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Amor sombrio

O Eco do Silêncio e o Gosto do Arrependimento

A mansão Addams estava mergulhada em um silêncio que, para Wandinha, costumava ser sinfônico. No entanto, naquela tarde, o ar parecia denso, carregado com uma eletricidade estática que fazia os pelos de sua nuca se arrepiarem. Ela estava no corredor leste, perto da biblioteca, conversando com o Mão em uma voz que raramente usava: uma voz desprovida de sua habitual gravidade, soando quase... clínica.

Tyler caminhava pelo corredor com um pequeno buquê de flores murchas que colhera no pântano, um gesto que ele sabia que ela apreciaria. Ele parou ao ouvir seu nome. Encostou-se na parede, a respiração presa, enquanto a voz de Wandinha atravessava a fresta da porta entreaberta.

— Não seja ridículo, Mão — dizia ela, o tom seco como pergaminho antigo. — Amor é uma construção química para mentes que temem a própria solidão. Minha relação com Tyler é, acima de tudo, um experimento de campo.

O Mão gesticulou freneticamente. Tyler não precisava ver para saber que a mão decepada estava questionando a sinceridade dela, lembrando-a das noites no mausoléu ou do banho de cinzas.

— O que eu sinto por ele é curiosidade intelectual — continuou Wandinha, implacável. — Eu queria saber até onde um Hyde, uma criatura movida pelo instinto de destruição, chegaria por alguém que acredita amar. Ele é uma arma fascinante, e observar sua devoção é como estudar a anatomia de um desastre. O resto é apenas ruído.

Tyler sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. As flores caíram de sua mão, atingindo o tapete sem fazer barulho. O Hyde dentro dele não rosnou; ele se encolheu, sentindo a mesma dor aguda que o lado humano de Tyler. Ele não entrou no quarto. Não gritou. Não exigiu explicações. Ele apenas deu meia-volta e caminhou em direção ao seu quarto, movendo-se como um fantasma em sua própria vida.

Horas depois, trancado em seu quarto, Tyler não sentia raiva. Ele sentia uma clareza devastadora. Ele pegou uma folha de papel amarelada e uma caneta. Suas mãos não tremiam enquanto ele despejava no papel tudo o que guardara: a gratidão por ter sido salvo de si mesmo, o amor que o consumia e a aceitação de que ele seria sempre, aos olhos dela, apenas um objeto de estudo.

Ele dobrou a carta e saiu para o corredor. Wandinha estava saindo de seu escritório, parecendo mais irritada do que o normal. Pugsley havia explodido uma parte da estufa de Morticia, e a xerife de uma cidade vizinha havia ligado para fazer perguntas inconvenientes.

— Wandinha — chamou ele, sua voz soando estranhamente calma.

Ela parou e o encarou. Seus olhos negros estavam nublados por uma impaciência cortante.

— Tyler, agora não. Estou lidando com a incompetência crônica da minha família e a persistência irritante da lei. O que você quer?

Ele estendeu a carta.

— Eu escrevi algo. Gostaria que você lesse.

Wandinha pegou o papel com as pontas dos dedos, como se fosse um inseto indesejado. Ela desdobrou a folha e seus olhos percorreram as primeiras linhas: *"Wandinha, eu ouvi o que você disse ao Mão. Talvez você tenha razão. Talvez eu seja apenas um experimento..."*

Ela soltou um suspiro de puro desprezo e, antes de chegar ao segundo parágrafo, rasgou o papel ao meio. Depois, rasgou novamente, até que os fragmentos caíssem como neve suja no chão do corredor.

— Tyler, eu já lhe disse antes — disse ela, a voz vibrando com uma frieza que cortava o ar. — Sentimentos escritos não mudam a realidade. Se você tem algo a dizer, diga com atos, não com literatura barata de confissão. Não tenho tempo para sua autocomiseração hoje.

Ela passou por ele sem olhar para trás, o som de seus sapatos batendo no chão de madeira soando como uma sentença final.

Tyler ficou parado, olhando para os pedaços de papel no chão. Ele não se abaixou para pegá-los. Ele apenas assentiu para o vazio, deu as costas e caminhou em direção à saída lateral da mansão. O Hyde não protestou. Ambos sabiam que o experimento havia terminado.

A noite caiu sobre a Mansão Addams com uma chuva torrencial e gélida. Wandinha estava sentada em sua escrivaninha, tentando focar em seu romance, mas as palavras pareciam vazias. Uma sensação de inquietude, um vácuo que ela não conseguia preencher com seu habitual cinismo, começou a crescer em seu peito.

— Mão! — chamou ela. — Onde está o Tyler? Ele deveria ter trazido meu chá de cicuta há vinte minutos.

O Mão apareceu na porta, gesticulando com urgência. Ele apontou para o quarto de hóspedes e depois para a porta da rua. Wandinha franziu a testa e levantou-se. Ela foi até o quarto de Tyler. Estava impecável. A cama feita, as poucas roupas que ele possuía haviam sumido. Não havia rastro dele.

Ela voltou ao corredor onde o encontrara mais cedo. No chão, os pedaços de papel ainda estavam lá, parcialmente escondidos sob a sombra de um móvel. Wandinha ajoelhou-se. Seus dedos pálidos recolheram cada fragmento com uma urgência que ela se recusava a admitir como pânico.

Ela os levou para o escritório e, com a ajuda do Mão e de um pouco de fita adesiva, montou o quebra-cabeça. Suas mãos tremeram levemente quando ela começou a ler a carta inteira.

*"...Eu sempre soube que não era bom o suficiente para você. Sou um monstro, um erro biológico que causou dor a todos que tocou. Mas quando você me olhou em Vermont, não com medo, mas com aquela curiosidade sombria, eu senti que talvez pudesse existir um lugar para mim no seu mundo. Eu faria qualquer coisa por você, Wandinha. Eu me transformaria mil vezes, eu mataria ou morreria sob seu comando, não porque sou uma arma, mas porque você foi a única pessoa que me deu um propósito além da destruição. Mesmo que você nunca me ame, obrigado por ter me feito acreditar, por um tempo, que eu podia ser alguém melhor. Adeus."*

O papel escapou dos dedos de Wandinha. O vácuo em seu peito expandiu-se, tornando-se um buraco negro que ameaçava engoli-la. Ela percebeu, com o horror de uma epifania tardia, que suas palavras ao Mão haviam sido uma mentira — uma armadura que ela vestira para se proteger da vulnerabilidade de amar alguém tão instável quanto Tyler. E agora, sua própria arrogância o expulsara.

— Eu sou uma idiota — sussurrou ela, uma confissão que nunca antes saíra de seus lábios.

Ela pegou seu guarda-chuva preto e correu para fora da mansão. A chuva açoitava seu rosto, mas ela não se importava. Ela correu em direção à floresta, onde o cheiro de Tyler — aquele misto de café e perigo — costumava ser mais forte.

— Tyler! — gritou ela, sua voz sendo engolida pelo trovão. — Tyler Galpin, volte aqui! Eu não dei permissão para você ir embora!

Ela vagou pela mata por quase uma hora, a lama manchando seu vestido, o frio penetrando seus ossos. A floresta estava muda. O Hyde não uivava. Não havia sinal dele.

De repente, o celular em seu bolso vibrou. Era um aparelho que ela raramente usava, um mal necessário para comunicações externas. O nome de Enid brilhou na tela. Wandinha atendeu com os dedos gelados.

— Enid, agora não é um bom momento...

— Wandinha! — A voz de Enid veio em um soluço desesperado, quase inaudível devido ao som de sirenes ao fundo. — Wandinha, você precisa vir para a estrada 102, perto da fronteira com o condado.

O coração de Wandinha parou por um segundo.

— O que aconteceu, Enid? Fale logo.

— É o Tyler... — Enid soluçou mais alto. — Ele estava andando no acostamento, parecia estar em choque, ele nem viu o caminhão vindo por causa da chuva... Wandinha, houve um acidente. É horrível. Tem tanto sangue...

O guarda-chuva caiu da mão de Wandinha. Ela ficou parada sob a chuva torrencial, os pedaços da carta de Tyler ainda ecoando em sua mente. O experimento havia acabado, mas a dor — a dor real, humana e devastadora — estava apenas começando. E pela primeira vez na vida, Wandinha Addams sentiu que o escuro não era um refúgio, mas uma prisão onde ela acabara de se trancar sozinha.