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Amor

O Rugido do Gelo e do Sangue

O desfiladeiro de Tung Shao era uma garganta estreita de rocha nua e gelo eterno. O vento uivava como um bicho faminto entre as paredes verticais da montanha, chicoteando flocos de neve pesados contra os rostos endurecidos dos soldados imperiais. A respiração de centenas de homens e montarias subia em colunas espessas de vapor branco, dissolvendo-se na atmosfera cinzenta de uma tempestade iminente.

Tatsuyo mantinha as rédeas firmes com as mãos enluvadas, sentindo o frio morder a ponta dos dedos. Sob a armadura de placas de ferro e as grossas camadas de lã cinzenta, as faixas de linho continuavam a esmagar seus seios com uma força impiedosa, mas a dor costumeira agora parecia insignificante diante do perigo real. Seus cabelos negros e ondulados, longos até a cintura, estavam presos com rigor espartano no alto da cabeça, escondidos sob o capacete de combate. Ela olhava para a frente, com seus olhos pretos afiados varrendo cada curva da cordilheira.

— Eu não sinto mais a minha cauda — lamentou uma voz abafada, tremendo violentamente debaixo da couraça de Tatsuyo. — Tatsuyo, juro pela glória dos seus ancestrais, se eu congelar até virar uma pedra de gelo de lagarto, vou assombrar os seus sonhos para sempre! Isso não é lugar para um dragão! Cadê o calor tropical? Cadê o incenso?!

— Cala a boca, Mushu — sussurrou ela entre os dentes, sem mover a mandíbula. — Estamos no território deles agora. Mantenha a cabeça baixa.

Mais à frente, liderando a coluna com uma imperturbabilidade assombrosa, cavalgava Kuro.

O capitão parecia imune ao congelamento que castigava os outros homens. Embora usasse a pesada capa militar forrada com pele de lobo, a couraça ornamental de ferro escuro desenhava perfeitamente os contornos de seu porte imponente de um metro e oitenta. Por baixo das fivelas entreabertas no peito, vislumbrava-se a túnica ajustada sobre o tronco rígido e musculoso; seus cabelos curtos, repicados e alvos como a neve ao redor, dançavam com a ventania, enquanto os olhos castanhos escuros perscrutavam o topo da crista com a vigilância de um predador experiente.

Kuro ergueu o punho fechado. A tropa inteira parou instantaneamente, as botas e cascos afundando na neve fresca.

Ele virou o cavalo lentamente e fixou o olhar diretamente em Tatsuyo, recuando alguns passos para se emparelhar com a montaria da jovem.

— O cheiro mudou — murmurou Kuro, a voz grave cortando o sopro do vento com uma aspereza tensa. Ele inclinou-se na sela, aproximando o rosto pálido do dela com aquela familiaridade desconcertante que nunca abandonava, nem mesmo diante do abismo da guerra. — Está com medo, Kai? Se suas pernas fraquejarem quando o inferno abrir, trate de ficar atrás de mim. Seria uma lástima ver esse seu rosto bonito estragado pelo aço mongol.

Tatsuyo cerrou os maxilares, sustentando o olhar atrevido do comandante com a frieza de Kai Yume.

— Se o capitão se preocupar demais comigo — rebateu ela, a voz intencionalmente rouca —, vai acabar esquecendo de proteger o próprio pescoço. Eu sei usar a espada que carrego.

Kuro soltou um riso curto, um meio sorriso provocador curvando seus lábios antes que ele pudesse responder. Mas a réplica morreu em sua garganta.

Um grito agudo rasgou o ar acima deles.

Não era o vento. Era o guincho estridente de um falcão negro de caça, mergulhando das nuvens de tempestade como um dardo de ébano.

— Emboscada! — berrou Kuro, a voz explodindo em um trovão autoritário enquanto desembainhava a lâmina curva com a velocidade de um raio. — Formação circular! Lanças para fora!

O eco de sua ordem mal havia terminado quando as encostas brancas ao redor ganharam vida.

Centenas de guerreiros mongóis surgiram do topo dos montes cobertos de neve, cavalgando garanhões robustos e brandindo machados e espadas largas. O uivo gutural de guerra dos invasores fez a própria montanha vibrar.

A colisão foi brutal, imediata e ensurdecedora.

O choque dos dois exércitos tingiu o branco virginal da neve em um carmesim fumegante em fração de segundos. Membros foram decepados, lanças estilhaçaram-se contra couraças de couro fervido e o cheiro ferroso de entranhas e sangue quente subiu no ar gélido.

Tatsuyo foi arremessada de seu cavalo quando um cavaleiro inimigo investiu lateralmente contra sua montaria. Ela rolou na neve espessa, amortecendo o impacto com agilidade e ficando de pé em um salto, sacando sua espada ancestral antes que o inimigo descesse para finalizá-la.

O mongol avançou com um machado pesado em arco descendente. Tatsuyo não tentou aparar a força bruta; ela deslizou para a esquerda, usando a baixa estatura de seu metro e sessenta e três para passar por baixo da guarda dele, girando a lâmina com precisão cirúrgica e rasgando a garganta desprotegida do homem. O sangue espirrou quente sobre suas manoplas e no tecido cinzento de seu uniforme.

— Boa! Foi na veia! — gritou Mushu, colocando apenas as pontas dos olhos para fora da gola. — Agora não para, tem outro vindo pela direita!

Tatsuyo girou, cravando a espada no peito de um segundo invasor que tentava perfurar a linha defensiva dos recrutas. A poucos metros dali, Chen e outros veteranos lutavam desesperadamente, mas estavam sendo empurrados pela maré implacável de guerreiros do norte.

No centro da carnificina, Kuro lutava como um demônio de cabelos brancos.

Com as duas lâminas em mãos, o capitão abria um caminho de corpos ao seu redor. Seus movimentos eram letais, fluidos e desprovidos de piedade. Ele cortava tendões, quebrava pescoços com os punhos desarmados e avançava sem recuar um único milímetro, os músculos de suas costas e ombros flexionando-se visivelmente através do tecido sob a armadura tingida de vermelho. Ao ver dois inimigos cercarem Tatsuyo, Kuro arremessou uma adaga que se cravou no olho de um deles e avançou como um raio, degolando o outro antes que a lâmina tocasse a jovem.

Ele parou ao lado dela por um segundo, o peito arfando sob a farda manchada, os olhos castanhos escuros brilhando com um fervor quase selvagem.

— Nada mal para um tecelão do sul, Kai! — rugiu ele sobre o clamor do massacre.

— Guarde o fôlego, capitão! — gritou ela de volta, bloqueando uma adaga que visava a coxa dele com o próprio escudo de antebraço.

Foi então que um som profundo, gutural e aterrador ecoou do cume mais alto da encosta, abafando todos os gritos dos moribundos.

A cavalaria inimiga começou a abrir caminho, recuando em perfeita ordem.

No topo da colina de gelo, montado sobre um corcel negro gigantesco, erguia-se uma muralha de músculos e sombras. Ele vestia peles escuras e ombreiras pontiagudas feitas de ossos e ferro fundido. Seus olhos amarelos brilhavam com a frieza de uma fera antiga, e as cicatrizes cruzavam sua pele cinzenta como fendas na rocha.

Shan Yu.

O líder dos mongóis olhou para a carnificina lá embaixo com absoluto desprezo. Ele não precisava lutar no corpo a corpo contra os sobreviventes daquele batalhão imperial. Ele já havia previsto o terreno.

Shan Yu ergueu o punho maciço no ar e fez um gesto rápido em direção à parede vertical da montanha que pairava diretamente acima das tropas chinesas, onde milhares de toneladas de neve acumulada pendiam sobre o abismo como uma cornija frágil.

— *Flechas de fogo!* — ordenou o monstro em sua língua áspera. — *Derrubem o teto sobre eles!*

Dezenas de arqueiros de elite que o escoltavam dispararam simultaneamente para o alto. Flechas incendiárias pesadas, assobiando no ar rarefeito, perfuraram a imensa crista de neve acumulada no ponto mais instável da encosta.

As explosões abafadas de pólvora ecoaram como trovões artificiais dentro da pedra.

Um estalo monumental, seco e aterrorizante, partiu o silêncio que se seguiu. A montanha inteira gemeu.

Shan Yu puxou as rédeas de seu cavalo e começou a se retirar pela crista oposta com sua comitiva, deixando a fúria da própria terra encarregar-se do extermínio dos imperiais.

Lá em cima, uma colossal parede branca rompeu-se. O manto de gelo fraturou-se em blocos maciços, começando a despencar em uma cascata colossal que ganhava velocidade a cada segundo. Uma nevasca artificial de pó branco obscureceu o sol, transformando o dia em um pesadelo sufocante.

— Retirada! — berrou Kuro, os olhos arregalados ao ver a avalanche monumental se formar. — Para o desfiladeiro leste! Saiam da rota da encosta agora!

Os soldados entraram em pânico cego, correndo desordenadamente para tentar alcançar a segurança dos contrafortes de pedra.

Tatsuyo olhou para a parede de neve que descia como um monstro devorador de mundos e, em seguida, olhou para o topo da colina intermediária.

Shan Yu ainda não havia desaparecido por completo. Ele cavalgava devagar na retaguarda de seus homens, saboreando a visão da destruição iminente.

— Ele não pode sair impune — sussurrou Tatsuyo, a mente incendiada por uma fúria cega que atropelou qualquer instinto de autopreservação.

— O que você tá pensando, sua doida?! — gritou Mushu, agarrando-se em pânico às bordas do capacete dela. — Corre pro buraco! Olha o tamanho daquela montanha caindo! A gente vai virar purê congelado!

Tatsuyo ignorou os gritos do dragão. Ela pegou a espada com as duas mãos, fincou as botas na neve fofa e correu na direção oposta à retirada, usando as pedras expostas da encosta lateral para subir com agilidade felina em direção à rota de fuga do líder mongol.

— Kai! Volte aqui, seu maldito insano! — O grito desesperado de Kuro ecoou atrás dela, mas ela não olhou para trás.

Tatsuyo alcançou a borda rochosa exatamente quando Shan Yu passava com seu corcel. O líder mongol percebeu a aproximação pelo canto do olho e virou-se com desdém, sacando sua colossal espada recurva para esmagar o tolo que ousava desafiá-lo sozinho.

Mas Tatsuyo usou o impulso da corrida e saltou da rocha no momento exato.

Ela caiu sobre ele como uma sombra vingadora. Com um grito gutural que rasgou sua garganta, ela desferiu um golpe descendente com toda a força e desespero de sua alma.

A ponta afiada de sua lâmina rasgou o manto de peles de Shan Yu e abriu um corte profundo e sangrento que atravessou o peito do monstro, da clavícula esquerda até a linha da cintura. O sangue escuro do líder mongol jorrou sobre o casaco de peles, arrancando dele um rugido de dor e choque genuínos. Nenhum homem jamais havia tocado sua carne daquela forma.

Os dois rolaram do cavalo na neve, caindo na encosta instável.

Tatsuyo tentou se levantar para desferir o golpe de misericórdia, mas a ferocidade de Shan Yu era inumana. Mesmo jorrando sangue do peito, o gigante ergueu-se com a velocidade de uma serpente enraivecida. Seus olhos amarelos ardiam em puro ódio.

Com um movimento brutal de retaliação, Shan Yu brandiu sua lâmina pesada em um contra-ataque devastador.

Tatsuyo tentou esquivar, mas a lâmina maciça a atingiu com violência esmagadora. O aço cortou as placas de ferro de sua armadura lateral, rasgou as camadas de túnica e abriu uma fenda terrível em seu flanco direito, quebrando costelas e atingindo carne profunda. A força do impacto foi tão monumental que ela foi arremessada no ar, voando por vários metros antes de se estatelar contra um bloco de rocha congelada.

O ar explodiu de seus pulmões em uma golfada espessa de sangue quente que tingiu a neve ao redor de seu rosto.

A dor foi tão avassaladora, tão crua e dilacerante, que o mundo ao seu redor perdeu a cor e o som. Suas costelas pareciam em pedaços; o corte profundo em sua lateral queimava como metal fundido. Ela tentou mexer os dedos para alcançar a espada caída, mas seu corpo simplesmente não respondia. A força vital esvaía-se em um ritmo aterrador, escorrendo quente pelo tecido cinzento de seu uniforme rasgado.

Shan Yu deu dois passos em direção a ela para degolá-la, mas a onda de choque precursora da avalanche atingiu a crista naquele instante. Um vendaval de gelo pulverizado quase o derrubou, e seus cavaleiros puxaram suas rédeas, forçando o líder ferido a montar e galopar para salvar a própria vida antes que a massa branca os engolisse.

Tatsuyo ficou para trás, sozinha na encosta.

Sua visão começou a escurecer pelas bordas. Ela conseguia sentir o chão tremer violently; a montanha inteira estava desabando sobre sua cabeça.

— Tatsuyo! Não, não, não! Fica acordada! — Mushu chorava desesperado ao lado de seu ouvido, tentando puxar a gola pesada de sua armadura com garras trêmulas. — Não fecha os olhos, garota! Pelo amor dos deuses, respira! Respira!

Ela não conseguia. Cada tentativa de puxar ar trazia apenas o gosto metálico de sangue para a boca. O frio começou a invadir seus membros com uma velocidade implacável. Ela estava viva apenas por um fio tênue e invisível que se desfazia a cada segundo.

Foi quando o som de cascos furiosos trovejou sobre a terra que tremia.

Uma figura irrompeu através da cortina de neve como um raio salvador. Kuro desmontou antes mesmo que o cavalo parasse por completo, deslizando na neve ensanguentada e caindo de joelhos ao lado do corpo inerte de Tatsuyo.

O rosto do capitão estava irreconhecível. A arrogância habitual, a petulância provocadora e o sorriso libertino haviam desaparecido por completo, substituídos por um pavor cru e selvagem que ele nunca demonstrara na vida. Seus olhos castanhos escuros fitavam a poça vermelha que se espalhava sob o corpo da jovem com um desespero alucinado.

— Kai! — gritou Kuro, a voz falhando em uma nota de pânico puro.

Ele passou os braços fortes e musculosos por baixo dos ombros e dos joelhos de Tatsuyo com um cuidado desesperado, erguendo-a nos braços como se ela fosse feita de porcelana frágil. A cabeça dela pendeu para trás, os lábios manchados de sangue e os olhos semicerrados e vidrados encarando o rosto do capitão sem realmente vê-lo.

— Aguente firme, droga! Não ouse morrer aqui, Kai! — rosnou Kuro contra o ouvido dela, sua respiração quente batendo na pele parda e gélida de Tatsuyo.

A colossal parede de neve estava a menos de duzentos metros deles, um tsunami branco de milhares de toneladas que vinha varrendo árvores e rochedos como se fossem gravetos. O rugido ensurdecedor abafava qualquer pensamento.

Kuro montou em seu garanhão com agilidade desesperada, puxando o corpo de Tatsuyo para a frente da sela e colando-o com firmeza contra o seu próprio peito largo. Com uma mão ele segurou as rédeas com força brutal e, com o outro braço rígido como ferro, envolveu a cintura e o tronco dela, usando sua pesada capa forrada de pele para envolvê-la inteira, protegendo seu corpo ensanguentado e frágil contra a fúria congelante da tempestade e o arremesso de pedras.

Debaixo das camadas de pano dobradas e ensopadas de sangue, Mushu encolheu-se o máximo que pôde contra o abdômen imóvel de Tatsuyo, rezando a todos os espíritos do céu para que as faixas de contenção permanecessem no lugar sob o tecido do uniforme despedaçado.

— *Vamos!* — rugiu Kuro, cravando as esporas no cavalo.

O garanhão saltou para a frente em um galope cego, descendo a encosta lateral em direção à fenda oriental do desfiladeiro.

A avalanche caiu logo atrás deles. O vento gerado pelo impacto da neve ergueu o cavalo e o cavaleiro por uma fração de segundo; nuvens de gelo em pó cobriram tudo em uma cegueira branca absoluta. Kuro abaixou a cabeça, protegendo Tatsuyo com as próprias costas largas e absorvendo o impacto de detritos congelados contra seus ombros e couraça.

Eles cavalgaram na velocidade do pânico através da garganta estreita de pedra enquanto os remanescentes do exército imperial corriam logo à frente.

A onda de neve varreu o fundo do vale com estrondo apocalíptico, soterrou a carnificina anterior sob vinte metros de gelo compacto e finalmente perdeu força contra a parede oposta da cordilheira, cessando o avanço destrutivo a poucos metros de onde os sobreviventes da guarnição haviam conseguido se abrigar.

O silêncio mortal que se seguiu foi quebrado apenas pelo chiado do pó de gelo assentando e pelos soluços ofegantes dos homens exaustos.

Kuro puxou as rédeas de seu cavalo ensopado de suor e sangue sob a saliência rochosa que servia de refúgio temporário. Ele desmontou com pressa desajeitada, segurando o corpo inerte de Tatsuyo contra o peito.

— Curandeiro! — berrou o capitão com uma ferocidade ensurdecedora, caminhando com passos rápidos em direção a uma fogueira improvisada que os soldados tentavam acender. Os olhos dele varriam o acampamento improvisado com fúria assassina. — Onde está a tenda médica?! Tragam as ataduras e o ferro quente agora, ou eu mato o próximo que ficar parado me olhando!

Chen e outros soldados aproximaram-se correndo, assustados com o estado lastimável do jovem que havia ferido o próprio Shan Yu.

— Capitão, ele... ele ainda respira? — perguntou Chen, a voz trêmula.

— Cale a boca e traga panos limpos! — rosnou Kuro, ajoelhando-se sobre uma manta grossa estendida na terra abrigada da caverna e deitando Tatsuyo com uma delicadeza que ninguém jamais imaginara ver naquele homem implacável.

A capa de pele foi afastada com rapidez. O ferimento no flanco direito de Tatsuyo era medonho: a armadura lateral havia sido partida ao meio, e o sangue escuro empapava a túnica cinzenta, manchando a neve que derretia na borda do tecido. O rosto da jovem estava branco como cera, os lábios rachados e a respiração tão superficial que seu peito quase não se movia.

O curandeiro idoso correu para o lado deles com uma caixa de madeira cheia de unguentos e agulhas de osso.

— Preciso despi-lo, capitão! — disse o homem, estendendo as mãos trêmulas para cortar as cordas da couraça e rasgar as roupas do peito do soldado ferido.

— Não toque nele desse jeito! — rugiu Kuro, afastando bruscamente as mãos do curandeiro com um tapa seco de aviso.

O capitão estava ajoelhado sobre o corpo dela, o peito nu sob as tiras da armadura manchada subindo e descendo com violência. Seus olhos castanhos encaravam o ferimento exposto no flanco com uma aflição desmedida, mas sua mente estratégica, mesmo em meio ao caos, agia com rapidez protetora.

— A ferida é na lateral e nas costelas baixas, seu idiota — ordenou Kuro, a voz áspera e autoritária, cortando ele mesmo com sua adaga afiada apenas o tecido da túnica que cobria o rasgo ensanguentado no flanco, mantendo as camadas superiores intactas. — Não mexa nas amarrações superiores. Se você tirar o resto da armadura e expor o peito dele a essa temperatura negativa, o garoto morrerá de choque térmico antes que você estanque a hemorragia!

O médico engoliu em seco diante do olhar mortal do capitão e assentiu em pânico.

— C-certo, capitão! Segure a pressão aqui enquanto eu queimo o sangramento e fecho a carne!

Kuro apoiou as duas mãos enormes e cobertas de calos sobre o tecido limpo pressionado contra o flanco de Tatsuyo. Ele aplicou o peso de seu corpo musculoso para conter a torrente escarlate que teimava em escapar, sentindo a fragilidade daquela estrutura óssea sob seus dedos fortes.

Sob as camadas preservadas da túnica e a couraça superior ainda firmemente amarrada, as faixas grossas de linho permaneciam perfeitamente ocultas, coladas à pele suada e ensanguentada do peito de Tatsuyo. O coque alto, embora frouxo e com mechas negras derramando-se pela manta, continuava firme com o fecho de guerreiro intacto.

Ninguém viu. Ninguém tocou onde não devia. O pânico da neve, a urgência de fechar o rasgo mortal na carne antes que o frio congelasse o sangue e as ordens impiedosas de Kuro haviam mantido a verdade sepultada sob o aço.

Debaixo da manga comprida do uniforme dobrado perto do pulso de Tatsuyo, Mushu soltou um chiado trêmulo de alívio puro, enxugando as lágrimas das escamas com a ponta da cauda minúscula.

— Isso... fecha logo essa fenda... — murmurou o dragão para si mesmo, invisível nas dobras do tecido. — Aguenta firme, garota dos ancestrais... você conseguiu cortar o monstrão... agora não morre, por favor...

Tatsuyo soltou um gemido fraco, quase inaudível, quando o metal quente e as ervas medicinais tocaram a carne dilacerada de seu flanco. Seus olhos pretos abriram-se por uma fração de segundo, turvos, sem foco, fitando a penumbra da caverna antes de encontrar o rosto inclinado sobre o seu.

Kuro estava ali.

Os cabelos brancos do capitão estavam desalinhados, manchados de cinzas e orvalho, e seus olhos castanhos escuros pareciam queimar com uma chama desesperada enquanto ele mantinha a pressão nas bandagens com toda a força de seus braços rígidos. Ao ver a fraqueza no olhar da jovem, ele inclinou-se ainda mais para a frente, roçando a ponta dos dedos trêmulos na bochecha parda e gélida dela.

— Fique comigo, Kai — sussurrou Kuro, sua voz descendo para um tom rouco, quase suplicante, que nenhum dos soldados presentes jamais ouvira em seus lábios. — Você não vai morrer nos meus braços. Isso é uma ordem, ouviu bem? Não se atreva a fechar esses olhos.

Tatsuyo tentou mover os lábios rachados, mas a escuridão absoluta puxou sua consciência para o fundo de um abismo silencioso e sem dor. Sua cabeça tombou suavemente para o lado, e seu corpo relaxou por completo na esteira de palha e lã.

— Ele desmaiou! O pulso está fraco demais! — gritou o curandeiro, costurando a carne às pressas com as mãos cobertas de sangue escuro.

Kuro não respondeu. Ele apenas puxou a manta pesada sobre o corpo imóvel de Kai Yume, cobrindo o peito e o pescoço da jovem até o queixo pontudo para barrar o ar gelado, e permaneceu ajoelhado ali, com a mão esquerda ainda segurando com firmeza protetora o punho pálido e inerte do soldado que acabara de desafiar a própria morte.

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