Amor de infância
Passinhos, Flash e um Toque de Ciúme
O reflexo no espelho do meu novo closet na mansão de Riade ainda me causava um certo choque. Eu não era mais apenas a Clara, a garota que passava as férias no Brasil com os avós. Agora, eu era o rosto da nova campanha internacional da Dior. O contrato, assinado há apenas duas semanas, tinha transformado minha rotina em um furacão de sessões de fotos, provas de roupas e reuniões de agenciamento. Mas, apesar do glamour das passarelas e dos vestidos de alta costura, minha alma continuava sendo aquela menina que amava o ritmo das ruas brasileiras.
Eu estava terminando de me arrumar. Usava um conjunto de moletom leve, perfeito para o que eu pretendia fazer: gravar conteúdo para o meu TikTok. Minha conta tinha explodido em seguidores desde que o Júnior e eu oficializamos as coisas, e eu adorava usar aquele espaço para mostrar que, embora vivesse em um palácio saudita, minhas raízes eram bem diferentes.
— Ok, o ângulo está bom — sussurrei para mim mesma, ajustando o tripé do celular.
A música escolhida era um funk brasileiro que estava no topo das paradas, com uma batida viciante. Eu comecei a coreografia, seguindo os passos rápidos e sincronizados. Eu tinha o ritmo no sangue, herança direta daquelas tardes de domingo na casa dos meus avós, ouvindo música alta e dançando com meus primos. A dança exigia coordenação, e a parte final era o ápice da trend: eu precisava fazer um giro rápido e uma descida coreografada, o famoso "rebolado" que todo mundo estava fazendo.
Eu girei, os cabelos voando, e no momento exato em que a batida caiu e eu me inclinei para completar o movimento, senti uma presença súbita atrás de mim. Antes que eu pudesse finalizar a descida, uma mão grande e firme cobriu completamente a visão da câmera, pousando estrategicamente para tampar o meu corpo.
— Nada disso, dona Clara — a voz rouca do Júnior soou bem perto do meu ouvido, carregada de um tom brincalhão, mas possessivo.
Eu parei a dança no susto e olhei para trás, encontrando-o com um sorriso de canto, ainda segurando a mão na frente da lente do celular.
— Júnior! Você estragou o meu take! — exclamei, embora não conseguisse ficar brava de verdade. — Estava ficando perfeito, eu não errei nenhum passo!
— Estava ficando "perfeito" demais para os meus dez milhões de seguidores e os seus vinte milhões — ele rebateu, pegando o celular do tripé e encerrando a gravação antes que eu pudesse salvar. — Esse movimento aí... vamos deixar guardado só para as nossas festas particulares, ok?
— Você é muito conservador para quem vive no mundo do futebol, sabia? — brinquei, pegando o celular da mão dele. — É só uma dança, Júnior. É cultura brasileira!
— Eu conheço a cultura, Dengosa — ele disse, puxando-me pela cintura para um abraço rápido. — Mas eu conheço os comentários da internet também. Não sou bobo.
— Já que você é tão "entendido" de cultura, por que não me ajuda na próxima? — propus, com um brilho travesso nos olhos. — Vamos fazer o passinho do Jamal. É fácil, até você consegue aprender.
O Júnior arqueou as sobrancelhas, aquele desafio clássico que ele nunca recusava.
— Fácil? Clara, eu sou um atleta de elite. Minha coordenação motora é meu instrumento de trabalho. Manda o ritmo.
Eu coloquei a música novamente, uma batida de "trap-funk" mais cadenciada. Comecei a mostrar o movimento dos pés, o balanço dos ombros e a sincronia que o passinho do Jamal exigia.
— Olha só: um, dois, chuta pro lado, balança o ombro e trava — expliquei, fazendo o movimento com perfeição. — Tenta agora.
O Júnior tentou. Ele começou bem, mas na hora de coordenar o chute lateral com o balanço dos ombros, ele parecia um boneco de posto de gasolina tentando lutar boxe. Seus pés se atrapalharam e ele quase tropeçou no próprio tapete persa do quarto.
Eu caí na gargalhada, sentando no chão de tanto rir.
— Júnior... — eu disse entre respirações ofegantes —, você é um gênio com a bola nos pés, mas sem ela... você é um desastre coreográfico!
— É o piso! — ele se defendeu, tentando recuperar a dignidade enquanto ajeitava a camisa. — Esse tapete é muito fofo, tira a estabilidade. No gramado eu faria melhor.
— Claro, claro. O problema é sempre o campo — brinquei, levantando-me e dando um selinho nele. — Deixa pra lá. Amanhã a gente tem a festa na piscina do seu amigo, melhor você guardar suas energias para nadar.
No dia seguinte, o sol de Riade estava implacável, o tipo de calor que pedia água e sombra. Fomos para a mansão de um dos colegas de time do Júnior, um lugar que parecia ter saído de um filme de Hollywood. A área da piscina era imensa, cercada por palmeiras, bangalôs luxuosos e uma música lounge que criava um clima sofisticado.
Eu tinha escolhido um biquíni de uma marca brasileira, mas por cima usava uma saída de praia de seda da Dior, transparente o suficiente para ser elegante e misteriosa. Assim que entramos na área da festa, senti o impacto imediato.
O ambiente estava cheio de jovens jogadores, modelos e influenciadores da região. Eu já estava acostumada com os olhares por causa da minha carreira, mas ali, sendo a namorada do Júnior, o escrutínio era dobrado.
— Fica perto de mim — sussurrou o Júnior, a mão pousada firmemente na base das minhas costas.
— Relaxa, Júnior. São seus amigos — eu disse, tentando tranquilizá-lo.
— Os amigos eu conheço. Os convidados dos amigos é que são o problema — ele resmungou, os olhos varrendo o local como se estivesse em uma marcação cerrada em campo.
Fomos cumprimentar o anfitrião e logo um grupo de rapazes se aproximou. Eram jogadores da liga jovem, todos muito bem vestidos e com aquele ar de autoconfiança excessiva.
— Júnior! Que bom que veio, cara — disse um deles, um rapaz alto chamado Omar, que eu já tinha visto em alguns eventos. Mas os olhos dele não ficaram no Júnior por muito tempo. Eles desceram para mim com uma intensidade que me deixou desconfortável. — E você deve ser a famosa Clara. As fotos da Dior são incríveis, mas pessoalmente... você é uma obra de arte.
Senti o braço do Júnior ficar rígido ao meu redor.
— Obrigado, Omar — respondeu o Júnior, a voz tão fria que poderia congelar a água da piscina. — Ela é ainda melhor do que qualquer foto. E é minha namorada, caso você tenha esquecido desse detalhe.
O clima ficou pesado por um segundo. Omar deu um sorriso amarelo e levantou as mãos em sinal de rendição.
— Calma, capitão. Só um elogio sincero.
Nós nos afastamos para pegar uma bebida, e eu olhei para o Júnior, que ainda tinha o maxilar cerrado.
— Você está sendo um pouco territorial demais, não acha? — perguntei, entregando a ele um copo de suco de frutas.
— Territorial? Clara, aquele cara estava te despindo com os olhos! — ele exclamou, baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse. — Eu conheço esse tipo. Eles acham que podem chegar e falar o que querem só porque são jogadores.
— Eu sei me cuidar, Júnior. E eu estou com você. Não importa quem olhe.
Tentei aproveitar a festa. Algumas meninas vieram falar comigo sobre moda, e passamos um tempo conversando perto das espreguiçadeiras. Mas eu percebia que, onde quer que eu fosse, o olhar do Júnior me seguia. Ele não estava aproveitando a festa; ele estava em missão de vigilância.
Em um certo momento, decidi tirar a saída de praia para entrar na água. Quando fiquei apenas de biquíni, o silêncio pareceu cair sobre uma parte da festa. Dois rapazes que estavam sentados no bar pararam a conversa e ficaram me observando descaradamente.
— Ei, Júnior! — um deles gritou, rindo. — Você realmente tirou a sorte grande, hein? Se cansar da brasileira, avisa a gente!
Dessa vez, não houve aviso. O Júnior largou o copo na mesa com força e caminhou na direção deles. O rosto dele estava transformado pela raiva. Eu corri atrás dele, temendo que ele fizesse algo que pudesse prejudicar sua carreira ou criar um escândalo.
— O que você disse? — Júnior parou na frente do rapaz, que era um pouco mais baixo que ele. — Repete. Quero ouvir de novo para ter certeza de que entendi direito.
— Foi só uma piada, cara... — o rapaz começou a gaguejar, perdendo a bravura instantaneamente diante da fúria do Júnior.
— Piada é o que você vai se tornar se abrir a boca para falar da minha mulher de novo — disse o Júnior, a voz baixa e perigosa. — Tenha respeito. Você não está falando com um dos seus coleguinhas de balada.
— Júnior, chega! — eu disse, segurando o braço dele e puxando-o para trás. — Vamos embora. Por favor.
Ele olhou para mim, e por um momento vi o conflito em seus olhos. A raiva ainda estava lá, mas o cuidado comigo falou mais alto.
— Vamos — ele disse, pegando minha saída de praia no chão e me cobrindo imediatamente, como se quisesse me esconder do mundo.
Saímos da festa sob o olhar de todos. No carro, o silêncio era tenso. O Júnior dirigia com as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Você não precisava ter feito aquilo — eu disse suavemente, quebrando o gelo. — Eles são idiotas, Júnior. Idiotas não merecem a sua atenção.
— Eu não suporto isso, Clara — ele explodiu, finalmente soltando o que estava sentindo. — Eu não suporto o jeito que eles te olham. Como se você fosse um troféu, uma coisa. Você é a Clara. Você é a garota que eu amo desde que a gente era criança. Ver esses caras te tratando assim me tira do sério.
Eu me inclinei e coloquei a mão sobre a dele no câmbio do carro.
— Eu sei. E eu amo que você me proteja. Mas você tem que confiar em mim. E tem que confiar que o que a gente tem é mais forte do que qualquer comentário babaca de um jogador de segunda divisão.
Ele suspirou, relaxando um pouco os ombros. Ele parou o carro no acostamento de uma estrada menos movimentada, de onde dava para ver as luzes da cidade.
— Desculpa — ele pediu, olhando para mim. — Eu só... eu fico com medo de te perder para esse mundo louco. Você está ficando tão famosa, tão grande... às vezes eu sinto que sou eu quem tem que correr para te alcançar.
— Você nunca vai me perder, seu bobo — eu disse, aproximando-me dele. — Nem para a Dior, nem para o TikTok, e muito menos para caras como o Omar.
— Promete? — ele perguntou, com uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava.
— Prometo. Mas com uma condição.
— Qual?
— Você vai ter que praticar o passinho do Jamal até acertar. Eu não posso namorar um cara que não tem ginga brasileira — brinquei, fazendo-o rir.
— Tudo bem, você venceu — ele disse, puxando-me para um beijo que apagou todo o estresse da festa. — Mas a parte de tampar a câmera no TikTok continua valendo.
— Veremos, Júnior. Veremos.
Voltamos para casa em paz. A fama e o ciúme eram apenas obstáculos no caminho, mas enquanto estivéssemos juntos, dançando ou discutindo por causa de trends, eu sabia que estávamos exatamente onde deveríamos estar. E, no fundo, eu até que gostava daquele lado protetor dele. Mostrava que, por trás do atleta famoso, ainda existia o menino que faria qualquer coisa para manter seu mundo — que agora era eu — seguro e protegido.