Amor sombrio
O Batismo das Sombras e a Geometria do Medo
O ar em Nunca Mais havia se tornado um elemento hostil, saturado por uma calmaria que precedia não apenas uma tempestade, mas uma aniquilação. Wandinha Addams estava sentada em sua escrivaninha, o som rítmico de sua máquina de escrever ecoando como disparos de um pelotão de fuzilamento. Cada tecla batida era um prego no caixão do silêncio que se instalara entre ela e o resto do mundo desde o retorno de Vermont.
Mãozinha tamborilava nervosamente sobre a colcha de retalhos de Enid, gesticulando algo sobre a falta de comunicação e o perigo de manter um Hyde em um estado de "liberdade vigiada".
— Suas preocupações são redundantes, Mãozinha — disse ela, sem desviar os olhos do papel. — Tyler não é um animal de estimação que fugiu da coleira; ele é um incêndio que eu escolhi não apagar por enquanto. A combustão é necessária para forjar algo novo.
A porta do quarto se abriu com um estrondo, e Enid entrou, seu rosto geralmente radiante agora pálido, contrastando com as pontas coloridas de seu cabelo.
— Wandinha, você precisa ver isso. Agora. Alguém deixou um "presente" para você no pátio central. E não é do tipo que vem com laço de fita.
Wandinha levantou-se com uma lentidão deliberada. Ela não gostava de surpresas, a menos que envolvessem autópsias inesperadas ou fenômenos poltergeist de classe cinco. Ao descer as escadas de pedra e sair para o pátio circular, ela encontrou um círculo de alunos parados em um silêncio sepulcral.
No centro da fonte, a água estava tingida de um vermelho viscoso. Boiando na superfície, estavam os restos de um corvo negro, perfeitamente dissecado, com as entranhas arranjadas para formar um símbolo que Wandinha reconheceu instantaneamente: o selo do Círculo de Sangue.
— Eles são persistentes — murmurou ela, aproximando-se da fonte. — E possuem um senso estético deplorável. Usar um corvo é um clichê que eu não admito nem em literatura de cordel.
— Wandinha, isso é uma ameaça de morte! — sibilou Enid, as garras começando a despontar sob o estresse. — Eles entraram na escola!
— Eles não entraram, Enid. Eles foram convidados pelo vazio que deixamos em Vermont — Wandinha estendeu a mão e pegou um pequeno pedaço de pergaminho preso à pata do pássaro.
*O monstro pertence à linhagem, não à mestre. O que foi quebrado será reclamado pelo sangue.*
Wandinha amassou o papel. Ela sentiu um olhar queimando em sua nuca e virou-se para ver Tyler parado à sombra dos arcos góticos. Ele não parecia assustado; ele parecia faminto. O Hyde estava tão próximo da superfície que a pele de Tyler parecia vibrar com uma energia estática.
— Eles vieram por mim — disse Tyler, aproximando-se dela. Os outros alunos recuaram, o medo do monstro ainda mais forte do que a curiosidade.
— Eles vieram pelo que acreditam possuir — corrigiu Wandinha, seus olhos encontrando os dele. — O que é um erro fatal. Eu não compartilho meus pertences, e certamente não permito que cultistas de segunda categoria ditem o destino das minhas ferramentas.
— Ferramenta de novo? — Tyler deu um sorriso de lado, mas seus olhos permaneciam frios. — Achei que tínhamos passado dessa fase na oficina.
— A terminologia é para o benefício do público — disse ela, baixando a voz. — Encontre-me na cripta de Joseph Crackstone em dez minutos. Se eles querem sangue, vamos dar a eles uma transfusão que nunca esquecerão.
A cripta estava mergulhada em um frio que parecia emanar do próprio solo. Quando Tyler chegou, Wandinha já havia disposto uma série de frascos e lâminas sobre o altar de pedra. A luz das velas projetava sombras grotescas nas paredes, fazendo com que as estátuas de anjos chorosos parecessem estar se movendo.
— Por que aqui? — perguntou Tyler, observando-a afiar uma adaga de prata. — Este lugar cheira a fanatismo e poeira.
— Porque aqui a barreira entre o mundo dos vivos e o dos mortos é tão fina quanto a sua paciência — respondeu ela. — O Círculo de Sangue usa o sangue dos Hydes para alimentar sua magia. Para derrotá-los, precisamos inverter a polaridade. Não vamos estabilizar o seu monstro, Tyler. Vamos envenená-lo para eles.
Tyler cruzou os braços, encostando-se na parede de pedra fria.
— Envenenar o Hyde? Você percebe que eu sou o recipiente, certo? Se você envenenar a fera, você me mata no processo.
Wandinha parou de afiar a faca e caminhou até ele. Ela parou tão perto que ele podia sentir o cheiro de tinta e ozônio que sempre a acompanhava.
— Você disse que queria ser aceito como homem e monstro. Pois bem. Este é o batismo. Eu vou injetar uma toxina destilada de beladona e cinzas de ancestrais Addams no seu sistema. Para eles, o seu sangue se tornará ácido. Para você... será um inferno pessoal de quarenta e oito horas.
Tyler observou o rosto dela, buscando qualquer sinal de hesitação. Ele viu apenas a determinação implacável que o fizera se apaixonar e se aterrorizar simultaneamente.
— E por que eu deveria confiar que você vai me trazer de volta? — perguntou ele, sua voz um sussurro rouco.
— Porque eu ainda não terminei de usar você — respondeu ela, seus dedos roçando a mandíbula dele. — E porque, apesar de toda a minha retórica sobre vazio, a ideia de Jericho sem o seu incômodo constante parece... irritantemente tediosa.
Tyler soltou uma risada curta, inclinando a cabeça para encontrar o toque dela.
— Esse é o jeito Addams de dizer que se importa?
— É o meu jeito de dizer que não admito que ninguém mais o destrua. A destruição de Tyler Galpin é uma exclusividade minha.
— Então faça — disse ele, sentando-se no altar de pedra. — Me transforme na sua arma biológica.
Wandinha pegou uma seringa de prata, uma relíquia de família que tinha sido usada para propósitos muito mais sinistros no passado. Ela limpou o braço de Tyler com um pano embebido em álcool e absinto.
— Isso vai doer — avisou ela. — Mais do que a transformação. Mais do que qualquer ferida que você já recebeu.
— Eu já estou morto por dentro, Wandinha. Um pouco mais de dor só vai me fazer sentir que ainda estou aqui.
Ela inseriu a agulha. Tyler não gritou, mas seus músculos se contraíram com tamanha força que o altar de pedra pareceu gemer sob seu peso. Seus olhos reviraram, as pupilas dilatando até que não sobrasse nada além de um abismo negro. Ele começou a convulsionar, e Wandinha segurou sua cabeça com firmeza, sussurrando palavras em latim que pareciam acalmar a escuridão que borbulhava nele.
— Fique comigo, Tyler — ordenou ela, sua voz pela primeira vez carregando um traço de urgência. — Não se perca no lodo. Use a dor como uma âncora.
— Wandinha... — ele arfou, o nome saindo como um suspiro de agonia. — Está queimando. O Hyde... ele está tentando sair. Ele quer... ele quer rasgar você.
— Deixe-o tentar — disse ela, aproximando o rosto do dele. — Ele sabe que eu sou a única coisa que o mantém inteiro. Ele me teme mais do que teme a morte.
As horas que se seguiram na cripta foram uma liturgia de sofrimento. Tyler alternava entre estados de consciência febril e delírios onde o Hyde assumia o controle parcial, fazendo suas mãos se transformarem em garras e voltarem ao normal em ciclos dolorosos. Wandinha não saiu do lado dele. Ela limpava o suor de sua testa com uma paciência que raramente demonstrava, observando a batalha interna como uma cientista observando uma estrela prestes a se tornar uma supernova.
No meio da madrugada, quando a lua atingiu o zênite, o silêncio da cripta foi quebrado pelo som de passos pesados lá fora. O Círculo de Sangue havia chegado para reclamar seu prêmio.
— Eles estão aqui — sussurrou Tyler, sua voz agora uma mistura de humano e monstro. Ele se levantou, cambaleando, sua pele pálida e veias negras subindo por seu pescoço.
— Ótimo — disse Wandinha, pegando suas adagas. — Eu estava começando a ficar entediada com o seu sofrimento silencioso.
A porta da cripta foi arrancada das dobradiças por uma força invisível. Três figuras encapuzadas entraram, seguidas por um homem de meia-idade com olhos que brilhavam com uma luz doentia. Era Malachi, o líder remanescente do Círculo.
— Wandinha Addams — disse Malachi, sua voz ecoando nas paredes de pedra. — Você brinca com forças que não entende. O Hyde é a nossa herança. Ele é o sangue da terra.
— Sua herança é uma coleção de superstições baratas e falta de imaginação — retrucou Wandinha, colocando-se à frente de Tyler. — E a terra não quer o seu sangue. Ela quer o seu silêncio.
— Mate a garota — ordenou Malachi. — E tragam o monstro.
Os encapuzados avançaram, mas antes que pudessem tocar Wandinha, Tyler soltou um rugido que pareceu sacudir os alicerces da própria Academia. Ele não se transformou completamente; a toxina de Wandinha o mantinha em um estado híbrido, uma abominação de músculos humanos e fúria de Hyde.
Ele saltou sobre o primeiro atacante, e o que se seguiu não foi uma luta, foi uma execução. O sangue dos cultistas, ao entrar em contato com as garras de Tyler, começou a fumegar e queimar. O veneno de Wandinha estava funcionando; ele era agora uma praga ambulante para aqueles que buscavam controlá-lo.
Wandinha movia-se entre as sombras, suas lâminas encontrando as brechas nas túnicas dos inimigos. Ela era o complemento perfeito para a brutalidade de Tyler. Onde ele esmagava, ela cortava. Onde ele rugia, ela permanecia em um silêncio mortal.
Malachi, vendo seus homens caírem, tentou conjurar um feitiço, mas Tyler o alcançou primeiro. Ele agarrou o líder pelo pescoço, levantando-o do chão.
— Você queria o meu sangue? — rosnou Tyler, sua voz vibrando com o poder da beladona. — Beba.
Ele cravou as garras no peito de Malachi. O homem gritou quando o sangue infectado de Tyler entrou em suas veias, agindo como um ácido corrosivo. Em segundos, o líder do Círculo de Sangue não passava de uma casca carbonizada no chão da cripta.
O silêncio retornou, mais pesado do que antes. Tyler caiu de joelhos, a forma híbrida retrocedendo enquanto ele ofegava, o corpo exausto pela toxina e pelo combate.
Wandinha aproximou-se dele e guardou suas adagas. Ela olhou para o massacre ao redor com uma satisfação clínica.
— Eficiente — comentou ela. — Embora um pouco mais bagunçado do que eu gostaria.
Tyler olhou para ela, o suor escorrendo por seu rosto. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma noite.
— Você conseguiu o que queria — disse ele, com um sorriso fraco. — Eles estão mortos. O Hyde está envenenado. E eu ainda sou seu.
Wandinha ajoelhou-se à frente dele e, pela primeira vez, permitiu que sua mão descansasse suavemente sobre a dele. Não era uma pressão fria, mas um toque que buscava ancorá-lo.
— Você não é meu, Tyler. Você é uma parte do meu mundo agora. E eu protejo o meu mundo com uma ferocidade que faria esses cultistas parecerem crianças brincando com fósforos.
Tyler fechou os olhos, sentindo o efeito da toxina começar a diminuir, deixando apenas uma exaustão profunda.
— O que acontece agora? — perguntou ele.
— Agora, nós limpamos essa bagunça — disse Wandinha, levantando-se. — E amanhã, você vai me ajudar a organizar minha coleção de dentes de predadores. O Círculo de Sangue acabou, mas Jericho ainda tem muitos segredos enterrados. E eu pretendo desenterrar cada um deles.
Ela caminhou em direção à saída da cripta, parando sob o arco de pedra. A luz do amanhecer começava a filtrar-se pela entrada, mas Wandinha permanecia na sombra.
— Tyler?
— Sim?
— A dor passou?
Tyler levantou-se com dificuldade, sentindo o sangue correr limpo novamente, mas com um novo tipo de peso.
— Não — disse ele, caminhando até ela. — Mas eu acho que estou começando a gostar do sabor.
Wandinha assentiu, um brilho quase imperceptível de aprovação em seus olhos escuros.
— Ótimo. O masoquismo é uma virtude essencial para quem deseja caminhar ao meu lado.
Eles saíram da cripta juntos, dois monstros sob a luz pálida de um novo dia. A Academia Nunca Mais continuava de pé, mas o equilíbrio de poder havia mudado irremediavelmente. Wandinha Addams não tinha apenas uma arma; ela tinha um companheiro de escuridão. E enquanto caminhavam de volta para a escola, o rastro de sangue deixado para trás era a única prova de que, naquela noite, a mestre e a fera haviam se tornado, finalmente, uma única e terrível vontade.
O vazio que Wandinha tanto prezava ainda estava lá, mas agora ele tinha uma forma, um nome e um rugido que ecoava em sincronia com o seu próprio silêncio. E para ela, essa era a mais bela das tragédias.