ensaiar. Quando os olhares de tio e sobrinha se cruzaram em meio ao caos, Charlotte não viu ódio, mas uma expectativa fria.
O retorno a Hogwarts, no entanto, trouxe uma distração monumental: o Torneio Tribruxo.
O Salão Principal estava em polvorosa quando Dumbledore anunciou que a escola sediaria o evento histórico. Charlotte, sentada à mesa da Lufa-Lufa, sentiu o coração disparar quando o nome de Cedrico Diggory, o monitor de sua própria casa, foi cuspido pelo Cálice de Fogo.
— Um campeão da Lufa-Lufa! — exclamou Susan Bones, aplaudindo até as mãos ficarem vermelhas. — Finalmente, eles vão ver do que somos feitos!
Mas o silêncio que se seguiu quando o Cálice cuspiu um quarto nome — o de Harry Potter — transformou a celebração em confusão e ressentimento. Para a Lufa-Lufa, parecia mais uma vez que a Grifinória estava roubando o brilho que, por direito, pertencia a eles.
Charlotte encontrou-se em uma posição difícil. Ela era amiga de Harry, mas sua lealdade à sua casa e a Cedrico era profunda. A tensão aumentou quando os botões "Potter fede / Cedrico é o verdadeiro campeão", criados por Draco, começaram a circular.
— Você não vai usar um desses, vai? — perguntou Draco, aproximando-se de Charlotte no pátio, balançando um botão que brilhava em verde.
— Eu não preciso de um botão para saber que Cedrico é um grande bruxo, Draco — Charlotte respondeu, cruzando os braços. — E você só está fazendo isso para irritar o Harry, não para apoiar a Lufa-Lufa. Se você se importasse com a nossa família, saberia que esse tipo de bullying é medíocre.
— Medíocre? — Draco sibilou, o rosto empalidecendo. — Meu pai diz que o Torneio é a oportunidade perfeita para mostrar quem realmente tem poder. E Potter é uma fraude. Ele não vai durar a primeira tarefa.
— Veremos — disse Charlotte, dando as costas ao primo.
A primeira tarefa, com os dragões, provou que ambos os campeões de Hogwarts eram capazes, mas o clima na escola continuava pesado. Charlotte passava muito tempo na biblioteca, ajudando Cedrico com feitiços de proteção e, secretamente, enviando notas para Hermione com sugestões para Harry. Ela era a ponte invisível entre as duas casas em conflito.
No entanto, o evento que realmente testaria os nervos de Charlotte foi o Baile de Inverno.
— Você vai com quem? — perguntou Sarah através de uma carta que chegou com um vestido de seda azul-marinho, simples e elegante, bem ao estilo londrino da família.
A resposta veio de forma inesperada. Neville Longbottom, com as orelhas vermelhas de vergonha, a convidara. Charlotte aceitara prontamente, apreciando a gentileza e a honestidade do rapaz da Grifinória.
Na noite do baile, o Grande Salão estava transformado em um palácio de gelo. Charlotte caminhava ao lado de Neville quando avistou a comitiva dos Malfoy "oficiais". Lucius e Narcisa haviam sido convidados como convidados de honra, dada a posição de Lucius no conselho.
Draco estava impecável em suas vestes de gala negras, acompanhando Pansy Parkinson, mas seus olhos estavam fixos em Charlotte. Ou melhor, no que estava atrás dela. Lucius Malfoy caminhava em direção a eles, a bengala de prata batendo rítmica e ameaçadoramente no chão de gelo.
— Charlotte — disse Lucius, sua voz cortando a música como uma navalha. — Vejo que suas escolhas de companhia continuam a seguir o padrão de... decepção.
Neville encolheu-se levemente, mas Charlotte deu um passo à frente, mantendo o queixo erguido.
— Olá, tio Lucius. Tia Narcisa, você está deslumbrante. Neville é um excelente par e um bruxo muito talentoso em Herbologia. Algo que o senhor apreciaria se valorizasse o conhecimento sobre o status.
— O conhecimento sem poder é apenas um passatempo para os fracos — Lucius retrucou, os olhos cinzentos faiscando. — Seu pai me enviou uma carta esta semana. Ele parece acreditar que o Ministério está mudando para melhor. Ele é tão ingênuo quanto você.
— Meu pai acredita no que vê, não no que tenta impor aos outros — Charlotte respondeu calmamente.
Narcisa tocou levemente o braço do marido.
— Lucius, por favor. É uma noite de festa.
— Uma festa que precede a tempestade — murmurou Lucius, lançando um olhar sombrio para Harry Potter, que passava por perto. — Aproveite sua dança, Charlotte. Pode ser a última em que você se sente tão... segura.
O baile continuou, mas as palavras de Lucius ficaram gravadas na mente de Charlotte. Ela sentia que algo estava sendo tramado nos bastidores do Torneio. O desaparecimento de Bartô Crouch, o comportamento errático do Professor Moody e a tensão crescente entre Karkaroff e Snape eram peças de um quebra-cabeça que ela não conseguia montar.
A terceira tarefa chegou com um calor sufocante e uma sensação de presságio. O labirinto erguia-se no campo de Quadribol como um monstro adormecido. Charlotte estava nas arquibancadas, sentada entre os pais de Cedrico e seus próprios pais, que haviam vindo para a final.
— Vai dar tudo certo, Charlie — disse Charles, segurando a mão da filha. — Cedrico é preparado.
— Eu sei, papai. Mas há algo errado no ar. Eu sinto.
As horas passaram em uma agonia de espera. Faíscas vermelhas subiam ocasionalmente, sinalizando a desistência de campeões. Quando finalmente dois vultos surgiram do labirinto, segurando a Taça Tribruxo, a multidão explodiu em aplausos. Mas os aplausos rapidamente se transformaram em gritos de horror.
Cedrico Diggory estava morto.
O caos que se seguiu foi um borrão de dor e confusão. Charlotte correu para o gramado, vendo Harry soluçando sobre o corpo sem vida de Cedrico. O grito do pai de Cedrico rasgou o silêncio da noite, um som que Charlotte levaria nos pesadelos pelo resto da vida.
Em meio ao tumulto, ela viu Lucius Malfoy. Ele não estava nas arquibancadas. Ele estava na orla da Floresta Proibida, observando a cena com uma expressão de triunfo contido antes de desaparecer nas sombras.
Dias depois, no Salão Principal, o clima era de luto absoluto. As bandeiras negras pendiam do teto, e o rosto de Cedrico sorria em um retrato cercado por flores. Dumbledore levantou-se, sua voz cansada, mas firme.
— Hoje, sofremos uma perda terrível. Cedrico Diggory foi morto por Lorde Voldemort.
Um suspiro de choque e negação percorreu a sala. O Ministério, liderado por Fudge, vinha negando o retorno do Lorde das Trevas, mas Dumbledore não permitiria que a verdade fosse enterrada com Cedrico.
Charlotte olhou para a mesa da Sonserina. Draco parecia aterrorizado. Ele não estava celebrando; ele estava pálido, olhando para as próprias mãos como se temesse o que o futuro guardava.
Após o banquete, Charlotte encontrou o primo no corredor de acesso às masmorras.
— Ele voltou, não é? — perguntou ela, a voz trêmula. — O seu pai... ele estava lá. Eu vi o olhar dele.
Draco encostou-se na parede de pedra, a respiração curta.
— Ele diz que tudo vai mudar agora, Charlotte. Ele diz que os Malfoy serão recompensados por sua lealdade. Mas... o Cedrico... ele não precisava ter morrido. Ele era apenas um estudante.
— Para o Lorde das Trevas, ninguém é "apenas" um estudante, Draco. Somos todos ferramentas ou obstáculos — Charlotte aproximou-se dele. — O tio Lucius escolheu o lado dele. O meu pai escolheu o dele. E você?
— Eu não tenho a sua coragem — sussurrou Draco. — Eu não sou um lufano.
— Você não precisa de uma casa de Hogwarts para ter decência, Draco. Você só precisa decidir se quer ser um mestre de escravos ou um homem livre.
Ela o deixou ali, sozinho nas sombras.
No dia da partida, Charles Malfoy estava esperando por Charlotte na plataforma Hogsmeade. Ele não precisou perguntar nada; ele viu nos olhos da filha que o mundo que eles conheciam havia acabado.
— Ele voltou, papai — disse ela, abraçando-o com força. — O tio Lucius... ele estava feliz.
— Eu sei, querida. As notícias correm rápido nos círculos que eu ainda monitoro — Charles suspirou, olhando para o trem que soltava fumaça. — O Ministério vai negar. Eles vão tentar destruir a reputação de Dumbledore e de Potter. Vai ser uma guerra de palavras antes de ser uma guerra de varinhas.
— O que vamos fazer? — perguntou Sarah, abraçando os dois.
— Vamos fazer o que os Malfoy de Londres fazem de melhor — disse Charles, com uma determinação de aço. — Vamos lutar com a verdade. Eu vou usar cada conexão legal, cada recurso trouxa e bruxo que tenho para garantir que a resistência tenha uma base sólida. Se Lucius quer uma guerra de influências, ele vai descobrir que o irmão que ele despreza construiu um império que ele não pode derrubar com uma maldição.
Charlotte olhou para trás, para o castelo de Hogwarts no topo da colina. Ela pensou em Cedrico, em sua bondade e em sua morte injusta. Ela pensou em Harry, carregando o peso do mundo nos ombros.
— Eu não vou ficar calada na escola, papai — afirmou ela. — A Lufa-Lufa não vai esquecer o Cedrico. E eu não vou deixar que o nome Malfoy seja associado apenas ao que o tio Lucius representa.
— Eu sei que não vai, Charlie — Charles sorriu com orgulho. — Você é a melhor de todos nós.
Ao entrarem no carro para a longa viagem de volta a Londres, Charlotte sentiu o broche de texugo em seu bolso. O ouro parecia mais pesado agora, um símbolo não apenas de uma casa escolar, mas de uma promessa.
O quarto ano terminara em tragédia, e o retorno de Voldemort era uma realidade sombria que pairava sobre o horizonte. Mas enquanto o Jaguar azul de Charles Malfoy cortava as estradas em direção à luz de Londres, Charlotte percebeu que a verdadeira batalha estava apenas começando. Lucius Malfoy podia ter seu mestre das trevas, mas ela tinha algo mais forte: uma família que não se curvava ao medo e uma lealdade que nem mesmo a morte de um campeão poderia quebrar.
— Papai? — chamou ela, enquanto as luzes da cidade começavam a surgir.
— Sim, querida?
— Acho que vou precisar de mais livros sobre leis de emergência mágica neste verão.
Charles olhou pelo retrovisor e piscou para a filha.
— Eu já separei os melhores para você, Charlotte. Vamos precisar de cada vírgula da lei para enfrentar o que está por vir.
E assim, sob o céu de Londres que começava a escurecer com nuvens de tempestade, a herdeira da Lufa-Lufa preparava-se para a guerra, sabendo que o sangue que corria em suas veias era antigo, era Malfoy, mas, acima de tudo, era livre.