Amor e ódio em moscou
O Urso Ferido e a Boneca de Ferro
O inverno em Moscou não perdoava ninguém, nem mesmo um gigante de um metro e noventa acostumado a patrulhar as ruas sob temperaturas negativas. Três dias haviam se passado desde a noite em que Isabel usara suas "táticas brasileiras" para desarmar o marido, e o clima de romance fora abruptamente substituído pelo som de tosses secas que pareciam rasgar o peito de Danye Petrov.
Danye estava péssimo. O que começou com um simples resfriado evoluiu rapidamente para uma febre que fazia seus músculos tremerem involuntariamente. Ele tentou ser o "russo forte", indo trabalhar mesmo sentindo calafrios, mas o corpo cobrou o preço. Naquela manhã, Isabel o encontrou debruçado sobre o vaso sanitário, pálido como a neve lá fora, lutando contra ondas de náusea e uma dor no peito que o impedia de respirar fundo.
— *Chort...* — ele resmungou, a voz saindo como um sussurro arranhado enquanto Isabel limpava sua testa com uma toalha úmida.
— Chega, Danye. Você vai para o hospital agora — Isabel decretou, a voz firme apesar da preocupação que apertava seu coração.
— Não... é só o frio, *malyshka*... eu só preciso de vodca e sono — ele tentou argumentar, mas uma crise de tosse o dobrou ao meio, fazendo-o gemer de dor.
Isabel não deu ouvidos. Com a determinação que só uma brasileira de 1,64m tem diante de um marido teimoso, ela o ajudou a se vestir e praticamente o arrastou para o carro. No hospital, a cena foi quase cômica, se não fosse trágica: Danye, um homem que parecia um carvalho, sentado em uma cadeira de espera pequena demais para ele, com o rosto enterrado nas mãos, enquanto Isabel resolvia toda a burocracia em russo fluente.
O diagnóstico foi uma pneumonia em estágio inicial, agravada pelo esgotamento físico. O médico, um senhor russo tão sério quanto Danye, não teve piedade.
— Ele precisa de uma dose forte de antibiótico imediata — disse o médico, preparando uma seringa que parecia ter o tamanho de um dardo. — E repouso absoluto.
Quando Danye viu a agulha, seus olhos azuis se arregalaram. O herói da patrulha noturna, o homem que não temia facas ou punhos, tinha um pavor infantil de agulhas.
— *Nyet...* Isabel, diga a ele que eu tomo comprimidos — ele implorou em inglês, olhando para a esposa com uma vulnerabilidade que a fez querer rir e chorar ao mesmo tempo.
— É para o seu bem, Danye. Vira logo — ela ordenou, segurando a mão dele.
A aplicação foi traumática. Danye soltou um palavrão em russo que ecoou pelo corredor do hospital, e o local da injeção, bem no músculo da nádega esquerda, começou a latejar instantaneamente. O líquido era espesso e doloroso, o tipo de medicação que "queima" enquanto entra.
Agora, de volta ao apartamento, o clima era de pura rabugice. Danye estava deitado de bruços na cama de casal, com o rosto enterrado no travesseiro, emitindo resmungos constantes.
— Danye, meu amor, você precisa comer um pouco da canja que eu fiz — Isabel disse, entrando no quarto com uma bandeja fumegante.
— Não quero. Tudo dói — a voz dele saiu abafada pelo travesseiro. — Minha cabeça vai explodir e minha bunda parece que foi atingida por um tiro de fuzil.
Isabel suspirou, sentando-se na beirada da cama. Ela tentou tocar o ombro dele, mas ele se esquivou bruscamente.
— Não encosta, Isabel! — ele rosnou, embora o rosnado tenha terminado em uma tosse fraca. — Minha pele está queimando. Tudo dói.
— Eu só quero ver se a febre baixou, seu urso ranzinza — ela retrucou, mantendo a paciência. — Você está sendo um bebezão pior do que o normal.
Danye virou o rosto levemente, olhando para ela com os olhos vermelhos e lacrimejantes. O buzz cut loiro estava bagunçado e ele parecia ter envelhecido cinco anos em poucas horas.
— Você não entende — ele murmurou, voltando para o inglês para que ela sentisse o peso de suas palavras. — Aquele médico... ele me marcou para sempre. Eu sinto o veneno correndo na minha perna.
Isabel não aguentou e soltou uma risadinha, o que foi um erro fatal.
— Você está rindo? — Danye se esforçou para se apoiar nos cotovelos, mas a dor no peito o fez desistir e cair de volta. — Eu estou morrendo e minha esposa brasileira está rindo da minha desgraça. *Zhestokaya* (Cruel).
— Eu não estou rindo da sua doença, Danye. Estou rindo do seu drama — ela disse, aproximando a colher de canja da boca dele. — Abre a boca. Agora.
— Não tenho fome — ele fechou os lábios com força, parecendo uma criança de cinco anos.
— Danye Petrov, se você não comer essa sopa, eu vou buscar aquela algema e o vibrador de novo e você não vai ter forças nem para reclamar — ela ameaçou, com um brilho travesso nos olhos.
Danye arregalou os olhos e, relutantemente, abriu a boca. Ele engoliu a sopa com uma careta, mas não protestou contra a segunda colherada. Isabel continuou o alimentando em silêncio por alguns minutos, sentindo o coração se acalmar ao ver que, apesar da chatice, ele estava reagindo.
— Está melhor? — ela perguntou, limpando o canto da boca dele com um guardanapo.
— Meu peito dói quando eu respiro — ele admitiu, a voz perdendo o tom de reclamação e assumindo um tom de cansaço real. — E o lugar da injeção... está latejando. Acho que está inchado.
— Deixe-me ver — Isabel começou a puxar o lençol, mas Danye agarrou o tecido com uma força surpreendente para alguém doente.
— *Nyet!* Sem toques lá. É território proibido.
— Danye, eu sou sua esposa. Eu já vi e fiz de tudo nesse corpo. Deixe-me ver se está inflamado.
— Não — ele enterrou o rosto no travesseiro novamente. — Você vai querer rir de novo. Ou vai querer passar algum creme gelado que vai me fazer pular da cama. Eu só quero sofrer em paz.
Isabel revirou os olhos e se levantou, indo até o banheiro. Ela voltou com uma bolsa de água morna envolta em uma toalha macia. Sem pedir permissão, ela se sentou ao lado dele e, com movimentos rápidos, afastou o lençol e a borda da cueca samba-canção que ele usava.
— Isabel! — ele protestou, tentando se mover, mas um gemido de dor o impediu.
— Fica quieto, Danye — ela disse, a voz agora carregada de uma doçura firme. — Eu vou colocar algo morno para ajudar a dissolver o remédio. Vai parar de latejar.
Assim que o calor da bolsa tocou a pele tensa e avermelhada, Danye soltou um suspiro longo. Seus ombros, que estavam rígidos como pedras, relaxaram visivelmente.
— *Gospodi...* — ele sussurrou em russo. — Isso... isso é bom.
— Viu? Eu sei o que estou fazendo — ela começou a massagear levemente ao redor do local, evitando o ponto exato da picada. — Você é muito teimoso, sabia? Podia ter me deixado cuidar de você desde o primeiro sinal de febre.
Danye ficou em silêncio por um longo tempo, apenas aproveitando o cuidado dela. O quarto estava silencioso, exceto pelo som do aquecedor e da neve batendo na janela. Aos poucos, a irritação dele foi dando lugar àquela carência que ele só demonstrava quando estavam sozinhos.
— Isabel? — ele chamou, a voz quase sumindo.
— Oi, meu urso.
— Desculpe por ser... chato — ele disse em português, com o sotaque carregado que ela achava a coisa mais fofa do mundo.
— Você não é chato, Danye. Você só é um péssimo paciente — ela sorriu, inclinando-se para beijar a nuca dele, onde os cabelos loiros eram bem curtinhos. — Mas eu caso com você todos os dias, mesmo com febre e reclamações.
Danye esticou a mão para trás, procurando a dela. Quando a encontrou, entrelaçou seus dedos grandes e calejados nos dedos pequenos e delicados de Isabel.
— Eu sinto falta de quando a gente estava... você sabe — ele murmurou, a mente divagando pela febre. — Antes da pneumonia. Antes da injeção.
— Você sente falta de ser meu prisioneiro? — ela brincou, apertando a mão dele.
— Sinto falta de ter força para te segurar — ele admitiu, e Isabel sentiu um nó na garganta. Danye odiava se sentir fraco. Para ele, ser o protetor era sua identidade. Estar ali, deitado e dependente, era um golpe no seu orgulho.
— Você vai melhorar logo — ela garantiu, subindo na cama e deitando-se ao lado dele, com cuidado para não encostar nas partes doloridas. — E quando melhorar, eu prometo que deixo você me segurar o quanto quiser. Mas por enquanto, eu sou o seu escudo.
Danye virou a cabeça de lado para olhar para ela. O rosto de boneca de Isabel estava iluminado pela luz suave do abajur, e ele sentiu uma onda de gratidão que as palavras em inglês ou russo não conseguiam expressar.
— Você é muito pequena para ser um escudo — ele brincou, uma centelha do antigo Danye brilhando nos olhos azuis.
— Sou pequena, mas sou brasileira, Petrov. A gente não foge de uma luta, nem que o inimigo seja uma pneumonia russa e um marido rabugento de quase dois metros.
Danye soltou uma risada curta, que logo se transformou em uma tosse, mas ele não parecia mais tão infeliz. Ele fechou os olhos, sentindo o calor da bolsa de água morna e o conforto da presença de Isabel.
— Cante para mim? — ele pediu, quase em um sussurro. — Aquela música que você canta quando está feliz na cozinha.
Isabel sorriu e começou a cantar baixinho uma bossa nova, a melodia suave e quente contrastando com o inverno rigoroso de Moscou. Ela passou a mão pelos cabelos dele, fazendo um carinho rítmico que logo começou a surtir efeito.
A respiração de Danye foi ficando mais lenta e profunda. O "gigante" da patrulha noturna, o homem de 24 anos que intimidava qualquer um com um olhar, estava finalmente se entregando ao sono, protegido pelos cuidados da sua pequena esposa de 19 anos.
Isabel ficou ali, observando-o dormir. Ela sabia que os próximos dias ainda seriam difíceis, que a febre poderia voltar durante a noite e que ele provavelmente reclamaria de novo quando tivesse que tomar a próxima dose do remédio. Mas ela não se importava.
Ela ajeitou a toalha sobre o local da injeção, apagou o abajur e se aninhou o mais perto possível dele, sem machucá-lo.
— Durma bem, meu urso — ela sussurrou na escuridão.
Danye, mesmo dormindo, apertou a mão dela um pouco mais forte, como se estivesse confirmando que, mesmo na doença e na vulnerabilidade, ele nunca a deixaria ir. O silêncio da noite russa envolveu o quarto, mas ali dentro, o calor era absoluto. Isabel sabia que o seu "bebezão" estaria de pé em breve, pronto para patrulhar as ruas novamente, mas por aquela noite, ele era apenas dela para cuidar, amar e, ocasionalmente, provocar por causa de uma injeção na bunda.