Amor de infância
O Silêncio das Dunas e o Peso do Segredo
As semanas que se seguiram à nossa viagem pelos Estados Unidos foram um borrão de flashes, estádios lotados e uma convivência tão intensa que, às vezes, eu esquecia onde terminava a minha vida e onde começava a do Júnior. A Copa tinha sido uma montanha-russa emocional, mas agora, de volta à Arábia Saudita, o calor seco do deserto parecia assentar as coisas — ou talvez apenas abafar o que eu estava sentindo.
Eu estava sentada na beira da piscina da mansão, observando o reflexo da lua na água cristalina. O silêncio da noite em Riade era profundo, interrompido apenas pelo som distante de algum carro de luxo acelerando nas avenidas largas. Meus pensamentos, no entanto, estavam a milhares de quilômetros dali, nas conversas que tive com meus pais por telefone e na decisão que mudaria tudo.
— Sabia que te encontraria aqui — a voz rouca do Júnior surgiu atrás de mim.
Eu não precisei me virar para saber que ele estava sorrindo. Senti o peso do seu corpo quando ele se sentou ao meu lado, deixando os pés balançarem na água gelada, assim como eu.
— Você anda muito pensativa, Dengosa — comentou ele, esbarrando o ombro no meu. — O que está passando nessa cabecinha? Ainda pensando no gol que Portugal perdeu nas quartas?
— Antes fosse isso, Júnior — ri baixinho, desviando o olhar para as minhas mãos. — Estava pensando no Brasil. No vovô e na vovó.
— Sente falta de lá? — O tom dele mudou, ficando mais cauteloso, quase como se tivesse medo da resposta.
Respirei fundo. Era agora. Meus pais já tinham resolvido tudo com o tio Cris e com a Gio. A decisão de que eu não voltaria a morar no Brasil permanentemente, mas sim que terminaria meus estudos e começaria minha carreira de modelo aqui, na Arábia, morando com eles, já estava selada. Mas o Júnior ainda não sabia da parte final.
— Eu sinto falta deles, claro. Mas... eu conversei com meus pais. Eles viajam demais, Júnior. O Lucas vai começar a faculdade na Europa e meus avós acham que eu preciso de uma base mais estável agora que estou trabalhando mais com a moda.
Júnior ficou em silêncio, esperando que eu continuasse. Ele parecia tenso, os dedos brincando com a borda da bermuda.
— Eu não vou voltar para o Brasil, Júnior — disse de uma vez, sentindo um peso sair das minhas costas. — Eu vou morar aqui. Com vocês. O tio Cris e a Gio já arrumaram tudo. Vou ficar na suíte da ala leste por tempo indeterminado.
O silêncio que se seguiu foi eterno. Eu não tinha coragem de olhar para ele, temendo encontrar irritação por eu ter escondido isso por algumas semanas. Mas, de repente, senti seus braços me envolverem em um abraço lateral apertado, puxando-me para o peito dele.
— Você está falando sério? — Ele soltou uma risada de puro alívio contra o meu cabelo. — Clara, eu achei que você ia dizer que estava indo embora amanhã!
— Você está feliz? — perguntei, finalmente olhando para ele.
— Feliz? — Ele me soltou um pouco, mas manteve as mãos nos meus ombros, os olhos brilhando. — Eu estou radiante. Ter você aqui, na mesma casa, todos os dias... vai ser como antigamente, em Madrid, mas melhor. Sem o oceano no meio da gente.
— É — concordei, forçando um sorriso que escondia a outra metade da verdade. — Vai ser ótimo.
A verdade era que morar com ele era o meu maior sonho e, ao mesmo tempo, o meu maior medo. Porque, enquanto o Júnior comemorava a nossa amizade eterna, meu coração gritava algo completamente diferente. Eu o amava. E não era aquele amor de "irmãos" que nossos pais celebravam. Era algo que queimava, que me fazia perder o ar quando ele me chamava de Dengosa, que me fazia sentir ciúmes bobos de cada modelo que comentava nas fotos dele.
Mas eu não podia contar. Não agora. A amizade dele era o que eu tinha de mais precioso, e o medo de estragar essa dinâmica, de tornar a convivência na mesma casa estranha ou insuportável, era maior do que a minha vontade de me declarar. Eu preferia o segredo do que a distância.
— A Gio já sabe desde quando? — perguntou ele, voltando a se animar.
— Há umas três semanas — confessei, encolhendo os ombros. — Meus pais falaram com ela logo depois que saímos do Brasil. Eles queriam ter certeza de que eu não seria um incômodo.
— Incômodo? Você é da família, Clara. Meu pai te adora como se fosse uma filha. E eu... — Ele parou por um segundo, a mão descendo do meu ombro para o meu braço, fazendo um carinho leve. — Eu não sei o que faria aqui sem você.
Engoli em seco. O jeito que ele falava, às vezes, parecia flertar com o perigo. Mas eu logo me convenci de que era apenas o jeito dele, o carinho de quem cresceu dividindo tudo comigo.
— Bom, agora você vai ter que me aguentar — brinquei, tentando quebrar o clima. — Vou criticar seus treinos todos os dias no café da manhã.
— E eu vou ter que te arrastar para fora das lojas de sapatos toda semana — ele rebateu, rindo. — Parece um acordo justo.
Ficamos ali por mais algum tempo, conversando sobre como seria a nova rotina. O Júnior estava genuinamente empolgado, fazendo planos para me levar aos treinos do Al-Nassr e para explorarmos os novos restaurantes de Riade. Para ele, a vida estava se encaixando perfeitamente. Para mim, a vida estava prestes a se tornar um teste de resistência para o meu coração.
Nos dias seguintes, a mudança oficial aconteceu. Minhas malas — as famosas três malas que ele tanto criticou — foram levadas para o meu novo quarto. A suíte era linda, decorada com tons de creme e dourado, com uma vista deslumbrante para a cidade. Georgina me recebeu com um buquê de flores e um abraço de mãe.
— Que bom que você aceitou, Clara — disse Gio, enquanto me ajudava a organizar algumas coisas no closet. — O Júnior estava ficando insuportável de saudade. Ele não admite, mas o Cris e eu percebemos como ele muda quando você está por perto. Ele fica mais leve.
— Ele é meu melhor amigo, Gio — respondi, tentando manter a voz neutra. — Acho que a gente se equilibra.
— Amigos, sei... — Gio deu um sorriso enigmático, mas não pressionou. Ela me conhecia melhor do que eu gostaria.
Naquela noite, houve um jantar especial para comemorar minha "chegada definitiva". O tio Cris abriu um vinho caro para os adultos e nós dois ficamos no suco de frutas, rindo das histórias de infância que meu pai e o Cris começaram a contar por chamada de vídeo.
— Vocês lembram quando a Clara tentou ensinar o Júnior a sambar no jardim em Lisboa? — meu pai gargalhava do outro lado da tela. — Ele parecia um robô sem óleo nas engrenagens!
— Ei! Eu melhorei muito desde então! — protestou o Júnior, ficando vermelho.
— Melhorou nada — provoquei, dando um gole no meu suco. — Continua tendo dois pés esquerdos para qualquer coisa que não seja chutar uma bola.
— Ah é? — Ele me olhou com um desafio nos olhos. — Depois do jantar, a gente vai lá fora e eu te mostro se melhorei ou não.
Depois que a mesa foi desfeita, fomos para a área externa, onde a música ambiente tocava suavemente pelos alto-falantes embutidos no jardim. O Júnior estendeu a mão para mim, fazendo uma reverência exagerada.
— Me concede esta dança, senhorita?
— Você é um bobo — eu disse, mas aceitei a mão dele.
Ele me puxou para perto. A música era lenta, um R&B suave que não tinha nada a ver com samba, mas que criava uma atmosfera perigosamente romântica. Coloquei minhas mãos nos ombros dele, e ele envolveu minha cintura. Estávamos tão perto que eu conseguia sentir o calor que emanava dele, o cheiro do seu perfume misturado com o sabonete que ele usava.
— Viu? — sussurrou ele, movendo-se no ritmo da música com uma fluidez que me surpreendeu. — Sem pés esquerdos.
— Você treinou — acusei, tentando manter o foco na dança e não no fato de que meu coração estava batendo tão forte que ele certamente conseguiria sentir através da minha blusa.
— Talvez — admitiu ele, os olhos fixos nos meus. — Eu queria estar preparado para quando você morasse aqui. Queria que você não tivesse do que reclamar.
O olhar dele caiu para os meus lábios por um milésimo de segundo, e o mundo pareceu parar. O segredo que eu guardava queimou na ponta da minha língua. Eu queria dizer. Queria dizer que o amava desde a primeira vez que ele me defendeu de um garoto na escola, ou desde a primeira vez que ele segurou minha mão quando eu estava com medo de um avião.
Mas o medo foi mais forte. E se ele não sentisse o mesmo? E se ele me visse apenas como a "irmã" de consideração, a amiga de infância que agora morava no quarto ao lado? O risco era alto demais.
— A casa é grande, Júnior — eu disse, a voz saindo um pouco trêmula. — Mas acho que a gente vai se esbarrar muito.
— Eu espero que sim — respondeu ele, apertando um pouco mais o abraço. — Eu espero que sim, Clara.
Ele encostou a testa na minha, e por um momento, a música pareceu desaparecer. Estávamos ali, no coração da Arábia, cercados por luxo e expectativas, mas éramos apenas dois jovens tentando entender o que fazer com a intensidade do que sentíamos.
— Promete uma coisa? — ele pediu, a voz quase um sussurro.
— O quê?
— Que não importa o que aconteça... agora que você mora aqui, você nunca vai guardar segredos de mim. Amigos de verdade não têm segredos, certo?
Senti uma pontada de culpa atravessar meu peito. Eu estava guardando o maior segredo de todos.
— Certo — menti, forçando um sorriso. — Sem segredos, Júnior.
Ele sorriu de volta, satisfeito, e me girou na pista improvisada sob as estrelas. Eu sabia que estava vivendo em uma corda bamba. Morar com ele seria o paraíso e o meu próprio tormento pessoal. Mas, enquanto ele me segurasse daquele jeito, eu estava disposta a correr o risco. O segredo ficaria guardado, trancado em uma parte do meu coração que nem mesmo ele, com todo o seu acesso à minha vida, conseguiria abrir. Pelo menos, não por enquanto.
A noite terminou com ele me acompanhando até a porta do meu quarto.
— Boa noite, vizinha — brincou ele, dando um beijo na minha bochecha que durou um segundo a mais do que o necessário.
— Boa noite, Júnior — respondi, fechando a porta e encostando as costas nela, tentando recuperar o fôlego.
Eu estava em casa. Mas a verdadeira jornada, aquela que levaria meu coração a encontrar o dele de verdade, estava apenas começando. E eu teria que ser muito cuidadosa para não deixar o segredo escapar antes da hora certa.