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Alma gêmea

O Despertar da Rainha e o Rugido do Gancho

A manhã na Terra do Nunca não pedia permissão para entrar. Ela simplesmente explodia em tons de fúcsia e laranja, atravessando as frestas da cabana rústica e aquecendo a pele de Hanna. Ela despertou sentindo o corpo leve, uma sensação de plenitude que sua mente racional ainda tentava catalogar. Ao seu lado, Peter Pan dormia com uma expressão de paz que raramente exibia durante o dia. Sem o brilho travesso nos olhos, ele parecia apenas um rapaz de dezessete anos, mas Hanna sabia que sob aquela pele pulsava o coração de uma lenda.

Ela passou os dedos suavemente pelo próprio abdômen, sentindo os contornos da tatuagem que Peter tanto admirara na noite anterior. O destino, as estrelas, as marcas na pele... tudo parecia convergir para aquele momento. Hanna sentou-se na cama, prendendo o longo cabelo preto em um coque improvisado, seus olhos castanhos e puxados percorrendo o quarto em busca de suas botas.

— Já está planejando sua fuga, rainha brava? — A voz de Peter surgiu profunda e arrastada pelo sono, enquanto ele se espreguiçava como um felino.

Hanna virou-se, com um sorriso de canto que misturava sua doçura natural com a habitual ironia.

— Planejando como colocar ordem neste lugar, Pan. Se eu vou ficar, preciso de um inventário. E de um café da manhã que não envolva apenas frutas imaginárias.

Peter saltou da cama com uma agilidade que sempre a surpreendia. Ele parou diante dela, ainda sem camisa, o olhar percorrendo o corpo magro e elegante de Hanna com uma possessividade carinhosa.

— Você não precisa de inventários. Você tem a mim, tem os meninos e tem toda a ilha aos seus pés. O que mais uma garota inteligente poderia querer?

— Talvez um pouco de silêncio para pensar — respondeu ela, aproximando-se e ajeitando a gola da túnica verde que ele acabara de vestir. — Mas acho que silêncio é a única coisa que você não sabe oferecer.

Peter riu, segurando o rosto de Hanna entre as mãos.

— Eu ofereço aventura. E hoje, o destino reservou algo especial. Sinto o cheiro de pólvora no vento. O Gancho está inquieto.

Hanna sentiu um frio na barriga, mas não era de medo. Era a adrenalina que Peter parecia injetar em suas veias a cada segundo.

— Se ele estiver inquieto por causa do coco que eu joguei na cabeça dele, então ele é mais sensível do que eu imaginei.

— Ele não esquece uma afronta, Hanna. E agora ele sabe que eu não estou mais sozinho. Ele sabe que encontrei minha alma gêmea. Para um homem que não tem nada além de ódio, isso é a maior das provocações.

Eles saíram da cabana e foram recebidos pelo caos habitual dos Meninos Perdidos. Magrelo e os Gêmeos estavam tentando treinar esgrima com galhos de árvore, enquanto Sininho zumbia furiosamente ao redor de um deles, possivelmente irritada por ter sido acordada pelos gritos.

— Hanna! Hanna! — gritou Magrelo, correndo até ela. — O Peter disse que você é uma rainha. Nós temos que nos ajoelhar?

Hanna soltou uma gargalhada clara, abaixando-se para ficar na altura do menino.

— Só se você quiser levar um puxão de orelha, pequeno. Eu não sou esse tipo de rainha. Mas se quiserem aprender a lutar de verdade, sem se machucarem com esses galhos, eu posso ensinar alguns truques de autodefesa que aprendi lá de onde eu venho.

— Truques de onde você vem? — perguntou Peter, cruzando os braços e observando-a com curiosidade. — Achei que as garotas de lá só aprendessem a tomar chá e ler livros de etiqueta.

Hanna levantou-se, lançando-lhe um olhar desafiador.

— Você ficaria surpreso com o que uma garota "inteligente e gentil" faz quando alguém tenta subestimá-la. Onde eu morava, não havia piratas, mas havia valentões na escola. Eu aprendi a usar o peso do adversário contra ele mesmo.

— Mostre-me — desafiou Peter, com um brilho malicioso nos olhos.

Os meninos formaram um círculo, batendo palmas e gritando. Peter avançou em direção a Hanna com um movimento rápido, tentando segurá-la pela cintura. Com uma agilidade que deixou todos boquiabertos, Hanna esquivou-se, segurou o braço de Peter e, usando o impulso dele, girou-o levemente, fazendo-o perder o equilíbrio e quase cair na grama.

— Ei! — exclamou Peter, recuperando-se e rindo. — Isso foi trapaça!

— Isso foi física, Pan — retrucou ela, piscando para ele. — Massa vezes aceleração. Você deveria tentar aprender de vez em quando.

A diversão foi interrompida pelo som de um berrante ecoando vindo da costa. O som era sombrio e metálico, cortando a alegria matinal como uma faca. Peter parou de rir instantaneamente. Seus olhos tornaram-se frios, a postura mudando para a de um capitão em guerra.

— O Jolly Roger — sussurrou ele. — O Gancho está se aproximando da Enseada dos Canibais. Ele nunca vem tão perto durante o dia, a menos que queira algo.

— Ele quer você, Peter — disse Hanna, sentindo sua braveza aflorar. — Ou talvez ele queira a "insolente" que o desafiou ontem.

— Ele não vai tocar em você — afirmou Peter, pegando sua faca de madeira e prendendo-a no cinto. — Meninos, para os postos! Escondam as entradas da árvore. Sininho, vigie o perímetro por cima. Hanna, você fica aqui.

Hanna cruzou os braços, os olhos castanhos faiscando de indignação.

— Ficar aqui? De novo com essa conversa, Peter? Eu acabei de te derrubar no chão usando "física", e você acha que eu vou ficar sentada esperando você voltar com histórias de glória?

— Hanna, é perigoso. O Gancho usa armas de verdade. Ele não joga limpo.

— E você acha que eu jogo? — Ela se aproximou dele, ficando a poucos centímetros de seu rosto. — Eu sou inteligente, sou gentil, mas você mesmo disse que eu sou brava. E se tem uma coisa que eu não suporto é ser deixada para trás enquanto o "amor da minha vida" se coloca em perigo.

Peter hesitou. Ele via a determinação nos traços levemente puxados do rosto dela, a força em seu corpo magro que muitos subestimavam. Ele suspirou, sabendo que não ganharia aquela discussão.

— Tudo bem. Mas você fica perto de mim. E se eu disser "voa", você voa para o mais alto que puder. Entendido?

— Entendido, capitão — respondeu ela, com um sorriso vitorioso.

Eles voaram em direção à costa. O pó de pirlimpimpim ainda brilhava na pele de Hanna, e a sensação de flutuar ao lado de Peter era algo que ela nunca se cansaria de sentir. No entanto, ao chegarem à praia, o cenário era tenso. O navio pirata estava ancorado a uma distância perigosa, e um bote já havia desembarcado.

O Capitão Gancho estava lá, impecável em seu casaco vermelho, o gancho polido refletindo o sol. Ao lado dele, o fiel Sr. Smee segurava um pergaminho que parecia tremer em suas mãos.

— Pan! — gritou Gancho, sua voz ecoando pelas rochas. — Eu sei que você está aí em cima, escondido atrás das saias da sua nova amiguinha! Apareça como um homem, se é que você sabe o que é isso!

Peter pousou na areia com um movimento dramático, seguido de perto por Hanna.

— Você está muito barulhento hoje, Tiago — disse Peter, o tom de voz leve, mas perigoso. — O que foi? O relógio do crocodilo parou de tiquetaquear e você recuperou a coragem?

Gancho rosnou, seu olhar desviando imediatamente para Hanna. Ele a percorreu de cima a baixo, um sorriso cruel curvando seus lábios finos.

— Então esta é a famosa Hanna. A garota que o destino escolheu para o grande Peter Pan. Você é bonita, admito. Mas o destino costuma ser trágico para quem se associa a este menino.

Hanna deu um passo à frente, ignorando a mão de Peter que tentava contê-la.

— E você deve ser o homem que perdeu uma mão para um menino e um relógio para um réptil — disse ela, a voz firme e carregada de desdém. — Devo dizer, Capitão, que esperava alguém mais... imponente. Você cheira a mofo e a desespero.

Smee soltou um ganido de susto, e os outros piratas trocaram olhares nervosos. Gancho ficou lívido.

— Sua pequena insolente! — Ele levantou o gancho, apontando-o para o peito de Hanna. — Você não faz ideia de onde se meteu. Esta ilha devora quem não pertence a ela.

— Eu pertenço a este lugar mais do que você — retrucou Hanna. — Eu não preciso de um navio para me sentir poderosa, nem de capangas para lutar minhas batalhas. Eu tenho a inteligência que lhe falta e a coragem que você perdeu junto com a sua mão.

Peter observava a cena com um orgulho indisfarçável. Ele nunca vira ninguém falar com o Gancho daquela maneira.

— Já chega de conversa, Gancho — cortou Peter, sacando sua faca. — O que você quer aqui?

— Eu vim fazer uma proposta — disse o pirata, recuperando a compostura com esforço. — Eu sei que você trouxe a garota para ser sua "alma gêmea". Mas a ilha exige um equilíbrio. Se ela fica, algo tem que ser dado em troca. Entregue-me o mapa das cavernas subterrâneas e eu deixarei vocês em paz por uma lua inteira.

Peter riu, um som seco.

— Você nunca terá o mapa. E você nunca terá a Hanna.

— Então teremos guerra — declarou Gancho. — E eu começarei por destruir tudo o que você ama.

Com um sinal de Gancho, os piratas sacaram suas espadas e começaram a avançar. Peter empurrou Hanna para trás.

— Voa, Hanna! Agora!

— Nem pensar! — gritou ela.

Hanna viu um dos piratas, um homem corpulento e desajeitado, avançar em sua direção. Ela não tinha arma, mas tinha o ambiente a seu favor. Ela correu em direção a uma rede de pesca que estava secando nas rochas próximas. Com um movimento rápido, ela desamarrou um dos pesos de chumbo e, usando-o como uma funda improvisada, girou-o no ar.

— Ei, grandalhão! — gritou ela.

Quando o pirata se virou, ela soltou o peso. O chumbo atingiu o joelho do homem com precisão cirúrgica. Ele soltou um urro de dor e caiu na areia, segurando a perna.

— Física, lembra? — murmurou ela para si mesma.

Enquanto isso, Peter era um borrão verde, duelando com Gancho. O som do metal contra a madeira da faca de Peter criava uma sinfonia caótica. Hanna percebeu que Smee estava tentando flanquear Peter com uma pistola de pólvora.

— Peter, cuidado à esquerda! — avisou ela, correndo na direção de Smee.

Hanna não hesitou. Ela saltou sobre as costas do pequeno pirata, puxando o seu gorro sobre os olhos dele. Smee começou a girar em círculos, disparando para o alto por acidente.

— Socorro! Uma fera me atacou! — gritava o pobre Smee.

Hanna saltou de volta para a areia, ofegante, seu cabelo preto agora totalmente desgrenhado, mas seus olhos brilhando com o triunfo.

Gancho, vendo que seus homens estavam sendo humilhados por um menino e uma garota desarmada, deu um grito de retirada.

— Voltem para o bote! Isso não acabou, Pan! Eu voltarei com o canhão!

Os piratas bateram em retirada, carregando o companheiro ferido. O bote partiu rapidamente em direção ao Jolly Roger.

Peter parou na beira da água, ofegante, o rosto suado e um sorriso radiante. Ele se virou para Hanna, que estava limpando a areia das mãos, parecendo mais brava do que assustada.

— Você... você atacou o Smee com o gorro dele — disse Peter, começando a rir. — Hanna, você é a criatura mais incrível que já pisou nesta ilha.

— Ele ia atirar em você, seu idiota — retrucou ela, embora estivesse sorrindo também. — E aquele outro pirata ia quebrar a minha cara. Eu só me defendi.

Peter caminhou até ela, envolvendo-a em um abraço apertado que a tirou do chão.

— Você foi brilhante. A "física" realmente funciona. Mas você me deu um susto.

— Acostume-se, Pan — disse ela, descansando a cabeça no ombro dele. — Eu não sou uma Wendy que vai ficar sentada contando histórias. Se você quer uma alma gêmea, terá que aceitar que eu luto ao seu lado.

Peter a colocou no chão, mas manteve as mãos em sua cintura. O clima de batalha desapareceu, dando lugar àquela intimidade profunda que haviam descoberto na noite anterior.

— Eu aceito qualquer coisa, desde que seja com você — sussurrou ele. — Mas o Gancho não vai parar. Ele está obcecado agora. Ele viu que você é o meu ponto fraco... e minha maior força.

— Deixe que ele venha — disse Hanna, a inteligência processando novas estratégias. — Nós vamos fortificar o esconderijo. Vou ensinar os meninos a fazer armadilhas reais. E vou precisar que você me ensine a usar aquela faca.

Peter arqueou uma sobrancelha.

— Você quer aprender a lutar com facas?

— Se eu vou ser a rainha deste lugar, preciso estar preparada para defender meu reino. E meu rei, por mais convencido que ele seja.

Eles voaram de volta para o esconderijo sob o sol do meio-dia. Os meninos os receberam como heróis, e Hanna passou a tarde cumprindo sua promessa. Ela organizou os meninos em grupos, dividindo tarefas. Sua liderança era natural; ela era gentil com os menores, mas firme com os mais velhos. Sua inteligência brilhava enquanto ela desenhava diagramas na terra, explicando como usar polias e alavancas para proteger a entrada da Árvore do Enforcado.

Ao entardecer, exausta mas satisfeita, Hanna sentou-se na raiz de uma árvore gigante, observando o pôr do sol. Peter aproximou-se, trazendo uma fruta suculenta e sentando-se ao lado dela.

— Você mudou este lugar em um único dia — observou ele, admirado. — Os meninos estão mais organizados do que estiveram em cem anos.

— Eles só precisavam de uma direção, Peter. E de alguém que não os visse apenas como soldados, mas como crianças que precisam de segurança.

— E você? O que você precisa? — perguntou ele, pegando a mão dela.

Hanna olhou para as estrelas que começavam a surgir. Ela pensou em sua vida de dezessete anos, no conforto de seu quarto, na chuva na janela. Mas depois olhou para Peter, para o brilho em seus olhos, para a magia que pulsava em cada folha daquela ilha.

— Eu preciso de você — respondeu ela com sinceridade. — E preciso saber que, não importa o que o Gancho tente fazer, nós vamos enfrentar isso juntos.

Peter beijou a palma da mão dela, exatamente sobre a linha do destino.

— Juntos. Até a última estrela se apagar.

Naquela noite, Hanna não escreveu em seu diário improvisado. Ela não precisava organizar os pensamentos. Ela sabia exatamente quem era e onde deveria estar. Ela era Hanna, a rainha brava da Terra do Nunca, e sua aventura estava apenas começando. Enquanto adormecia nos braços de Peter, ela ouviu o tique-taque distante de um relógio vindo do mar, mas não sentiu medo. Ela sabia que, com sua inteligência e o amor de Peter, eles seriam capazes de parar o próprio tempo se fosse necessário.