Voltar ao resumo

Amor de infância

O Peso do Ouro e a Doçura do Agora

O dia seguinte ao beijo no Kingdom Arena amanheceu com uma luz diferente em Riade. O sol que entrava pelas janelas da mansão parecia mais brilhante, ou talvez fosse apenas a sensação de que o peso que eu carregava no peito — aquele segredo guardado a sete chaves — finalmente tinha se transformado em algo leve, como fumaça ao vento.

Eu estava na cozinha, tentando preparar um café da manhã brasileiro para todos, quando senti braços fortes envolverem minha cintura por trás. O cheiro de sabonete cítrico e o calor familiar me fizeram sorrir antes mesmo de ele falar.

— Bom dia, vizinha — sussurrou o Júnior, depositando um beijo demorado no meu pescoço, exatamente onde o cabelo estava preso em um coque desleixado.

— Bom dia, artilheiro — respondi, virando-me nos braços dele, ainda segurando uma espátula. — Dormiu bem? Ou ficou revendo o seu gol a noite toda?

— Dormi melhor do que em anos — ele disse, com os olhos castanhos brilhando de um jeito que me fazia derreter. — E não foi por causa do gol. Foi por causa do que aconteceu depois dele.

Eu senti minhas bochechas esquentarem. Mesmo depois de anos de amizade, a nova dinâmica entre nós ainda me deixava tímida.

— Meus pais vão descer a qualquer momento, Júnior — alertei, embora não fizesse menção de me afastar.

— Deixa eles descerem — ele deu de ombros, aproximando o rosto do meu. — Todo mundo já sabia, Clara. Acho que nós fomos os últimos a aceitar o óbvio.

Ele estava prestes a me beijar novamente quando o som de passos rápidos ecoou no corredor. Nos separamos rapidamente, bem a tempo de ver as crianças — Alana, Eva e Mateo — entrarem correndo, seguidas por Georgina, que nos lançou um olhar cúmplice e divertido.

— Bom dia, casal! — exclamou Gio, indo direto para a cafeteira. — O clima nesta casa está tão doce que nem vou precisar de açúcar no meu café hoje.

— Mãe! — Júnior reclamou, ficando levemente vermelho, enquanto Mateo pulava nas costas dele.

— O que foi? Eu só disse a verdade — ela piscou para mim. — Aliás, Clara, seu pai ligou. Ele e o Cristiano estão no ginásio, mas mandaram avisar que querem conversar com vocês dois mais tarde.

Senti um frio na barriga. Por mais que nossas famílias fossem melhores amigas, a transição de "filha do melhor amigo" para "namorada do filho" era um terreno novo e possivelmente pantanoso.

— O que você acha que eles querem? — perguntei ao Júnior, enquanto ajudava a servir as panquecas para as crianças.

— O meu pai? Provavelmente vai me dar um sermão sobre foco e responsabilidade — Júnior riu, mas havia uma nota de seriedade em sua voz. — Mas não se preocupe. Ele te ama. E o seu pai... bem, o seu pai sabe que ninguém no mundo cuidaria de você melhor do que eu.

Passamos a tarde na piscina, tentando agir com naturalidade, mas era impossível. Cada vez que nossas mãos se tocavam sob a água, ou cada vez que ele me puxava para um beijo rápido quando ninguém estava olhando, a eletricidade entre nós era quase palpável.

Por volta das cinco da tarde, fomos chamados ao escritório do tio Cris. O cômodo era imponente, repleto de troféus, camisas emolduradas e uma aura de disciplina que sempre me intimidava um pouco. Cristiano Ronaldo estava sentado atrás da mesa de carvalho, enquanto meu pai estava de pé, encostado na estante de livros, com os braços cruzados.

— Sentem-se — disse o tio Cris, com aquela voz firme que ele usava nos campos.

Nós obedecemos. Júnior segurou minha mão por baixo da mesa, apertando-a com força para me transmitir calma.

— Eu vi o que aconteceu ontem no estádio — começou o Cris, fixando os olhos no filho. — E vi o que está acontecendo nas redes sociais desde então. Vocês sabem que, a partir de agora, a privacidade de vocês, que já era pouca, vai desaparecer quase por completo.

— Nós sabemos, pai — Júnior respondeu, mantendo o tom respeitoso. — Mas a Clara mora aqui agora. Ela faz parte da minha vida, e eu não vou esconder o que sinto por causa de paparazzi.

Meu pai deu um passo à frente, olhando para mim com uma mistura de proteção e carinho.

— Clara, você sabe que eu e o Cristiano crescemos juntos. Nós passamos por tudo. Eu confio no Júnior como se fosse meu próprio sangue, mas você é minha filha. O mundo em que ele vive é cruel, é cheio de pressões. Você está pronta para ser a "namorada do sucessor"?

— Pai — eu disse, encontrando a voz que parecia ter sumido —, eu cresci nesse mundo. Eu vi o que a Gio passa, eu vi o que o tio Cris enfrenta. Eu não estou aqui pela fama ou pelo estilo de vida. Eu estou aqui porque o Júnior é a minha pessoa. Sempre foi.

O tio Cris relaxou os ombros, e um sorriso raro e genuíno surgiu em seu rosto.

— É isso que eu queria ouvir — disse ele, levantando-se e vindo até nós. — Júnior, eu sempre te cobrei perfeição no campo. Mas fora dele, a única coisa que eu te peço é que você honre a confiança que o seu "tio" está depositando em você. Cuide dela.

— Com a minha vida, pai — Júnior prometeu, levantando-se para abraçar o pai e, em seguida, o meu pai.

Saímos do escritório sentindo que tínhamos recebido uma bênção real. Mas o mundo lá fora não seria tão gentil. Quando voltamos para o quarto do Júnior para conversar, ele ligou o tablet e me mostrou as notícias.

— "A nova musa de Riade", "O romance que une duas dinastias", "Quem é Clara, a brasileira que roubou o coração de Júnior?" — ele leu as manchetes, suspirando. — Eles já descobriram até o nome da escola onde você estudava no Brasil.

— É assustador — confessei, sentando-me na cama dele. — Ontem eu era apenas a Clara. Hoje, parece que sou propriedade pública.

Júnior sentou-se ao meu lado e me puxou para o seu colo, envolvendo-me em um abraço protetor.

— Eles podem escrever o que quiserem — ele disse, com o queixo apoiado no meu ombro. — Mas eles não sabem como é o seu riso de manhã. Eles não sabem que você odeia quando eu roubo suas batatas fritas. Eles só veem a superfície. O que nós temos é nosso.

— Você tem razão — eu disse, virando-me para olhar para ele. — Mas o que fazemos agora?

— Agora? — Ele sorriu de um jeito travesso. — Agora nós vamos mostrar para eles que não temos nada a esconder. Tem um evento de gala da fundação do meu pai amanhã à noite. Eu quero que você vá comigo. Não como "amiga da família", mas como minha namorada.

— Um evento oficial? Júnior, eu não tenho nem vestido para algo assim! — entrei em pânico, o que o fez rir alto.

— A Gio já cuidou disso. Ela disse que tem um estilista vindo aqui amanhã cedo. Ela já sabia que eu ia te convidar antes mesmo de eu saber.

A noite seguinte foi um turbilhão. Georgina e eu passamos horas nos preparando. Ela me deu dicas de como lidar com os flashes: "Mantenha o queixo erguido, sorria com os olhos e nunca solte a mão dele". Quando finalmente me olhei no espelho, mal me reconheci. Eu usava um vestido de seda verde-esmeralda, longo, com uma fenda discreta e um decote elegante. Meu cabelo estava em ondas perfeitas e a maquiagem realçava meus traços brasileiros.

Quando desci as escadas, o Júnior estava esperando no hall. Ele usava um smoking sob medida que o deixava absurdamente bonito. Ele parou de falar com o pai assim que me viu, e o silêncio que se seguiu foi o maior elogio que eu poderia receber.

— Você está... — ele começou, mas a voz falhou.

— Deslumbrante — o tio Cris completou por ele, sorrindo. — Vamos, o carro está esperando.

O trajeto até o local do evento foi silencioso. Eu estava nervosa, minhas mãos geladas. Júnior percebeu e entrelaçou seus dedos nos meus, fazendo carinhos lentos com o polegar.

— Respira, Dengosa — ele sussurrou. — Eu estou bem aqui.

Quando a porta do carro abriu, o clarão das luzes foi quase cegante. O som dos cliques das câmeras parecia uma metralhadora. Júnior saiu primeiro, estendeu a mão para mim e me ajudou a descer. No momento em que aparecemos juntos, o barulho aumentou.

— Júnior! Clara! Olhem para cá! — gritavam os fotógrafos.

Ele colocou a mão firmemente na minha cintura, puxando-me para perto. Caminhamos pelo tapete vermelho com uma confiança que eu não sabia que possuía. A cada entrevista, ele fazia questão de me incluir, apresentando-me com um orgulho que brilhava em seus olhos.

No meio da festa, conseguimos escapar para uma varanda que dava para o horizonte iluminado de Riade. O vento fresco da noite era um alívio depois do calor do salão.

— Você sobreviveu — ele brincou, abraçando-me por trás enquanto olhávamos as luzes da cidade.

— Foi mais fácil do que eu pensei — admiti, encostando a cabeça no peito dele. — Talvez porque eu não estava sozinha.

— Você nunca mais vai estar sozinha, Clara — ele disse, virando-me para frente. — Eu sei que as coisas vão ficar intensas. Eu vou viajar para jogos, você vai ter seus desfiles, a imprensa vai inventar mentiras... mas nada disso importa se a gente tiver isso aqui.

Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Meu coração parou.

— Júnior... o que é isso?

— Não é um pedido de casamento, calma! — ele riu, mas seus olhos estavam sérios. — É uma promessa.

Ele abriu a caixa, revelando um anel delicado de ouro branco com uma pequena pedra de brilhante e uma safira azul no centro.

— O azul é para lembrar do oceano que a gente atravessou para ficar junto — ele explicou, pegando minha mão direita. — E o brilhante é para lembrar que, não importa o quão escuro o mundo lá fora pareça, você sempre vai ser a minha luz. Você aceita ser minha, oficialmente, diante de todo mundo?

As lágrimas começaram a cair, estragando parte da maquiagem cara, mas eu não me importava.

— É claro que eu aceito, seu bobo — eu disse, entre soluços de felicidade.

Ele deslizou o anel no meu dedo e me beijou sob o céu da Arábia Saudita. Naquele momento, eu soube que não importava o peso do nome que ele carregava ou a pressão da fama. Nós éramos apenas dois jovens que se amavam, protegidos pelo amor de nossas famílias e pela força de uma amizade que tinha se tornado o alicerce de algo eterno.

Voltamos para a festa pouco depois, mas agora havia algo diferente. Eu não me sentia mais como uma intrusa no mundo dele. Eu era parte dele. E enquanto caminhávamos de volta para o salão, sob os olhares de curiosos e poderosos, eu sabia que aquele era apenas o primeiro capítulo de uma história que seria escrita com o ouro da vitória e a doçura do nosso agora.

Ao final da noite, quando já estávamos de volta à mansão, exaustos mas felizes, sentamos nos degraus da entrada principal antes de entrar.

— Sabe o que meu pai me disse antes de sairmos? — Júnior perguntou, observando o anel no meu dedo.

— O quê?

— Ele disse que o maior troféu que ele já ganhou não foi uma Bola de Ouro, mas a família que ele construiu. E ele me disse que eu tive sorte de encontrar o meu troféu mais cedo do que ele.

Eu o puxei para um último beijo antes de entrarmos.

— Pois diga a ele que eu concordo — eu sussurrei. — Mas avise que esse "troféu" aqui tem gênio forte e não vai deixar ele ganhar no videogame tão cedo.

O Júnior riu, um som que ecoou pelo jardim silencioso, e me pegou no colo para entrar em casa. A vida tinha mudado para sempre, e pela primeira vez, eu não tinha medo do futuro. Porque o futuro tinha o nome dele, e o presente era o lugar mais bonito onde eu já estive.