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Amor

O Despertar da Verdade

A consciência retornou em ondas lentas e dolorosas, como se sua alma estivesse sendo arrastada do fundo de um lago congelado.

O primeiro sentido que despertou foi o olfato: o cheiro penetrante de folhas de artemísia queimadas, vinagre medicinal e ferro fresco. Em seguida veio a dor. Uma pontada aguda e lancinante explodiu em seu flanco direito no instante em que tentou inspirar mais fundo, fazendo-a gemer baixinho contra o travesseiro de palha. A cabeça latejava em um compasso doentio, e uma tontura pesada fazia o teto oscilar diante de seus olhos que mal conseguiam focar.

Tatsuyo piscou várias vezes, afastando a névoa que cobria suas pupilas escuras.

Ela não estava mais na encosta congelada. Não havia vento cortante, nem o estrondo apavorante da avalanche desabando sobre o mundo. O ambiente ao redor era delimitado por grossas paredes de lona reforçada com peles de animais, iluminado apenas pela chama bruxuleante de um braseiro de ferro no canto. Era a tenda dos curandeiros. Ela estava estendida sobre um colchão rústico colocado diretamente no chão de terra batida, coberta até a cintura por uma manta de lã cinzenta.

Ao mover os olhos com esforço, sua visão encontrou uma figura sentada no chão, a menos de um metro de distância.

Era Kuro.

O capitão estava sentado com as pernas cruzadas na terra, imóvel como uma escultura de granito. Ele vestia apenas uma túnica preta desprovida de insígnias, com as mangas arregaçadas revelando os antebraços musculosos e arranhados pela batalha. Seus cabelos curtos, brancos e repicados estavam empapados de fuligem e suor seco, caindo de forma desalinhada sobre a testa pálida. Ele mantinha a cabeça ligeiramente inclinada para baixo, com os olhos castanhos escuros cravados no chão, o maxilar tão cerrado que os músculos de sua mandíbula formavam nós rígidos.

Um calor repentino e avassalador inundou o peito de Tatsuyo.

Ele estava vivo. Todos haviam sobrevivido ao monstro e à montanha. E Kuro estava ali, ao lado dela, guardando seu sono como se nada mais importasse no mundo. A alegria ingênua e o alívio que brotaram em seu coração foram tão intensos que anestesiaram momentaneamente as costelas fraturadas.

Esquecendo a fraqueza, Tatsuyo impulsionou-se para cima com os cotovelos, sentando-se de supetão no colchão.

— Kuro! — a voz dela saiu áspera, quebrada pela sede, mas carregada de uma felicidade genuína. — Você está bem! Os homens... a tropa conseguiu passar pelo desfiladeiro? Nós vencemos, Kuro! Nós conseguimos ferir Shan Yu e—

— Cale a boca — cortou ele.

A voz de Kuro não foi alta, mas veio tão gélida, cortante e desprovida de qualquer calor humano que as palavras morreram instantaneamente na garganta de Tatsuyo.

O capitão ergueu a cabeça devagar. Os olhos castanhos, antes sempre cheios daquela audácia zombeteira e daquele brilho provocador e lascivo que ela tão bem conhecia, estavam agora completamente vazios. Havia uma tempestade contida ali dentro, um misto de fúria absoluta, choque e uma amargura venenosa.

Ele não a olhou nos olhos. Seu olhar desceu diretamente para o tronco dela.

— Você é uma mulher.

Aquelas quatro palavras caíram sobre a tenda como um machado pesado sobre o cepo.

O sangue de Tatsuyo parou de correr nas veias. Um calafrio paralisante percorreu sua espinha, roubando-lhe todo o ar que restava em seus pulmões machucados. O alívio de segundos atrás desintegrou-se em cinzas.

Ela olhou para baixo, em pânico.

Sua armadura pesada havia sido removida. Sua túnica cinzenta de recruta, cortada e ensanguentada pelo golpe de Shan Yu, jazia descartada em um cesto ao lado. Tatsuyo vestia apenas as calças largas de combate. Seu abdômen estava envolto em ataduras embebidas de unguento amarelo onde os pontos de sutura seguravam a carne de seu flanco, e, logo acima... estavam apenas as faixas finas e gastas de linho que esmagavam seus seios. As amarrações estavam frouxas, afrouxadas pelos médicos para permitir que ela respirasse durante a cirurgia, revelando a curva inconfundivelmente feminina de seu corpo.

Seus cabelos negros e compridos até a cintura haviam escapado totalmente do coque alto, derramando-se como uma cascata de seda ondulada sobre seus ombros pardos e nus.

O disfarce havia morrido. Kai Yume não existia mais.

O terror cego cravou as garras na garganta de Tatsuyo. A lei do império. A forca. A lâmina da decapitação por alta traição militar.

— Kuro... — gaguejou ela, puxando a manta cinzenta com as mãos trêmulas para tentar cobrir o peito exposto, as bochechas queimando em um rubor de pura vergonha e desespero. — Por favor, ouça... me deixe explicar... não é o que parece, eu juro pelos deuses que—

— Explicar?! — rugiu Kuro, levantando-se em um salto tão violento que a poeira do chão se ergueu ao redor de suas botas.

A calma aparente do capitão evaporou, dando lugar a uma erupção vulcânica de cólera. Ele deu um passo agigantado em direção a ela, sua altura de um metro e oitenta projetando uma sombra aterrorizante sobre a jovem encolhida no colchão.

— O que você vai explicar, sua desgraçada?! — ele gritou, a voz estrondando como o trovão de uma tempestade dentro da tenda fechada. — Que você transformou o exército imperial em um circo de mentiras?! Que você cuspiu na face do imperador, nas leis do céu e no sangue de todos os homens que morreram na lama sob as minhas ordens?!

Tatsuyo recuou contra o travesseiro, segurando a manta com força desesperada enquanto as lágrimas começavam a queimar o fundo de seus olhos pretos.

— Eu lutei! Eu derramei meu sangue ao seu lado! — gritou ela de volta, a voz trêmula de angústia.

— Você cometeu traição! — berrou Kuro, os olhos faiscando de ódio, gesticulando com fúria cega enquanto andava de um lado para o outro. — Você desonrou os espíritos ancestrais que protegem esta terra há dez mil anos! Quebrou o juramento sagrado das armas! Infringiu todos os artigos do código marcial da corte! Nenhum regulamento foi poupado por essa sua audácia maldita! Se qualquer general puser os olhos em você agora, a sua cabeça rolará antes do amanhecer! Você envergonhou uma nação inteira com essa farsa patética!

— Eu não envergonhei ninguém! — soluçou Tatsuyo, as lágrimas finalmente transbordando e lavando a poeira e o sangue seco de seu rosto pardo. A dor física do ferimento costurado parecia nada comparada à humilhação que rasgava seu peito. — Nada disso faz sentido só porque eu sou mulher! O que mudou desde ontem à noite, Kuro?! O sangue que escorreu das minhas mãos na neve era falso?! A lâmina que eu enfiei no peito daquele monstro era de brinquedo?! Eu salvei a sua vida! Eu segurei a linha com Chen e os outros! Nós éramos amigos! Nós éramos companheiros de armas!

— Companheiros?! — Kuro parou diante dela, tremendo dos pés à cabeça. O peitoral largo e rijo arfava descontroladamente sob a túnica aberta. — Você mentiu para mim desde o primeiro maldito segundo em que pisou em Wu Zhong! Você olhou nos meus olhos todos os dias e fingiu ser um soldado! Você me fez...

As palavras travaram na garganta do capitão.

A fúria avassaladora que distorcia suas feições não era direcionada apenas à violação das leis imperiais. Era uma raiva podre, corrosiva e desesperada de si mesmo. Ele lembrava-se com clareza humilhante de cada olhar prolongado, de cada toque desnecessário sob a desculpa de corrigir uma postura, de como havia invadido o espaço de "Kai", da atração física e magnética que o consumira nas últimas semanas a ponto de fazê-lo questionar a própria sanidade.

Ele havia sido cego. Havia sido manipulado, encantado e desarmado por uma garota de vinte anos que ele jurava ser apenas um recruta bonito do sul. E o pior de tudo: o homem que ele era, o capitão incorruptível do império, tinha o dever sagrado de entregar aquela garota para o carrasco.

A sensação de impotência e humilhação pessoal foi avassaladora demais para suportar.

Com um rugido selvagem de pura frustração, Kuro agarrou um vaso pesado de cerâmica azul sobre a mesa de remédios e arremessou-o com toda a força contra o poste central da tenda.

O vaso estilhaçou-se em centenas de pedaços afiados, espalhando argila cozida, água medicinal e folhas secas pelo chão de terra com um estrondo violento que fez Tatsuyo estremecer e cobrir o rosto.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

Apenas a respiração pesada e entrecortada de Kuro preenchia a penumbra. O capitão permaneceu de costas para ela por longos segundos, os punhos cerrados tão fortemente ao lado do corpo que as veias sob sua pele branca pareciam prontas para arrebentar. As mechas de seus cabelos curtos caíam sobre os olhos enquanto ele tentava recuperar o domínio sobre o próprio corpo.

Devagar, o ritmo de sua respiração começou a diminuir.

Kuro soltou um suspiro longo, áspero e exausto. Ele virou-se, os ombros caindo ligeiramente sob o peso invisível de mil montanhas. A fúria cega havia cedido lugar a um cansaço profundo e doloroso.

Sem dizer uma única palavra, ele caminhou até o colchão e sentou-se novamente no chão de terra batida ao lado de Tatsuyo, mantendo uma distância cautelosa de dois palmos. Ele apoiou os antebraços sobre os joelhos dobrados e encarou os cacos do vaso partido.

— Se Chi-Fu descobrir... — começou Kuro, a voz saindo baixa, rouca e sombria —, eu serei obrigado a executar você com a minha própria lâmina. Você compreende isso?

Tatsuyo limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão calejada. Seu peito subia e descia devagar, tentando conter os soluços.

— Eu compreendo — respondeu ela, a voz frágil, despida de qualquer tentativa de soar como homem.

Kuro virou a cabeça devagar, encarando pela primeira vez o rosto feminino da mulher diante de si. Sem o capacete e sem a carranca artificial de soldado, as feições de Tatsuyo eram de uma suavidade desconcertante. Os olhos pretos e úmidos eram grandes e expressivos; a pele parda, iluminada pelo fogo do braseiro, contrastava de maneira belíssima com a massa de cabelos escuros que emoldurava seu colo. Ele sentiu um nó apertar em sua garganta.

— Quem é você de verdade? — perguntou Kuro, a voz soando quase cansada demais para guardar rancor. — Qual é o seu verdadeiro nome?

Tatsuyo respirou fundo, puxando a manta até o pescoço para proteger sua modéstia, mas sustentando o olhar castanho do capitão com dignidade.

— Meu nome é Tatsuyo. Tatsuyo Nakamura.

Kuro franziu o cenho de leve, processando a revelação.

— Nakamura... a casa do velho veterano de Tung Shao. O homem que foi convocado pelo edital imperial.

— Ele não conseguiria marchar uma légua sequer sem a bengala — disse ela, as lágrimas ameaçando voltar, mas a voz mantendo-se firme. — As pernas dele foram esmagadas na última guerra contra os bárbaros. Ele teria morrido antes mesmo de chegarmos a este vale. Quando a ordem chegou... eu vi nos olhos dele que ele estava pronto para ir e morrer na lama apenas para não manchar o nome da nossa família.

Ela baixou os olhos por um segundo, fitando as próprias mãos cheias de cortes e calos.

— Eu não podia permitir isso, Kuro. Ele é o meu pai. Se eu ficasse em casa rezando, ele estaria morto agora. Eu roubei a armadura dele, peguei a espada ancestral e fugi na calada da noite. Eu nunca quis zombar de você, nem do imperador, nem dos deuses. Eu só queria salvar a única família que eu tenho no mundo.

Kuro permaneceu em silêncio por um longo tempo. Seus olhos castanhos examinaram a expressão da jovem, absorvendo a verdade crua daquelas palavras. A honra filial, o sacrifício cego, a coragem insana de uma garota de vinte anos que decidira enfrentar o império e a morte certa para proteger um velho aleijado.

O capitão levou a mão à testa, esfregando as têmporas com um meio sorriso amargo e incrédulo desenhando-se em seus lábios.

— Você é louca, Tatsuyo — murmurou ele, dizendo o nome dela pela primeira vez, as sílabas soando estranhamente macias em sua voz grave. — Completamente insana.

— E você é muito esquentadinho para alguém que nem usa camisa!

A voz estridente e anasalada cortou o ar como uma navalha.

Kuro congelou no lugar. Em uma fração de segundo, o reflexo militar do guerreiro assumiu o controle: a mão direita do capitão desceu como um relâmpago até o cabo de sua adaga presa à cintura, desembainhando a lâmina com um zumbido metálico ameaçador.

— Quem está aí?! — trovejou Kuro, colocando-se de joelhos com a lâmina erguida em direção à pilha de mantas no canto do colchão.

— Abaixa essa faca de cortar toucinho, ô branquelo! — gritou a voz, saindo de dentro da trouxa de pano enrolada perto dos pés de Tatsuyo.

Do meio das dobras de lã cinzenta, surgiu uma figura minúscula, vermelha e escamosa. Dois bigodes dourados e compridos tremiam no ar, encimando um focinho pontudo e dois olhos amarelos arregalados de puro ultraje. O serzinho tinha pouco mais de trinta centímetros de comprimento, chifres delgados de veado e uma cauda pontiaguda que chicoteava o ar com fúria cômica.

Kuro estacou. Seus olhos esbugalharam-se em um choque absoluto que beirava o cômico. A ponta de sua adaga vacilou no ar.

— O que... que diabos de lagartixa falante é essa?! — gaguejou o capitão, recuando meio passo na terra batida, olhando do réptil para Tatsuyo como se ela tivesse conjurado um demônio menor.

— Lagartixa?! LAGARTIXA?! — o serzinho saltou para cima de um caixote de remédios, batendo as patinhas minúsculas no peito escamoso e assumindo uma pose de batalha absurdamente dramática. — Eu sou o todo-poderoso, o temível, o indestrutível guardião das almas da família Nakamura! Eu sou Mushu! Um dragão divino enviado diretamente do plano astral superior para guiar essa menina desmiolada! Você me respeita, seu poste albino de academia militar!

Kuro piscou uma, duas vezes. O homem que havia decepado cabeças de invasores sem pestanejar estava agora encarando um dragão do tamanho de uma doninha com uma expressão de pura perplexidade.

— Um... dragão? — repetiu Kuro, a voz soando quase infantil de tão incrédula. Ele baixou a lâmina devagar, esticando o indicador e cutucando levemente a barriga de Mushu. — Isso não é um dragão. Parece mais uma cobra vermelha com pernas e problemas de temperamento.

— Tira a mão de mim, seu devasso sem farda! — chiou Mushu, tentando morder a ponta do dedo do capitão, mas Kuro retirou a mão com facilidade. — Eu estive aqui o tempo todo! Eu vi quando você quase agarrou a minha protegida no treino! Eu vi você se exibindo sem camisa para cima e para baixo achando que ela era um rapazinho do sul! Se eu fosse um palmo maior, eu teria queimado essa sua franja branca até virar carvão vegetal!

Tatsuyo levou a mão à testa, gemendo em desespero enquanto as costelas protestavam.

— Mushu, por favor, cala essa boca... — suplicou ela.

Kuro olhou para o pequeno dragão vermelho que bufava fumaça azul pelas ventas, depois olhou para Tatsuyo que tentava esconder o rosto avermelhado entre as mãos e, em seguida, olhou para os próprios dedos que quase haviam sido mordidos por um guardião ancestral de trinta centímetros.

O silêncio esticou-se por mais um instante, pesado e tenso.

E então, o peito musculoso de Kuro começou a tremer.

Um som baixo e rouco escapou de sua garganta, transformando-se em uma risada curta. A risada cresceu, desfazendo completamente a carranca severa de comandante imperial, até explodir em uma gargalhada aberta, sonora e genuinamente divertida que ecoou pela tenda de lona.

Kuro jogou a cabeça para trás, os cabelos brancos balançando enquanto ele ria até os olhos marejarem, curvando-se sobre os joelhos.

— Pelos céus... — disse o capitão, recuperando o fôlego com dificuldade e enxugando o canto do olho com as costas da mão calejada. — Uma mulher que luta melhor que metade da minha infantaria e um lagarto de bolso com complexo de divindade. Eu realmente perdi o juízo. Eu devo ter morrido na avalanche e isso é o inferno dos bufões.

Mushu cruzou os bracinhos escamosos e empinou o focinho, ofendido até a alma.

— Rache o bico mesmo, capitãozinho. Vamos ver quem vai rir quando os ancestrais mandarem um raio na sua cabeça por desrespeito aos rituais fúnebres!

Kuro balançou a cabeça, o sorriso ainda brincando nos lábios desenhados enquanto embainhava a adaga com um clique suave. Ele voltou seu olhar para Tatsuyo. A zombaria havia desaparecido, substituída por uma cumplicidade estranha, perigosa e infinitamente mais íntima do que qualquer momento que haviam compartilhado sob o disfarce de Kai Yume.

Ele estendeu a mão devagar e tocou suavemente uma mecha dos longos cabelos negros que caíam sobre o ombro dela, deslizando os dedos ásperos pelos fios escuros com uma delicadeza que fez o coração de Tatsuyo errar uma batida.

— Tatsuyo Nakamura — murmurou Kuro, o tom agora macio, seus olhos castanhos fixos nos dela. — Você é a criatura mais problemática, teimosa e perigosa que já cruzou o meu caminho. E agora... eu tenho que descobrir como manter essa sua cabeça bonita grudada no pescoço antes que o conselheiro imperial acorde para a ronda matinal.

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