Ahyeon e James / enimes to lovers
O Eco do Silêncio e a Doçura do Reencontro
O dia seguinte à confusão no clube de Itaewon amanheceu com um céu cinzento e uma dor de cabeça latejante para Ahyeon. Quando ela abriu os olhos, a claridade que filtrava pelas cortinas do dormitório do BABYMONSTER parecia agressiva. Por um momento, as memórias da noite anterior eram flashes desconexos: o vestido de couro, o gosto amargo da tequila, o calor do beijo de Haru e, finalmente, a fúria e o abraço de James.
Ela se sentou na cama, sentindo o corpo pesado. Ao olhar para a mesa de cabeceira, encontrou um copo de água, um remédio para dor de cabeça e um pequeno bilhete escrito com uma caligrafia apressada, mas firme.
"Eu sei que você provavelmente quer me matar agora. Tome o remédio. Eu estarei no estúdio 4 às 10h. Não para ensaiar, mas para conversarmos. Por favor, venha. — J."
Ahyeon suspirou, massageando as têmporas. Ela se sentia dividida entre o orgulho ferido e a necessidade desesperada de estar perto dele. James tinha o dom de levá-la ao limite da sanidade, mas também era o único que conseguia enxergar as rachaduras em sua fachada de "idol perfeita".
Duas horas depois, ela atravessava os corredores da empresa com óculos escuros e um moletom largo. Ao entrar no estúdio 4, encontrou James sentado no chão, encostado nos espelhos. Ele não estava com roupas de ensaio; usava uma calça jeans escura e uma camiseta branca simples. Ele parecia ter envelhecido cinco anos em uma única noite.
— Você veio — disse ele, levantando-se imediatamente. A voz dele estava rouca, desprovida de qualquer sarcasmo.
— Eu vim porque você deixou um bilhete no meu quarto, o que, aliás, é uma invasão de privacidade — respondeu Ahyeon, cruzando os braços. — Como você entrou lá?
— Chiquita me deixou entrar — James deu um meio sorriso triste. — Ela me viu carregando você no colo e acho que ficou com pena. Ou talvez ela só quisesse garantir que eu não morresse nas mãos da Ruka se algo acontecesse com você.
Ahyeon caminhou até o centro da sala, mantendo uma distância segura. O silêncio entre eles era denso, preenchido apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado.
— O que você quer, James? — perguntou ela, finalmente tirando os óculos escuros e revelando os olhos levemente inchados. — Ontem você disse que me amava, mas antes disso disse que não queria um compromisso. Eu não sou um brinquedo que você pode testar para ver o quanto resiste.
James deu um passo à frente, as mãos nos bolsos, parecendo subitamente muito jovem e vulnerável.
— Eu sei. Eu fui um covarde, Ahyeon. — Ele parou e olhou para os próprios pés antes de encarar os olhos dela. — Passei anos usando a provocação como um escudo. Se eu te irritasse, você prestaria atenção em mim, mas eu estaria seguro atrás da máscara de 'inimigo'. Quando a gente ficou junto... eu entrei em pânico. Percebi que se eu te perdesse, não seria apenas uma rivalidade que acabaria. Seria a minha vida.
Ahyeon sentiu a garganta apertar. Ela queria gritar com ele, mas a dor nos olhos de James era genuína.
— Então você decidiu me afastar antes que eu pudesse te deixar? — perguntou ela. — É assim que você funciona?
— É o meu mecanismo de defesa idiota — confessou ele. — Mas ver você com o Haru ontem... ver você beijando outra pessoa para me ferir... foi o pior momento da minha vida. Eu percebi que prefiro o risco de ter meu coração quebrado por você todos os dias do que a segurança de te ver nos braços de outro.
Ahyeon desviou o olhar para o espelho, vendo o reflexo dos dois. Eles pareciam tão diferentes dos idols confiantes que o mundo conhecia. Eram apenas dois jovens tentando navegar em sentimentos que não vinham com um manual de instruções.
— Você me machucou muito, James — sussurrou ela. — Eu não sei se consigo simplesmente ignorar o que você disse na sala de ensaio.
James aproximou-se lentamente, como se estivesse lidando com um animal arisco. Ele estendeu a mão e, com uma hesitação rara, tocou a ponta dos dedos dela.
— Eu não estou pedindo para você ignorar. Estou pedindo uma chance para consertar. — Ele tirou uma pequena caixa de papel pardo do bolso da jaqueta que estava jogada no chão. — Eu fui àquela confeitaria que você gosta às seis da manhã. Eles ainda estavam assando os primeiros lotes.
Ahyeon olhou para a caixa e, apesar de tudo, sentiu o estômago dar um pequeno salto.
— Macarons? — perguntou ela, tentando manter a voz firme.
— De pistache e de lavanda — disse ele. — O de lavanda é para acalmar os nervos. E o de pistache é porque eu sei que você não resiste.
Ahyeon pegou a caixa, abrindo-a lentamente. O aroma doce e delicado invadiu o ambiente. Ela pegou um dos doces e o levou à boca. A textura era perfeita, a doçura exata. Era um gesto clássico de James: usar a comida e o conhecimento sobre os gostos dela para desarmá-la.
— Você acha que pode me comprar com doces? — perguntou ela, embora o tom de sua voz tivesse suavizado consideravelmente.
— Eu acho que posso começar por aí — James sorriu de verdade agora, aquele sorriso que iluminava o rosto e fazia os olhos dele brilharem. — E depois, eu pretendo te levar para jantar em um lugar onde ninguém vá nos reconhecer. E depois disso, eu pretendo pedir desculpas todos os dias até você acreditar que eu sou seu. Só seu.
Ahyeon mastigou o macaron devagar, processando as palavras dele. Ela era exigente, sim. Ela queria a perfeição. Mas ali, diante de um James despido de sua arrogância, ela percebeu que a perfeição era superestimada.
— O Haru é um beijador terrível, caso você queira saber — disse ela de repente, um brilho travesso voltando aos seus olhos.
James soltou uma gargalhada alta, o som ricocheteando nas paredes do estúdio. Ele a puxou pela cintura, desta vez sem hesitação, e a envolveu em um abraço protetor.
— Eu não precisava saber disso, mas fico feliz em ouvir — ele murmurou contra o cabelo dela. — Prometo que vou me esforçar para que você esqueça que qualquer outro homem além de mim existe.
Ahyeon encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração de James bater de forma frenética. Era o mesmo ritmo que o dela.
— James? — chamou ela.
— Sim, boneca?
— Se você me irritar de novo daquele jeito... se você tentar jogar comigo de novo... eu juro que conto para todo mundo que você chora assistindo dramas românticos escondido no camarim.
James paralisou por um segundo, o rosto ficando levemente vermelho.
— Como você sabe disso? — perguntou ele, chocado.
— Eu te disse — Ahyeon se afastou um pouco, sorrindo vitoriosa —, eu vejo tudo. Eu sou perfeita, lembra?
James balançou a cabeça, rindo da própria derrota. Ele a puxou para um beijo, mas desta vez não havia fúria ou desespero. Era um beijo calmo, com gosto de açúcar e promessas de novos começos.
— Você é perfeita — ele concordou, acariciando o rosto dela. — E você é minha.
— E você é meu — retrucou ela. — Mas ainda vamos ter que ensaiar aquela parte do segundo ato. Você ainda está entrando meio segundo atrasado.
James revirou os olhos, mas o sorriso não saiu de seus lábios.
— Sim, senhora. O que a minha rainha exigir.
Eles passaram o resto da manhã ali, sentados no chão do estúdio, dividindo a caixa de macarons e conversando sobre coisas que não tinham nada a ver com a carreira de idol. Falaram sobre a infância, sobre os medos do futuro e sobre como, apesar de toda a pressão da indústria, eles tinham sorte de terem se encontrado.
A colaboração entre Cortis e BABYMONSTER estava prestes a se tornar o evento do ano. Os rumores sobre a química entre os líderes dos dois grupos já estavam circulando, mas ninguém sabia a profundidade do que realmente acontecia nos bastidores.
Para o mundo, eles eram Ahyeon e James, os idols talentosos e competitivos. Mas entre as paredes de espelhos e o cheiro de doces frescos, eles eram apenas dois jovens que descobriram que a melodia mais bonita é aquela que se constrói a dois, com todas as notas certas e, principalmente, com as notas erradas que se transformam em harmonia.
Quando finalmente saíram do estúdio, de mãos dadas até chegarem à área comum, Ahyeon sentiu que o peso da noite anterior havia desaparecido. James parou antes de entrarem no elevador e a olhou com uma seriedade renovada.
— Ahyeon-ah — disse ele.
— Sim?
— Obrigado por não desistir de mim. Mesmo quando eu dei todos os motivos para você fazer isso.
Ahyeon sorriu, apertando a mão dele.
— Eu gosto de desafios, James. E você é o maior deles. Além disso, quem mais ia saber exatamente qual macaron comprar para me acalmar?
— Ninguém — James piscou para ela, recuperando seu brilho provocador. — Só eu. Porque eu recordo de tudo.
As portas do elevador se fecharam, escondendo-os do mundo por mais alguns instantes. O Special Stage seria um sucesso, disso eles não tinham dúvida. Mas o que vinha depois — as conversas, os doces, os beijos e até as futuras irritações — era o que realmente importava. A guerra entre eles tinha acabado, e no seu lugar, uma parceria inquebrável havia nascido, doce como um macaron de pistache e forte como o ritmo que os unia.