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Amor sombrio

O Refrão do Coração de Vidro

A unidade de terapia intensiva do hospital de Nova Jersey tinha um cheiro que Wandinha Addams considerava ofensivo: não era o cheiro honesto da decomposição ou o aroma terroso de um cemitério antigo, mas um odor estéril, químico e sintético de desinfetante que tentava, sem sucesso, mascarar a fragrância metálica da morte iminente.

Naquela sala fria, o único som era o bipe rítmico e monótono do monitor cardíaco e o chiado mecânico do ventilador que forçava ar nos pulmões de Tyler. Ele parecia menor sob os lençóis brancos, a pele tão pálida que as cicatrizes de suas transformações passadas se destacavam como mapas de um território devastado.

De repente, o ritmo do monitor mudou. O bipe tornou-se frenético, um grito eletrônico de socorro.

— Tyler! — Wandinha levantou-se da cadeira de plástico, suas mãos agarrando a grade da cama.

A linha no monitor oscilou violentamente antes de se achatar em um zumbido contínuo e aterrorizante. O caos instalou-se em segundos. Enfermeiros e médicos invadiram o quarto, empurrando Wandinha para o lado com uma eficiência bruta que ela normalmente admiraria, se não fosse o fato de que o coração dele havia parado novamente.

— Afastem! — gritou o médico, carregando os desfibriladores. — Carregar em duzentos! Já!

O corpo de Tyler arqueou-se contra o colchão, um espasmo violento que parecia uma paródia macabra de suas transformações em Hyde. Wandinha observava da fresta da porta, seus olhos negros fixos no peito dele. *Não ouse*, ela pensava, as unhas cravadas nas palmas das mãos até sangrar. *Eu não lhe dei permissão para partir.*

Após o terceiro choque, o bipe solitário e lento retornou. Estável, mas frágil. Os médicos saíram, deixando para trás um rastro de luvas descartadas e uma Wandinha que parecia ter envelhecido um século em poucos minutos.

Um mês se passou desde aquela noite.

Trinta dias em que Wandinha Addams, a herdeira do desdém e da misantropia, tornou-se uma presença constante e sombria naquele quarto de hospital. Ela chegava no primeiro minuto do horário de visitas e só saía quando os seguranças a ameaçavam com a polícia — uma ameaça que ela recebia com um olhar tão predatório que a maioria deles desistia de tentar tirá-la de lá.

Ela não ficava em silêncio. Wandinha descobriu que o silêncio era o inimigo; no silêncio, o vazio entre eles crescia. Então, ela falava.

— Hoje o Mão tentou subornar o jardineiro da mansão para que ele plantasse beladonas no canteiro de margaridas da minha mãe — disse ela, sentada ao lado da cama, enquanto lixava as unhas com uma precisão cirúrgica. — Foi um fracasso retumbante. O jardineiro agora está desaparecido, e suspeito que Pugsley tenha algo a ver com isso. Você acharia graça, Tyler. Você sempre teve uma inclinação mórbida para o caos doméstico.

Tyler não respondeu. Seus olhos permaneciam fechados, as pálpebras finas revelando o movimento errático dos globos oculares por baixo, como se ele estivesse preso em um pesadelo do qual não conseguia acordar.

— Enid me mandou mais um daqueles vídeos de gatos que tocam piano — continuou ela, a voz monótona escondendo a fadiga. — Eu queimei o celular. A tecnologia é um veículo para a imbecilidade humana, mas você já sabia disso. Você preferia o som das máquinas de café e o cheiro de grãos torrados. O hospital cheira a fracasso, Tyler. Acorde e me tire daqui.

No vigésimo dia, ela começou a ler para ele. Ela não escolheu seus tratados sobre venenos ou manuais de tortura medieval. Em vez disso, ela vasculhou a biblioteca oculta de sua avó e encontrou um volume encadernado em couro humano, intitulado *A Besta e o Alento*.

Era uma história de amor proibida, escrita em um dialeto antigo, sobre uma mulher que se apaixonava por uma criatura feita de sombras e dentes.

— Ouça bem — disse ela, abrindo o livro na metade. — "Ela não amava a fera apesar de sua monstruosidade, mas por causa dela. Pois no brilho das presas da besta, ela via o reflexo de sua própria escuridão. Eles não eram um casal, eram um eclipse; uma união que exigia o sacrifício da luz para que o universo pudesse descansar em paz."

Wandinha fechou o livro lentamente, o som do papel batendo ecoando no quarto vazio. Ela olhou para as mãos de Tyler, presas a tubos e fios.

— Essa história me lembra nós — sussurrou ela, e pela primeira vez em sua vida, sua voz quebrou. — Dois monstros tentando fingir que o mundo não é pequeno demais para a nossa sede de destruição.

Ela sentiu uma pressão insuportável no peito, uma dor física que nenhuma lâmina jamais conseguira infligir. Wandinha Addams, que se orgulhava de ser uma fortaleza de gelo, sentiu a primeira fenda em sua estrutura. Uma lágrima, quente e indesejada, escorreu por sua bochecha pálida, caindo sobre o lençol estéril.

— Eu menti para o Mão — confessou ela, debruçando-se sobre o corpo inerte dele, falando tão baixo que apenas os fantasmas daquele quarto poderiam ouvir. — Eu disse que você era um experimento. Eu disse que sua devoção era apenas um objeto de estudo. Eu sou uma covarde, Tyler Galpin. Eu usei as palavras como escudo porque tive medo de que, se eu admitisse que você é a batida do meu coração, eu perderia o controle. E eu odeio perder o controle.

Ela soluçou baixinho, um som seco e doloroso que parecia rasgar sua garganta.

— Mas a verdade é que o vácuo que eu tanto amava agora é um abismo que me consome sem você. Eu não quero um mundo onde eu não tenha que me preocupar se você vai se transformar ou se vai me trazer café frio. Eu prefiro ser destruída por você do que ser preservada pela solidão.

Com um movimento lento, quase reverente, Wandinha aproximou o rosto do dele. Ela sentiu o hálito fraco dele, o cheiro de antisséptico ainda predominante. Ela selou seus lábios nos dele. Foi um beijo desprovido de paixão carnal, mas carregado de uma entrega absoluta. Foi um pacto, uma promessa e um pedido de desculpas, tudo em um único toque.

Ao se afastar, Wandinha permaneceu a centímetros do rosto dele, seus olhos ainda úmidos. Foi então que ela viu.

Uma lágrima solitária, cristalina e lenta, escapou do canto do olho fechado de Tyler, traçando um caminho úmido pela têmpora dele até desaparecer no travesseiro.

O coração de Wandinha deu um salto violento.

— Tyler? — chamou ela, a voz vibrando de antecipação.

Ela olhou para a mão dele que estava sobre o lençol. Os dedos longos e pálidos, que ela acreditava estarem paralisados para sempre, tiveram um espasmo. Foi um movimento mínimo, quase imperceptível, um leve roçar do dedo indicador contra o tecido, mas para ela, foi mais barulhento que um trovão.

— Você está me ouvindo — afirmou ela, agarrando a mão dele com uma força que beirava o desespero. — Você está aí dentro, não está?

Tyler não abriu os olhos. Ele não falou. O ventilador mecânico continuava seu trabalho de respiração artificial. Mas a lágrima que ainda brilhava em seu rosto era a prova de que ele a escutara. Ele ouvira cada confissão, cada história, cada soluço que ela tentara esconder do mundo.

— Se você está me ouvindo — disse ela, recuperando um pouco de sua autoridade sombria, embora sua mão ainda tremesse —, saiba que não vou perdoá-lo se você decidir ficar nesse estado apenas para ouvir minhas declarações de afeto. Eu tenho um limite de sentimentalismo, Tyler, e você está perigosamente perto de esgotá-lo.

Ela apertou os dedos dele, e sentiu uma pressão quase invisível de volta. Não era um aperto de mão, era um sinal de vida. Um eco do Hyde e do homem, lutando juntos para encontrar o caminho de volta para ela.

Wandinha sentou-se novamente na cadeira, mas desta vez, ela não pegou o livro ou a lixa de unhas. Ela apenas segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos nos dele.

— Eu vou esperar — disse ela, sua voz agora firme e eterna como as pedras da mansão. — Pode levar um mês, um ano ou uma eternidade. Mas você vai acordar. E quando acordar, nós teremos muito o que destruir juntos.

Lá fora, o sol de Nova Jersey começava a se pôr, tingindo o céu de um laranja doentio que Wandinha finalmente achou suportável. Dentro do quarto, o bipe do monitor parecia agora uma música, o refrão de um coração que se recusava a parar de bater enquanto houvesse uma Addams ali para reclamá-lo.

Wandinha encostou a cabeça no colchão, fechando os olhos pela primeira vez em semanas com uma sensação de paz que beirava o pecado. Ela sabia que a jornada seria longa, que o acidente deixara marcas que talvez nunca cicatrizassem, mas o silêncio não era mais vazio. Estava preenchido pela promessa de que, na escuridão que compartilhavam, eles sempre encontrariam o caminho de volta para casa. E para Wandinha Addams, o lar não era mais um lugar, mas o pulso fraco e persistente do monstro que aprendera a amar.