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Agatha e Gustavo

O Despertar da Calmaria e o Peso do Futuro

A luz da manhã de Seattle entrou pela fresta das cortinas de veludo, pintando listras douradas sobre o tapete de seda do quarto. Agatha acordou devagar, sentindo o peso reconfortante do braço de Gustavo sobre sua cintura. Por um momento, o silêncio era tão absoluto que ela pôde ouvir o tique-taque baixo do relógio de luxo dele sobre a mesa de cabeceira. Ela se moveu levemente, sentindo a ardência familiar na palma da mão, um lembrete físico do caos do dia anterior.

Gustavo se mexeu ao sentir o movimento dela. Ele não abriu os olhos imediatamente, apenas a puxou para mais perto, enterrando o rosto na curva do pescoço de Agatha e inspirando profundamente o cheiro de baunilha e sono dela.

— Bom dia, minha sobrevivente — murmurou ele, a voz ainda mais rouca e grave por causa do sono.

— Bom dia, Gu — ela respondeu, virando-se com cuidado para encará-lo. — Você dormiu bem ou ficou a noite toda vigiando o meu curativo?

Gustavo abriu um dos olhos, exibindo aquele brilho azulado de quem sempre tinha uma resposta pronta na ponta da língua.

— Eu fiz as duas coisas. Sou um homem de múltiplos talentos, esqueceu? — Ele se apoiou no cotovelo, olhando seriamente para a mão enfaixada dela. — Como está a dor? Escala de um a dez, sendo dez "preciso de um transplante de mão agora".

Agatha soltou uma risadinha, sentindo o coração leve.

— Está em dois, doutor. Só uma pontada chata. Mas o meu nível de fome está em onze.

— Justo. — Gustavo sentou-se na cama, espreguiçando-se e exibindo o abdômen definido que Agatha tanto amava. — Eu vou preparar o café. Mas você fica aí. Sem movimentos bruscos, sem tentar salvar o mundo e, pelo amor de Deus, sem chegar perto de qualquer objeto de porcelana ou vidro.

— Eu prometo — disse ela, cruzando o peito com a mão boa. — Vou ser uma estátua de seda até você voltar.

Gustavo deu um beijo rápido e estalado nos lábios dela antes de sair do quarto. Agatha ficou ali, olhando para o teto, sentindo-se estranhamente em paz. A crise de ansiedade do dia anterior parecia uma memória distante, uma névoa que havia se dissipado sob o calor do cuidado de Gustavo. No entanto, a sombra de Luiza ainda pairava em um canto escuro de sua mente.

Ela pegou o celular, que agora estava carregado. Havia dezenas de mensagens de Luiza, que começavam com pedidos de desculpas desesperados e terminavam com acusações veladas sobre como Gustavo a estava "fazendo de refém". Agatha sentiu uma pontada de tristeza, mas não deixou que as lágrimas viessem. Ela sabia que precisava de espaço.

Minutos depois, Gustavo voltou equilibrando uma bandeja de prata. Havia panquecas com mirtilos, suco de laranja espremido na hora e um pequeno vaso com uma única rosa branca.

— Café da manhã para a paciente mais exigente de Seattle — anunciou ele, colocando a bandeja sobre as pernas dela com um cuidado exagerado.

— Gu, isso é lindo — ela disse, os olhos brilhando. — Você realmente quer me mimar até eu não conseguir mais andar sozinha, não é?

— Esse é o plano — ele confessou, sentando-se ao lado dela e pegando um pedaço de panqueca. — Se você depender de mim para tudo, não vai ter tempo de se meter em confusão com cacos de vidro ou amigas invejosas.

Eles comeram em um clima de descontração, entre risadas e as piadas bobas de Gustavo sobre como ele seria um excelente enfermeiro se decidisse abandonar o mundo dos negócios. Mas, conforme o café terminava, o tom da conversa mudou.

— Agatinha — começou ele, limpando um farelo de panqueca do canto da boca dela com o polegar —, eu estive pensando sobre o que a Luiza disse ontem. Sobre você estar sempre chorando e nervosa.

Agatha baixou os olhos para a bandeja.

— Você sabe que eu sou intensa, Gu. Eu choro quando estou feliz, quando estou triste, quando o café acaba...

— Eu sei — interrompeu ele, segurando o queixo dela para que ela o olhasse. — E eu amo cada lágrima sua porque elas são reais. Mas eu não quero que o nosso mundo seja um lugar onde você se sinta constantemente à beira de um colapso. Eu quero que você se sinta segura.

— Eu me sinto segura com você — ela afirmou com convicção. — Ontem, quando eu não conseguia respirar, foi a sua voz que me trouxe de volta. Não foi o remédio, não foi o curativo. Foi você.

Gustavo sorriu de lado, mas havia uma seriedade rara em sua expressão.

— Eu sou um homem difícil, Agatha. Eu sei que o meu jeito, essa minha vida... às vezes é demais. E pessoas como a Luiza vão sempre tentar usar as suas vulnerabilidades contra nós. O que eu quero saber é: você está pronta para enfrentar isso? Mesmo que signifique deixar algumas pessoas para trás?

Agatha respirou fundo. Ela sabia que ele estava falando de Luiza. A amizade delas era antiga, mas havia se tornado um peso.

— Eu já deixei, Gu. Ontem, quando ela gritou com você, eu percebi que ela não estava me protegendo. Ela estava tentando me manter pequena para que eu coubesse na vida dela. Com você, eu sinto que posso ser gigante. Mesmo que eu tropece de vez em quando.

Gustavo a puxou para um abraço apertado, o tipo de abraço que fazia Agatha sentir que nada no mundo poderia atingi-la.

— Então está decidido. — Ele se afastou um pouco, o brilho brincalhão voltando aos olhos. — Próximo passo do tratamento: um banho de banheira com sais minerais e absolutamente nenhum pensamento sobre o mundo exterior.

— Eu posso me acostumar com esse tratamento — disse ela, sorrindo.

O banho foi um ritual de ternura. Gustavo a ajudou a entrar na água morna, tendo o cuidado de manter a mão enfaixada dela apoiada em uma toalha seca na borda da banheira. Ele lavou o cabelo dela com uma paciência infinita, massageando o couro cabeludo de um jeito que fez Agatha fechar os olhos e soltar um suspiro de puro prazer.

— Você é muito bom nisso — murmurou ela. — Tem certeza de que não trabalhou em um spa em outra vida?

— Eu fui um imperador romano em outra vida — brincou ele, jogando um pouco de água nela. — E você era a minha rainha rebelde que sempre quebrava as regras e me fazia perder o juízo.

— Algumas coisas nunca mudam — retrucou ela, jogando água de volta com a mão livre.

Depois do banho, eles se vestiram com roupas confortáveis e se acomodaram no sofá da sala, assistindo a um filme qualquer que nenhum dos dois estava realmente prestando atenção. Agatha estava deitada com a cabeça no colo de Gustavo, enquanto ele acariciava seus cabelos.

— Gu? — chamou ela suavemente.

— Hum?

— Obrigada por não ter ficado bravo comigo ontem. Por causa da caneca. Eu sei que ela era importante.

Gustavo parou o carinho por um segundo, olhando para ela com uma expressão de "você só pode estar brincando".

— Agatha, olha para mim. — Ele esperou até encontrar os olhos dela. — Eu trocaria cada objeto de valor que eu possuo, cada centavo na minha conta bancária, apenas para garantir que você nunca mais tenha que sentir aquele medo que sentiu ontem. Objetos são substituíveis. Você é única.

As lágrimas, as inevitáveis lágrimas de Agatha, começaram a rolar. Mas desta vez, elas não traziam o aperto no peito da ansiedade. Eram quentes, leves e cheias de um alívio que ela não conseguia descrever.

— Lá vem ela de novo — disse Gustavo, rindo baixo e limpando o rosto dela. — Minha cachoeira particular.

— Eu avisei que eu era chorona — ela disse entre soluços e risos.

— E eu avisei que sou doido por você. — Ele a puxou para cima, fazendo-a sentar em seu colo. — Agora, chega de conversa séria. Eu tenho uma surpresa para você.

— Outra? — Ela arqueou as sobrancelhas. — Meu coração não aguenta tantas surpresas em um dia só.

— Essa é uma surpresa "segura" — prometeu ele.

Gustavo se levantou e foi até o escritório, voltando com uma pequena caixa embrulhada em papel pardo simples. Ele a entregou a Agatha. Com a mão boa, ela rasgou o papel e abriu a caixa. Dentro, havia uma caneca de cerâmica rústica, feita à mão, com cores vibrantes e uma frase gravada: "Propriedade da Chorona mais Linda do Mundo".

Agatha soltou uma gargalhada alta, a primeira gargalhada verdadeira desde o acidente.

— Você não fez isso! — exclamou ela, pegando a caneca com cuidado.

— Fiz. E essa é de cerâmica reforçada. Pode cair de um prédio de dez andares que ela provavelmente vai abrir um buraco no chão, mas não vai quebrar — brincou ele. — É o nosso novo começo. Sem porcelanas gregas frágeis. Apenas coisas que aguentam o tranco.

Agatha abraçou a caneca contra o peito e depois abraçou Gustavo, enterrando o rosto em seu pescoço.

— Eu te amo tanto, seu doido.

— Eu também te amo, sua safada.

O restante da tarde passou em uma calma que Agatha raramente experimentava. Eles pediram comida tailandesa, jogaram um jogo de tabuleiro onde Gustavo roubou descaradamente para fazê-la rir, e evitaram qualquer assunto que envolvesse o trabalho ou o drama social de Seattle.

No entanto, conforme a noite chegava, o telefone de Gustavo tocou. Ele olhou para o visor e sua expressão endureceu por um milésimo de segundo antes de voltar ao normal. Era o seu assistente pessoal.

— Eu preciso atender isso, Agatinha. É sobre a fusão da semana que vem.

— Tudo bem — disse ela, dando um beijo na bochecha dele. — Eu vou ficar aqui, treinando como segurar minha caneca nova com a mão esquerda.

Gustavo foi para o escritório e Agatha ficou na sala, observando as luzes da cidade começarem a piscar lá fora. Ela se sentia fortalecida. O episódio com Luiza e o acidente haviam servido para mostrar que, embora ela tivesse suas fraquezas, ela tinha um alicerce sólido em Gustavo.

Ela pegou o celular de novo e, desta vez, não leu as mensagens. Ela simplesmente bloqueou o número de Luiza. Não por ódio, mas por autopreservação. Ela não precisava de sombras em sua vida quando tinha tanto brilho ao seu lado.

Quando Gustavo voltou, ele parecia um pouco tenso, mas relaxou ao ver Agatha sentada calmamente, tomando um chá na caneca nova.

— Tudo bem com os negócios? — perguntou ela.

— Tudo sob controle. Mas os negócios podem esperar — disse ele, sentando-se ao lado dela e puxando-a para um beijo demorado. — Sabe o que eu estava pensando?

— O quê?

— Que essa sua mão enfaixada me dá uma desculpa perfeita para te levar para viajar. Um lugar onde não existam canecas, nem telefones, nem amigas invejosas. Só areia, mar e eu cuidando de você o dia todo.

Agatha sorriu, sentindo a empolgação crescer.

— Para onde?

— É surpresa. Mas eu garanto que você vai chorar de alegria quando chegar lá.

— Você me conhece tão bem — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele.

— Eu me esforço — respondeu Gustavo, beijando o topo da cabeça dela.

Naquela noite, enquanto se preparavam para dormir, Agatha olhou para o curativo em sua mão. Ele ainda estava lá, mas não parecia mais uma marca de dor. Era um símbolo de uma transição. Ela havia passado pelo fogo e saído mais forte, amparada por um homem que não tinha medo de suas tempestades.

Gustavo apagou as luzes e a puxou para baixo das cobertas, envolvendo-a em seus braços.

— Boa noite, Agatinha — sussurrou ele no escuro.

— Boa noite, Gu.

O silêncio da cobertura de Seattle não era mais vazio. Estava preenchido com a promessa de um futuro onde as crises seriam enfrentadas juntos e onde o riso sempre teria a última palavra. Agatha fechou os olhos, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo, sabendo que, não importa o que acontecesse, ela sempre teria um lugar seguro para cair. E esse lugar tinha o nome de Gustavo.