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amor entre escolhas

Entre o Prontuário e o Sentimento

O tteokbokki estava apimentado demais, exatamente como Hillary precisava para se sentir viva e ancorada na realidade após o brilho artificial do baile de gala. Eles estavam sentados em um pequeno estabelecimento de beira de estrada, longe do centro de Gangnam, onde as luzes eram de neon barato e o cheiro de fritura substituía o perfume de grife. Chan havia tirado o paletó do smoking, dobrado as mangas da camisa branca e parecia mais relaxado do que Hillary jamais o vira em três anos de consultas formais.

— Você está me dizendo que a grande Doutora Hillary, a mulher que decide o futuro da medicina coreana, tem uma queda por comida de rua que desafia todas as normas de higiene que ela prega no hospital? — Chan perguntou, limpando o canto da boca com um guardanapo de papel barato, um sorriso travesso dançando em seus lábios.

Hillary tomou um gole de água gelada, sentindo a ardência na língua diminuir. Ela havia deixado o cabelo cair sobre os ombros e seus olhos brilhavam sob a luz amarelada da barraca.

— A medicina é sobre equilíbrio, Christopher — respondeu ela, tentando manter o tom sério, embora seus olhos a traíssem. — Se eu vivesse apenas de saladas orgânicas e protocolos, meu sistema imunológico não teria desafios. Considere isso um treinamento de campo para os meus anticorpos.

— Você tem uma explicação lógica para absolutamente tudo, não tem? — Chan inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa de plástico. — Até para o que aconteceu no terraço?

O coração de Hillary deu um solavanco. Ela sabia que ele voltaria a esse assunto. A racionalidade era seu escudo, mas Chan estava se tornando mestre em encontrar as frestas na sua armadura.

— O beijo? — Ela perguntou, tentando soar clínica. — Pode ser classificado como uma resposta fisiológica à redução do estresse após um evento social de alta pressão. Uma busca por dopamina.

Chan soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Hillary de uma forma que nenhuma explicação médica poderia justificar.

— Dopamina? Hillary, eu sou um compositor. Eu lido com emoções, não apenas com neurotransmissores. Aquilo não foi apenas uma "busca por dopamina". Foi real. Tão real quanto a forma como você segura o copo com força quando está nervosa.

Hillary soltou o copo imediatamente, percebendo que ele estava certo. Ela suspirou, deixando os ombros caírem.

— É complicado, Chan. Você sabe disso. Eu sou a CEO de um hospital que tem um contrato de exclusividade com a sua agência. Eu sou a pessoa que assina os seus laudos de aptidão para turnês. Se alguém descobrir que estamos... seja lá o que estejamos fazendo, minha integridade profissional será questionada. E a sua imagem de "líder focado" pode sofrer danos.

— Eu não me importo com a imagem — Chan disse, sua voz tornando-se mais suave e firme. — E quanto à integridade, você é a médica mais ética que eu já conheci. Se você me der um laudo de aptidão, é porque eu estou apto, não porque você gosta do meu beijo. As pessoas sempre vão falar, Hillary. Mas o que nós sentimos... isso pertence só a nós.

Hillary olhou para as mãos de Chan. Elas eram mãos de um trabalhador — calejadas pelo violão, cansadas de horas no estúdio, mas incrivelmente gentis. Ela estendeu a mão e, pela primeira vez, iniciou o contato, cobrindo a mão dele com a sua.

— Eu não sei como fazer isso, Chan. Eu não tenho um protocolo para "namorar um ídolo global enquanto dirijo um império hospitalar".

— Que tal se começarmos sem protocolos? — sugeriu ele, virando a mão para entrelaçar os dedos nos dela. — Apenas você e eu. Sem câmeras, sem conselhos administrativos. Apenas Hillary e Chris.

O momento foi interrompido pelo celular de Hillary, que vibrou freneticamente sobre a mesa. Ela olhou para a tela e sua expressão mudou instantaneamente. O modo "CEO de Ferro" foi reativado em milissegundos.

— É do hospital. Uma emergência na ala de trauma. Um engavetamento na via expressa — disse ela, já se levantando e pegando sua bolsa. — Eu preciso ir, Chan. Eles precisam de uma decisão sobre a triagem dos casos críticos.

Chan levantou-se junto com ela, sem reclamar. Ele entendia. Ele também vivia sob a tirania do dever.

— Eu te levo. Meu motorista está esperando na esquina.

— Não precisa, eu pego um táxi, você não pode ser visto chegando ao hospital comigo a esta hora — ela começou a protestar, mas Chan a segurou gentilmente pelo braço.

— Hillary, são duas da manhã. Eu não vou deixar você ir sozinha. Vamos usar o carro, eu te deixo na porta das ambulâncias e ninguém vai notar. Por favor.

Ela assentiu, grata pela firmeza dele. Durante o trajeto de dez minutos, o silêncio no carro era tenso, mas não desconfortável. Hillary já estava mentalmente revisando a capacidade de leitos e a escala dos cirurgiões de plantão. Chan apenas observava o perfil dela, admirando a transição impressionante da mulher vulnerável na barraca de comida para a líder que estava prestes a salvar vidas.

Quando o carro parou na entrada de emergência, Hillary se virou para ele.

— Obrigada, Chris. Pela noite. Por tudo.

— Vá lá e faça o que você faz de melhor, Doutora — disse ele, dando um beijo rápido e encorajador na testa dela. — Eu te mando uma mensagem amanhã. Ou depois. Quando você conseguir respirar.

Hillary saiu do carro e correu para dentro do hospital. O caos controlado do pronto-socorro a recebeu. O cheiro de antisséptico, o som das macas rodando e os gritos de ordens médicas eram o seu habitat natural. Ela vestiu o jaleco branco sobre o vestido de seda, prendeu o cabelo em um nó firme e assumiu o comando.

Foram seis horas de cirurgias consecutivas e decisões de vida ou morte. Quando o sol começou a nascer no horizonte de Seul, Hillary finalmente saiu do centro cirúrgico, as mãos ainda trêmulas pelo cansaço e pela adrenalina. Ela caminhou até seu escritório, desejando apenas cinco minutos de silêncio.

Ao abrir a porta, ela não encontrou o silêncio, mas sim Aurora, que estava dormindo no sofá do escritório com uma manta jogada sobre as pernas.

— Hillary? — Aurora acordou, piscando os olhos castanhos. — Eu ouvi sobre o acidente na via expressa. Imaginei que você estaria aqui. Como foi?

— Estabilizamos todos os casos críticos — disse Hillary, desabando em sua cadeira de couro. — Mas foi uma noite longa.

Aurora sentou-se, observando a amiga com um olhar analítico.

— E antes da noite longa? Como foi o baile? E, mais importante, como foi o "pós-baile" com o senhor Bang?

Hillary soltou um riso cansado, fechando os olhos.

— Nós comemos tteokbokki. E nós nos beijamos. De novo. Mas desta vez foi... lúcido.

Aurora deu um pulinho no sofá, a animação filtrando através do cansaço.

— Eu sabia! Eu sabia que aquela química não era apenas o efeito da escopolamina! Hillary, isso é maravilhoso. E assustador. Mas principalmente maravilhoso.

— É assustador, Aurora — Hillary admitiu, abrindo os olhos. — Ele quer tentar algo real. Mas olhe para mim. Eu acabei de passar seis horas coberta de sangue de estranhos e agora tenho que ler relatórios de auditoria. Onde ele se encaixa nisso? Onde eu me encaixo na vida dele, entre turnês e ensaios de dezoito horas?

— Vocês se encaixam nas frestas, Hillary. É assim que as pessoas ocupadas amam.

Antes que Hillary pudesse responder, houve uma batida na porta. Não era uma enfermeira ou um residente. Era Felix. Ele parecia exausto, mas trazia uma sacola de papel de uma cafeteria famosa e um buquê de flores brancas.

— Doutora Hillary? — Felix entrou, parecendo um pouco deslocado no ambiente hospitalar. — O Chan-hyung me pediu para entregar isso. Ele disse que você provavelmente esqueceu de tomar café da manhã e que estas flores combinam com a sua "aura de autoridade inabalável".

Aurora soltou um suspiro exagerado, olhando para Hillary com uma expressão de "eu te avisei".

Hillary pegou as flores, sentindo o perfume suave de lírios. Dentro da sacola, além de um café latte e um muffin, havia um pequeno bilhete escrito à mão em um papel pautado.

"O turno acabou? Espero que todos os seus pacientes estejam bem. Descanse um pouco, Hillary. O mundo pode esperar por você, mas eu não gosto de esperar muito para ver seu sorriso de novo. Coma o muffin. É prescrição médica (do seu paciente favorito). — Chris."

Hillary sentiu uma onda de calor que não tinha nada a ver com o café. Felix sorriu para ela e fez uma pequena reverência.

— Ele não dormiu, Doutora. Ficou acompanhando as notícias sobre o acidente no hospital o tempo todo, esperando saber se você estava bem. Tive que arrastá-lo para o ensaio agora de manhã.

— Diga a ele que eu recebi a "prescrição" — disse Hillary, sua voz suavizando. — E obrigado, Felix. Vá descansar também.

Assim que Felix saiu, Aurora levantou-se e caminhou até a porta.

— Bom, eu vou para a minha sala. Tenho que lidar com os fornecedores de próteses. Mas Hillary... um homem que fica acordado monitorando as notícias só para saber se você está segura, enquanto você salva outras pessoas... isso não é um protocolo. É o que as pessoas chamam de amor. Pense nisso.

Hillary ficou sozinha em seu escritório. Ela tomou um gole do café, que ainda estava quente, e olhou para as flores brancas sobre sua mesa de carvalho. Sua vida sempre foi sobre o que era necessário, o que era lógico, o que era seguro. Mas, ao olhar para aquele bilhete, ela percebeu que Bang Chan era a única coisa em sua vida que ela não podia diagnosticar ou prever.

Ela pegou o celular e digitou uma mensagem.

— "Muffin ingerido. Paciente seguindo as ordens da médica. Mas Chris... na próxima vez, tente dormir. Eu não quero ter que tratar o meu 'paciente favorito' por exaustão crônica."

A resposta foi quase instantânea.

— "Só se você prometer que vai ser a minha enfermeira particular. O que você acha de um jantar de verdade amanhã? Sem emergências, eu espero."

Hillary sorriu. Pela primeira vez, ela não verificou sua agenda antes de responder. Ela apenas seguiu o que seu próprio coração, aquele órgão que ela conhecia tão bem anatomicamente, mas tão pouco emocionalmente, estava ditando.

— "É um encontro, Christopher."

Ela guardou o celular e olhou para o hospital lá fora. O dia estava apenas começando, e havia centenas de problemas para resolver. Mas, pela primeira vez, Hillary sentiu que não precisava ter todas as respostas. Algumas coisas, como o amor e o ritmo errático de um coração apaixonado, não precisavam de cura. Precisavam apenas ser vividas.

A CEO de Ferro finalmente havia encontrado alguém que sabia como derretê-la, e ela não tinha a menor intenção de buscar um antídoto para isso.