Amor de infância
Ecos no Telão e Faíscas no Gramado
A luz da manhã entrava pelas frestas das cortinas da mansão, trazendo consigo uma energia diferente. O ar estava carregado de antecipação. Eu pulei da cama com uma disposição que nem o fuso horário da Arábia Saudita conseguia abater.
— Júnior! Acorda! — gritei, batendo na porta do quarto dele, que ficava logo ao lado do meu. — Hoje é o dia! Amanhã começa a Copa e a gente tem um voo para pegar!
Ouvi um resmungo abafado e, segundos depois, a porta se abriu. O Júnior estava com o cabelo todo bagunçado, vestindo apenas uma calça de moletom, coçando os olhos.
— Clara, são sete da manhã... — ele bocejou, mas não conseguiu esconder o sorriso ao me ver pulando de alegria.
— E daí? O jogo de Portugal é em alguns dias, mas a gente tem que chegar nos Estados Unidos antes! Eu já conferi tudo, o roteiro, os ingressos, tudo! — Eu estava radiante. — Vai ser a melhor Copa das nossas vidas.
— Calma, apressadinha. A gente vai, eu prometi — ele disse, encostando-se no batente da porta e me observando. — Mas antes, precisamos sobreviver ao caos das malas.
Enquanto descíamos para o café da manhã, o som da campainha ecoou pela casa inteira. Estranhei, pois era cedo demais para visitas. Como o Júnior ainda estava terminando de calçar os tênis no degrau da escada, eu mesma fui abrir.
Ao puxar a porta pesada de madeira, dei de cara com uma menina morena, de cabelos cacheados volumosos e perfeitamente definidos. Ela usava um conjunto de academia caro e tinha uma expressão de quem era dona do mundo. O problema? Ela nem sequer olhou para o meu rosto. Seus olhos passaram por mim como se eu fosse um móvel da sala e focaram diretamente no Júnior, que aparecia logo atrás de mim.
— Oi, Junior! — disse ela, entrando na casa sem ser convidada. — Fiquei sabendo que você vai viajar e passei para te desejar sorte. Como você está?
Ela caminhou até ele, ignorando completamente o fato de que eu estava ali, parada com a mão na maçaneta. O Júnior travou. Ele olhou para ela e depois para mim, e eu pude ver o desconforto estampado em cada linha do seu rosto. Ele deu um passo para trás quando ela tentou se aproximar demais.
— Oi, Bianca — disse ele, a voz seca. — Na verdade, não estou nada bem. Estou gripado, com início de febre, acho que é um vírus forte. É melhor você ir embora agora para não pegar também.
Eu segurei o riso. O Júnior era o pior mentiroso do mundo quando queria despachar alguém, mas a desculpa do "vírus" foi o ápice.
— Ah, mas eu posso te ajudar a... — ela começou, tentando insistir.
— Não pode não — ele a cortou, sendo mais firme. — Eu preciso terminar de arrumar minhas coisas. Eu e a minha melhor amiga temos um voo longo e não podemos nos atrasar. Tchau, Bianca.
Ela finalmente me olhou, mas foi um olhar de puro desdém, antes de girar nos calcanhares e sair batendo os pés. Assim que a porta fechou, eu caí na gargalhada.
— "Um vírus", Júnior? Sério? — perguntei, entre risos. — Você é péssimo!
— O que você queria que eu dissesse? — Ele bufou, passando a mão pelo rosto. — Ela não para de me mandar mensagens. E a gente tem pressa, não tenho tempo para as crises de ego da Bianca. Agora vamos, as malas não vão se arrumar sozinhas.
Bem, no meu caso, as malas já estavam prontas. Quando o motorista começou a colocar nossa bagagem no carro, o Júnior arregalou os olhos.
— Clara... por que tem três malas gigantes com o seu nome? — Ele apontou para a pilha de bagagem. — A gente vai para a Copa, não vamos nos mudar para os Estados Unidos permanentemente.
— Uma é só de sapatos e botas, Júnior! — respondi, subindo no carro com dignidade. — Uma mulher precisa de opções. E tem o frio dos estádios, os jantares... você não entenderia.
— Três malas — ele repetiu, balançando a cabeça e rindo enquanto entrava ao meu lado. — Só você mesmo.
O voo para os Estados Unidos foi tranquilo. Passamos a maior parte do tempo dividindo os fones de ouvido e discutindo táticas de jogo. O Júnior estava focado no desempenho do pai, mas eu tinha outros interesses em mente também.
— Você sabe que a Turquia joga hoje, né? — comentei, fingindo desinteresse enquanto olhava as unhas.
— E o que tem a Turquia? — ele perguntou, sem tirar os olhos do tablet onde assistia a lances de jogos antigos.
— O Kenan Yıldız joga hoje. Ele é um gênio, Júnior. A técnica dele, a velocidade... — Eu suspirei dramaticamente. — Sou obcecada por ele.
O Júnior pausou o vídeo na hora. Ele se virou para mim, estreitando os olhos.
— O Yıldız? Sério, Clara? Ele é só... rápido. Não vejo nada de mais.
— Ah, para! Ele joga muito e é lindo. Se eu tiver a chance de ver ele de perto, eu morro.
O Júnior não disse mais nada, mas voltou a assistir ao vídeo com uma cara de poucos amigos. Eu sabia que tinha cutucado a fera, e secretamente, eu adorava isso.
Assim que chegamos e nos instalamos, fomos direto para o estádio assistir ao jogo da Turquia. O ambiente era elétrico. Quando o jogo terminou, consegui uma proeza: através dos contatos do tio Cris e da segurança, fomos levados para uma área próxima à saída dos jogadores.
E lá estava ele. Kenan Yıldız.
— Kenan! — chamei, meu coração saindo pela boca.
Ele parou, olhou para mim e sorriu. Ele foi super simpático, trocou duas palavras em inglês comigo e aceitou tirar uma foto. Eu estava radiante, com um sorriso que ia de orelha a orelha.
— Obrigada! Você foi incrível hoje! — eu disse, enquanto ele se afastava.
Virei-me para o Júnior, balançando o celular.
— Olha isso! Eu consegui! Ele é ainda mais bonito de perto!
O Júnior estava de braços cruzados, encostado em uma grade, com uma expressão que poderia azedar leite.
— É, legal. Uma foto com um cara que nem sabe quem você é — resmungou ele, começando a andar em direção à saída sem me esperar. — Vamos logo, o jantar está reservado.
— Alguém está com ciúmes? — provoquei, correndo para alcançá-lo e passando o braço pelo dele.
— Ciúmes? De um turco que joga na Itália? Por favor, Clara. Eu só acho que a gente tem coisas mais importantes para fazer do que tietar jogadores medianos.
— Mediano? Ele joga na Juve, Júnior! — eu ri, apertando o braço dele. — Admite, você está morrendo de inveja porque eu não olhei assim para o seu último treino.
Ele não admitiu, mas o resto da noite foi marcado por ele tentando me impressionar com qualquer assunto que não envolvesse a seleção turca.
No dia seguinte, porém, o clima mudou. Era o dia de Portugal. O dia do tio Cris.
Eu passei horas me arrumando. Escolhi uma saia jeans curta que valorizava minhas pernas, a camisa oficial de Portugal personalizada com o meu nome nas costas e a minha bota favorita, de um tom vermelho vinho profundo. Quando saí do quarto, o Júnior já me esperava no corredor. Ele estava com a camisa reserva de Portugal e parecia um modelo da Nike.
— Uau — disse ele, me olhando de cima a baixo. — A bota vermelha fez sucesso.
— Eu disse que precisava das três malas, não disse? — brinquei, dando uma voltinha.
Fomos para o camarote privativo. O estádio era um mar de vermelho e verde. A energia era ensurdecedora. Poucos minutos antes do apito inicial, as câmeras do estádio começaram a varrer o público. De repente, o telão gigante no centro do campo brilhou com a nossa imagem.
Lá estávamos nós: Júnior e eu, rindo de algo que ele tinha dito, a imagem nítida para milhares de pessoas. O locutor disse algo sobre a "próxima geração da realeza do futebol", mas para nós, era só mais um momento comum. O Júnior apenas acenou para a câmera com aquela confiança natural, e eu dei um tchauzinho tímido, sentindo meu rosto corar.
— Olha só, somos estrelas de cinema agora — ele brincou no meu ouvido, a voz rouca por causa do barulho.
O jogo começou e foi um teste para os nervos. Portugal estava pressionando, mas o gol não saía. Até que, aos trinta minutos, após um cruzamento perfeito, a bola encontrou a rede.
— GOL! — gritei a plenos pulmões.
Sem pensar, pulei nos braços do Júnior. Ele me segurou pela cintura e me girou no ar, ambos gritando de euforia. Era a nossa tradição. Desde pequenos, cada gol de Portugal era comemorado assim, com um abraço que parecia selar nossa união contra o resto do mundo.
Portugal marcou mais duas vezes, e em cada uma delas, o ritual se repetia. Eu estava suada, descabelada e completamente feliz.
Ao final da partida, descemos para a zona mista para esperar o tio Cris. Enquanto aguardávamos a saída dele do vestiário, peguei meu celular para ver as notificações. Meu queixo caiu.
— Júnior... você não vai acreditar nisso — eu disse, puxando-o pelo braço.
— O que foi? O Yıldız postou a sua foto? — ele perguntou, ainda com um resquício de ironia.
— Não, bobo. Olha o TikTok! — Abri o aplicativo e mostrei a tela para ele.
A hashtag com nossos nomes já estava nos trending topics. Dezenas de edits tinham sido criados em questão de minutos. Vídeos nossos no telão, vídeos de nós dois rindo no shopping em Riade que alguém tinha filmado escondido, e, principalmente, o vídeo do nosso abraço no gol, em câmera lenta, com músicas românticas de fundo.
— "O casal real do futebol", "A química da Clara e do Júnior é de outro planeta", "O jeito que ele olha para ela no telão..." — li alguns comentários em voz alta, sentindo meu coração disparar.
O Júnior pegou o celular da minha mão e começou a rolar a tela. Ele assistiu a um edit que mostrava fotos nossas desde crianças até o momento do abraço de hoje. O vídeo tinha milhões de curtidas.
— As pessoas são rápidas — comentou ele, mas não parecia bravo. Ele deu um meio sorriso, devolvendo o celular. — Mas elas não estão erradas em uma coisa.
— No quê? — perguntei, curiosa.
— No jeito que eu olho para você — ele disse, dando um passo para frente, ignorando os seguranças e fotógrafos que circulavam ao longe. — Eu realmente não consigo disfarçar, não é?
Eu fiquei sem palavras, sentindo o mundo girar. Antes que eu pudesse responder, a porta do vestiário se abriu e o tio Cris apareceu, com o uniforme suado e um sorriso de vitória.
— E aí, meus maiores fãs! Gostaram do show? — perguntou o Cris, vindo nos abraçar.
— Foi incrível, tio! — eu disse, tentando recuperar a compostura, embora minha mente ainda estivesse nos edits do TikTok e nas palavras do Júnior.
— Eu vi vocês no telão — o Cris piscou para o filho. — Estão ficando famosos, hein? Cuidado, Júnior, desse jeito você vai perder o posto de protagonista para a Clara.
— Eu não me importaria nem um pouco, pai — o Júnior respondeu, e ele não tirou os olhos dos meus.
Naquela noite, enquanto voltávamos para o hotel, o silêncio no carro era diferente. Não era o silêncio de cansaço, mas o de algo que tinha sido dito sem palavras. Eu olhava para a paisagem das luzes da cidade passando pela janela, pensando em como uma viagem que começou com uma surpresa no Brasil estava se transformando em algo que eu nunca ousei imaginar.
O Júnior pegou a minha mão, entrelaçando nossos dedos sobre o banco de couro.
— Clara?
— Sim?
— Esquece o que o pessoal da internet diz. O que importa é o que a gente sabe — ele disse, apertando minha mão. — Mas se você quiser postar aquela foto com o turco, eu deixo... desde que a próxima foto seja nossa.
Eu ri, encostando minha cabeça no ombro dele.
— Pode deixar, Júnior. O Yıldız é só um jogador. Você... você é a minha pessoa favorita em qualquer estádio do mundo.
E ali, sob o céu estrelado dos Estados Unidos, eu soube que a Copa estava apenas começando, mas o meu prêmio principal já estava bem ali, ao meu lado.