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Amor

O Abismo entre o Cetim e o Roxo

A penumbra do Westlake Studios parecia reter o calor das discussões e dos encontros proibidos. Michael estava sozinho na sala de controle, observando as bobinas de fita girarem silenciosamente. O cheiro de Maddy ainda estava impregnado no console de mixagem — uma mistura de tabaco, o perfume floral barato que ela usava para esconder o odor das substâncias e aquele aroma natural de pele que o assombrava durante as noites insones em Encino.

Ele tocou o pescoço, sentindo a leve ardência onde os dentes dela haviam deixado uma marca na noite anterior. Era um segredo escondido sob a gola alta de sua jaqueta, uma medalha de guerra em uma batalha que ele não tinha certeza se queria vencer. Michael sempre fora o epítome do controle, o arquiteto da perfeição, mas Maddy era a entropia em forma de mulher. E, para seu terror e deleite, ele estava começando a preferir o caos.

A porta se abriu com um chute descuidado. Maddy entrou, mas não estava sozinha. Ela ria, a cabeça jogada para trás, enquanto Prince segurava seu braço com uma familiaridade que fez o sangue de Michael ferver instantaneamente. Prince usava uma camisa de seda roxa aberta até o meio do peito, exalando uma aura de sensualidade andrógina que parecia preencher cada centímetro cúbico da sala.

— Veja só, Maddy — disse Prince, sua voz aveludada carregada de ironia —, o Rei parece que não dormiu. Será que a música está dando muito trabalho ou é a guitarrista que é exigente demais?

Maddy soltou-se de Prince e caminhou até Michael, parando a uma distância perigosamente curta. Suas pupilas estavam dilatadas, um sinal claro de que ela já tinha visitado seu paraíso químico particular naquela manhã.

— Relaxa, Applehead — disse ela, passando a ponta dos dedos pelo rosto de Michael, ignorando o estremecimento dele. — O Prince só estava me mostrando uns novos pedais de distorção no estúdio B. Ele tem um... toque interessante.

Michael sentiu uma pontada de náusea. Ele olhou para Prince, que agora estava encostado na parede, observando-os com um sorriso predatório.

— Eu disse que a sessão de hoje era para finalizarmos os vocais, Maddy — disse Michael, sua voz saindo mais fria do que ele pretendia. — Não sabia que o Prince fazia parte do cronograma de *Beat It*.

— Não faça o tipo territorial, Michael — Prince interveio, dando um passo à frente. — Eu só estava sugerindo à Maddy que ela poderia trazer um pouco mais de... sujeira para o álbum. Você sabe, algo que não seja tão polido. Como um solo de guitarra que soe como um gemido no escuro.

— Eu sei exatamente o que a música precisa — rebateu Michael, levantando-se. Ele era mais alto que Prince, e naquele momento, ele usou cada centímetro de sua presença de palco para marcar seu território. — E eu sei o que a Maddy pode entregar.

Maddy deu uma risada rouca, sentando-se em cima da mesa de som, as pernas cruzadas revelando a bota de couro e a meia arrastão rasgada.

— Parem com isso, vocês dois. Parecem dois cães brigando por um osso — ela pegou um cigarro da bolsa, mas antes que pudesse acendê-lo, Michael tirou-o de sua mão.

— Aqui não, Maddy. Prejudica a minha voz.

— E o que não prejudica você, Michael? — ela perguntou, os olhos brilhando com um desafio perigoso. — Você vive em uma redoma de vidro. O Prince, pelo menos, sabe como é o gosto da poeira.

Prince soltou uma risada vitoriosa e caminhou até Maddy. Ele se inclinou sobre ela, sussurrando algo em seu ouvido que a fez sorrir. Michael sentiu como se o ar estivesse fugindo de seus pulmões. O ciúme não era apenas uma emoção; era uma dor física, um peso em seu peito que o impelia a fazer algo drástico.

— Prince, saia — ordenou Michael. Não foi um pedido. Foi a voz do homem que comandava impérios fonográficos.

Prince ergueu as sobrancelhas, surpreso com a firmeza incomum de Michael. Ele olhou para Maddy, piscou e caminhou em direção à porta.

— Tudo bem, Mike. Não quero atrapalhar o romance de estúdio. Mas lembre-se, Maddy... a oferta para o jam session à noite ainda está de pé. Roxo combina muito mais com você do que vermelho.

Assim que a porta se fechou, o silêncio caiu como uma guilhotina. Maddy olhou para Michael, um sorriso de lado brincando em seus lábios pintados de carmesim.

— Você está sendo um idiota possessivo, sabia?

— Eu não gosto da maneira como ele olha para você — disse Michael, caminhando até ela e prendendo-a entre seus braços contra a mesa de som. — E eu odeio que você deixe que ele te toque.

— Ele é só um músico, Michael. Como eu. Como você.

— Não — Michael sussurrou, aproximando o rosto do dela. — Ele não é como eu. Ele não sabe o que acontece quando as luzes se apagam e você decide que quer me destruir.

Maddy sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia uma escuridão em Michael que poucas pessoas conheciam, uma intensidade que só surgia quando ele era levado ao limite. Ela adorava provocá-la. Ela adorava ver o "bom garoto" se transformar em algo faminto.

— Prove — ela desafiou, a voz caindo para um sussurro rouco. — Prove que você é melhor que o Prince. Prove que eu devo ficar aqui e não ir para o estúdio dele.

Michael não hesitou. Ele a puxou pela gola da jaqueta, calando-a com um beijo que tinha gosto de urgência e posse. Maddy gemeu contra a boca dele, suas mãos encontrando o cabelo cacheado de Michael, puxando-o para mais perto. Ele a levantou da mesa de som, seus movimentos rápidos e decididos, e a levou para a sala de gravação escurecida.

Lá, entre os microfones caros e os cabos espalhados, o mundo exterior desapareceu. Michael a prensou contra a parede acolchoada, suas mãos explorando o corpo dela com uma familiaridade que queimava. Ele subiu o vestido dela, sentindo a pele quente e a umidade que já se formava entre as pernas dela.

— Você é minha, Maddy — ele murmurou contra o ombro dela, deixando outra marca, desta vez mais profunda. — Diga.

— Michael... — ela arfou, as unhas cravando-se nos ombros dele através da camisa fina. — Você é... tão...

Ele a penetrou com um impulso forte, cortando as palavras dela. Maddy jogou a cabeça para trás, um grito de prazer escapando de seus lábios e ecoando pelo estúdio isolado acusticamente. O ritmo dele era perfeito, uma batida sincopada de puro desejo. Michael não era apenas o Rei do Pop naquele momento; ele era um homem reivindicando o que considerava seu.

Cada estocada era uma resposta a Prince, uma resposta às drogas, uma resposta ao medo de perdê-la para o caos que ela tanto amava. Maddy envolvia as pernas na cintura dele, entregando-se àquela força avassaladora. Ela percebeu que, por mais que Prince tentasse seduzi-la com mistério e estilo, Michael a possuía com uma alma que era vasta e aterrorizante.

Quando o clímax os atingiu, foi como uma nota alta sustentada até o limite da audição. Eles ficaram ali, abraçados na penumbra, o som de suas respirações pesadas sendo a única música no recinto.

— Você não vai para o estúdio dele — disse Michael, a voz ainda rouca, enquanto recuperava o fôlego.

Maddy soltou uma risada fraca, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Você ganhou, Applehead. Por hoje.

— Por sempre — corrigiu ele, beijando o topo da cabeça dela.

Eles se vestiram em silêncio, uma cumplicidade tensa pairando entre eles. Michael sabia que Maddy era um pássaro ferido que não podia ser engaiolado, e ela sabia que Michael era um sol que poderia queimá-la se ela chegasse perto demais. Mas, enquanto caminhavam de volta para a mesa de som para finalmente gravar a ponte de *Beat It*, ambos sabiam que aquela colisão era o que tornava a música — e a vida — suportável.

Maddy pegou sua guitarra, ajustou a distorção para o nível máximo e olhou para Michael através do vidro da cabine.

— Vamos fazer essa porra de música ser eterna, Michael.

Ele sorriu, o brilho de confiança voltando aos seus olhos.

— Vamos, Maddy. Do seu jeito.

E, quando o primeiro acorde rasgou o silêncio do estúdio, Michael soube que, não importava o quanto Prince tentasse, o fogo de Maddy só queimava verdadeiramente quando ele soprava as chamas.

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