Amor
O Amanhecer entre Lençóis e Lealdade
O sol de Konoha Heights não pedia licença. Ele atravessava as frestas das persianas automáticas da suíte master, desenhando linhas douradas sobre o tapete felpudo e alcançando a cama onde o silêncio era preenchido apenas pelo som rítmico de duas respirações em sintonia. Kuro foi o primeiro a despertar. O corpo, acostumado com a rotina de treinos pesados que começavam antes de o mundo acordar, não sabia o que era dormir até tarde, mas, pela primeira vez em anos, ele não sentia pressa de pular da cama.
Ele sentiu um peso morno e macio sobre o peito. Tatsuyo ainda dormia profundamente, o rosto sereno aninhado na curva do pescoço dele. A camiseta cinza que ele lhe emprestara estava um pouco desalinhada, revelando um ombro de pele parda e suave. Kuro permaneceu imóvel, os olhos castanhos percorrendo cada detalhe dela com uma adoração que beirava o religioso. Ele poderia passar o dia inteiro observando a forma como os cílios pretos dela descansavam sobre as bochechas, ou como ela soltava um pequeno suspiro de satisfação em meio ao sonho.
Com um cuidado extremo para não acordá-la, ele estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo preto que caía sobre o rosto dela. Sua pele branca contrastava com a dela de uma forma que ele achava fascinante. Kuro nunca fora um homem de sutilezas; no hóquei, ele era a força bruta, o muro que ninguém atravessava. Mas ali, com Tatsuyo, ele se sentia vulnerável e, estranhamente, mais forte do que nunca.
Tatsuyo começou a se mexer. Ela murmurou algo ininteligível e apertou mais o corpo contra o dele, buscando o calor. Quando seus olhos finalmente se abriram, ela piscou algumas vezes, tentando situar-se. O teto alto, o cheiro de perfume amadeirado e a sensação de um abdômen definido sob sua bochecha trouxeram as lembranças da noite anterior de volta como uma onda quente.
— Bom dia, dorminhoca — sussurrou Kuro, sua voz rouca de sono vibrando diretamente no ouvido dela.
Tatsuyo levantou o rosto, encontrando o sorriso preguiçoso e charmoso de Kuro. Ela não pôde evitar sorrir de volta, sentindo aquela bolha de felicidade que parecia isolá-los do resto do mundo.
— Bom dia — respondeu ela, a voz ainda sumida. — Que horas são? Eu perdi o horário de alguma coletiva de imprensa?
Kuro riu baixo, um som gutural e gostoso, e a puxou para cima, fazendo-a sentar sobre o peito dele.
— O mundo lá fora pode esperar um pouco mais. Hoje é seu dia de folga, lembra? E eu só tenho treino à tarde. Então, tecnicamente, o tempo parou até a gente decidir que ele deve voltar a correr.
Tatsuyo bocejou, esticando os braços e sentindo o tecido da camiseta de Kuro roçar sua pele. Ela se sentia incrivelmente à vontade, apesar de estar na casa de um dos homens mais famosos do país após uma noite de conversas profundas e beijos que ainda faziam seus lábios formigarem.
— Você é sempre assim de manhã? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha. — Todo filosófico e cheio de energia?
— Só quando acordo com uma jornalista de jardineiras no meu quarto — ele brincou, sentando-se também, o que a obrigou a escorregar para o colo dele. — Mas, falando sério, como você está se sentindo? Depois de ontem... da festa e de tudo.
Tatsuyo suspirou, apoiando as mãos nos ombros largos dele. A pele dele estava quente, e ela podia sentir o poder dos músculos sob seus dedos.
— Eu me sinto bem, Kuro. Surpreendentemente bem. Eu achei que acordaria em pânico, pensando em como as fotos da gente saindo juntos iam parar no Twitter, mas... aqui dentro, parece que nada disso importa.
Kuro segurou a cintura dela, os polegares fazendo círculos lentos sobre o tecido da camiseta.
— E não importa. Eu já mandei meu agente monitorar as redes sociais. Se alguém postar alguma besteira sobre você, ele vai cuidar disso. Eu não quero que você sofra por causa da minha fama, Tatsuyo. Você é real demais para esse circo.
— Eu sei me cuidar, jogador — disse ela, dando um tapinha leve no peito dele. — Eu sou jornalista, lembra? Eu conheço os truques. Mas obrigada por se preocupar.
— Eu não me preocupo, eu sou obcecado — corrigiu ele com uma seriedade repentina que a fez estremecer. — Eu passei meses tentando chamar sua atenção nas zonas mistas, dando as respostas mais engraçadinhas só para ver se você sorria. Agora que você está aqui, eu não vou deixar nada estragar isso.
Tatsuyo sentiu o coração acelerar. A intensidade de Kuro era algo que ela ainda estava aprendendo a processar, mas não a assustava. Pelo contrário, fazia com que ela se sentisse valorizada de uma forma que nenhum padrão de beleza ou status social jamais conseguiria.
— Bom — disse ela, tentando quebrar a tensão emocional com um pouco de humor —, já que o tempo parou, o que o "muro dos Wolves" sugere para o café da manhã? Espero que não seja apenas suplemento de proteína e clara de ovo.
Kuro soltou uma gargalhada e a levantou da cama como se ela não pesasse nada, colocando-a no chão.
— Ofendido! Eu sou um excelente cozinheiro de panquecas. Vá lavar o rosto, eu te encontro lá embaixo em dez minutos.
Tatsuyo foi para o banheiro, olhando-se no espelho. Seu cabelo estava bagunçado, ela estava sem maquiagem e usando uma camiseta três vezes maior que seu tamanho, mas seus olhos brilhavam de uma forma que ela raramente via. Ela se sentia bonita. Não a beleza plástica das modelos que cercavam Kuro, mas uma beleza confortável, aceita e desejada.
Quando desceu para a cozinha, o aroma de café fresco e baunilha preenchia o ar. Kuro estava atrás da ilha de mármore, vestindo agora uma calça de moletom preta e... nada mais. Ele manuseava uma espátula com uma concentração engraçada.
— Precisa de ajuda, chef? — perguntou ela, encostando-se no batente da porta.
Kuro se virou, com um pingo de massa de panqueca no nariz.
— Você pode cuidar do café? Eu ainda estou tentando entender por que a primeira panqueca sempre sai parecendo um disco de hóquei amassado.
Eles trabalharam juntos na cozinha de forma natural, como se fizessem aquilo há anos. Tatsuyo cuidava das frutas e do café, enquanto Kuro insistia em fazer panquecas em formato de coração — que acabavam saindo como triângulos abstratos, para a diversão dela.
Sentados na mesa da varanda, com vista para o jardim impecável, eles comeram e conversaram. Mas a paz foi levemente interrompida quando o celular de Tatsuyo, que ela havia deixado sobre a mesa, começou a vibrar freneticamente.
Ela olhou para a tela. Eram notificações de um grupo de jornalistas e marcações no Instagram.
— Começou — disse ela, com a voz calma, mas firme.
Kuro parou de comer, o olhar ficando frio.
— O quê?
— Alguém tirou uma foto nossa na garagem ontem. Está em todos os portais de fofoca. "Kuro, o defensor estrela, deixa festa acompanhado de morena misteriosa de jardineiras".
Tatsuyo virou o celular para ele. A foto estava um pouco granulada, mas a silhueta de Kuro protegendo-a enquanto abria a porta do carro era inconfundível. Os comentários eram uma mistura de curiosidade, inveja e, previsivelmente, algumas críticas ao seu visual "comum".
Kuro pegou o celular da mão dela, lendo alguns comentários. Seus nós dos dedos ficaram brancos ao apertar o aparelho.
— "Ela não faz o tipo dele", "Cadê o glamour?", "Quem é essa garota?" — Kuro leu em voz alta, a voz carregada de desprezo. — Essas pessoas não têm a menor ideia do que estão falando.
— Kuro, está tudo bem — disse Tatsuyo, colocando a mão sobre a dele. — Eu sabia que isso ia acontecer. Eu sou jornalista, eu sei como o público funciona. Eles querem o conto de fadas plástico.
Kuro olhou para ela, e a raiva em seus olhos foi substituída por uma determinação feroz.
— Pois eu vou dar a eles a realidade.
Ele pegou o próprio celular, que estava em cima da bancada.
— O que você vai fazer? — perguntou ela, um pouco apreensiva.
— Algo que eu deveria ter feito há muito tempo.
Kuro não era de postar muito sobre sua vida pessoal, mas naquele momento, ele abriu a câmera.
— Tatsuyo, olha para mim.
— Kuro, eu estou desabelada, com a sua camiseta e...
— Você está perfeita — interrompeu ele.
Ele tirou uma foto rápida. Não era uma foto posada. Era Tatsuyo na luz da manhã, com uma caneca de café na mão, o cabelo natural e um sorriso tímido começando a surgir. Atrás dela, o jardim de Konoha brilhava.
Ele digitou algo rapidamente e bloqueou o celular.
— Pronto.
— Kuro! O que você postou?
Ela desbloqueou o próprio celular e entrou no perfil dele. Em menos de um minuto, a postagem já tinha milhares de curtidas. A legenda era simples e direta, típica de Kuro:
"Encontrei algo real em um mundo de aparências. Ela não é 'misteriosa', ela é a única pessoa que me vê de verdade. E sim, ela fica melhor nas minhas camisetas do que eu. Respeitem a minha namorada."
Tatsuyo sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. O peso da palavra "namorada" vindo dele, de forma tão pública e protetora, era avassalador.
— Você me chamou de namorada — sussurrou ela.
Kuro levantou-se e deu a volta na mesa, ajoelhando-se ao lado da cadeira dela para ficar na altura de seus olhos.
— Porque é isso que você é, se você me aceitar. Eu não quero jogos, Tatsuyo. Eu não quero "ficar" com você entre uma temporada e outra. Eu quero você nos meus jogos, nas minhas manhãs, nas minhas camisetas. Eu quero ser o cara que te defende de tudo, não só dos atacantes no gelo.
Tatsuyo passou as mãos pelo cabelo branco e repicado dele, puxando-o para um beijo que selava não apenas uma noite, mas uma promessa.
— Eu aceito — disse ela contra os lábios dele. — Mas você sabe que agora eu vou ter que te entrevistar com muito mais rigor, não é? Não quero ser acusada de parcialidade.
Kuro riu, abraçando-a pela cintura e enterrando o rosto em sua barriga, sentindo o conforto de tê-la ali.
— Pode perguntar o que quiser, jornalista. Minhas respostas serão sempre as mesmas: eu sou louco por você.
O resto da manhã foi passado longe dos celulares. Eles decidiram ignorar o caos que a postagem de Kuro causara na internet. Enquanto o mundo debatia sobre a "garota comum" que conquistara o coração do ídolo do hóquei, eles estavam no jardim, caminhando descalços pela grama.
Kuro mostrava a ela o espaço que pretendia transformar em uma horta, algo que ele sempre quis fazer, mas nunca teve motivação por estar sempre sozinho. Tatsuyo dava sugestões, rindo da falta de conhecimento botânico dele.
— Você sabe que tomates não crescem em árvores, certo, Kuro? — brincou ela, observando-o apontar para um carvalho.
— Ei! Eu passo a vida em cima de água congelada, como eu deveria saber sobre terra? — defendeu-se ele, puxando-a para um abraço por trás. — Mas agora eu tenho você para me ensinar.
Eles pararam perto de uma pequena fonte. O sol agora estava alto, e o calor começava a se fazer sentir.
— Você tem treino em duas horas — lembrou ela, virando-se nos braços dele.
— Eu sei. Mas não quero ir. Quero ficar aqui, vendo você usar essa camiseta e talvez roubar mais algumas panquecas.
— Vá treinar, Kuro. Os Wolves precisam do seu muro. E eu... eu tenho que escrever um artigo. Sobre um certo jogador que está ficando muito sentimental para o gosto da liga.
Kuro sorriu, um brilho travesso nos olhos.
— Escreva o que quiser. Desde que no final você coloque que esse jogador volta para casa todas as noites para a garota das jardineiras.
— Pode deixar — prometeu ela.
Quando Kuro finalmente saiu para o treino, a casa pareceu subitamente silenciosa, mas não mais solitária. Tatsuyo ficou na varanda por um tempo, observando o portão se fechar. Ela olhou para a própria mão, sentindo o calor residual do toque dele.
Ela sabia que o caminho não seria fácil. Haveria críticas, paparazzi e a pressão constante de um mundo que valoriza a estética acima da essência. Mas, enquanto voltava para dentro para pegar seu notebook, vestindo a camiseta cinza de Kuro que ainda guardava o calor dele, ela percebeu que não importava o que a internet dizia.
Porque, no final do dia, entre o gelo das arenas e o algodão de uma camiseta velha, o que eles tinham era a coisa mais rara de todas em Konoha Heights: a verdade. E para Tatsuyo e Kuro, o dia seguinte era apenas o primeiro de muitos onde ser "comum" era, na verdade, o maior dos superpoderes.