Amante, Amor, Amiga
Raízes e Redes
O sol já subia alto no céu do Rio de Janeiro, mas para Gabriela e Alanis, o tempo parecia ter decidido caminhar em uma velocidade própria, muito mais lenta e gentil. A varanda do apartamento de Alanis, adornada com samambaias que balançavam levemente com a brisa, tornou-se o cenário de um confessionário a céu aberto. Elas conversaram sobre tudo: desde os detalhes técnicos da peça de Gabi até as inseguranças mais profundas que Alanis sentia em relação à sua carreira.
— Sabe o que é mais doido? — Gabi comentou, girando a caneca de café já vazia entre as mãos. — Eu passei meses sentindo que estava murchando. Como se a Gabi artista estivesse brilhando no palco, mas a Gabi pessoa estivesse ficando cinza. E bastou uma noite aqui, com você, para eu sentir que as cores estão voltando.
Alanis, que estava sentada no chão, encostada na parede enquanto observava a ruiva na cadeira de vime, sorriu com os olhos.
— É porque a gente se reconhece, Gabi. A gente não precisa de máscaras.
Quando o relógio se aproximou das onze da manhã, o calor começou a pedir um pouco mais de sombra e relaxamento. Alanis se levantou e apontou para a rede de algodão cru que estava armada no canto mais fresco da varanda, protegida por uma cortina de bambu.
— Vem — convidou Alanis. — A melhor parte dessa casa é essa rede.
Gabi não precisou de um segundo convite. Ela se acomodou primeiro, sentando-se de forma que pudesse se recostar no tecido firme. Alanis, com uma naturalidade que aqueceu o peito de Gabi, posicionou-se entre as pernas da ruiva, recostando as costas no peito dela. Gabi envolveu a cintura de Alanis com os braços, e a loira descansou a cabeça no ombro de Gabriela, suspirando de puro contentamento enquanto a rede balançava em um ritmo hipnótico.
— Está confortável? — sussurrou Gabi, deixando um beijo no topo da cabeça de Alanis, sentindo o perfume cítrico do shampoo dela.
— Perfeito — Alanis respondeu, fechando os olhos por um instante. — Eu poderia morar aqui dentro desse abraço.
O silêncio confortável durou alguns minutos, interrompido apenas pelo som distante do trânsito e pelo canto de alguns pássaros. Foi então que Gabi teve uma ideia, um brilho travesso surgindo em seus olhos castanhos.
— Lanis, a gente precisa ligar para a Gio.
Alanis soltou uma risada abafada, já prevendo o caos.
— Você quer mesmo fazer isso agora? Ela vai ter um colapso, Gabi. São sete anos de "eu avisei" acumulados.
— Exatamente por isso. Ela merece ser a primeira a saber. E eu quero ver a cara dela.
Gabi pegou o celular no bolso do roupão e iniciou a chamada de vídeo. Alanis ajeitou-se um pouco mais, colando a bochecha na de Gabi para que ambas coubessem na tela. O telefone tocou três vezes antes de a imagem de Giovanna surgir, com os cabelos bagunçados e uma caneca de chá na mão, claramente ainda em seu ritmo matinal de domingo.
— Oi, minhas flores! Que milagre é esse? — Gio começou, mas parou abruptamente assim que seus olhos focaram na imagem.
Houve um silêncio de cinco segundos. A caneca de Giovanna ficou suspensa no ar, a meio caminho da boca. Ela olhou para Gabi, depois para Alanis, depois para o fato de estarem emaranhadas em uma rede, com roupas de dormir e caras de quem tinha acabado de viver a melhor noite da vida.
— NÃO! — O grito de Giovanna foi tão alto que Gabi teve que afastar o celular por um segundo. — NÃO, NÃO E NÃO! Parem tudo! Gabriela Medvedovsky e Alanis Guillen, o que é isso que os meus olhos estão presenciando?
Gabi e Alanis caíram na gargalhada, a cumplicidade transbordando pela tela.
— Oi, Gio — disse Alanis, tentando manter a calma, embora o sorriso a entregasse. — A gente só ligou para dar um oi.
— "Um oi"? Alanis, você está no meio das pernas da Gabi! Na rede! Com essa cara de quem foi atropelada por um caminhão de felicidade! — Gio agora estava de pé, andando de um lado para o outro no seu quarto. — Eu sabia! Eu sempre soube! Desde aquele Carnaval em 2019! Eu falei para vocês, eu avisei a cada uma de vocês separadamente mil vezes!
— A gente sabe, Gio — Gabi disse, limpando uma lágrima de riso no canto do olho. — Você é a nossa maior fã e a nossa maior profeta.
— Profeta não, meu amor, eu sou vidente! — Gio apontou o dedo para a câmera, fingindo indignação. — Eu passei anos vendo vocês se olharem com cara de paisagem enquanto o mundo inteiro via faíscas. Eu quero todos os detalhes. Agora. Como isso aconteceu? Quem deu o primeiro passo? Foi o vinho, não foi? Eu conheço a adega da Alanis!
— Foi a vida, Gio — Alanis respondeu, com um tom mais doce, apertando a mão de Gabi que estava em sua cintura. — A gente só cansou de fugir do óbvio.
— Ai, meu coração... eu vou chorar — Gio disse, mudando o tom de voz instantaneamente para algo emocionado. — De verdade, meninas. Eu estou tão feliz por vocês. Ver vocês duas assim, em paz... é o que eu sempre quis. Mas não pensem que escaparam! Quero um jantar de comemoração com tudo pago por vocês, entenderam?
— Com certeza, Gio — prometeu Gabi. — Assim que a poeira baixar, a gente se encontra.
— Tá bom, tá bom. Vou deixar vocês voltarem para o... "descanso" de vocês. Amo vocês! E Alanis, juízo com a minha ruiva!
— Pode deixar, capitã! — Alanis brincou antes de desligarem.
Assim que a tela ficou preta, o silêncio da varanda pareceu mais denso, carregado com o peso emocional daquela revelação. A brincadeira com Giovanna tinha sido leve, mas o que ficava depois dela era a seriedade do que estavam construindo.
Alanis virou-se um pouco na rede, ficando de lado para conseguir olhar nos olhos de Gabi.
— Ela tem razão, sabe? — Alanis disse baixinho. — A gente demorou muito.
— Talvez a gente precisasse desse tempo, Lanis — refletiu Gabi, acariciando o rosto da loira. — Talvez se tivesse acontecido antes, a gente não tivesse a maturidade que tem agora. Eu precisava passar pelo que passei para entender que o que eu quero não é alguém que me complete, mas alguém que me transborde. E você faz isso.
Alanis sentiu a garganta apertar, a compaixão e o amor brilhando em seus olhos verdes claros.
— Eu tive tanto medo, Gabi. Medo de quebrar a cara, medo de perder a sua amizade, medo de não ser o suficiente para o que você esperava. Mas estar aqui hoje... é como se todas as peças do quebra-cabeça tivessem finalmente se encaixado. Eu me sinto segura.
— Você é o meu porto seguro, Lanis — Gabi encostou a testa na dela. — Eu não estou nem aí para o que vem depois, para as agendas, para os términos passados. Eu só estou feliz porque, pela primeira vez, eu não sinto que estou interpretando um papel. Eu sou eu, com você.
— É a melhor sensação do mundo — concordou Alanis. — Finalmente ter uma à outra, sem roteiros, sem câmeras. Só a gente.
Elas voltaram a se aninhar, o balanço da rede servindo como um abraço do próprio universo. Gabriela fechou os olhos, sentindo a respiração de Alanis se acalmar contra o seu peito. O sol continuava a brilhar lá fora, o Rio de Janeiro continuava a sua agitação de domingo, mas ali, naquele pequeno refúgio de algodão e afeto, nada mais importava. Elas tinham o tempo, tinham o vinho que ainda restava na adega e, acima de tudo, tinham a coragem de finalmente serem o que sempre foram destinadas a ser.
— Gabi? — chamou Alanis, quase em um sussurro, já sonolenta.
— Oi, Lanis.
— Não me deixa sair dessa rede nunca mais.
Gabi sorriu, apertando-a um pouco mais forte.
— Nunca mais.