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Alem das paginas

O Beijo do Passado e a Sentença do Presente

O silêncio na mansão Cassandro após a noite de possessão absoluta não era de paz, mas de exaustão tática. Sofia observava os quatro homens que agora orbitavam sua vida como planetas escuros em torno de um sol instável. Ela sentia o peso dos olhares de Davi, Dante, Asher e Cole, cada um reivindicando uma parte de sua alma, de sua pele, de seu tempo. Mas a claustrofobia daquela proteção obsessiva estava começando a sufocá-la novamente. Ela precisava de ar. Precisava saber se ainda era Sofia Silva, ou se havia se tornado apenas a personagem principal de um roteiro distorcido.

A oportunidade surgiu quando um convite de gala chegou para um evento beneficente da alta sociedade italiana — um território neutro onde até a máfia mantinha as aparências. Davi, ocupado com uma crise na fronteira, hesitou. Dante e Cole estavam rastreando o "homem de cinza". Asher, embora vigilante, estava submerso em decifrar as páginas que Sofia escondia.

— Eu vou — declarou Sofia, enquanto terminava de prender seus cabelos castanhos em um coque elegante, deixando algumas mechas onduladas emoldurarem seu rosto magnético. — E não tentem me trancar. Se eu não puder ir a um baile de caridade, então não sou sua esposa, Davi, sou sua prisioneira. E você sabe o que eu faço com prisões.

Davi a observou pelo espelho, a mandíbula travada. Ele sabia que se a proibisse, ela fugiria pela janela, por um duto de ventilação ou seduziria um dos guardas apenas para provar um ponto.

— Você vai com segurança redobrada — rosnou Davi, aproximando-se para beijar seu pescoço com uma força que beirava a marcação. — E se eu souber que você se afastou um centímetro dos meus homens, eu busco você pelos cabelos.

Sofia sorriu, um brilho perigoso nos olhos castanhos.

— Veremos.

A festa estava deslumbrante. O Palazzo Valerius brilhava sob lustres de cristal, mas Sofia mal notava o luxo. Ela sentia a presença constante de Asher e Cole nas sombras, movendo-se como predadores entre a elite. Dante e Davi chegariam mais tarde. A tensão era deliciosa. Ela circulava, segurando uma taça de champanhe, provocando olhares de admiração e medo por onde passava.

Foi então que o mundo parou.

Perto da varanda, sob a luz pálida da lua, um homem estava parado. Cabelos escuros levemente bagunçados, um sorriso que ela reconheceria em qualquer vida. Lucas.

Lucas não era um personagem de livro. Ele era real. Ele era o garoto que ela amara aos dezesseis anos, antes de Davi, antes da máfia, antes dos "maridos literários". Ele era a lembrança de uma Sofia que ainda acreditava em finais felizes simples. Mas para Davi e os outros, Lucas era o nome proibido. O único homem que já fizera Sofia hesitar antes de dizer "sim" ao império Cassandro. Davi o odiava por representar uma parte dela que ele nunca poderia possuir. Dante, Asher e Cole o odiavam porque, nos livros deles, o "primeiro amor" era sempre o rival que precisava ser eliminado.

— Sofia? — A voz de Lucas era suave, carregada de uma nostalgia que a atingiu como um soco no estômago.

— Lucas... o que você está fazendo aqui? — Sofia sentiu o ar escapar.

— Eu trabalho para a fundação agora. Eu não sabia que você estaria aqui... ou talvez soubesse. Eu nunca esqueci você, Sofi.

Eles caminharam para a varanda, longe dos olhos curiosos da multidão, mas não longe o suficiente dos olhos que a caçavam. A conversa foi rápida, carregada de mágoas antigas e uma eletricidade que Sofia não sentia há anos. Não era a paixão sombria e destrutiva que ela tinha com os quatro, mas algo puro, quase doloroso.

— Você parece infeliz — disse Lucas, aproximando-se. — Você parece cercada por monstros.

— Eu sou a rainha deles, Lucas — ela sussurrou, mas sua voz falhou.

Em um impulso, Lucas segurou o rosto dela. Foi um movimento rápido, movido por uma saudade desesperada. Ele a beijou. Foi um beijo suave, com gosto de passado. Sofia, por um segundo, fechou os olhos e se deixou levar pela ilusão de que a vida poderia ser normal.

O estalo de um gatilho sendo destravado quebrou o encanto.

Sofia se afastou bruscamente, o coração martelando contra as costelas. Atrás de Lucas, quatro sombras emergiram da escuridão da varanda, cada uma exalando uma promessa diferente de morte.

Davi estava à frente, seus olhos escuros transformados em poços de fúria absoluta. Dante estava ao seu lado, a mão já no cabo da arma, sua expressão fria e letal. Asher e Cole flanqueavam a saída, as expressões marcadas por uma decepção possessiva que era quase física.

— Saia de perto dela — a voz de Davi não era um grito; era um sussurro que carregava o peso de uma sentença de morte.

— Davi, espere! — Sofia se colocou entre eles, as mãos espalmadas. — Foi um erro, ele não sabia...

— Ele sabia — rosnou Dante, dando um passo à frente, sua presença intimidante fazendo Lucas recuar um passo. — Eu conheço esse tipo. O "primeiro amor" que acha que pode reivindicar o que agora pertence a deuses e monstros.

— Você é o Lucas, não é? — Asher perguntou, sua voz carregada de um sarcasmo venenoso. — O garoto das cartas de amor. O pequeno humano que a Sofia guardou em uma caixa de sapatos mental.

— Eu não tenho medo de vocês — Lucas disse, embora sua voz tremesse levemente. Ele olhou para Sofia. — Sofia, venha comigo. Você não pertence a esse mundo.

Cole soltou uma risada sombria, um som que fez os pelos do braço de Sofia se arrepiarem.

— Ela não pertence ao seu mundo, garoto. Ela é a nossa âncora. E você... você acabou de assinar sua certidão de óbito com esse beijo.

Davi caminhou até Sofia e a agarrou pelo braço, puxando-a com uma força desnecessária para trás de si.

— Você me traiu na frente de todos — disse Davi, olhando nos olhos dela. — Não com um inimigo da máfia, mas com uma sombra do passado. Isso dói mais, Sofia.

— Davi, não faça nada com ele! — ela implorou, vendo o brilho assassino nos olhos dos quatro.

— O que vamos fazer com ele não é da sua conta agora — Dante disse, aproximando-se de Lucas. — Mas eu prometo que ele vai desejar nunca ter aprendido a beijar.

— Parem! — Sofia gritou, tentando se soltar de Davi. — Vocês dizem que me amam, que me protegem, mas só querem me controlar! Se tocarem nele, eu nunca vou perdoar nenhum de vocês.

— O seu perdão é um preço pequeno a pagar pela nossa paz de espírito — Asher comentou, observando as unhas como se a situação fosse apenas um tédio necessário. — Um homem que te beijou dessa forma é um vírus. E nós somos o sistema imunológico.

Cole avançou como uma sombra, rápido demais para que Lucas pudesse reagir. Ele o agarrou pelo colarinho e o suspendeu contra a balaustrada de mármore da varanda.

— Sente isso? — Cole sussurrou no ouvido de Lucas. — É a sensação da sua vida terminando porque você tocou no que é sagrado para nós.

— Solte-o, Cole! — Sofia lutava contra o aperto de Davi. — Davi, por favor!

Davi olhou para a esposa, a dor e o ciúme lutando em sua expressão. Ele amava Sofia com uma intensidade doentia, e ver outro homem tocá-la daquela forma despertara o que havia de pior nele e nos outros três.

— Levem-no para o galpão — ordenou Davi. — Eu cuidarei dele pessoalmente mais tarde. Dante, ajude o Cole. Asher, limpe a varanda. Ninguém viu nada.

— Não! — Sofia gritou enquanto Dante e Cole arrastavam Lucas, que tentava lutar inutilmente contra a força desumana dos personagens literários.

Davi virou Sofia para ele, segurando seu rosto com uma pressão que a obrigava a focar apenas nele.

— Você queria provocar, Sofia? Você queria testar até onde nossa paciência ia? Você cruzou a única linha que não deveria ter tocado. Você trouxe o passado para o nosso presente.

— Ele é apenas um amigo, Davi! Foi um beijo de despedida! — ela mentiu, as lágrimas de frustração começando a cair.

— Não minta para mim! — Davi rugiu, fazendo-a estremecer. — Eu vi como você fechou os olhos. Eu vi como você se deixou levar.

Asher se aproximou, parando atrás de Sofia. Ele inclinou a cabeça, observando-a com uma frieza analítica.

— Você é uma criatura fascinante, Sofia. Mas sua confiança em nós está quebrada. Você achou que éramos apenas seus brinquedos? Que Dante, Cole e eu éramos apenas fantasias que você podia manipular?

— Nós somos reais agora, Sofia — a voz de Dante ecoou, ele voltava da sombra após entregar Lucas aos capangas. — E homens reais não aceitam ser a segunda opção de uma memória.

Davi a pegou no colo, ignorando seus protestos e socos em seu peito. Ele a carregou através do salão de festas, onde as pessoas abriam caminho, aterrorizadas pela aura de violência que o grupo exalava. Eles a levaram para o carro em silêncio absoluto.

Dentro do SUV blindado, o clima era sufocante. Sofia estava sentada entre Davi e Dante, com Asher e Cole no banco da frente.

— O que vocês vão fazer com ele? — ela perguntou, a voz trêmula.

— O que precisa ser feito para que você entenda que só existe um caminho para você — Cole respondeu sem olhar para trás. — E esse caminho somos nós quatro.

— Vocês não podem matá-lo — ela sussurrou. — Ele é inocente.

— Ninguém é inocente quando se trata de você — Dante rebateu, segurando a mão dela com uma força possessiva. — Ele é um lembrete de uma vida que você não tem mais. E nós não gostamos de lembretes.

Ao chegarem na mansão, Sofia foi levada diretamente para o quarto principal. Mas desta vez, não havia sedução. Havia um acerto de contas. Davi a jogou na cama, enquanto os outros três se posicionavam ao redor, como juízes em um tribunal sombrio.

— Você vai ficar aqui — disse Davi, apontando o dedo para ela. — Sem fugas. Sem provocações. Sem "amigos" do passado. Se você sair deste quarto antes de eu dizer que pode, eu juro pela minha honra que a próxima coisa que você verá do Lucas será em um caixão fechado.

— Vocês são monstros — ela repetiu, a voz carregada de ódio e desejo.

— Sim, nós somos — Asher concordou, aproximando-se da cama e sentando-se ao lado dela. — E o mais engraçado, Sofia, é que você nos ama justamente por isso. Você ama o fato de que nós quebraríamos o mundo inteiro só para garantir que você não olhe para mais ninguém.

— O beijo dele foi doce, Sofia? — Cole perguntou, seu tom de voz perigosamente baixo. — Porque o nosso gosto é de sangue e obsessão. E é com isso que você vai ter que se acostumar.

Davi olhou para os outros três. A rivalidade entre eles ainda existia, mas o ódio comum por Lucas os unira de uma forma nova e perigosa.

— Vamos deixá-la refletir — disse Davi. — Temos um convidado no galpão esperando por nós.

— Não! Davi, por favor! — Sofia tentou se levantar, mas Dante a empurrou suavemente, mas com firmeza, de volta para os travesseiros.

— Descanse, Sofia — Dante murmurou, beijando sua testa com uma ternura assustadora. — Amanhã, o seu passado não passará de um fantasma. E nós seremos a sua única realidade.

Eles saíram, trancando a porta por fora. Sofia ouviu o som da chave girando, uma nota definitiva em sua sinfonia de caos. Ela se encolheu na cama, sentindo o cheiro deles nos lençóis, na pele, no ar. Ela odiava o que eles eram, mas odiava ainda mais o fato de que, mesmo após o horror do que estava prestes a acontecer, ela ainda os desejava.

Ela era a prisioneira dos monstros que criara. E, enquanto as lágrimas caíam, ela percebeu que o beijo de Lucas não fora uma libertação, mas o prego final em seu caixão de luxo e obsessão.

Horas depois, na calada da noite, a porta se abriu novamente. Davi entrou sozinho. Ele estava limpo, mas seus olhos estavam vazios. Ele se deitou ao lado dela e a puxou para seu peito.

— Ele se foi? — ela perguntou, a voz quase inaudível.

— Ele foi embora da cidade, Sofia — Davi mentiu, ou talvez não. — Ele nunca mais vai chegar perto de você. Ele entendeu o aviso.

Sofia não perguntou como o aviso fora entregue. Ela apenas fechou os olhos, sentindo o calor do marido e sabendo que, nas sombras do corredor, Dante, Asher e Cole também vigiavam.

A provocação terminara. A guerra pela alma de Sofia Silva fora vencida pelos monstros. E no silêncio da mansão Cassandro, o único som que restava era o bater de um coração que pertencia a quatro homens, e a nenhum deles ao mesmo tempo.

Lá fora, em uma página amarelada que flutuava no jardim, novas palavras surgiam sozinhas:

"E assim, a Rainha sacrificou seu passado no altar do presente. Mas o Autor ainda não terminou. Pois quando quatro monstros dividem um tesouro, o próximo capítulo é sempre sobre quem ficará com a maior parte."