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Agatha e Gustavo

Entre o Cetim e o Silêncio

A noite havia caído definitivamente sobre Seattle, transformando as janelas da cobertura em espelhos negros que refletiam a opulência e o isolamento do mundo de Gustavo. O silêncio que se seguiu à partida tempestuosa de Luiza era denso, mas não era mais carregado de tensão; era um silêncio de cura. Agatha estava aninhada no peito de Gustavo, o ritmo estável do coração dele servindo como uma âncora para seus pensamentos ainda um pouco desorganizados.

— Você está muito quieta — sussurrou Gustavo, os dedos traçando padrões preguiçosos nas costas dela, por cima do tecido fino do vestido. — Isso me preocupa. Geralmente, a essa hora, você já teria feito pelo menos três perguntas absurdas ou me contado uma piada de duplo sentido.

Agatha soltou um suspiro longo, sentindo o calor dele penetrar em seus ossos.

— Eu só estou pensando... — Ela fez uma pausa, buscando as palavras. — É estranho como as pessoas que a gente acha que nos conhecem melhor podem ser as que menos entendem quem somos de verdade. A Luiza... ela sempre foi meu porto seguro quando eu era mais nova. Mas hoje, olhando para ela, eu não vi segurança. Eu vi uma prisão.

Gustavo suspirou, apertando-a um pouco mais contra si.

— Às vezes, as pessoas confundem proteção com posse, Agatha. Ela se acostumou a ser a única pessoa que lidava com as suas crises, com o seu jeito intenso. Quando eu entrei na jogada, eu quebrei o monopólio dela sobre você. E para alguém como a Luiza, perder o controle é o mesmo que perder a relevância.

Agatha levantou a cabeça, apoiando o queixo no peito dele. Seus olhos, ainda levemente avermelhados, encontraram os dele, que brilhavam com uma mistura de adoração e uma ponta de cansaço.

— Mas você também é possessivo, Gu — disse ela, com um sorriso travesso começando a brotar nos lábios. — Você me olha como se eu fosse um contrato de exclusividade bilionário que você acabou de assinar.

Gustavo soltou uma risada baixa e rouca, inclinando-se para dar um beijo na ponta do nariz dela.

— A diferença, minha pequena chorona, é que eu quero que você seja dona de si mesma ao meu lado. Eu quero ser o seu parceiro, não o seu carcereiro. E se eu sou possessivo, é porque eu sei o tesouro que tenho e não sou idiota o suficiente para deixar o mundo lá fora te machucar. Mas eu nunca vou te impedir de voar, desde que você sempre volte para o meu ninho.

Agatha sentiu o coração derreter. Era exatamente aquilo. Com Gustavo, ela se sentia livre para ser quem era: a mulher engraçada, a safada, a chorona e a ansiosa. Ele não tentava "consertá-la" como se ela fosse um objeto quebrado; ele simplesmente a amava através de todas as suas fases.

— Bom — disse ela, mudando o tom de voz para algo mais leve e provocativo —, já que o senhor é tão compreensivo e "não-carcereiro", o que o seu protocolo médico diz sobre pacientes que estão com desejo de chocolate e atenção redobrada?

Gustavo arqueou uma sobrancelha, um brilho de diversão voltando aos seus olhos.

— Chocolate eu posso providenciar. Atenção redobrada... bom, eu acho que o tratamento anterior foi interrompido de forma rude. Teremos que recomeçar do zero para garantir a eficácia.

Ele se levantou, pegando-a no colo com a facilidade de quem carrega uma pluma. Agatha soltou um gritinho de surpresa seguido de uma gargalhada, passando o braço bom pelo pescoço dele.

— Gustavo! Minha mão! — protestou ela, rindo.

— Sua mão está perfeitamente protegida — disse ele, caminhando em direção à cozinha. — Mas antes do "tratamento intensivo", vamos cuidar da sua glicose. Você gastou muita energia chorando e discutindo com vilãs de novela hoje.

Ele a colocou sentada sobre o balcão de mármore da cozinha, ficando entre as pernas dela. Gustavo abriu uma gaveta e tirou uma barra de chocolate amargo artesanal. Com uma delicadeza que Agatha sempre achava fascinante naquele homem tão poderoso, ele quebrou um pedaço e o levou aos lábios dela.

— Come — ordenou ele, suavemente.

Agatha obedeceu, sentindo o sabor intenso do cacau derreter em sua língua. Ela fechou os olhos, saboreando o momento. Quando os abriu, Gustavo a observava com uma intensidade que a fez esquecer como se respirava.

— Sabe — murmurou ele, aproximando o rosto do dela —, eu odeio te ver sofrer, Agatha. Ver você naquela crise hoje de manhã... me deu vontade de quebrar o mundo inteiro só para te fazer sorrir de novo.

— Você não precisa quebrar nada, Gu — ela respondeu, a voz carregada de emoção. — Você só precisa estar aqui. Quando você me segura, o mundo para de girar tão rápido. O barulho na minha cabeça silencia.

Gustavo encostou a testa na dela, fechando os olhos por um momento.

— Eu sempre vou estar aqui. Mesmo quando eu estiver sendo um doido, mesmo quando eu estiver fazendo piadas ruins. Eu sou o seu porto seguro agora. E eu não vou a lugar nenhum.

Ele a beijou então, um beijo que tinha gosto de chocolate e promessas silenciosas. Era um beijo de conforto, mas que rapidamente começou a ganhar contornos de algo mais profundo. As mãos de Gustavo subiram pelas coxas de Agatha, puxando-a para mais perto da borda do balcão, enquanto ela se perdia na sensação da língua dele explorando a sua.

— Gu... — ela arfou, afastando-se apenas um milímetro. — E a louça quebrada? Você limpou tudo?

Gustavo riu contra o pescoço dela, seus lábios traçando o caminho até a orelha de Agatha.

— Tudo limpo, meu anjo. Não há um único caco de porcelana sobrando para te machucar. Só sobramos nós dois.

— E a Luiza? — Agatha perguntou, a voz ficando pequena. — Você acha que ela vai tentar falar comigo de novo?

Gustavo parou, olhando-a seriamente. Ele pegou a mão enfaixada dela e a beijou com extrema ternura.

— Se ela tentar, ela terá que passar por mim primeiro. E depois do que aconteceu hoje, eu duvido que ela tenha coragem de aparecer por aqui tão cedo. Mas não pense nela agora. Pense em nós. Pense em como eu vou passar o resto desta noite te mostrando o quanto você é amada.

Agatha sentiu as lágrimas voltarem, mas desta vez não havia ansiedade nelas. Eram lágrimas de um alívio tão profundo que parecia lavar sua alma.

— Eu sou tão chorona — disse ela, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Você deve estar exausto de mim.

— Eu nunca vou me cansar de você — afirmou ele, pegando-a no colo novamente e saindo da cozinha. — Suas lágrimas são apenas o jeito que o seu coração transborda. E eu estou aqui para colher cada uma delas.

Ele a levou de volta para o quarto, mas desta vez não a deitou imediatamente. Ele parou diante do grande espelho que ocupava uma das paredes.

— Olha para você — sussurrou ele, atrás dela.

Agatha olhou para o próprio reflexo. Ela via a mulher que Gustavo amava: os cabelos levemente bagunçados, o rosto sem maquiagem, a mão enfaixada e o olhar vibrante. Ela se via através dos olhos dele e, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu verdadeiramente bonita, não por causa de um vestido de seda ou de uma joia cara, mas porque era amada em sua forma mais crua.

— Você é a mulher mais forte que eu conheço — continuou Gustavo, as mãos descansando em seus ombros. — Porque você não tem medo de sentir. Você sente tudo, Agatha. A dor, a alegria, a ansiedade, o desejo. Isso é o que te torna real. E é por isso que eu sou louco por você.

Agatha virou-se nos braços dele, enterrando o rosto em seu peito.

— Eu te amo, Gustavo. Com todas as minhas loucuras e crises.

— E eu te amo exatamente por causa delas — ele respondeu.

Ele a conduziu para a cama, deitando-a sobre os lençóis de seda que pareciam acariciar sua pele. O ambiente estava imerso em uma luz suave, criando uma atmosfera de intimidade absoluta. Gustavo se desfez do restante de suas roupas com movimentos lentos, mantendo os olhos fixos nos dela.

Quando ele se juntou a ela na cama, o mundo exterior — com suas Luizas, seus julgamentos e suas pressões — desapareceu completamente. Ali, naquele espaço sagrado, não havia espaço para a ansiedade. Havia apenas o toque, o calor e a conexão indestrutível entre dois corações que se encontraram no meio do caos.

Gustavo foi cuidadoso, tratando-a como se ela fosse o objeto mais valioso de sua vasta coleção. Ele explorou cada centímetro de sua pele com beijos leves e carícias que faziam Agatha tremer, não de medo, mas de antecipação. Ele honrou sua fragilidade e celebrou sua força, guiando-a por um labirinto de sensações que a faziam esquecer até o próprio nome.

— Você está bem? — ele perguntou em certo momento, a voz rouca de desejo, parando para olhar em seus olhos.

— Eu estou perfeita — ela respondeu, puxando-o para baixo para um beijo profundo. — Porque eu estou com você.

A noite avançou, e Seattle continuou seu ritmo frenético lá embaixo, alheia ao drama e à paixão que se desenrolavam na cobertura. Agatha finalmente adormeceu, exausta mas em paz, sentindo o braço de Gustavo protetoramente ao redor de sua cintura.

Gustavo, porém, permaneceu acordado por mais algum tempo, observando-a dormir. Ele olhou para a mão enfaixada dela e sentiu uma pontada de determinação. Ele sabia que o mundo tentaria testá-los novamente. Sabia que a mente de Agatha voltaria a pregar peças nela e que pessoas como Luiza tentariam semear a discórdia.

Mas, enquanto ele tivesse fôlego, ele seria o escudo dela. Ele seria o riso que espanta o medo e o abraço que cura a alma. Ele se inclinou e beijou o ombro dela, fechando os olhos finalmente.

A manhã seguinte traria novos desafios, mas eles os enfrentariam juntos. Porque, no final das contas, entre o cetim e o silêncio, o que restava era o amor mais puro e resiliente que dois "doidos" poderiam construir. E isso, por si só, era mais do que suficiente para vencer qualquer sombra.