Amor sombrio
O Crepúsculo dos Predadores e a Fragilidade do Vidro
A manhã que se seguiu ao massacre na cripta de Joseph Crackstone não trouxe o alívio do sol, mas uma névoa cinzenta e persistente que parecia emanar dos próprios pulmões de Tyler Galpin. Ele estava sentado no parapeito da janela da oficina, observando as mãos. Elas não tremiam mais, mas a pele sob suas unhas ainda guardava o vestígio escuro do sangue de Malachi, uma mancha que nem mesmo o sabão mais abrasivo de Wandinha conseguira remover completamente.
O silêncio da oficina foi interrompido pelo som seco e metódico de botas batendo no concreto. Wandinha entrou carregando uma bandeja de metal com instrumentos que brilhavam sob a luz pálida. Ela não perguntou como ele estava; perguntas sobre o bem-estar eram, para ela, uma perda de tempo logístico.
— A toxina de beladona deixou resíduos em seu sistema linfático — disse ela, colocando a bandeja sobre a bancada com um tilintar metálico. — Sua temperatura corporal está três graus acima do normal e seu pulso indica uma leve arritmia. Deite-se. Preciso drenar o excesso de fluido biliar antes que ele comece a corroer seu revestimento gástrico.
Tyler olhou para ela, um sorriso cansado e enviesado surgindo em seu rosto pálido.
— Você sempre sabe como seduzir um homem, Wandinha. "Drenar fluido biliar". É quase poético.
— A poesia é apenas a romantização da imprecisão — rebateu ela, aproximando-se dele com uma agulha de calibre largo. — Tire a camisa. A menos que você prefira que eu a corte, o que seria um desperdício de tecido, embora eu aprecie o simbolismo de roupas rasgadas.
Tyler obedeceu, sentindo o ar gélido da oficina atingir sua pele febril. As marcas negras das veias, que haviam saltado durante o ritual, agora eram apenas sombras tênues sob sua pele, como raízes de uma árvore morta. Wandinha trabalhou com uma precisão assombrosa, seus dedos frios tocando sua pele com uma impessoalidade que ele sabia ser uma fachada.
— Por que você não olha para mim, Wandinha? — perguntou Tyler, sua voz baixa, vibrando no espaço entre eles.
— Estou olhando para o seu fígado, Tyler. É um órgão muito mais confiável do que os seus olhos — respondeu ela, sem desviar o foco da agulha.
— Você sabe o que eu quero dizer. Ontem à noite, na cripta... por um segundo, eu vi. Você não estava apenas conduzindo um experimento. Você estava com medo de me perder.
Wandinha parou o movimento por um milésimo de segundo. Foi quase imperceptível para um humano comum, mas para um Hyde, cujos sentidos eram amplificados pela adrenalina e pelo trauma, foi como um grito.
— O medo é uma resposta evolutiva ao perigo iminente — disse ela, retomando a tarefa. — Eu estava diante de uma falha potencial em um projeto de longo prazo. Perder você significaria começar do zero com um novo espécime, e eu detesto a redundância de ter que repetir processos básicos de treinamento.
Tyler soltou uma risada seca, sentindo a picada da agulha.
— Você é uma mentirosa magnífica. Mas o problema de conviver com um monstro é que o Hyde não ouve as suas palavras. Ele ouve o seu batimento cardíaco. Ele sente o cheiro do seu suor. E ontem, quando você segurou minha cabeça naquele altar, seu coração estava batendo no mesmo ritmo que o meu.
Wandinha retirou a agulha e pressionou um pedaço de gaze no local com uma força desnecessária.
— Se o seu Hyde continuar a fazer diagnósticos psicológicos amadores, eu vou considerar uma lobotomia frontal como parte do seu tratamento de manutenção.
Ela se afastou, começando a limpar os instrumentos. Tyler vestiu a camisa lentamente, sentindo a força retornar aos seus membros, mas a mente continuava emaranhada na teia que Wandinha tecia ao redor dele.
— O Círculo de Sangue se foi — disse Tyler, mudando de assunto. — Mas Jericho não vai esquecer o que aconteceu. A diretora, os outros alunos... eles sabem que algo mudou. Eles olham para você como se você estivesse carregando uma ogiva nuclear no bolso.
— Eu sempre carreguei uma ogiva nuclear no bolso, Tyler. A diferença é que agora ela tem dentes e uma propensão para o melodrama — Wandinha guardou o kit e virou-se para ele, seus olhos escuros e impenetráveis. — Nunca Mais é uma instituição construída sobre o segredo e a exclusão. Eles toleram o perigo desde que ele seja esteticamente agradável. O que eles temem não é a sua natureza de Hyde, mas a minha capacidade de controlá-la sem a ajuda deles.
— E você consegue? — Tyler deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Controlar o incontrolável?
— Eu controlo o que eu reivindico — afirmou ela, sem recuar. — E eu reivindiquei você diante de deuses e monstros ontem à noite.
— Então é isso? — Tyler tocou o rosto dela, seus dedos roçando a mandíbula pálida. — Eu sou seu. Mas o que isso significa para você, Wandinha? Além de uma arma? Além de um escudo?
Wandinha sentiu a eletricidade estática percorrer sua espinha. Ela odiava a forma como ele conseguia desmantelar suas defesas com perguntas que não tinham respostas lógicas.
— Significa que você é a única variável que eu não consigo prever completamente — sussurrou ela, sua voz perdendo a aspereza habitual. — E para alguém que entende o mundo através da ordem, você é o meu caos necessário.
Tyler inclinou-se, seus lábios roçando o ouvido dela, enviando um calafrio que não tinha nada a ver com o frio da oficina.
— O caos não pode ser possuído, Wandinha. Ele só pode ser compartilhado.
Antes que ela pudesse responder, a porta da oficina se abriu com um solavanco. Enid Sinclair parou no batente, seus olhos arregalados passando de Tyler para Wandinha.
— Wandinha! — exclamou a lobisomem, sua voz carregada de uma urgência histérica. — Você precisa vir agora. A diretora... ela encontrou o que sobrou da cripta. E ela não está brava. Ela está... aterrorizada. Ela convocou uma assembleia de emergência.
Wandinha ajustou seu casaco, a máscara de mármore retornando instantaneamente ao seu rosto.
— A senhora Weems sempre teve uma inclinação para o teatro — comentou Wandinha, caminhando em direção à porta. — Tyler, fique aqui. Sua presença na assembleia só serviria para acelerar o linchamento público, e eu ainda não terminei de catalogar seus novos reflexos.
— Eu não vou ficar escondido como um cão castigado — disse Tyler, sua voz ganhando um tom gutural.
Wandinha parou e olhou para ele por cima do ombro.
— Você não está se escondendo. Você está esperando. Há uma diferença tática. Obedeça, ou eu mesma vou algemá-lo a esta bancada.
Tyler apertou os punhos, mas assentiu. Ele sabia que, quando Wandinha usava aquele tom, não era uma ameaça, era uma promessa.
Wandinha e Enid caminharam pelo pátio em direção ao salão principal. O clima na escola era de paranoia pura. Grupos de alunos sussurravam nos cantos, e os olhares lançados a Wandinha eram uma mistura de reverência e horror absoluto.
— O que você fez lá embaixo, Wandinha? — perguntou Enid em voz baixa, enquanto subiam os degraus. — O cheiro de morte que vem daquela cripta... é diferente de tudo o que eu já senti. Não é apenas sangue. É algo... podre. Algo que não deveria pertencer a este mundo.
— Eu apenas apliquei um corretivo biológico a um erro histórico — respondeu Wandinha. — O Círculo de Sangue era um parasita. Eu apenas administrei o pesticida.
Dentro do salão, a atmosfera era elétrica. A diretora Weems estava de pé no pódio, sua postura impecável escondendo apenas parcialmente o tremor em suas mãos. Quando Wandinha entrou, o silêncio caiu sobre a sala como uma mortalha.
— Srta. Addams — disse Weems, sua voz ecoando nas vigas de madeira do teto. — O que os zeladores encontraram na cripta de Crackstone esta manhã ultrapassa qualquer limite de conduta que esta escola já testemunhou. Corpos carbonizados por dentro, magia de sangue proibida... e o rastro de um Hyde que deveria estar sob custódia oficial.
Wandinha caminhou até o centro do salão, parando diante de centenas de olhos.
— A custódia oficial falhou em Vermont, diretora. O Círculo de Sangue teria destruído esta escola e todos dentro dela em busca de sua "herança". Eu apenas antecipei o inevitável e limpei a bagunça antes que ela manchasse os seus tapetes caros.
— Você trouxe um monstro para dentro de nossos muros e o usou como um carrasco! — gritou um aluno do fundo, um dos vampiros do grupo dos Noturnos.
Wandinha virou-se para ele, seus olhos brilhando com uma intensidade letal.
— Eu usei uma força da natureza para erradicar uma praga. Se você prefere ser uma vítima educada a um sobrevivente implacável, a falha é da sua educação, não dos meus métodos.
— Chega! — Weems bateu a mão no pódio. — Srta. Addams, suas ações salvaram vidas, talvez. Mas a que custo? Você criou algo que não pode controlar. Tyler Galpin não é mais apenas um Hyde. O que você injetou nele o transformou em algo... diferente.
— Ele é o meu sucesso mais notável — declarou Wandinha, sua voz calma e cortante. — Ele é um predador que aprendeu a morder apenas quando eu ordeno. E se a senhora ou qualquer pessoa nesta sala se sente ameaçada por isso, sugiro que não me deem motivos para soltar a coleira.
Um murmúrio de choque percorreu o salão. Era um desafio aberto à autoridade de Nunca Mais. Wandinha não estava apenas defendendo suas ações; ela estava estabelecendo um novo domínio.
— Você está expulsa, Wandinha — disse Weems, as palavras saindo com dificuldade. — Eu não posso mais garantir a segurança de ninguém com você e essa criatura aqui. Vocês têm até o pôr do sol para deixar os terrenos da academia.
Wandinha inclinou a cabeça levemente, um gesto que poderia ser interpretado como respeito ou como o prelúdio de um ataque.
— A expulsão é um conceito geográfico irrelevante para mim — disse ela. — Eu vou embora porque os meus objetivos aqui foram concluídos. Mas saiba disso, diretora: Jericho e Nunca Mais só estão seguras porque eu decidi que elas ainda têm utilidade. Se algum dia eu mudar de ideia, nem todas as suas regras e tradições poderão impedir o que está por vir.
Ela saiu do salão sem olhar para trás, deixando um rastro de gelo em seu caminho. Enid tentou segui-la, mas Wandinha fez um gesto para que ela ficasse.
— Fique com suas cores e sua alcateia, Enid. O meu caminho agora exige uma escuridão que você ainda não está pronta para habitar.
Wandinha voltou para a oficina, onde Tyler a esperava. Ele já havia sentido a mudança no ar; o Hyde dentro dele estava inquieto, captando as vibrações de medo e hostilidade que vinham do prédio principal.
— Fomos expulsos — disse ela, entrando e começando a fechar sua maleta.
— E agora? — perguntou Tyler, levantando-se. — Vamos fugir?
— Addams não fogem, Tyler. Nós nos realocamos estrategicamente. Temos uma mansão em New Jersey que está vazia há décadas e uma coleção de segredos de família que precisam de um guarda-costas com a sua... disposição particular.
Tyler caminhou até ela e colocou a mão sobre a maleta, forçando-a a olhar para ele.
— Você está fazendo isso de novo. Planejando tudo. Me movendo como uma peça no seu tabuleiro.
Wandinha olhou para a mão dele e depois para seus olhos. Pela primeira vez, não havia frieza em seu olhar, mas algo que Tyler reconheceu como uma aceitação profunda e sombria.
— O tabuleiro mudou, Tyler. Não somos mais mestre e arma. Somos... algo que ainda não tem nome nos dicionários de biologia ou sociologia. Somos um paradoxo. E eu pretendo explorar cada aspecto desse paradoxo longe dos olhos curiosos desta escola.
Ela estendeu a mão e, num gesto raro de vulnerabilidade, tocou a cicatriz no ombro dele, o lugar onde ela o havia costurado.
— Você disse que o caos não pode ser possuído, apenas compartilhado. Pois bem. Eu estou convidando você para compartilhar o meu caos. Mas aviso: ele é muito mais perigoso do que qualquer ritual do Círculo de Sangue.
Tyler sorriu, e desta vez o sorriso chegou aos seus olhos, misturando a doçura do garoto da cafeteria com a selvageria do monstro da caverna.
— Wandinha, eu morri e renasci na sua mão ontem à noite. Você acha que eu tenho medo de um pouco de caos?
Eles saíram da oficina enquanto o sol começava a se pôr, tingindo o céu de um tom de violeta e sangue. O Mustang de Tyler estava carregado com o pouco que restava de suas vidas em Jericho. Enquanto passavam pelos portões de Nunca Mais, Wandinha olhou pelo retrovisor para a silhueta da academia desaparecendo na névoa.
Ela abriu seu caderno de notas e riscou a última frase que havia escrito sobre "domesticação". Em seu lugar, ela escreveu com uma caligrafia firme e elegante:
*A simbiose foi alcançada. O predador e a mestre não são mais entidades distintas, mas um único ecossistema de destruição e propósito. A jornada para o vazio continua, mas agora o silêncio tem uma voz. E ela ruge.*
Tyler acelerou, e o Mustang rugiu em resposta, cortando a estrada em direção ao desconhecido. Atrás deles, Jericho era apenas uma lembrança de cinzas. À frente, o mundo estava prestes a descobrir que, quando uma Addams e seu Hyde decidem caminhar juntos, a escuridão não é mais algo a ser temido.
É algo a ser governado.