Amor sombrio
O Batismo de Veludo e Veneno
A rotina na Mansão Addams era uma sinfonia de ranger de portas, explosões controladas no laboratório de Pugsley e o som reconfortante de Gomez afiando seus sabres. No entanto, para Tyler, aquela semana havia se tornado uma missão de infiltração emocional. Ele aprendera que Wandinha não aceitava demonstrações de afeto convencionais; para ela, um buquê de rosas vermelhas seria uma declaração de guerra, mas um buquê de beladonas colhidas à meia-noite era um poema.
Durante sete dias, Tyler a desafiara. Ele deixara aranhas raras de Madagascar em seu travesseiro, organizara um banquete de carnes cruas e exóticas sob a luz de um eclipse lunar e até mesmo gravara o som de corvos em agonia para que ela usasse como ruído branco enquanto escrevia. Cada "surpresa" era recebida com um olhar gélido de Wandinha, mas Tyler notava o tremor quase imperceptível em seus lábios — o sinal máximo de que ela estava, à sua maneira, encantada.
No sétimo dia, porém, ele decidiu elevar o patamar. Ele queria algo que fundisse a estética Addams com a intensidade sensorial que só o Hyde e ela compartilhavam.
Wandinha entrou em seus aposentos após uma sessão particularmente exaustiva de tortura medieval com seu tio Fester. Ela esperava encontrar o silêncio sepulcral de seu quarto, mas foi recebida por uma atmosfera densa e aromática. O ar estava impregnado com o cheiro de mirra, sândalo e algo que lembrava o ozônio que precede uma tempestade.
O banheiro, anexo ao quarto, estava transformado. Centenas de velas negras e roxas flutuavam em suportes de ferro forjado, lançando sombras dançantes pelas paredes de pedra. A banheira de ferro fundido, com pés em formato de garras de leão, estava cheia até a borda. A água não era clara; Tyler encontrara sais que a tornavam de um preto opaco e profundo, cobertos por uma espuma densa e escura que parecia uma nuvem de tempestade capturada.
Tyler estava de pé ao lado de uma pequena mesa de mogno, abrindo uma garrafa de vinho tinto tão escuro que parecia sangue coagulado.
— Você está tentando me seduzir ou me preparar para um sacrifício ritual? — perguntou Wandinha, parando à porta, os braços cruzados sobre o peito.
Tyler sorriu, aquele sorriso que misturava a doçura do barista com a predação do monstro.
— Por que não os dois? — Ele serviu o vinho em duas taças de cristal lapidado. — Achei que, após uma semana de surpresas externas, você merecia algo que acalmasse os nervos... ou que os incendiasse de vez.
Wandinha aproximou-se da banheira, tocando a espuma preta com a ponta dos dedos.
— É óleo de patchouli e cinzas vulcânicas? — Ela levou os dedos ao nariz, inspirando profundamente. — Aceitável. Quase revigorante.
— Vinho? — Tyler estendeu a taça. — É uma safra de uma vinícola francesa que faliu após uma série de mortes misteriosas. Dizem que as uvas foram regadas com lágrimas de viúvas.
Wandinha aceitou a taça, seus dedos roçando os dele. O contato elétrico fez a espinha dela vibrar.
— Você está se tornando perigosamente eficiente em ler meus desejos mais obscuros, Tyler. Isso é um talento que costuma terminar em tragédia.
— Eu não esperaria nada menos de nós — respondeu ele, observando-a enquanto ela começava a se despir com uma eficiência desprovida de modéstia, mas carregada de uma solenidade ritualística.
Quando ela submergiu na água quente e negra, soltou um suspiro longo que pareceu carregar todo o peso da semana. Tyler ajoelhou-se ao lado da banheira, observando como a pele pálida dela contrastava com a escuridão do banho. Ela parecia uma divindade caída descansando em um lago de piche.
— O vinho está excelente — comentou ela, fechando os olhos enquanto o calor da água relaxava seus músculos. — Tem um retrogosto de ferro e melancolia.
Tyler pegou um frasco de porcelana que continha um creme denso e acinzentado.
— Deixe-me ajudar com a tensão — disse ele em voz baixa. — Sei que os duelos com seu pai têm sido intensos.
Ele se posicionou atrás da cabeça dela e começou a espalhar o creme nos ombros e na nuca de Wandinha. Seus dedos eram fortes, mas moviam-se com uma delicadeza calculada. Wandinha inclinou a cabeça para a frente, permitindo o acesso. O toque de Tyler era quente, e conforme ele massageava os tecidos rígidos de suas costas, ela sentia a barreira entre sua mente e seu corpo começar a se dissolver.
— Suas mãos estão quentes demais — murmurou ela, a voz ficando mais rouca. — É a febre do Hyde ou apenas sua natureza impulsiva?
— É a vontade de ter você — confessou Tyler, aproximando o rosto do pescoço dela. — O Hyde não é o único que quer reivindicar este território, Wandinha.
Ele deixou um beijo casto logo abaixo da orelha dela, enviando uma onda de calor que competia com a temperatura da água. Wandinha virou-se lentamente na banheira, a espuma preta escorrendo por seus ombros como seda líquida. Seus olhos negros encontraram os dele, e não havia mais gelo ali, apenas uma chama escura e faminta.
— Então pare de falar e prove — ordenou ela.
Tyler não precisou de um segundo convite. Ele a ajudou a sair da banheira, envolvendo seu corpo úmido em uma toalha de linho preto antes de carregá-la para a cama de dossel. O ambiente estava carregado; o cheiro das velas aromáticas misturava-se ao desejo cru que pairava entre eles.
Quando seus corpos se encontraram sob os lençóis de seda, a transição da ternura para a urgência foi imediata. Tyler a beijava com uma possessividade que Wandinha não apenas aceitava, mas exigia. Ela cravava as unhas nos ombros dele, marcando sua pele como ele a marcava com seus toques.
No momento em que Tyler se posicionou sobre ela, seus olhos brilharam com aquele tom âmbar fugaz, o sinal de que a fera estava assistindo, participando. Quando ele finalmente se uniu a ela, penetrando-a com uma força que parecia querer alcançar sua alma, Wandinha sentiu aquela sensação familiar e aguda.
Uma pontada de dor atravessou seu útero, um espasmo profundo que a fez arquear as costas e soltar um suspiro entrecortado. Não era uma dor insuportável, mas era estranha, visceral, como se algo dentro dela estivesse sendo esticado além do limite humano.
Tyler parou instantaneamente, os braços tremendo enquanto ele a sustentava. Suas pupilas estavam dilatadas, e a preocupação lutava contra a luxúria em suas feições.
— Wandinha? — A voz dele era um sussurro urgente. — Eu te machuquei? Eu... eu senti. Eu sinto muito. Às vezes eu esqueço que ele é mais forte do que eu pretendo ser.
Wandinha abriu os olhos, focando no rosto dele. Ela viu o medo da rejeição, o pavor de ser o monstro que ele tanto odiava. Ela levou a mão ao rosto dele, puxando-o para baixo até que suas testas se encostassem.
— Não pare — disse ela, a voz firme apesar da respiração acelerada. — É uma dor... interessante.
— É o Hyde, não é? — perguntou Tyler, a culpa obscurecendo seu prazer. — Ele é pesado demais. Eu não quero que você sinta que está sendo invadida por um monstro contra a sua vontade.
Wandinha soltou uma risada curta e sombria, suas pernas se entrelaçando na cintura dele para impedi-lo de se afastar.
— Tyler, olhe para mim. Eu sou uma Addams. Nós não tememos a dor; nós a dissecamos. Se essa sensação é o Hyde tentando encontrar um lugar dentro de mim, deixe-o tentar. Eu sou vasta o suficiente para conter todos os seus demônios.
— Mas dói — insistiu ele, o coração batendo contra o peito dela.
— É uma dor que me lembra que você é real — respondeu ela, seus olhos fixos nos dele com uma intensidade absoluta. — Que não somos apenas sombras brincando de amor. É o preço do nosso pacto de sangue. Agora, continue. Eu não aceito nada pela metade, nem mesmo o seu sofrimento.
Tranquilizado pela honestidade brutal dela, Tyler voltou a se mover. Ele foi mais lento no início, testando os limites, mas a própria Wandinha ditou o ritmo, puxando-o para mais fundo, desafiando a fera e o homem simultaneamente. A dor inicial transformou-se em um calor pulsante, uma conexão que transcendia o físico. Era como se, naquele quarto cercado por velas negras, eles estivessem forjando um novo tipo de existência, onde o prazer e o tormento eram indistinguíveis.
A noite continuou sob o vigiar silencioso das gárgulas e dos ancestrais cujos retratos adornavam as paredes. Para Wandinha, cada movimento de Tyler era uma confirmação de que sua escolha em Vermont fora correta. Ela não queria um amor comum, uma vida de luz e banalidade. Ela queria o eclipse. Ela queria o homem que a massageava com cinzas e a amava com a força de uma maldição antiga.
Quando o êxtase finalmente os alcançou, foi como uma pequena morte — silenciosa, devastadora e absoluta.
Horas depois, com as velas já reduzidas a poças de cera fria, eles permaneciam entrelaçados. O Mão havia entrado discretamente para recolher as taças de vinho e fechar as cortinas pesadas, garantindo que nem mesmo o primeiro raio de sol ousasse perturbá-los.
Tyler acariciava o braço de Wandinha, sentindo a respiração dela regularizar-se contra seu peito.
— Você ainda sente? — perguntou ele, referindo-se à dor.
Wandinha virou o rosto para ele, o cabelo preto espalhado pelo travesseiro como uma mancha de tinta.
— Sinto apenas o eco. É como uma cicatriz interna. — Ela fez uma pausa, observando a penumbra do quarto. — Se o Hyde pensa que pode me intimidar com um pouco de desconforto físico, ele claramente não conhece a história da minha família. Minha tia-avó se casou com um carrasco apenas pelo prazer de ser apertada demais no espartilho.
Tyler soltou uma risada genuína, a primeira da noite que não carregava o peso da ansiedade.
— Você é a criatura mais aterrorizante que já conheci, Wandinha Addams. E olha que eu me transformo em um monstro de dois metros com olhos de pesadelo.
— É por isso que somos perfeitos um para o outro — disse ela, fechando os olhos. — O mundo lá fora é um deserto de tédio. Aqui, entre estas paredes e dentro de nós... é onde a verdadeira escuridão reside.
Tyler a puxou para mais perto, cobrindo ambos com o pesado edredom de seda. Ele sabia que a guerra contra o Círculo de Sangue ainda não terminara, e que haveria dias em que o Hyde tentaria novamente assumir o controle total. Mas, naquele momento, envolto no cheiro de cinzas vulcânicas e na presença gélida e reconfortante de Wandinha, ele sentia que o monstro encontrara, finalmente, sua mestre. E Wandinha, no limiar do sono, teve um último pensamento: a dor não era um aviso de perigo, era o selo de sua posse. Tyler Galpin era dela, em cada fibra, em cada osso e em cada sombra. E ela não mudaria um único milímetro daquele destino.