Amor
O Peso Escarlate
A dor começou muito antes de o primeiro raio de sol rasgar a névoa fria da montanha. Era uma pontada surda, profunda e traiçoeira no baixo ventre, um aperto que fez Tatsuyo despertar em sobressalto dentro do saco de dormir áspero.
Por um segundo confuso, ela pensou que fossem apenas os hematomas da noite anterior cobrando o seu preço. O poste de pinho havia castigado suas costelas, esfolado suas coxas e deixado suas costas em carne viva. Mas quando ela tentou se mover, um calor espesso, úmido e inconfundivelmente familiar escorreu entre suas pernas.
O ar sumiu de seus pulmões. Um pavor congelante, muito pior do que encarar as lâminas dos invasores, desceu pela sua garganta.
— Não... — murmurou ela, o sussurro abafado pelo tecido da gola. — Agora não. Pelos deuses, agora não.
— O que foi? O branquelo musculoso voltou para pedir autógrafo? — A voz sibilante de Mushu surgiu de dentro da trouxa de pano que Tatsuyo usava como travesseiro. O pequeno dragão colocou o focinho para fora, esfregando os olhos minúsculos. — Por que você tá branca feito farinha? Quer dizer, parda feito farinha queimada... você entendeu!
Tatsuyo levou a mão por baixo do cobertor com movimentos milimetricamente calculados. Ao puxar os dedos de volta, a penumbra da tenda coletiva mal escondia o brilho escuro e viscoso na ponta de sua pele. Sangue.
— Ai, meus ancestrais de pedra! — Mushu arregalou os olhos amarelos e colocou as garras na cabeça, sufocando um grito histérico. — Você tá vazando! Furaram você enquanto dormia?! Onde tá o corte? Deixa eu cauterizar com fogo, aguenta firme!
— Cala a boca, Mushu! — sibilou ela entredentes, o coração batendo na garganta enquanto lançava um olhar apavorado para os lados.
Ao redor dela, na tenda estreita, uma dúzia de recrutas ainda roncava pesadamente. Chen babava sobre o braço a menos de dois metros de distância. Qualquer barulho fora do comum, qualquer suspeita, e ela seria arrastada para fora e desmascarada diante de todo o exército imperial.
— É a lua — sussurrou Tatsuyo, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas. — O ciclo. Desceu hoje.
Mushu piscou, a compreensão finalmente caindo sobre sua cabeça de lagarto como uma bigorna.
— O quê?! A maldição mensal feminina bem no meio de um formigueiro de homens fedidos?! Mas que horas péssimas para o seu corpo lembrar que você é uma donzela casadoura, Tatsuyo! Como é que a gente esconde isso aqui dentro? Homens farejam sangue de longe! E se um deles achar que você tá morrendo e tentar tirar as suas calças para enfaixar?!
— Ninguém vai tirar as minhas calças — rosnou ela, a voz saindo mais grave e ríspida do que o habitual, impulsionada pelo puro desespero.
Tatsuyo sentou-se devagar, apertando os dentes quando uma cólica lancinante repuxou seus quadris. Ela precisava agir antes que a alvorada soasse.
Ela abriu sua pequena bolsa de viagem com dedos trêmulos. Não havia panos especiais ou unguentos como os que sua mãe preparava na aldeia. Havia apenas ataduras de linho rústico destinadas a ferimentos de batalha e uma túnica velha de algodão. Sem hesitar, Tatsuyo pegou sua adaga e cortou a túnica em tiras compridas e grossas.
Com agilidade desesperada, ela dobrou as camadas de tecido, improvisando uma proteção espessa, e prendeu-a firmemente entre as pernas, amarrando tiras adicionais ao redor do quadril para que nada saísse do lugar durante a marcha. Para garantir, vestiu um calção de pano cru por baixo das calças escuras de montaria e apertou o cinto de couro dois furos além do confortável.
— Tá apertado demais, garota — avisou Mushu, escondendo-se dentro da couraça enquanto ela recolocava a armadura de ferro. — Você não vai conseguir nem respirar, quanto mais correr!
— Se vazar uma única gota naquelas calças diante do batalhão, eu estou morta — respondeu Tatsuyo, ajeitando as mechas pretas e onduladas antes de prendê-las com violência no coque alto de guerreiro. — A dor eu aguento. A desonra, não.
Quando o toque estridente da corneta cortou o silêncio do acampamento, Kai Yume já estava de pé, com a lança em punho e a expressão moldada em uma máscara de pedra inabalável.
O problema era que o corpo humano não se importava com determinações militares.
A manhã começou sob um sol que prometia derreter o pouco de orvalho que cobria a terra batida. Os treinos de combate corpo a corpo começaram sem descanso. A cada salto, a cada impacto contra o solo, o ventre de Tatsuyo parecia arder em brasas. As faixas apertadas em seu peito já tornavam o ato de respirar um fardo; agora, a pressão em seus quadris e a queimação contínua no abdômen a faziam vacilar por frações de segundo.
— Firme essa base, recruta! — gritou um dos sargentos ao vê-la recuar meio passo diante de um golpe de espada de madeira.
Tatsuyo engoliu a náusea súbita que subiu por sua garganta e avançou, desarmando o oponente com uma manobra rápida de pulso. Mas o esforço cobrou o preço: ela sentiu o fluxo descer com força contra a proteção de linho. Um calafrio violento subiu por sua espinha. Ela precisava verificar. Precisava saber se as camadas estavam aguentando.
Foi então que a sombra alta e imponente projetou-se sobre a sua.
Kuro caminhava pelo pátio de treinamento como um general inspecionando seus peões. Ele não vestia a couraça superior naquela manhã; trajava apenas uma camisa de linho preto entreaberta no peito e as calças de combate ajustadas. A pele branca reluzia com o exercício prévio, e o desenho firme e esculpido de seu abdômen ficava evidente a cada passada larga e segura. Com seus cabelos brancos e repicados balançando ao vento e os olhos castanhos perscrutando tudo com arrogância quase divertida, o capitão de um metro e oitenta parecia exalar vigor em cada poro.
Ele parou exatamente ao lado de Tatsuyo.
— O herói do sino parece meio lento hoje — comentou Kuro, a voz grave e rouca deslizando pelo ar com uma intimidade desconcertante.
Tatsuyo bateu o punho fechado contra o peito na continência padrão, mantendo os olhos retos à frente para não trair o pavor que a consumia.
— Estou pronto para o treinamento, capitão.
Kuro deu um passo à frente, diminuindo a distância até que o calor que emanava de seu corpo musculoso quase a envolvesse por completo. Tatsuyo tinha um metro e sessenta e três; a diferença de altura obrigava-a a manter o queixo erguido, sentindo-se perigosamente vulnerável.
— É mesmo? — Kuro inclinou a cabeça ligeiramente, semicerrando os olhos castanhos escuros. Havia uma curiosidade atrevida na curva de seus lábios bem desenhados. — Porque as suas pernas estão tremendo, Kai. E a sua pele... está mais pálida do que o habitual.
Sem aviso prévio, Kuro ergueu a mão esquerda e tocou a lateral do pescoço de Tatsuyo com as costas dos dedos. O toque foi direto, firme e excessivamente quente.
Tatsuyo estremeceu da cabeça aos pés.
— Você está queimando de suor frio — murmurou o capitão, os dedos deslizando devagar pela mandíbula suave dela antes de descerem até o colarinho rígido da armadura. O gesto era tão desnecessariamente íntimo para uma inspeção de rotina que fez a respiração de Tatsuyo travar no peito. — O que foi? O esforço de ontem à noite quebrou você por dentro?
Debaixo das placas de ferro, Mushu prendeu a respiração, tremendo contra a costela de Tatsuyo.
— Estou perfeitamente bem, capitão — insistiu ela, dando um passo para trás para quebrar o contato antes que perdesse o controle sobre a própria voz. — Foi apenas o cansaço do totem. Nada que atrapalhe o meu dever.
Kuro não recuou. Pelo contrário: ele deu mais meio passo, fechando o cerco mais uma vez. Seus olhos castanhos desceram pelo tronco de Tatsuyo, varrendo a curva de sua cintura comprimida e detendo-se por um instante irritantemente longo na linha de seus quadris.
O capitão franziu o cenho de repente, farejando o ar com uma sutileza predatória.
— Que cheiro é esse? — perguntou ele em voz baixa, quase como um sussurro perigoso.
O sangue de Tatsuyo congelou nas veias. O ferro. O cheiro inconfundível e metálico do sangue humano, quente e fresco, misturado à umidade do suor.
— Você está sangrando, Kai? — A voz de Kuro perdeu a provocação habitual por um segundo, tornando-se mais afiada. Ele estendeu a mão, segurando Tatsuyo pelo quadril com uma firmeza avassaladora, os dedos fortes pressionando o tecido grosso exatamente onde a amarração das faixas estava mais apertada.
Uma onda aguda de dor e vergonha atravessou o ventre de Tatsuyo. O toque de Kuro naquele ponto específico a deixou sem defesas; o homem estava a milímetros de perceber as camadas extras de tecido amarradas sob a calça.
— Capitão! — exclamou ela, forçando a voz para um tom mais áspero e afastando-se com um movimento brusco que beirava a insubordinação. — São as minhas mãos! As mãos sangraram ontem no tronco e os nós dos dedos reabriram com o cabo da espada!
Ela ergueu as duas mãos à frente do peito, mostrando as palmas cobertas de cascas secas e escoriações avermelhadas da subida ao poste.
Kuro olhou para as mãos esfoladas do recruta e depois voltou a fitar os olhos pretos de Tatsuyo. A tensão entre os dois era espessa o bastante para ser cortada com uma adaga. Os recrutas ao redor fingiam treinar, mas muitos lançavam olhares furtivos para a interação entre o capitão temido e o novato audacioso.
Kuro soltou um riso baixo, provocador e ligeiramente rouco, desfazendo a rigidez militar para dar lugar àquele sorriso meio libertino que Tatsuyo tanto temia.
— Mãos tão delicadas e tão cheias de orgulho — disse ele, cruzando os braços musculosos sobre o peito e flexionando o abdômen sem qualquer pudor. — Cuidado, Kai. Se você continuar quebrando desse jeito, vou ter que colocá-lo na minha tenda para cuidar pessoalmente dos seus curativos. Acho que você não gostaria que eu fizesse isso, gostaria?
O duplo sentido na voz dele era tão escandaloso que as orelhas de Tatsuyo arderam como fogo. Aquele homem não tinha a menor vergonha.
— Eu me cuido sozinho, senhor — respondeu ela, sustentando o olhar com a frieza mais teimosa que conseguiu reunir.
— Vamos ver se cuida mesmo — respondeu Kuro, o olhar castanho faiscando com uma promessa silenciosa antes de girar sobre os calcanhares. — Quinhentos golpes com a lança antes do meio-dia! E tente não desmaiar, garoto bonito!
Quando Kuro se afastou para inspecionar a outra ponta do acampamento, Tatsuyo soltou o ar em um suspiro trêmulo e quase rastejou até a sua posição de treino.
— Aquele homem não bate bem da cabeça! — chiou Mushu, espiando por uma brecha da couraça com os bigodes em pé. — Ele apalpou você! Ele quase achou o ninho de pássaro que a gente fez com as suas roupas de baixo! Você tem que sumir daqui agora mesmo, garota! Vai trocar esse curativo antes que a gente vire comida de corvo!
— Eu não posso sair do treino, Mushu — sussurrou ela, cravando a ponta da lança no chão para sustentar o próprio corpo quando mais uma cólica pontiaguda a atingiu. — Se eu pedir dispensa agora, ele vai desconfiar. Vai me seguir. Ele já percebeu o cheiro.
— Então você vai ficar aí parada até a calça virar uma bandeira vermelha da vitória?!
— Eu aguento até o meio-dia — declarou ela, os dentes cerrados.
E ela aguentou. Cada movimento com a lança exigia um esforço monumental. O sol subiu implacável, fazendo o suor escorrer por seu rosto pardo e arder em seus olhos. Suas costas pareciam prontas para quebrar. A cada meia hora, a sensação incômoda de umidade aumentava, mas Tatsuyo concentrava toda a sua mente na imagem de seu pai, na honra que jurara proteger e na recusa absoluta de ser derrotada pela própria biologia.
Quando o gongo do almoço finalmente ressoou, os soldados correram para o refeitório como cães famintos. Tatsuyo, no entanto, moveu-se na direção oposta.
Caminhando devagar para não chamar atenção e mantendo a capa solta sobre os quadris para esconder qualquer possível mancha na parte de trás das calças, ela esgueirou-se por trás das fileiras de tendas de armazenamento até alcançar a trilha íngreme que levava ao riacho nos fundos do acampamento.
Aquele era o setor proibido aos recrutas durante o dia, usado apenas para os cavalos da guarda e abastecimento de água potável. O silêncio ali era quebrado apenas pelo murmúrio da correnteza que descia das geleiras.
Tatsuyo correu para trás de um aglomerado espesso de salgueiros e desabou de joelhos na grama úmida. O alívio momentâneo fez lágrimas queimarem em seus olhos.
— Vigia a trilha, Mushu — pediu ela, a voz fraca.
— Deixa comigo. Se alguém aparecer, eu solto uma labareda no nariz do desgraçado! — O dragão saltou para uma pedra alta, olhando atentamente em direção ao acampamento.
Com pressa e vergonha, Tatsuyo desatou o cinto de couro e baixou as calças escuras. O medo a fez suspirar aliviada: o tecido grosso e o calção interno haviam segurado o fluxo. A mancha carmesim estava confinada às tiras de algodão, sem ter vazado para a superfície visível do uniforme.
No entanto, as tiras estavam completamente encharcadas. Mais algumas horas de treino sob o calor e a farsa teria ruído de maneira catastrófica.
Usando a água congelante do riacho, Tatsuyo lavou-se rapidamente, os dentes batendo pelo choque térmico do líquido quase glacial contra a sua pele parda e sensível. A água limpou as marcas, mas o frio fez suas cólicas redobrarem de intensidade por um instante terrível. Ela cerrou os punhos e respirou fundo até a pontada passar.
Em seguida, pegou as tiras sujas de sangue e esfregou-as furiosamente contra uma pedra lisa submersa. A água tingiu-se de vermelho por breves segundos antes que a correnteza forte levasse os resquícios para longe, rio abaixo.
— Rápido, Tatsuyo! — sussurrou Mushu em pânico. — Passos pesados! Alguém tá vindo!
Tatsuyo congelou. O barulho de botas quebrando galhos secos ecoou na trilha acima.
Ela enrolou os panos molhados, enfiou-os no fundo de sua bolsa de couro, amarrou as calças e a armadura com velocidade relâmpago e puxou a espada da bainha, ajoelhando-se à beira da água exatamente quando a folhagem foi empurrada para o lado.
Era Chen. O brutamontes segurava dois baldes de madeira para os cavalos. Ele parou, surpreso ao ver o novato ali sozinho.
— Ei, tampinha — resmungou Chen, semicerrando os olhos. — O que tá fazendo aqui? Esse lado é restrito aos oficiais.
Tatsuyo ergueu-se devagar, mantendo a lâmina de sua espada meio desembainhada e a pedra de afiar na mão esquerda. Seu olhar preto encarou o brutamontes com uma frieza cortante, sem um pingo de hesitação.
— Minha lâmina perdeu o fio no treino da manhã — respondeu ela, com a voz rouca e segura de Kai Yume. — O capitão exigiu armas perfeitas para a tarde. Não quero ser punido porque a pedra do arsenal estava ocupada por preguiçosos.
Chen encarou a postura defensiva e hostil daquele jovem franzino que, na noite anterior, havia escalado o poste que nenhum veterano conseguira tocar. A lembrança do sino ressoando ainda pesava sobre a coragem do brutamontes.
— Bom... faça isso rápido e dê o fora — resmungou Chen, baixando os olhos e pegando a água com os baldes antes de se afastar apressadamente pela trilha.
Tatsuyo soltou o ar que segurava, guardando a espada de volta na bainha com mãos trêmulas.
— Essa foi por um fio de bigode... — suspirou Mushu, voltando para o ombro dela e enfiando-se sob a gola da túnica. — Nem o Grande Dragão de Pedra aguenta tanta emoção num dia só.
— Foi só o primeiro dia — disse Tatsuyo para si mesma, sentindo o peso do ferro contra o peito enquanto ajustava a postura e endireitava a coluna com firmeza inquebrável. — Ainda temos mais quatro pela frente.
Ela bateu a poeira das botas, colocou a bolsa com os panos secos a tiracolo e marchou de volta para o inferno de terra batida.
Quando passou pelos portões do pátio, seus olhos cruzaram novamente com os de Kuro. O capitão estava encostado em uma das estacas de treino, mastigando uma maçã com aquela habitual atitude indolente e provocadora. Ele olhou para Kai Yume dos pés à cabeça, percebendo a postura rígida, a mandíbula travada e a determinação quase insana que brilhava nos olhos escuros do soldado.
Kuro jogou o resto da maçã para o lado e deu um meio sorriso carregado de expectativa, seus olhos brilhando ao ver aquele garoto insolente marchar como se desafiasse a própria terra sob seus pés.
Tatsuyo não desviou o olhar. Sentindo a dor latejar surda em seu ventre, ela sustentou a provocação do homem até passar por ele e ocupar seu lugar na linha de frente.
Ela podia sangrar. Mas ninguém naquele acampamento jamais saberia a verdadeira razão.