Agora
O Batismo de Fogo e o Triunfo do Desejo
A luz cinzenta do amanhecer paulistano começava a vazar pelas frestas da cortina blackout da suíte master, mas o calor dentro do quarto ainda era sufocante, impregnado pelo cheiro metálico de suor, sexo e o perfume doce de Gabriela misturado ao aroma amadeirado de Juliano. Ana Paula Renault, a primeira a despertar, sentou-se na beira da cama com a postura de uma rainha que acaba de inspecionar seu campo de batalha. Ela olhou para os dois corpos entrelaçados sob o lençol de seda bagunçado e sentiu um prazer gélido e satisfatório.
— Acorda, bando de vagabundos! — disparou Ana, a voz rouca, mas mantendo o tom de comando que a tornara icônica. — O sol já está querendo dar as caras e eu não quero ninguém com cara de ressaca na minha frente.
Juliano resmungou, passando a mão pelos cabelos loiros desalinhados, enquanto Gabriela abria os olhos lentamente, piscando contra a claridade. A garota parecia em transe, processando a intensidade da noite anterior, sentindo cada músculo do corpo reclamar de um jeito que ela nunca havia experimentado.
— Meu Deus, Ana... que horas são? — perguntou Gabriela, puxando o lençol para cobrir os seios, um reflexo de pudor que fez Ana Paula soltar uma risada anasalada.
— Esquece a hora, Gabi. E para de tentar se esconder, que eu já vi até o que você não sabia que tinha — debochou a loira, levantando-se e caminhando nua até a varanda envidraçada antes de vestir seu robe. — O Juliano te desmontou ontem, e você adorou. Não vem dar uma de santa agora que a plateia diminuiu.
Juliano sentou-se na cama, exibindo o abdômen trincado e as marcas de unhas que Gabriela deixara em seus ombros. Ele olhou para a "santinha" do BBB com um olhar predatório que ainda não havia se dissipado completamente.
— Ela deu conta, Ana — disse Juliano, a voz grave de quem acabou de acordar. — Mas acho que ela ainda está em choque. Não é, Gabi?
Gabriela olhou para Juliano e depois para Ana. O medo de ser julgada estava sendo rapidamente substituído por uma euforia perigosa.
— Eu só... eu nunca achei que seria assim — confessou Gabriela, soltando o lençol e deixando-se ser observada. — Eu sempre tive tanto medo do que as pessoas iam falar, do que a minha família ia pensar...
— Pois a sua família não está aqui, e as pessoas que falam de você provavelmente dão o cu escondido e com a luz apagada — interrompeu Ana Paula, voltando para o lado da cama e segurando o queixo de Gabriela. — Aqui dentro, a gente vive a verdade. E a verdade é que você é uma gostosa que precisava de um macho com pegada e de uma mulher com visão pra te acordar.
Juliano puxou Gabriela para um beijo rápido, mas possessivo, antes de se levantar e caminhar até o banheiro.
— Vou tomar um banho. Se vocês quiserem continuar o workshop de libertação feminina, fiquem à vontade — gritou ele por cima do ombro, desaparecendo atrás da porta de vidro fosco.
Ana Paula sentou-se ao lado de Gabriela, cruzando as pernas e encarando-a com aqueles olhos claros que pareciam ler a alma de qualquer um.
— Escuta aqui, garota — começou Ana, o tom agora mais sério, mas ainda ácido. — O Juliano é um garanhão, um moleque que descobriu o poder que tem entre as pernas. A Marina é uma deusa que sabe compartilhar. E eu... eu sou a dona da porra toda. Se você quer entrar nesse jogo, tem que perder essa mania de pedir desculpas por existir.
— Eu quero, Ana. Eu quero ser como você — disse Gabriela, a voz ganhando firmeza. — Eu quero parar de me importar.
— Então começa agora — disse Ana, levantando-se. — Levanta dessa cama, vai lá naquele chuveiro e mostra pro Juliano que o round de ontem foi só o aquecimento. Eu vou preparar um café forte, porque se a Marina ligar por vídeo, eu quero todo mundo com cara de quem acabou de sair de um retiro espiritual.
Gabriela obedeceu. Ela caminhou até o banheiro, sentindo o olhar de Ana em suas costas, e entrou no box onde a água quente já caía sobre o corpo de Juliano. Ana Paula sorriu, ouvindo os primeiros gemidos de surpresa de Gabriela seguidos pelo riso abafado de Juliano.
— É isso aí, garoto... ensina pra ela o que é o pós-BBB de verdade — murmurou Ana para si mesma, saindo do quarto.
Na cozinha gourmet, Ana Paula começou a operar a máquina de café expressa com a precisão de quem conhece o luxo. O silêncio da cobertura era apenas quebrado pelo som da água e pelos ecos distantes que vinham da suíte. Ela estava terminando de servir as xícaras quando seu celular vibrou sobre o mármore. Era uma chamada de vídeo de Marina Sena.
Ana Paula ajeitou o cabelo, limpou qualquer vestígio de cansaço do rosto e atendeu com seu melhor sorriso debochado.
— Olha elaaaa! A estrela de Minas resolveu dar as caras! — exclamou Ana, vendo o rosto radiante de Marina na tela.
— Ana! Mulher, que saudade dessa energia! — Marina riu, o fundo do vídeo mostrava um camarim luxuoso. — Como estão as coisas por aí? O Juliano está se comportando ou você já teve que colocar ele de castigo?
— Ah, Marina... o seu namorado é um caso perdido — disse Ana, girando a câmera para mostrar a cozinha vazia. — Ele está dormindo como um anjo. A Gabriela, aquela menina do programa, acabou vindo pra cá ontem porque teve um problema com o hotel. Está todo mundo apagado.
Marina soltou uma gargalhada maliciosa, seus olhos brilhando através da tela.
— A Gabi? Aquela que você dizia que era "água de batata"? Sei... — Marina fez uma pausa, o sorriso aumentando. — Ana, eu te conheço. Eu sei que quando você fica com essa voz de quem tomou uísque a noite toda, algo aconteceu. O Juliano deu conta das duas?
Ana Paula fingiu indignação, mas seus olhos a traíram.
— Marina Sena, você é uma pervertida! Eu sou uma mulher de família, você sabe disso.
— Sei, sei... — ironizou Marina. — Escuta, eu chego em São Paulo à tarde. Quero encontrar todo mundo aí. E diga à Gabi que, se ela ainda estiver viva, eu quero os detalhes técnicos. O Juliano tem essa mania de querer impressionar as visitas.
— Pode deixar, meu amor. Vou dar o seu recado — Ana despediu-se e desligou o celular, respirando fundo.
Nesse momento, Juliano e Gabriela apareceram no corredor. Ele vestia apenas uma toalha na cintura e Gabriela usava uma camisa social branca dele, que ficava enorme nela, dando um ar de vulnerabilidade provocante.
— A Marina ligou — anunciou Ana, entregando uma xícara de café para cada um. — Ela chega à tarde e já sacou tudo.
Gabriela empalideceu por um segundo, mas Juliano apenas deu de ombros, tomando um gole do café.
— A Marina é de boa, Gabi. Ela gosta de ver as pessoas felizes. E eu estou muito feliz agora — disse ele, passando o braço pelo pescoço de Gabriela e puxando-a para um beijo que cheirava a café e luxúria.
— Pois tratem de se organizar — interrompeu Ana Paula, batendo com a colher na xícara. — Porque se a Marina chegar e encontrar essa casa com cheiro de pecado, ela vai querer participar, e eu não sei se a Gabi aguenta o tranco de nós quatro juntos.
— Eu aguento — disparou Gabriela, surpreendendo a ambos. — Eu aguento qualquer coisa agora.
Ana Paula olhou para a garota e viu que a transformação estava completa. A santinha havia morrido naquelas últimas horas, dando lugar a alguém que finalmente entendia o valor do próprio desejo.
— É assim que se fala, porra! — exclamou Ana. — Então vamos comer alguma coisa, porque o dia vai ser longo. Juliano, vai vestir uma roupa decente que eu não sou obrigada a ficar olhando pra esse seu abdômen o dia todo... mentira, eu sou obrigada sim, mas faz um esforço.
O clima na cozinha relaxou, mas a eletricidade entre os três era palpável. Juliano não conseguia tirar as mãos de Gabriela, e Ana Paula, do alto de sua sabedoria, orbitava os dois como uma mentora orgulhosa de sua criação.
— Sabe, Ana — começou Juliano, sentando-se à mesa enquanto devorava um croissant. — Eu nunca achei que a vida depois do BBB ia ser tão melhor que o programa.
— O programa é uma mentira, Juliano — respondeu Ana, servindo-se de mais café. — Aquilo é pra vender comercial de margarina e shampoo. A vida real é o que a gente faz quando as câmeras desligam. É o que a gente sente quando não tem ninguém votando na nossa conduta moral.
— E você sempre foi a única verdadeira lá dentro — disse Gabriela, olhando para Ana com admiração genuína.
— Eu sou apenas eu mesma, Gabi. O mundo é que é chato demais pra aguentar a verdade — Ana deu uma piscadela. — Mas agora, chega de filosofia. Juliano, você vai descer e buscar aquelas encomendas que eu fiz. Gabi, você vai me ajudar a escolher o que eu vou vestir pra receber a Marina. Quero estar impecável pra esfregar na cara dela que eu cuidei muito bem do "filhinho" dela.
— Você é terrível, Ana Paula — riu Juliano, levantando-se e dando um tapa estalado na bunda de Ana ao passar por ela.
— Olha elaaaa! Abusado! — gritou Ana, rindo junto. — Vai logo, antes que eu mude de ideia e te coloque pra limpar o chão da cozinha com a língua!
Juliano saiu, deixando as duas mulheres sozinhas. Gabriela aproximou-se de Ana, o semblante mais calmo.
— Ana... obrigada por ontem. Por não me deixar recuar.
— Não me agradeça, Gabi. Só não volta a ser aquela menina sem sal. O mundo já tem gente sem graça demais. Seja o caos, seja o deboche, seja a vontade. É a única forma de sobreviver a essa gente cafona que julga a gente.
As duas se abraçaram rapidamente, um pacto silencioso selado entre a veterana do deboche e a novata da luxúria.
A tarde caiu sobre São Paulo com um céu alaranjado e dramático. O som da chave na fechadura anunciou a chegada da dona da casa. Marina Sena entrou na cobertura carregando o brilho dos palcos e a energia de quem sabe que é desejada por milhões.
— Cheguei, caralho! — gritou Marina, jogando a bolsa no sofá.
Juliano correu para abraçá-la, tirando-a do chão em um beijo cinematográfico. Ana Paula apareceu logo atrás, segurando uma garrafa de champanhe já aberta.
— Demorou, hein, querida? O "estoque" de paciência do seu namorado já estava acabando — debochou Ana.
Marina soltou-se de Juliano e abraçou Ana, dando-lhe um beijo no rosto. Depois, seus olhos pousaram em Gabriela, que estava de pé perto da varanda, usando um vestido justo que Ana Paula lhe emprestara.
— Então essa é a nova integrante da família? — perguntou Marina, caminhando em direção a Gabriela com um sorriso que faria qualquer um tremer. — Você está muito mais bonita do que na televisão, Gabi. O ar de São Paulo te fez bem... ou foi o tratamento do Juliano?
Gabriela não desviou o olhar. Ela sorriu de volta, um sorriso que carregava todo o aprendizado da madrugada anterior.
— Foi um pouco de tudo, Marina. Mas a Ana Paula foi a melhor professora que eu poderia ter.
Marina olhou para Ana e depois para Juliano, soltando uma gargalhada sonora.
— Eu adoro essa casa! Ana, serve esse champanhe logo. Juliano, leva as minhas malas pro quarto. Gabi, vem aqui me dar um abraço de verdade.
A celebração começou ali mesmo. O que havia começado como um encontro fortuito após um reality show havia se transformado em um ecossistema de prazer e cumplicidade. Entre taças de champanhe e conversas que alternavam entre o deboche ácido de Ana e a sensualidade nata de Marina, Gabriela sentia que finalmente pertencia a algum lugar.
— Sabe o que falta nessa festa? — perguntou Marina, sentando-se no colo de Juliano enquanto Ana e Gabi se acomodavam ao redor.
— Mais álcool? — sugeriu Ana.
— Não — Marina olhou para cada um deles, os olhos brilhando com uma ideia perversa. — Falta a gente estrear a banheira nova da suíte. Cabe nós quatro perfeitamente.
Juliano sorriu, a mão já subindo pela coxa de Marina.
— Eu apoio a relatora — disse ele.
Ana Paula levantou sua taça, brindando ao caos que ela mesma ajudara a criar.
— Olha elaaaa! Quem sou eu pra estragar a programação da dona da casa? — Ana olhou para Gabriela. — E você, Gabi? Pronta pro próximo nível?
— Mais do que pronta — respondeu a garota, levantando-se e estendendo a mão para Ana.
A noite em São Paulo estava apenas começando, e para aquele quarteto, o BBB era apenas uma lembrança distante e sem graça diante da realidade vibrante, suada e deliciosa que eles estavam prestes a viver. Naquela cobertura, a moralidade era uma palavra proibida, e a única regra era que, enquanto houvesse desejo, haveria entrega. E Ana Paula Renault, do alto de seu trono de deboche, garantia que ninguém ali saísse ileso do prazer.