Amor
O Sacrifício no Altar da Verdade
O sol de Ítaca parecia mais brilhante naquela manhã, mas para Tatsuyo, o calor que sentia não vinha de Apolo. Vinha do segredo que queimava em seu peito há duas semanas. Quatorze dias haviam se passado desde aquela noite em que o mundo mudara de cor; quatorze dias de toques roubados nos corredores escuros, de olhares cúmplices durante os treinos e de um amor que florescia como as oliveiras sob o solo fértil da Grécia.
Kuro continuava sendo sua sombra, impecável e leal, mas agora, quando ele se aproximava para ajustar sua postura com a lança, o toque de seus dedos deixava um rastro de fogo na pele de Tatsuyo. Eles eram um só na escuridão, mas, sob a luz do dia, a farsa começava a pesar sobre os ombros da princesa.
Tatsuyo caminhou em direção ao pequeno altar de Ares. O cheiro de incenso e metal frio sempre a acalmava, mas hoje, diante da estátua imponente do deus da guerra, ela sentia uma inquietação diferente. Ela se ajoelhou, o mármore frio contra seus joelhos, e fechou os olhos pretos.
— Senhor da Lança — sussurrou ela, as mãos unidas em prece —, você que exige coragem acima de tudo, dê-me a força que me falta agora. Não para enfrentar um exército inimigo, mas para enfrentar o sangue do meu sangue.
Ela se levantou com uma clareza súbita. Ocultar seu amor por Kuro era uma estratégia de guerra, mas Tatsuyo não queria viver em uma emboscada eterna. Ela era uma Uchiha, filha de Obito e Rin, e a linhagem deles não fora construída sobre mentiras, mas sobre uma intensidade que desafiava o próprio destino.
Kuro estava à porta do templo, como sempre. Ao ver a expressão no rosto de Tatsuyo, ele se empertigou.
— Tatsy? O que houve? Você parece ter visto uma visão das Moiras.
Tatsuyo caminhou até ele e, pela primeira vez em plena luz do dia, segurou suas mãos com firmeza.
— Vou contar a eles, Kuro. Agora.
Kuro empalideceu, o contraste de seus cabelos brancos tornando-se ainda mais evidente.
— Tatsuyo, espere. O conselho está agitado. Elian enviou mensageiros reclamando da expulsão. Se você falar agora, seu pai será colocado contra a parede.
— Meu pai nunca foi um homem que se deixa encurralar por nobres covardes — rebateu ela, os olhos brilhando com uma determinação feroz. — E eu não vou deixar você ser apenas um "guarda" por mais um minuto sequer. Eu te amo, Kuro. E se eu tiver que lutar por este trono, quero lutar ao seu lado, sem sombras entre nós.
Kuro engoliu em seco, sentindo o peso do que aquilo significava. Ele sabia que, para um soldado sem posses, aquilo poderia significar o exílio ou algo pior, mas o olhar de Tatsuyo era sua única bússola.
— Então eu vou com você — disse ele, endireitando os ombros. — Se vamos enfrentar o Rei de Ítaca, que seja como guerreiros.
Eles caminharam juntos pelos corredores do palácio. Os servos e guardas abriam caminho, notando a aura de seriedade que emanava da princesa. Ao chegarem à sala do trono, encontraram Obito e Rin sozinhos, examinando alguns mapas de navegação sobre uma mesa de carvalho.
Obito levantou o olhar, um sorriso de canto surgindo em seu rosto marcado por cicatrizes. Ele ainda era um homem imponente, cujos músculos pareciam feitos de bronze e vontade.
— Minha filha. Kuro. Estávamos justamente discutindo sobre as patrulhas da costa norte. O que traz vocês aqui com rostos tão sombrios?
Rin, cujos olhos castanhos claros sempre foram capazes de ler a alma da filha, deixou o pergaminho de lado. Ela sentiu a mudança no ar antes mesmo de Tatsuyo abrir a boca.
— Algo aconteceu? — perguntou a rainha, a voz suave carregada de uma preocupação maternal.
Tatsuyo deu um passo à frente, soltando a mão de Kuro apenas para se posicionar diante de seus pais. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro de mar e poder que sempre emanava de Obito.
— Pai, Mãe. Eu não vim falar sobre patrulhas ou sobre os pretendentes que o conselho tenta me impor. Vim falar sobre a minha vida e sobre o futuro de Ítaca.
Obito cruzou os braços, sua estatura de 1,82 m dominando o ambiente. Ele lançou um olhar rápido para Kuro, que permanecia em uma posição de respeito, mas com um brilho de desafio nos olhos.
— Prossiga — disse o rei, a voz grave ecoando nas colunas.
— Vocês me criaram para ser uma guerreira — começou Tatsuyo, a voz firme. — Ensinaram-me que a lealdade é a base de tudo e que o amor é a única força pela qual vale a pena morrer. Eu segui seus ensinamentos. E é por isso que não posso mais esconder a verdade.
Ela fez uma pausa, olhando nos olhos de Obito, que permaneciam indecifráveis.
— Eu amo o Kuro. Não como um amigo de infância, nem apenas como o guarda que vocês designaram para me proteger. Eu o amo como uma mulher ama o homem com quem deseja construir um legado.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Rin levou a mão à boca, não por surpresa completa — pois o coração de uma mãe raramente se engana —, mas pela audácia da declaração. Obito não se moveu. Ele parecia uma estátua de Zeus aguardando o momento de lançar um raio.
— Tatsuyo... — começou Rin, mas a princesa a interrompeu.
— Há mais, mãe. Não são apenas palavras ou promessas ao vento. Nós já nos entregamos um ao outro. Já nos beijamos, já fomos um só sob o teto desta casa. Eu entreguei minha virtude ao homem que escolhi, e não me arrependo de um único segundo. É com ele que quero passar o resto dos meus dias. É ele quem eu quero ao meu lado quando eu herdar esta coroa.
Desta vez, o silêncio foi cortado pelo som metálico da mão de Obito batendo contra a mesa de madeira. Ele se aproximou de Kuro, caminhando com a lentidão de um predador. Kuro não recuou. Ele manteve o olhar fixo no rei, mesmo sabendo que Obito poderia derrubá-lo com um único movimento.
— Você — disse Obito, a voz baixa e perigosa, parando a centímetros de Kuro. — Eu te acolhi. Eu te treinei. Eu confiei a você a vida da minha única herdeira. E você a tocou? Você desonrou a confiança que depositei em suas mãos?
Kuro engoliu o medo, sentindo o peso da autoridade de Obito, mas a imagem de Tatsuyo em seus braços deu-lhe a coragem de um leão.
— Eu não a desonrei, meu Rei — respondeu Kuro, a voz clara. — Eu a amei. E continuarei amando enquanto houver ar em meus pulmões. Se o senhor vê isso como uma traição, então minha vida está à sua disposição. Mas não pedirei perdão por algo que foi o ato mais honesto da minha existência.
Obito semicerrou os olhos pretos, a tensão em seus músculos era visível. Tatsuyo deu um passo à frente, colocando-se entre os dois homens.
— Não o culpe sozinho, pai. Eu o procurei tanto quanto ele me procurou. Se há um culpado, somos nós dois. Ou melhor, não há culpa. Há apenas o que vocês mesmos viveram. Vocês não se casaram por conveniência política. Por que exigem que eu faça diferente?
Rin aproximou-se, colocando a mão no ombro de Obito. Ela sentia a fúria do marido, mas também conhecia o coração dele melhor do que ninguém.
— Obito, olhe para eles — disse Rin, a voz como um bálsamo. — Olhe para a coragem dele. Quantos daqueles nobres que vieram aqui teriam a coragem de enfrentar você dessa forma? Elian fugiu ao primeiro sinal de perigo. Kuro está aqui, oferecendo o próprio pescoço por ela.
Obito olhou para a esposa, depois para a filha e, finalmente, para o rapaz que ele mesmo vira crescer. Ele se lembrou do menino que, aos dez anos, enfrentara um javali ferido para proteger um companheiro de treino. Ele vira a lealdade de Kuro ser forjada no fogo e no suor.
— Você tem noção do que o conselho dirá? — perguntou Obito, voltando-se para Tatsuyo. — Eles dirão que Ítaca está fraca. Que a princesa se entregou a um soldado sem nome. Eles usarão isso para tentar nos derrubar.
— Deixe que tentem — desafiou Tatsuyo. — Deixe que vejam o que acontece quando uma rainha de Ítaca luta ao lado do homem que ama. Nós somos Uchiha, pai. Nós não seguimos as regras dos outros; nós as criamos.
Obito soltou um suspiro pesado, a rigidez de seus ombros cedendo minimamente. Ele deu as costas por um momento, olhando para a varanda que dava para o mar, o mesmo mar que trouxera tantas guerras e tantas glórias.
— Eu sempre soube que você seria difícil, Tatsuyo — murmurou ele, virando-se novamente. — Você tem o gênio da sua mãe e a teimosia que eu tive na juventude.
Ele caminhou até Kuro e, para a surpresa de todos, não desferiu um golpe. Ele colocou a mão pesada no ombro do Hatake, apertando-o com uma força que era metade aviso, metade reconhecimento.
— Se você a fizer sofrer, Kuro... se você vacilar por um segundo na proteção de Ítaca ou dela... eu pessoalmente o enviarei para o Tártaro.
Kuro sentiu um alívio tão grande que seus joelhos quase cederam.
— O senhor tem a minha palavra, Rei Obito. Minha vida é dela. Sempre foi.
Rin sorriu, as lágrimas brilhando em seus olhos castanhos claros. Ela abraçou a filha, sentindo a força que emanava de Tatsuyo.
— Você é uma verdadeira deusa, minha pequena — sussurrou Rin. — Ares deve estar orgulhoso.
— Mas não achem que será fácil — advertiu Obito, recuperando sua postura de rei. — Teremos que forjar uma linhagem para o Kuro. Ele precisará de feitos que calem a boca dos nobres. Ele não será apenas seu guarda, Tatsuyo. Se ele quer ser seu consorte, ele terá que ser o maior general que Ítaca já viu.
Tatsuyo olhou para Kuro, um sorriso radiante iluminando seu rosto parda.
— Ele já é o maior guerreiro que eu conheço, pai.
— Veremos — disse Obito, embora houvesse um brilho de satisfação em seus olhos. — Kuro, amanhã ao amanhecer, você treinará com a guarda de elite. E desta vez, eu não pegarei leve. Se você quer a mão da minha filha, terá que provar que pode segurar o peso de um reino inteiro.
— Será uma honra, meu Rei — respondeu Kuro, batendo com o punho no peito.
Naquela noite, o palácio de Ítaca parecia respirar mais aliviado. O segredo não era mais uma sombra, mas uma fundação. Tatsuyo e Kuro sabiam que os desafios políticos e as batalhas reais estavam apenas começando. Os nobres não aceitariam um plebeu no trono facilmente, e os deuses eram caprichosos.
Mas, enquanto caminhavam de volta para os jardins, sob a luz da lua que Zeus pendurara no céu, eles se sentiam invencíveis.
— Você foi incrível — sussurrou Kuro, puxando Tatsuyo para um abraço rápido sob a sombra de uma oliveira. — Eu achei que ele fosse me matar.
— Meu pai reconhece a força quando a vê, Kuro. E ele viu que eu não recuaria.
— Eu te amo, Tatsy. Mais do que qualquer título que ele possa me dar.
— Eu sei — disse ela, beijando-o com uma liberdade que agora pertencia a ambos. — Agora, vamos nos preparar. Temos um reino para governar e muitas bocas para calar.
Lá do alto, no Olimpo, ou talvez apenas nos recônditos do palácio, a energia de Ares vibrava. A linhagem dos Uchiha continuava forte, não apenas pelo sangue, mas pela coragem de amar sem limites. Ítaca teria sua rainha e seu general, e a lenda deles estava apenas começando a ser escrita nas areias do tempo.