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Alma gêmea

O Despertar da Tinta e do Desejo

A noite na Terra do Nunca tinha uma densidade diferente de qualquer outro lugar. O ar não era apenas oxigênio, era uma mistura de pó de fada, maresia e o magnetismo que emanava do próprio solo. Dentro da cabana, Hanna estava sentada de pernas cruzadas sobre os lençóis macios, mergulhada em seu próprio mundo. O caderno velho que encontrara estava apoiado em seus joelhos, e a pena deslizava com precisão, traçando as linhas de um mapa que misturava a geografia da ilha com as lembranças de sua casa.

Ela estava tão concentrada que mal percebeu o movimento ao seu lado. Peter, com aquela agilidade silenciosa de quem nunca precisa tocar o chão com força, deitou-se ao lado dela. Ele estava novamente sem camisa, a pele bronzeada refletindo a luz suave das flores luminescentes que decoravam o canto do quarto. Ele apoiou o queixo na mão, observando Hanna trabalhar.

— Você desenha muito — comentou ele, a voz baixa, quase um ronronar. — Às vezes parece que você quer colocar o mundo inteiro dentro desse papel.

Hanna nem desviou os olhos do desenho.

— É a minha forma de organizar o caos, Peter. Minha mente não é como a sua, que vive no improviso. Eu gosto de saber onde as coisas estão.

— Entendo — disse ele, embora seus olhos já tivessem descido para a linha da cintura dela. — Hanna... mostra de novo?

— O quê? — perguntou ela, a mão ainda movendo a pena com rapidez.

— As marcas. As tatuagens. Eu fiquei pensando nelas o dia todo. Quero ver se elas mudam de cor com a luz da lua.

Hanna soltou um suspiro curto, aquele suspiro de quem está fingindo estar brava, mas que no fundo está adorando a atenção. Sem largar a pena e sem tirar os olhos do caderno, ela usou a mão esquerda para levantar a barra de sua blusa, revelando a pele alva da barriga e o desenho geométrico que subia pelo quadril.

Peter aproximou-se mais. Ele estendeu a mão e, com as pontas dos dedos, começou a contornar as linhas pretas na pele dela. O toque era leve, mas carregado de uma curiosidade quase infantil que, aos poucos, se transformava em algo mais profundo. Ele passou o polegar sobre a curva de sua cintura, sentindo a firmeza do corpo de Hanna.

— Elas não mudam de cor — murmurou ele, parecendo hipnotizado —, mas parece que elas brilham porque estão em você.

Hanna continuou desenhando, embora a firmeza de seus traços estivesse começando a vacilar sob o toque dele. Peter, notando que ela ainda não havia largado o caderno, fez um biquinho emburrado, uma expressão que o deixava irresistivelmente fofo e irritante ao mesmo tempo.

— Hanna... você não está me dando atenção — reclamou ele, a voz agora carregada de uma manha deliberada.

Ela finalmente parou a pena no ar, sentindo o calor da mão dele contra sua pele. Ela fechou o caderno com um estalo seco e virou o rosto para encará-lo, seus olhos castanhos e levemente puxados faiscando com uma diversão contida.

— Peter Pan, o grande líder dos Meninos Perdidos, está carente? — provocou ela, arqueando uma sobrancelha. — Como exatamente você quer essa atenção, seu convencido?

Peter abriu um sorriso travesso, o tipo de sorriso que precedia suas maiores travessuras.

— Eu quero que você esqueça esse papel velho. Quero que olhe para mim. — Ele se aproximou ainda mais, o rosto a poucos centímetros do dela. — E quero ver a outra. Aquela que fica embaixo do seu coração. Posso... posso passar a mão nela também?

Hanna sentiu o rosto esquentar. Havia algo na honestidade direta de Peter que a desarmava mais do que qualquer estratégia de combate. Ela soltou o caderno de lado e recostou-se nos travesseiros, permitindo que ele visse a tatuagem que seguia a linha de suas costelas, logo abaixo do peito.

— Você é impossível — sussurrou ela.

Peter não respondeu com palavras. Ele deslizou a mão para cima, sentindo a textura da pele de Hanna e o movimento rítmico de sua respiração. Seus dedos seguiram as letras da frase tatuada, como se tentasse ler o significado através do tato. O toque dele era quente e firme, e Hanna sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— É aqui que você guarda seus segredos? — perguntou ele, levantando o olhar para encontrar o dela.

— Alguns deles — respondeu ela, a voz falhando levemente.

Peter então a puxou para um abraço, um movimento ágil que fez com que Hanna acabasse com uma perna por cima da dele, seus corpos encaixados de uma forma que parecia natural demais para ser coincidência. Ele começou a fazer carinho na parte de trás das costas dela, seus dedos traçando caminhos invisíveis por sua pele.

Hanna rendeu-se ao momento. Ela começou a distribuir pequenos selinhos no rosto dele, no nariz, no queixo, sentindo a risada baixa de Peter vibrar contra seu peito. Era um momento de paz rara, uma doçura que contrastava com a braveza que ambos exibiam para o mundo lá fora.

— Você cheira a chuva e a estrelas — murmurou Peter, fechando os olhos enquanto recebia o carinho dela.

Depois de um tempo, o ritmo da respiração de Peter acalmou. O cansaço das batalhas contra os piratas e das acrobacias aéreas finalmente o venceu, e ele cochilou ali mesmo, com os braços ainda envolvendo a cintura de Hanna.

Ela ficou observando-o por alguns minutos, admirando a calma em seu rosto. Com cuidado para não acordá-lo, ela se desvencilhou do abraço. O clima na ilha estava abafado, e as roupas que ela usava pareciam pesadas demais. Hanna foi até o pequeno baú onde guardava as poucas peças que Sininho e os meninos haviam "conseguido" para ela.

Ela trocou a blusa pesada por um top curto, que cobria apenas os seios, deixando toda a barriga e as tatuagens à mostra. Para a parte de baixo, escolheu uma saia branca leve, curta o suficiente para não atrapalhar seus movimentos, mas que acentuava suas pernas magras e definidas.

Hanna voltou para a cama e deitou-se, pegando o caderno novamente para terminar o desenho do porto. No entanto, assim que se acomodou, percebeu que Peter já não estava mais dormindo. Ele estava apoiado em um cotovelo, observando-a com uma intensidade que parecia queimar.

— O que foi? — perguntou ela, tentando manter o tom brincalhão. — Viu um fantasma?

Peter não respondeu de imediato. Seus olhos percorreram a pele exposta de Hanna, detendo-se nas curvas de sua cintura e no modo como o top realçava sua silhueta. Ele estendeu a mão e puxou o caderno de Hanna, jogando-o para o pé da cama sem a menor cerimônia.

— Ei! — protestou ela, mas o protesto foi silenciado quando Peter a puxou de volta para perto dele, rolando o corpo até ficar por cima dela.

— Eu já disse que não quero dividir você com esse caderno — disse ele, a voz agora rouca e carregada de um desejo que Hanna conhecia bem.

Ele sorriu, um sorriso vitorioso ao ver o efeito que causava nela. Peter parecia ter desenvolvido um hiperfoco absoluto em cada centímetro dela. Ele baixou o rosto e a beijou novamente, um beijo que começou lento e exploratório, mas que logo se tornou urgente.

As mãos de Peter encontraram a pele nua de sua barriga, seus dedos apertando suavemente sua cintura. Hanna entrelaçou as mãos no pescoço dele, puxando-o para mais perto, sentindo o peso reconfortante de seu corpo contra o dela.

— Você é muito teimosa, Hanna — murmurou ele contra seus lábios, fazendo uma pausa apenas para admirar o rosto dela.

— E você é um convencido que não aceita um "não" como resposta — retrucou ela, com um sorriso doce.

— Na Terra do Nunca, ninguém diz "não" para o Pan — brincou ele, voltando a beijá-la, mas desta vez descendo para o pescoço, onde Hanna soltou um suspiro pesado.

— Eu não sou "ninguém", Peter. Eu sou a garota que te derrubou na areia hoje cedo, lembra?

Peter parou por um segundo, rindo baixo contra a pele dela.

— É, eu lembro. E é exatamente por isso que eu não consigo tirar os olhos de você. Você é a única pessoa que me faz sentir que a ilha é pequena demais.

Ele voltou a olhar para ela, e Hanna viu algo nos olhos dele que ia além da travessura. Havia uma adoração genuína, uma necessidade de estar perto que transcendia a magia do pó de fada. Peter parecia fascinado por cada detalhe dela, desde o jeito como seus olhos castanhos ficavam mais escuros na penumbra até a força que ela emanava mesmo em um momento de vulnerabilidade.

— Você está me analisando de novo, Pan? — perguntou ela, passando a mão pelo cabelo bagunçado dele.

— Estou tentando entender como o destino foi tão generoso comigo — respondeu ele, deitando a cabeça no peito dela por um momento, ouvindo as batidas aceleradas de seu coração. — Você é inteligente, é brava, é linda... e agora você está aqui. Comigo.

Hanna sentiu uma onda de ternura. Ela sabia que Peter era, em essência, um menino que evitava as responsabilidades do mundo adulto, mas ali, naquele momento, ele parecia carregar uma maturidade emocional que muitos homens nunca alcançariam.

— Eu não fui enviada para cá apenas para ser uma espectadora, Peter — disse ela, a voz firme. — Eu vim para ser sua igual.

— Eu sei — disse ele, levantando-se um pouco para beijar a pontinha do nariz dela. — E é por isso que eu não vou deixar você voltar. Nunca.

Hanna sorriu, puxando-o para mais um beijo, sentindo as mãos dele voltarem a explorar as linhas de suas tatuagens. O toque de Peter era uma promessa silenciosa de que, na Terra do Nunca, o tempo podia até não passar, mas o sentimento entre eles cresceria a cada novo nascer do sol.

— Peter? — chamou ela entre os beijos.

— Hum?

— Se você continuar me olhando assim, eu nunca vou terminar aquele desenho do porto.

Peter sorriu, um brilho perigoso e divertido nos olhos.

— O porto pode esperar, Hanna. O destino já nos trouxe até aqui. O resto da noite pertence só a nós.

Ele a beijou novamente, e Hanna percebeu que, por mais que amasse sua inteligência e sua lógica, havia certas coisas na vida — e naquela ilha — que não precisavam de explicação. Elas só precisavam ser sentidas. E enquanto Peter a envolvia em seus braços, ela soube que o diário poderia ficar em branco por aquela noite, pois a história que eles estavam escrevendo não precisava de tinta; ela estava sendo gravada na alma de ambos, tão permanente quanto as marcas em sua pele.