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Amor sombrio

O Veneno da Liberdade e o Colapso da Carne

A estrada que deixava Jericho para trás era uma serpente de asfalto devorada pela escuridão da floresta. O Mustang avançava com uma ferocidade que espelhava o estado de espírito de seus ocupantes, mas, dentro da cabine, o ritmo era outro. O ronco do motor, que antes soava como um hino de guerra, começou a falhar na percepção de Tyler. Para ele, o som estava se tornando um zumbido subaquático, distante e distorcido.

Wandinha estava sentada com sua postura habitual de gárgula, os olhos fixos no mapa que repousava em seu colo, embora ela já tivesse memorizado cada curva da rota para New Jersey. Ela não precisava olhar para Tyler para saber que algo estava errado. O cheiro no carro havia mudado. O aroma de ozônio e floresta úmida que emanava dele estava sendo substituído por um odor acre, metálico e quente — o cheiro de um corpo lutando contra si mesmo.

— Sua frequência respiratória aumentou vinte por cento nos últimos cinco minutos — observou ela, sem desviar os olhos do papel. — E suas mãos estão deixando marcas de suor corrosivo no volante. A toxina de beladona está entrando na fase de purgação secundária.

Tyler tentou responder, mas sua garganta parecia cheia de vidro moído. Ele engoliu em seco, sentindo um gosto de bile e cinzas.

— Eu... eu estou bem — ele conseguiu dizer, embora sua voz soasse como o arrastar de correntes em um porão úmido. — É só o efeito colateral. Você disse que seria um inferno.

— Eu disse que seria um inferno de quarenta e oito horas, Tyler. Não um suicídio assistido ao volante de um clássico americano — Wandinha finalmente virou o rosto para ele.

A luz fraca do painel revelava uma imagem perturbadora. As veias no pescoço de Tyler não eram mais apenas sombras; elas pulsavam em um tom de roxo doentio, quase preto, subindo em direção à mandíbula. Seus olhos, antes azuis e humanos, estavam em uma luta constante, com o âmbar do Hyde piscando erraticamente como uma lâmpada prestes a queimar.

— Encoste o carro — ordenou ela.

— Não. Podemos... podemos chegar mais longe. Se eu parar agora, o Hyde vai sentir a fraqueza. Ele vai tentar assumir o controle para expulsar o veneno.

— Se você não parar, o Hyde não terá um corpo para assumir — retrucou Wandinha, fechando o mapa com um estalo seco. — Sua temperatura está subindo a níveis que fritariam o cérebro de um mamífero comum. Encoste. Agora. Ou eu mesma farei uma intervenção mecânica no seu freio de mão.

Tyler soltou um gemido abafado. Sua visão começou a dobrar. As árvores na beira da estrada pareciam se alongar e se retorcer, transformando-se em garras que tentavam agarrar o Mustang. O volante parecia pesar uma tonelada. Com um esforço hercúleo, ele girou a direção, fazendo o carro derrapar no cascalho do acostamento antes de parar bruscamente sob a sombra de um carvalho centenário.

Assim que o motor morreu, o silêncio da floresta caiu sobre eles como uma sentença. Tyler desabou contra o banco, sua respiração saindo em espasmos curtos e dolorosos. O suor escorria por seu rosto, lavando a palidez de suas bochechas.

— Wandinha... — ele arfou, levando a mão ao peito. — Parece que... meu coração está tentando escapar pelas minhas costelas.

Wandinha moveu-se com a eficiência de um médico de campo em meio a um bombardeio. Ela saltou do carro, abriu a porta do motorista e empurrou os ombros de Tyler para que ele ficasse deitado sobre o banco. Suas mãos, sempre frias, tocaram a testa dele, e ela franziu levemente o cenho — o equivalente Addams a um grito de pânico.

— Hipertermia induzida por toxinas — diagnosticou ela, abrindo sua maleta de ferramentas no chão de terra. — O veneto de beladona e as cinzas ancestrais estão em conflito com a fisiologia regenerativa do Hyde. Seu corpo está tentando curar o que eu usei para protegê-lo. É uma guerra civil celular.

— O Hyde... ele está gritando — sussurrou Tyler, fechando os olhos com força. — Ele odeia o que você colocou em mim. Ele quer... ele quer rasgar tudo para tirar isso de dentro.

— Ele não vai rasgar nada — disse ela, retirando um frasco de líquido azul-escuro e uma compressa de linho. — Eu não permito que meu trabalho seja desfeito por um monstro impaciente.

Ela ensopou a compressa e a pressionou contra o pescoço de Tyler, onde as veias negras eram mais proeminentes. Tyler soltou um grito sufocado, seu corpo arqueando-se no banco.

— Dói! — ele rugiu, sua voz ganhando uma ressonância gutural. — Queima como ácido!

— É um neutralizante térmico — explicou ela, mantendo a compressa no lugar com uma força surpreendente. — Se eu não baixar sua temperatura interna, seus órgãos vão começar a falhar. Respire, Tyler. Use o que resta da sua consciência humana para ancorar o Hyde. Não deixe que ele use a dor como combustível.

Tyler agarrou o pulso de Wandinha. Suas unhas, alongando-se e encurtando-se em um ciclo frenético, cravaram-se na pele pálida dela. Wandinha não recuou, nem mesmo quando viu o primeiro filete de sangue escorrer de seu próprio braço.

— Olhe para mim — comandou ela, aproximando o rosto do dele. — Esqueça o fogo nas suas veias. Foque na minha voz. Você é Tyler Galpin. Você é o monstro que eu escolhi. Você não é um escravo da sua biologia, nem um joguete de um culto morto. Você é meu. E eu não dou permissão para você morrer em um acostamento obscuro de Vermont.

Tyler abriu os olhos. O âmbar era agora uma névoa densa, mas ele conseguiu focar nas pupilas negras de Wandinha. O vazio que ela ostentava era, naquele momento, a única coisa sólida em seu universo em colapso.

— Por que... — ele engasgou, uma gota de sangue negro escorrendo pelo canto de sua boca. — Por que você se importa tanto com... uma arma quebrada?

Wandinha hesitou. Por um segundo, a máscara de mármore vacilou, e o que brilhou por trás dela não foi frieza, mas uma raiva sombria e possessiva.

— Porque armas podem ser substituídas, Tyler. Mas o caos que compartilhamos... esse é único. Eu não passei por tudo isso para acabar com um cadáver no banco do passageiro. Seria uma falha estética e intelectual que eu não estou disposta a aceitar.

Ela pegou uma pequena adaga e, com um movimento rápido, fez um corte na palma da própria mão. Antes que Tyler pudesse protestar, ela pressionou a ferida aberta contra os lábios dele.

— Beba — ordenou ela. — O sangue Addams tem propriedades que o Hyde vai reconhecer. É um vínculo, Tyler. Uma âncora de sangue para substituir o veneno que está te matando.

Tyler sentiu o gosto metálico e frio do sangue dela. No momento em que o líquido tocou sua língua, uma onda de choque percorreu seu sistema. O Hyde, que estava prestes a explodir em uma transformação violenta, subitamente se calou. A agonia excruciante transformou-se em um entorpecimento gelado. As veias negras começaram a recuar, e o calor febril deu lugar a um tremor incontrolável.

Ele soltou o pulso dela, caindo de volta no banco, exausto. O silêncio voltou, quebrado apenas pelo som da respiração pesada de ambos.

Wandinha retirou a mão e, sem dizer uma palavra, começou a enfaixar sua própria palma com uma tira de gaze. Seus movimentos eram mecânicos, mas seus olhos nunca deixavam Tyler.

— A crise passou — disse ela, sua voz voltando ao tom monótono e cortante. — O veneno foi estabilizado pelo seu sistema imunológico através do choque hemático. Você ainda vai se sentir como se tivesse sido atropelado por uma manada de bisões durante os próximos dias, mas não vai entrar em combustão espontânea.

Tyler olhou para ela, sentindo-se estranhamente leve, embora seus músculos ainda doessem.

— Você me deu o seu sangue — ele sussurrou, a compreensão atingindo-o com mais força do que o veneno. — Você sabe o que isso significa para um Hyde, não sabe?

Wandinha terminou de dar o nó na gaze e guardou o restante do material na maleta.

— Significa que eu tomei uma medida extrema para preservar um ativo valioso — respondeu ela, embora evitasse o contato visual direto pela primeira vez naquela noite. — Não tente dar um significado romântico a um procedimento de emergência, Tyler. É irritante e cientificamente impreciso.

— Não é romance, Wandinha — Tyler sentou-se lentamente, sentindo a força retornar aos poucos. — É um pacto. Você não apenas me salvou. Você se ligou a mim. O Hyde agora conhece o seu gosto. Ele não vai mais responder a ninguém além de você. Nem mesmo a mim, se você não permitir.

Wandinha finalmente olhou para ele. A lua, agora alta no céu, iluminava seu rosto, dando-lhe uma aparência de uma deusa antiga da destruição.

— Eu sempre soube que a liberdade era uma ilusão, Tyler. O que fizemos hoje foi apenas escolher quem segura as correntes. E eu prefiro que as correntes sejam feitas de sangue do que de mentiras.

Ela contornou o carro e sentou-se no banco do motorista, assumindo o controle do Mustang.

— Você vai descansar no banco do passageiro — ordenou ela. — Eu vou dirigir o resto do caminho. Se você tentar falar sobre sentimentos ou sobre o "vínculo" novamente, eu vou injetar um sedativo para cavalos no seu pescoço.

Tyler sorriu, um sorriso fraco, mas genuíno. Ele se acomodou no banco, sentindo o rastro do sangue dela ainda quente em sua garganta. Pela primeira vez em muito tempo, o monstro dentro dele não estava arranhando as paredes de sua mente. Ele estava... satisfeito.

— Entendido, mestre — disse ele, fechando os olhos.

Wandinha engatou a marcha e o Mustang rugiu novamente, partindo em direção à escuridão de New Jersey. Enquanto o carro cortava a noite, ela olhou brevemente para a mão enfaixada. A dor era um lembrete constante de que ela havia cruzado uma linha que nenhum Addams antes dela havia ousado cruzar com um Hyde.

Ela não havia apenas curado a ferramenta. Ela havia batizado o monstro.

E enquanto a estrada se estendia infinitamente à frente, Wandinha Addams percebeu que, embora Tyler estivesse finalmente sob controle, era ela quem, pela primeira vez, sentia o peso de uma responsabilidade que não podia ser medida em termos táticos.

O veneno da liberdade era doce, mas o preço do sangue era eterno. E ela, em sua infinita sede por tragédias, não teria escolhido de outra forma.