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Amor de infância

O Gosto da Vitória e o Brilho do Olhar

A atmosfera no Kingdom Arena estava elétrica. O Al-Nassr jogava em casa, e o som dos tambores e dos cânticos da torcida saudita reverberava nas paredes de vidro dos camarotes, criando uma vibração que eu sentia na sola dos meus sapatos. Eu estava na primeira fila da área VIP, vestindo a camisa amarela com o número 7 nas costas, mas meus olhos não seguiam apenas a lenda; eles estavam fixos no jovem que carregava o mesmo legado e o mesmo talento.

O Júnior estava em um dia inspirado. Desde o apito inicial, ele parecia flutuar no gramado. Cada toque na bola era preciso, cada arrancada deixava os defensores para trás. E, em cada pausa, em cada cobrança de lateral perto de onde eu estava, ele lançava um olhar rápido para cima. Um reconhecimento silencioso de que eu estava ali, exatamente onde ele queria que eu estivesse.

O jogo foi tenso. O adversário estava fechado, mas, aos 40 minutos do segundo tempo, o Júnior recebeu um passe em profundidade, driblou o goleiro com uma frieza que me fez perder o fôlego e empurrou a bola para o fundo da rede. O estádio explodiu.

— Ele é incrível, não é? — Georgina comentou ao meu lado, aplaudindo com um sorriso orgulhoso.

— Ele nasceu para isso, Gio — respondi, sentindo meu coração transbordar.

Quando o juiz apitou o fim da partida, a vitória de 2 a 0 estava selada. O Júnior foi cercado pelos companheiros, mas, assim que se desvencilhou, ele olhou diretamente para o nosso camarote e apontou o dedo em minha direção, antes de fazer um coração com as mãos. Senti meu rosto queimar, mas não consegui parar de sorrir.

Desci para a área de acesso aos vestiários com o Lucas e a Gio. O corredor estava cheio de jornalistas e seguranças, mas, assim que o Júnior apareceu, ainda suado, com o uniforme manchado de grama e a adrenalina pulsando, o mundo ao redor pareceu desaparecer.

Ele me viu e abriu aquele sorriso que sempre foi o meu ponto fraco. Sem hesitar, corri em sua direção.

— Você foi maravilhoso! — exclamei, envolvendo-o em um abraço apertado.

O Júnior me segurou com força, tirando meus pés do chão por um segundo. O cheiro de esforço físico e o calor do corpo dele eram intensos, mas eu não me importava. Eu só queria estar ali, naquele refúgio que tínhamos construído desde a infância.

— Eu disse que ia marcar um para você hoje, Dengosa — ele sussurrou perto do meu ouvido, a voz ainda um pouco ofegante pelo cansaço.

Quando ele me colocou no chão, não se afastou. Suas mãos desceram das minhas costas para a minha cintura, mantendo-me presa ao seu espaço pessoal. O barulho das câmeras e as conversas dos jogadores ao fundo tornaram-se um ruído branco, distante e irrelevante.

Eu olhei para cima, encontrando o fundo dos seus olhos castanhos. Havia algo diferente ali naquela noite. Não era apenas a euforia da vitória; era uma intensidade que eu vinha notando crescer a cada dia que passávamos sob o mesmo teto em Riade. O brilho era cru, honesto e carregado de uma tensão que fazia o ar entre nós parecer rarefeito.

O Júnior deslizou uma das mãos pela minha costela, subindo lentamente até tocar o meu rosto com o polegar. O toque era suave, contrastando com a força que ele demonstrava em campo. Ele inclinou a cabeça levemente, e seu olhar, antes fixo nos meus olhos, desceu para os meus lábios.

O tempo parou. Eu conseguia sentir a batida acelerada do meu próprio coração contra o peito dele. A proximidade era tanta que nossas respirações se misturavam. O segredo que eu guardava há tanto tempo parecia estar prestes a explodir, e, pela primeira vez, eu vi o reflexo desse mesmo segredo nos olhos dele.

Ele não se moveu, esperando. Ele sempre respeitava o meu espaço, mesmo quando o desejo era evidente. A hesitação dele era o convite final.

— Você quer? — perguntei em um sussurro quase inaudível, minha voz falhando pela emoção.

O Júnior não precisou de palavras. Ele fechou os olhos por um breve segundo, como se estivesse absorvendo a permissão, e balançou a cabeça positivamente em um movimento lento e decidido. Sim. Ele queria tanto quanto eu.

Ele eliminou a distância restante. O beijo começou calmo, quase experimental, como se estivéssemos finalmente descobrindo a peça que faltava no quebra-cabeça das nossas vidas. Mas logo a intensidade aumentou. Era o gosto da vitória, da saudade acumulada e de anos de uma amizade que tinha acabado de cruzar a fronteira final.

As mãos dele se apertaram na minha cintura, puxando-me para mais perto, enquanto minhas mãos subiram para a nuca dele, perdendo-se no cabelo curto e úmido. Nada mais importava: nem o fato de estarmos em um corredor público, nem a fama, nem as câmeras. Naquele momento, éramos apenas a Clara e o Júnior, finalmente admitindo o que o mundo inteiro já parecia saber.

Quando nos separamos, apenas o suficiente para respirar, ele encostou a testa na minha. Seus olhos brilhavam com uma mistura de triunfo e alívio.

— Eu deveria ter feito isso no momento em que você desceu daquele avião — ele disse, a voz rouca e carregada de afeto.

— Eu teria deixado — confessei, rindo baixo, sentindo uma felicidade que eu nunca tinha experimentado antes.

— Agora você é minha, Dengosa — ele afirmou, com aquela possessividade doce que só ele tinha. — E dessa vez, não tem contrato ou jogo que mude isso.

— Eu sempre fui sua, Júnior — respondi, puxando-o para outro beijo. — Você só demorou para perceber.

Caminhamos de volta para o estacionamento de mãos dadas, os dedos entrelaçados com uma firmeza que dizia que nenhum de nós pretendia soltar tão cedo. A noite em Riade estava apenas começando, e, embora a vitória no campo tivesse sido doce, o prêmio que levávamos para casa era infinitamente mais valioso. O segredo não existia mais; agora, havia apenas nós dois.